Opinião

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Victor Ângelo

O presidente Trump e as Nações Unidas

O nome do laureado com o Prémio Nobel da Paz deste ano será anunciado a 9 de outubro. A lista de candidatos conta com 318 nomes, um número impressionante. Ao que parece, o nome de Donald Trump estaria incluído no rol dos nomeados, o que não é impossível, pois um membro do seu governo, do Congresso ou qualquer outra personalidade, têm a faculdade de nomear. O facto é que o presidente veria com muito agrado a atribuição do Nobel. Calhava que nem ginjas, menos de um mês antes da eleição presidencial.

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João Melo

Entre o silêncio e o gueto

Em texto anterior, lembrei que a presença africana em Portugal, incluindo quer os berberes e os árabes do norte de África quer os indivíduos originários da região subsariana do referido continente, remonta ao século VII. Talvez devido ao atual aspeto cromático dos árabes e berberes do norte, em particular as suas elites, que passaram por um processo de embranquecimento histórico, a sua condição de indivíduos africanos tende a ser omitida, o que serve ao mesmo tempo para silenciar a contribuição africana em geral para a formação portuguesa e para alimentar o preconceito racial contra os africanos negros, na sua maioria oriundos do sul do Sara.

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Crónica de Televisão

O algoritmo mau e os capuchinhos vermelhos

Antes de começarem a ser filmadas e transmitidas, as advertências alarmistas e simplistas declamadas com sentido de dever cívico não se costumavam chamar "documentários". Mesmo depois de começarem a apontar-lhes câmaras, muitas tiveram o cuidado de escolher designações mais modestas e realistas, como "anúncios", ou "direitos de antena". Um dos mais populares, sobre os perigos da droga, passou nas televisões americanas nos anos de 1980 e foi depois imortalizado em inúmeras paródias e recriações; mostrava um ovo a ser despejado numa frigideira quente: "This is your brain on drugs", informava uma voz solene.

Opinião

KNESSET: Um bom exemplo vindo de Israel

Em rigor este bom exemplo não vem apenas do Knesset, o Parlamento de Israel, mas também do Executivo, já que ministros e deputados decidiram cortar 10% nos seus próprios salários, em prol e em sintonia com os seus compatriotas, que mais foram afectados do ponto de vista económico pela pandemia. Há também 4 ministros que pressionam agora para que os magistrados sigam o mesmo exemplo. Não deverá ser difícil atingir este conseguimento, já que país que mantém o Serviço Militar Obrigatório faz Escola junto das fileiras sobre o Espírito de Corpo e seu imperativo na construção de um sentimento de Comunidade que, quando bem alicerçado a torna mais solidária e justa.

Opinião

A visão pessimista de Unamuno sobre Portugal

Miguel de Unamuno foi provavelmente o escritor espanhol que mais amou Portugal. Mas pode tê-lo amado sem o entender, como nem sempre compreendeu bem os problemas espanhóis. Grande escritor e para mim grande poeta, teve, para além disso, o mérito de olhar Portugal, de ter amigos portugueses, de conhecer profundamente a Literatura e a História portuguesas. Fizeram-no pouquíssimos espanhóis, que sempre preferiram olhar para Norte e raramente para Ocidente. Por isso me parece pouco representativo que nas livrarias portuguesas se destaque o pequeno panfleto de Unamuno, Portugal, povo de suicidas. Na realidade, trata-se do artigo "Um povo suicida", escrito em Lisboa em 1908 e incluído no livro Por terras de Portugal e Espanha. Além do mais, o título sensacionalista não reflete bem o conteúdo do artigo porque o autor não pensa que todo Portugal é suicida. É um título chamativo. O facto de alguns portugueses, amigos ou conhecidos seus, se suicidassem (Laranjeira, Antero, Espanca, Sá Carneiro) não lhe permite a extrapolação a todo um povo. Porque não olhou para todos os franceses, alemães, escandinavos, ou a espanhóis, como Ganivet, entre outros que se suicidaram nesses tempos, com esse mal de "fin de siècle" que tantos partilharam, essa espécie de "lacrime di intellettuale" que denunciaria Pasolini? Esse artigo dá uma imagem bastante incorrecta de Unamuno pensador, ainda que contribua para essa espécie de autoflagelação tão própria dos portugueses a quem parece que agrada, como a nós espanhóis, "seus irmãos", recrear-se com o desastre, acreditar que somos piores que os europeus do norte, que somos incultos, pouco sérios, pouco de fiar. No fundo, flagelamo-nos, como se quiséssemos dar razão aos holandeses, a personagens como Hoekstra e Rutte. Don Miguel de Unamuno não era um pensador otimista. Pertenceu à chamada Geração de 98. Com o seu grande conhecimento dos clássicos e contemporâneos, com uma grande carga ética, inquietava-o o problema de Espanha, que foi praticamente a sua principal preocupação. Pensava que éramos todos decadentes. O tema dos suicidas serve a Unamuno para justificar a sua visão melancólica de Portugal que ele amplifica, considerando que muitos portugueses se comprazem quase de maneira masoquista ("em Portugal amam as lágrimas", diz). O saudosismo fascina Unamuno, porque ele próprio é um homem de saudades, saudades do cristianismo, saudades de Castela, saudades da sua Bilbau.. Como mostra no seu belo mas fúnebre soneto "Portugal": "O atlântico mar na praia areosa uma matrona descalça e desgrenhada senta-se ao pé de uma serra coroada por triste pinheiral. (...) enquanto ela, seus pés nessas espumas banhando, sonha no fatal império que se sumiu nos tenebrosos mares, e olha como entre agoureiras brumas se ergue D. Sebastião, rei do mistério." É a visão de um país que ele considera pobre e decadente (desgrenhada e descalça) que contempla o pôr-de-sol, o ocaso. Isto resume a sua ideia sobre o país e converteu-se quase num estereótipo. Mas não se alarmem os leitores portugueses, Dom Miguel tem também muitos poemas tristes, quase desesperados, sobre Espanha. Era o seu caráter, daí que forme parte dessa "literatura do desastre", como lhe chamou Manuel Azaña. E, para além disso, Unamuno podia dizer uma coisa e o seu contrário. Assim, podia ser iberista (quase partidário da unificação da Península) e ao mesmo tempo reivindicar a independência de Portugal frente à "velha e apodrecida Espanha oficial, ainda não refeita das suas seculares manias ... que ainda não reconhecia sincera y lealmente a independência portuguesa" (Portugal independente, 1917). Seria bom que, à margem do impacto mediático que produz um panfleto sobre essa suposta mania suicida, se editassem em português mais obras de Unamuno, tanto as que se referem a Portugal (que a Fundação Gulbenkian publicou em 1985) como muitas outras. Ler Unamuno é um convite à reflexão fora dos caminhos mais percorridos. Miguel de Unamuno dizia o que pensava em voz alta e isso valeu-lhe que Primo de Rivera o desterrasse, que a Segunda República o expulsasse da cátedra e enfrentasse no final dos seus dias o general insurrecto, ao lado dos nacionalistas, Millán-Astray. Unamuno foi o exemplo do intelectual comprometido com o seu tempo, algo que agora em Espanha -e mais ainda na Catalunha - parece brilhar pela escassez.

Opinião

"Vacina para Todos": uma luta pelo futuro

Um dos filmes que mais me impressionou do nosso centenário realizador Manoel de Oliveira (1908-2015) foi O Meu Caso, que se estreou em 1986. Na altura, não entendi o filme e saí da sala irritada por aquela montagem em palco de uma peça que parecia estar sempre a voltar atrás e não saía da repetição obsessiva "o meu caso" por personagens que queriam demonstrar que o seu caso era mais importante do que o do outro. Só depois fui ler a peça de José Régio com o mesmo título, que serve de guião desconstruído ao filme. José Régio (1901-1969) é mais um dos escritores que fomos deixando de ler e, no entanto, nada mais atual nestes tempos que vivemos. O Meu Caso (1957) é uma peça cómica que se vai adensando em reflexão sobre a condição humana, o que também acontece no filme de Oliveira, com citações ao Livro de Job que servem para traçar um quadro crepuscular da civilização moderna. Termina com a recriação de Piero della Francesca, o pintor do quattrocento italiano, que para mim significa essa transição eufórica do final da Idade Média para uma Idade Moderna humanista, atenta ao homem e à natureza. Neste tempo de pandemia, é a nossa condição humana que vai sendo posta à prova, entre a tendência para cada um se fechar no "seu caso" e a imensa solidariedade a que temos assistido. A pandemia põe à prova, de uma forma global, o nosso modo de vida, antes de mais a liberdade de circulação e de reunião, a proximidade humana, criando uma desconfiança que tentamos civilizadamente disfarçar, reprimir ou ignorar, mas sempre surge nem que seja através das recomendações necessárias para mantermos uma vida comum.