Opinião

Premium

Viriato Soromenho Marques

A fantasia do realismo tardio

O primeiro estadista que recebeu um relatório científico sobre o perigo excecional das alterações climáticas foi o presidente L.B. Johnson, em 1965. O período internacional era favorável às políticas ambientais emergentes. Em 1969, nos EUA, foi aprovada a lei-quadro para a política de ambiente (NEPA) e em 1970 foi criada a Agência de Proteção Ambiental (EPA). Em 1971, Marcelo Caetano criou a Comissão Nacional do Ambiente, liderada pelo saudoso José Correia da Cunha. Em 1972, Estocolmo acolheu a primeira Conferência Mundial sobre Ambiente. Contudo, o tema das alterações climáticas era encarado como uma ameaça distante, até como uma mera hipótese académica.

Leonídio Paulo Ferreira

A amante escrava de Thomas Jefferson e a América de George Floyd

Há muitas maneiras de contar a história dos negros nos Estados Unidos: por exemplo, lembrar que a primeira baixa da chamada Revolução Americana foi Crispus Attucks, um antigo escravo morto no Massacre de Boston, em 1770. Aproveitados pelos propagandistas da rutura com Jorge III, os disparos do Exército britânico naquele dia sobre civis desarmados (incluindo o herói negro) contribuíram para o clima político que, acumulando-se incidente sobre incidente, levou à Declaração de Independência, em 1776.

Opinião

As máquinas estão a chegar e querem o teu emprego

Há anos que andamos a falar no futuro cada vez mais próxima em que muito do trabalho que hoje fazemos passará a ser feito por máquinas. Discutimos o impacto que a Robótica e a Inteligência Artificial terão na produtividades e na qualidade de vida e o que esta nova revolução industrial - a 4ª da História da Humanidade - terá nos avanços da ciência e do conhecimento. Também reconhecemos, mas discutimos menos, que alguns de nós ficarão a perder.

Opinião

Europeístas de bolso

O anúncio da proposta de plano de recuperação e resiliência, pela Comissão Europeia, teve a virtude de ser um sinal de liderança, pode ser uma enorme transformação da economia da Europa (de algumas, pelo menos) e deixou à mostra o lado mais contabilístico e mesquinho do europeísmo de muitos. Dos que pagam e dos que recebem. Sexta-feira passada, o Público fazia capa com a notícia de que Portugal poderá vir a obter "19 milhões de euros por dia vindos de Bruxelas", se o programa para a recuperação e relançamento da economia europeia for aprovado tal qual foi apresentado. Mais ou menos ao mesmo tempo, uma revista holandesa fazia uma capa onde contrapunha o norte trabalhador e o sul ao sol. O problema dos holandeses não é apenas "lá com eles" porque tem consequências para a Europa. Mas o nosso diz-nos mais directamente respeito. O que o Público diz é potencialmente verdade e a escolha do título é legítima, mas também é eloquente. O pacote proposto pela Comissão Europeia tem muito mais que dinheiro. Tem critérios, objectivos, condições, prioridades políticas, obrigações de reforma, e ainda nem se sabe em que medida implicará co-financiamento, sendo certo que terá de haver co-investimento. O dinheiro virá, se vier, para investir em novas prioridades e transformar a economia. Do lado de cá será necessário ter capacidade para o usar. Ter empresas, ambiente regulatório e capacidade de investimento. Não basta ter necessidade. Seja como for, o anúncio do plano prova que há liderança europeia em Bruxelas e nas principais capitais europeias. A decisão de criar dívida comum é uma grande diferença. E ao servir sobretudo para financiar programas nacionais, surpreende. Mas traduzindo-se em mais impostos europeus, e não tanto em responsabilidade partilhada, tem como consequência que a Comissão, à medida em que aumente as receitas próprias e os instrumentos geridos centralizadamentente, pode vir a ficar menos refém, precisamente, dessas contabilidades nacionais. A outra transformação é uma evolução. O Semestre Europeu tem sido um instrumento frágil para condicionar as economias e os orçamentos públicos nacionais. Faltam-lhe dentes, tem sido dito. Ao associá-lo a um instrumento de condicionalidade positiva, ao oferecer dinheiro contra investimentos em prioridades específicas e reformas indicadas, o Semestre Europeu, em vez de dentes, passa a ter dinheiro para dar. Sob condição. Esse é um passo que pode ter enormes consequências no poder de Bruxelas sobre as economias nacionais. Voltando ao começo, o problema do título é que é o retrato de um país que com frequência olha para Europa como um bolso infindável de onde vem dinheiro e, em caso de urgência, tem de vir ou afinal não há solidariedade e a Europa não serve para nada. Enquanto que a capa da revista exibe uma visão quase racista. É verdade que Portugal não é único país que olha para a Europa com uma tabela de deve e haver. Há mais quem olhe para o bolso, e dos dois lados da tabela. Mas o nosso problema é, além de especificamente nosso, demasiado antigo.