Opinião

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Maria do Rosário Pedreira

Natureza morta

Desde que nasci até sair de casa dos meus pais, morei numa das mais movimentadas avenidas da capital - e, às vezes, dizem-me que ainda trago o cheiro da gasolina agarrado à pele e o eco do trânsito nos ouvidos. Passei a infância cheia de pena de não poder ir "à terra", como tantas colegas que tinham quintas, hortas e avós num canto qualquer do país; mas a minha família paterna estava em Lisboa pelo menos desde o reinado de D. Luís; e a materna, antes de poder ver a Sé da janela de casa, entretivera-se por áfricas e brasis, sem nunca sentir o apelo da província.

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Viriato Soromenho Marques

Quem ameaça a União Europeia?

Em 2017, os gastos com a defesa nos países da União Europeia tiveram um aumento superior a 3% relativamente ao ano anterior. Mesmo em 2016, os gastos militares da UE totalizaram 200 mil milhões de euros (1,3% do PIB, ou o dobro do investimento em proteção ambiental). Em termos comparativos, e deixando de lado os EUA - que são de um outro planeta em matéria de defesa (o gasto dos EUA é superior à soma da despesa dos sete países que se lhe seguem) -, a despesa da UE em 2016 foi superior à da China (189 mil milhões de euros) e mais de três vezes a despesa da Rússia (60 mil milhões, valor, aliás, que em 2017 caiu 20%). O que significa então todo este alarido com a necessidade de aumentar o esforço na defesa europeia?

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Adriano Moreira

O imprevisível futuro

Quando o abade Correia da Serra escreveu ao seu amigo Jefferson a famosa carta em que vaticinava que os EUA teriam uma função ordenadora no norte do continente, e que o Brasil a teria no sul, estavam numa época em que o globalismo não era um tema assumido, ou mesmo pressentido, que viria a desafiar os fundamentos da auspiciosa previsão. É do século passado, isto é, de ontem, o entusiasmo de Kubitschek de Oliveira pela síntese de futuro ambicionado na promessa do "Brasil, Brasis, Brasília", e nem esta lhe consentiram que visse nascer do nada. Também o "destino manifesto" que animou ver os EUA como "a casa no alto da colina", gerindo o seu "destino manifesto", foi uma visão que não resistiu ao destino comum dos impérios, formais ou informais, com a sua crónica de projeto, crescimento e declínio. Ambas as previsões do experiente Correia da Serra foram frustradas pela situação no norte e no sul do continente, com a invalidação do conceito acompanhada pela total incapacidade de previsão do futuro global. Lembrando a conclusão da antiga primeira-ministra do Reino Unido Margaret Thatcher, quando concluiu que não havia alternativa para o liberalismo, ela não viveu o suficiente para meditar a observação pessimista de Harari no sentido de que "o liberalismo deu um passo radical ao negar todos os dramas cósmicos, mas depois recriou o drama no interior do ser humano - o universo não tem enredo, então cabe aos seres humanos criarem um enredo, e essa é a nossa vocação e o sentido de nova vida". Agrava-se porém a circunstância de se multiplicarem os chamados populismos, dos quais a mais inquietante síntese foi a de Noam Chomsky quando concluiu que "o povo está zangado", o que se evidencia no progressivo desencanto com a insuficiente governança em fragilidade crescente, mas não mostrando criatividade que reponha a paz dos espíritos e a esperança de vida aceitável. Por isso, mais do que um "desajuste económico e financeiro" que fez alertar a tendência populista a todo o mundo, como concluiu Maalouf, o que mais parece evidenciar-se é que o ajuste que funcione não coincide com o proclamado nos projetos normativos em vigor. Por isso declina a intervenção ou cresce a omissão das instituições formalmente responsáveis, mas de facto inoperantes, sem que deixem de funcionar poderes informais, mal conhecidos, sem cobertura legal, e de quando em vez invocados pela investigação dos meios de comunicação social que se mostram fiéis à ética da profissão e à independência profissional. E daqui a enumeração das inquietações de Harari, que as editoras resumem para que a atenção dos cidadãos seja despertada, perguntando "como podemos proteger-nos de uma guerra nuclear, dos cataclismos ecológicos, ou das falhas tecnológicas, o que podemos fazer contra as epidemias de notícias falsas ou a ameaça do terrorismo, e, sobretudo, o que devemos ensinar aos nossos filhos". Esta a pergunta mais angustiante, porque se trata do futuro dessas gerações, e a nossa capacidade de prever o futuro não é maior do que a do abade Correia da Serra, que tinha maiores certezas por ter menos informação. Lembrando de novo Maalouf, nascido no Líbano, "todos os povos que se diferenciam pela religião, pela cor, pela língua, pela história, pelas tradições, e a que a evolução obriga a controlar-se continuamente - saberemos conseguir que vivam juntos em paz e harmonia? A pergunta coloca-se a todos os países, a todas as cidades, e incluso com alcance planetário. E a resposta, hoje, continua incerta". Valores que levaram séculos a implantar, com as religiões, a nação, as culturas diferenciadas, tudo subitamente parece ameaçado pelo castigo ao projeto da Torre de Babel. A última pretendida proclamada esperança em progresso é a convicção de ZucKerberg de que a inteligência artificial fortalecerá a solidariedade de "comunidades com sentido", contribuindo para, com engenharia social, fortalecer a solidariedade mundial. Não é negável que, ao lado de erros ou projetos malévolos, como se viu na última guerra mundial, todavia devemos a pensadores políticos, estadistas esclarecidos, e também apóstolos religiosos, intervenções que convergem no "património imaterial da humanidade", e que se o futuro é de previsão incerta, eles representam o que de mais confiável possuímos. A subalternização desse património não contribui para esclarecer a pesquisa do futuro, mas contribui seguramente para debilitar os alicerces a preservar do passado. As instituições que foram criadas, como a ONU, com a certeza de impor o "nunca mais" que animava os fundadores, pedem restauro e não demolição.

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Crónica de Televisão

New Amsterdam: a crise na saúde

É uma inevitabilidade clínica. Por muitos cuidados que tenha com a saúde, por mais que procure fazer exercício ou manter dieta equilibrada, há um risco a que qualquer televisão está sujeita: a estreia de um novo drama passado num hospital. Resistindo a todos os esforços para a erradicar, a "série sobre médicos" continua a florescer, irrompendo em surtos pontuais, tão ou mais comuns e incontroláveis do que os surtos das suas congéneres etiológicas, a "série sobre advogados" e a "série sobre polícias".

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João Taborda da Gama

Amor elétrico

Há uma enorme fungibilidade na cama entre o homem e o saco de água quente. Tenho pensado muito nisto neste inverno que tardava, mas que mal chegou me desaconchegou. A existência de um objeto que satisfaz uma necessidade torna o antigo provedor dessa função desnecessário. E sem função, mais solto, o ludismo apodera-se do espaço deixado, qual Quim Júlio que percebe que o que atraía nele era quilojoule, e não ele em si, a sua perna, o seu cheiro, e coloca parte da sua masculinidade em casa em causa. Parte da sua masculinidade numa versão reconstruída, moderna, antropocêntrica, romântica, porque se ele pensasse na sua masculinidade enquanto tal percebia depressa que lá no âmago sempre esteve o calor. A infidelidade térmica é das mais frias que se pode cometer, precisamente porque no início o que juntou foi o quentinho. Contra este problema há estratégias várias, ignorar, atacar, argumentar. Na argumentação a melhor é a da segurança, que os sacos de água quente, dildos térmico-emocionais, são responsáveis por milhares de acidentes terríveis no mundo inteiro, pernas queimadas, famílias dilaceradas. Basta uma pesquisa rápida e não há tabloide sem sexagenária escaldada, a perna diabética, adormecida, apenas a dar o alerta quando a água do saco já tinha cozido a carne toda. Um dia acontece-me a mim, se o tsunami chegar ao meu lugar da cama. Não há lugares cativos. Aquilo que pode ser substituído deve ser substituído, há um problema de transição, um dever de apoiar e ajudar na transição, mas uma sociedade não pode manter por manter funções em que alguém pode ser substituído por uma máquina. Penso nisso sempre que passo numa portagem e entrego um cartão a uma pessoa que mo devolve com um talão. Receber dinheiro, fazer trocos, dar talões é uma função que ninguém devia ter de desempenhar, e o objetivo devia ser que ninguém tivesse de o fazer num curto espaço de tempo, ajudando na transição aqueles que isso fizeram e fazem. Mas no inverno que chega tarde mas abrupto ninguém se preocupa com transições. Uma das coisas mais fascinantes é a importância e tempo que as nossas cabeças dedicam às coisas. Por exemplo, passei mais de meia hora agora mesmo a procurar informação sobre o papel que a temperatura corporal joga na atração sexual, encontrei informação fascinante. Mas o mais fascinante de tudo foi um livro sobre a cama conjugal, conjugal leia-se partilhada - Two in a Bed: The Social System of Couple Bed, do Paul C. Rosenblatt, psicólogo americano, de 2006. Estudar, pensar, escrever sobre isto, há quem tenha vidas interessantes, mais interessantes do que a minha. Mas enquanto li sobre isso, que pouco me ajudará a mim e ao mundo, não li sobre coisas mais importantes do que isso tudo. E é essa a dúvida, por que não conseguimos estar sempre e apenas focados naquilo que interessa? Porque não somos máquinas, dirão uns. Enquanto escrevo há uma máquina a trabalhar por mim. O novo aspirador automático Roomba, no quarto lá de dentro, a limpar (não escrevas o esterco) as marcas normais de uma família com numerosas crianças, inteligente com sensores a calcular o percurso, a voltar atrás onde há mais marcas, e tudo acompanhado pela app no telemóvel, a sensação (ilusão) de controlo. Chama-se Rodolfo o aspirador, foi a Laura que escolheu o nome, nome de homem que limpa a casa, um puxa trenós do pó do chão. Quando a Laura nasceu, na primeira vez que saiu de casa fomos todos andar de elétrico com ela. Uma espécie de batismo de cidade, batismo de rua, de gente, de gentes da gente. Enquanto aquilo sacolejava pensámos que talvez quem dizia que éramos irresponsáveis tivesse razão, podia a bebé (as pessoas que alertam dizem sempre a bebé no feminino) morrer esmagada entre um o varão e um turista calmeirão, americano do Colorado, very typical the baby. Foi há 11 anos, no 28. Ontem foram 28 os feridos do 25, elétrico que descarrilou na Lapa, talvez farto de uma vida toda nos eixos.