Opinião

Helena Tecedeiro

A arte de tirar cortiça do tio Zé

Quando se passa pelas estradas do Alentejo, é cenário comum o daquelas árvores de tronco avermelhado em contraste com os ramos escuros e rugosos. São sobreiros aos quais acabaram de tirar a cortiça. Tirar. Porque a cortiça não se recolhe nem se apanha, tira-se. De nove em nove anos, os homens sobem ao sobreiro e com o seu machado, a sua arte e o seu amor tiram a cortiça, um material usado nas rolhas das garrafas de todo o mundo e de que Portugal é o maior produtor.

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Marisa Matias

Aqueles que não vemos

A Europa está cheia de pessoas que todos os dias trabalham sem que os seus direitos sejam reconhecidos. Mais do que isso, a Europa está cheia de pessoas que trabalham sem que se saiba que elas existem. Portugal não é exceção. Basta pensarmos nos trabalhadores nos olivais intensivos no Alentejo e nas sucessivas denúncias de violação dos seus direitos para termos apenas um exemplo. É por isso que a luta dos 26 trabalhadores sem papéis da Chronopost Alforteville e a sua vitória desta semana é tão bonita e tão simbólica.

Viriato Soromenho Marques

Para onde olha o anjo da história?

Um dos paradoxos do nosso tempo é a contradição entre a acumulação de desafios com impacto global, atual ou futurível, e a ausência ou ingenuidade das meditações acerca do seu diagnóstico e dos meios de os enfrentar. Uma das perdas irreparáveis causadas pelo nazismo foi o desaparecimento da derradeira linhagem de pensadores europeus - grande parte deles judeus completamente integrados na cultura e cidadania germânicas -, que se concentrava na construção de "visões do mundo" (Weltanschauungen), e que quando olhava para o futuro, pensava-o a partir de filosofias integrativas da história. Hoje temos especialistas em desafios titânicos, com risco ontológico planetário, como sejam a aceleração da crise ambiental e climática; a ameaça de grandes catástrofes com raiz nas novas tecnologias, como as nanotecnologias e as biotecnologias; o perigo de nos submetermos à ditadura digital de um sistema unificado de inteligência artificial; ou, ainda, de tropeçarmos no arsenal das armas de destruição maciça, porque elegemos ou consentirmos políticos iliteratos e moralmente grotescos para decidir sobre o seu uso. Mas faltava-nos a capacidade de pensar e dar sentido a tudo isso em conjunto.

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Rogério Casanova

Dracula: sem pinga de sangue

As ficções especializadas em extrair humor de anacronismos têm dois mecanismos ao seu dispor. Um é aquilo a que podemos chamar o método Astérix (visível em objectos tão diferentes como o Mason & Dixon, de Thomas Pynchon, ou a recente minissérie da Apple TV Dickinson): contrabandear as tecnologias, hábitos e referências culturais do presente para o passado remoto, de modo que um espião do Império Romano possa ter o aspecto de Sean Connery ou que George Washington possa fumar charros.

Anselmo Crespo

O PSD e "o menor de dois males"

Na mesa do costume, à hora do costume, o senhor Manuel, da Courense, continuava a trazer comida para dois como se tivessem vindo 10 para almoçar. Tema de conversa? A inédita segunda volta das diretas do PSD, a fazer lembrar uma não menos inédita segunda volta das presidenciais de 1986, que colocou frente a frente Mário Soares e Freitas do Amaral, depois de deixar pelo caminho Salgado Zenha e Maria de Lurdes Pintassilgo. Num exercício que, para muitos, pode parecer inútil, eu e o meu companheiro de todos os dias ao almoço procurávamos semelhanças, diferenças e subtilezas políticas nos dois atos eleitorais, partindo sempre do princípio de que a história tem sempre alguma coisa para nos ensinar e nos enquadrar.

João Céu e Silva

Grande mesmo era Raul Cortez a fazer de Salieri

Protagonizar os grandes compositores no cinema é uma tarefa tão difícil como a de os próprios comporem grandes sinfonias, nada que tenha proibido vários cineastas de o tentarem. Talvez Mozart seja o mais fácil de replicar, usando os seus traços de genialidade desde criança como fez Milos Forman no premiadíssimo Amadeus. Após 13 nomeações, coisa não tão vulgar assim, levou oito Óscares para várias categorias, e deixou para sempre a imagem na mente dos espectadores do mundo (sur)real de Mozart, fixando a sua vida por várias gerações. No entanto, quando tento recordar o nome do ator que fazia de Mozart, nem uma vaga memória. Após uma busca descobre-se que foi Tom Hulce...

Adriano Moreira

Leviandade

O presidente dos EUA não confia nos historiadores e, por isso, criou um novo registo das suas intervenções de liderança, que é o abuso diário dos tuítes, repetidas vozes animando as respostas críticas alarmantes com a insistência criticada do populismo que pratica. Nesta data em que mostra a certeza de que os senadores republicanos impedirão a sua condenação política, decidiu executar um ato que lhe pareceu animador do apoio eleitoral que tem previsto. Deste modo somam-se intervenções irresponsáveis quanto aos efeitos, no sentido de violar a insuficiente ordem mundial. Não lhe correu bem a tentativa de conseguir um acordo com a Coreia do Norte, mas sobretudo não evitou abalar a segurança atlântica, tendo como referência tornar de novo os EUA fortes, a casa no alto da colina, feliz com o Brexit do Reino Unido, exigente quanto aos custos financeiros da NATO, colocando a Embaixada dos EUA em Jerusalém com a consequência das novas vítimas, redefinindo a conceção de Jefferson - Abade Correia da Serra no sentido de substituir a legalidade do big stick pela construção de um muro.