Opinião

Ferreira Fernandes

Milagre, Trump e Bolsonaro já acreditam no vírus!

Um dia, René Descartes, um tipo que pensava, muito e com método, escreveu: "O bom senso é a coisa mais bem partilhada do mundo." Para Descartes todos tinham bom senso, ou pelo menos parecia, pois "cada um pensa tê-lo em bastante quantidade." Eu que penso menos e com pior método, admito que quase todos temos bom senso. A prova é que nem a alguns malucos isso escapa: "Maluco, maluco, mas não põe o cu no fogão..." Eis um dito português que, como quase todos os provérbios, tem razoável bom senso.

Nuno Venturinha

Filosofia em tempo de crise

A situação de pandemia que atravessamos tem levado à adoção de medidas políticas excecionais. Com mais ou menos demora, os governos de todo o mundo têm procurado travar a investida desse inimigo silencioso, batizado de SARS-CoV-2, como se de uma guerra se tratasse. A declaração do estado de emergência, com as inevitáveis suspensões dos direitos e liberdades a que estamos habituados, foi posta em prática em muitas democracias pela primeira vez. Atividades comerciais e industriais consideradas não essenciais foram cessadas. Escolas e universidades foram encerradas. Milhões de pessoas foram colocados em isolamento social. Se no imediato estas medidas já são gravosas, a gravidade das resoluções governamentais torna-se ainda maior quando se percebe o impacto económico que elas acarretam. Não terá sido, pois, de ânimo leve que foram tomadas tais decisões. Poucas épocas políticas terão sido tão más para governar como aquela em que nos encontramos. Quando a tempestade sanitária passar e a poeira económica assentar, os eleitores recordar-se-ão sobretudo de quem os lançou numa crise que, certamente, será mais violenta do que a de 2008.

1864

Lembranças de conservas

Gosto de recordar pessoas pelas suas manias. Aquelas únicas e originais de que nos lembramos quando estamos longe ou temos saudades. Seja algo físico como uma maneira peculiar de mexer no cabelo para adormecer ou a forma de atender e mexer no telefone ou até mesmo o vestir uma certa peça. Lembro-me de uma certa forma de o meu avô pentear os seus já poucos cabelos num espelho oval com a figura de um jogador dos anos 1940 do Sporting. Ou da forma como o meu pai me dizia para ter cuidado sempre que ia fazer surf: "Não te afastes muito..."

Maria do Rosário Pedreira

Preparem-se

Antes de encontrar alguém disposto a aturar-me, vivi 17 anos sozinha. Foi um período importante de autoconhecimento (temos mais tempo para olhar para nós e por nós) em que descobri que solidão e silêncio são coisas de que todos deviam desfrutar. Havia fins-de-semana em que praticamente só lia e pensava. Os meus amigos - quase todos animais sociais - achavam aquilo esquisito, mas eu sentia-me bem assim e sei que, se não tivessem sido esses anos a sós, não teria o mesmo respeito pelos outros. De qualquer modo, a menos que chovesse, era muito raro passar um dia inteiro em casa: saía para tomar um café, fazer compras ou dar um passeio. E via pessoas, mesmo que não fossem conhecidas.