Opinião

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Maria Antónia de Almeida Santos

Livro de instruções para uma geringonça 

Todos os governos ficam para a história. No sentido em que esta faz sempre o registo dos factos, das políticas e dos acontecimentos. Há, é certo, aqueles que alcançam mais notoriedade pelo mérito das suas políticas e os que ficam conhecidos pelo seu inverso. Mas sabe-se de algum que ficasse associado a um processo linguístico? O atual governo é certamente um candidato pioneiro a tal. Refiro-me (sem aspirar a linguista e de forma simples) ao processo em que a uma palavra se acrescenta coletivamente um sentido - no caso uma conotação positiva - ao seu significado inicial. É o caso, claro, da palavra "geringonça". De estrutura "frágil", "complexa" e de "funcionamento precário", "geringonça" passou a significar também uma solução governativa capaz de superar a fraqueza apontada na sua origem.

Opinião

Portugal visto pelos olhos dos outros

Estava em plena mata atlântica perto de Ilhéus, em Salvador da Bahia. Depois de dias a ler e a espreguiçar num resort, decidi explorar as zonas em redor com um grupo de turistas. Às tantas comecei uma conversa com um casal de argentinos. Ele médico, ela professora. Conversa agradável, que passou pelo deus Maradona, o tango, o fado e o vinho. Falei do Porto e aí a conversa sofreu uma reviravolta. O homem argentino afirmou, sublinhou e teimou a pés juntos que o vinho do porto era chileno e não português. Fiquei incrédulo. Retorqui e discuti e mesmo assim ele ficou na dúvida. E admito, a conversa ficou por ali.

Paula Sá

Uma costureira, um sexólogo e a nossa generosidade

Numa redação de colegas doutos e experientes, eu, jovem jornalista, fui atirada às feras. Enviada ao Porto para cobrir um congresso de sexologia - tema apelativo mas sem especialistas ou voluntários para o tratar -, cheguei à estação de São Bento muito em cima da hora. Quando tudo podia correr mal, com um frio de rachar, do meu casacão caiu o único botão que impedia o vento gélido de me enregelar. Corri para a Baixa e entrei numa retrosaria esbaforida. Contei a minha desgraça à empregada de balcão e pedi um carro de linhas e uma agulha.