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Opinião

A lipoaspiração do Macedo

Paulo Macedo chegou à Direcção-Geral de Contribuições e Impostos e o País indignou-se: lá vem mais um pavão ganhar uma fortuna. Passaram umas semanas e começou a ficar claro que o Macedo afinal não era pavão, era espanador. Trabalhava muito e trabalhava em silêncio, sem meter o ego e as plumas pelo caminho. Era eficaz na exacta proporção do currículo que exibia. Em poucos anos, a máquina fiscal ganhou vigor e alguma modernização. Os funcionários públicos da DGCI - uma boa parte deles - recuperaram o espírito de equipa e, com esse bálsamo, a fuga aos impostos começou a diminuir, a cobrança a aumentar e os cofres públicos a encher. Não é nada fácil elogiar quem nos vai ao bolso, mas Paulo Macedo, naquela época difícil e num ambiente hostil, fez quase tudo com elegância. Deu uma aula de gestão ao sector público: como fazer acontecer sem espezinhar. Não foi loucamente à caça do contribuinte médio, já espremido e sem meios para martelar as contas; foi atrás da economia informal; dos empresários que, ano após ano, apresentavam o IRC no vermelho e o IRS com o salário mínimo, apesar de uma vida notoriamente faustosa.

Opinião

O dia em que terminou o 'fim da história'

Lembram-se o que dizia George W. Bush sobre a política externa norte-americana durante a campanha eleitoral de 2000? Entre outras propostas, a sua agenda assentava na retracção da acção militar no exterior, usada apenas como último recurso, recusando assim o intervencionismo humanitário de Bill Clinton. Quer em campanha, quer nos primeiros meses da presidência, a narrativa era bem mais herdeira da tradição realista republicana do que da tese da "nação indispensável" dos New Democrats.

Opinião

Crianças grandes

Manobras de Diversão/Traffic Light (Fox Life, novos episódios aos domingos) tem um mérito sobre todos os outros. Por acaso, vem do sítio menos esperado: as suas mulheres são credíveis na medida certa. O problema é que os seus homens são aqui credíveis de mais e ali credíveis de menos, à medida dos muitos clichés em que a série mergulha - e, no fim, torna-se mesmo difícil distinguir o que há ali de condição masculina e o que há ali daquilo que se convencionou ser a condição masculina por-muito-que-as-evidências-provem-o-contrário.

Qualquer coisa de esquerda

Dar o exemplo

Primeiro foi a superficialidade populista e inócua das gravatas, dos ares condicionados, das viagens em económica. Depois veio a pedagogia do contágio: num remake da febre do "dia de trabalho pela nação" dos idos de 75, todos se puseram a competir com todos para mostrar quem cortava mais em alguma coisa. Essas foram as pontas visíveis de um denso iceberg ideológico que, na novilíngua da direita, se exprime em dois mandamentos supremos: primeiro, cortar no Estado é a maior das virtudes cívicas; segundo, é preciso dar o exemplo, e o Estado cortar em si próprio é o mais elogiável dos exemplos.

Opinião

Está aí alguém?

1. A RTP tem as costas larguíssimas, já se sabe. Ainda ontem ouvi alguém, no meio de uma discussão sobre a fúria privatizadora do governo, justificar o seu apoio tácito aos argumentos de Miguel Relvas com a frase: "o nosso dinheiro não pode servir para novelas e reality shows." E eu subscrevo. O nosso dinheiro não pode servir para novelas e reality shows. E não serve, porque se há coisa que a RTP não produz são estes dois formatos (enfim, exibe ficção brasileira à hora de almoço, mas não a produz).

Opinião

Diferenças que se notam

1. João Manzarra cresceu muito nos últimos anos. Lembro-me do arranque dele na SIC generalista e de ter achado que era piadético de mais. "Mais um que acha que ser apresentador é fazer umas caretas e dizer umas larachas", pensei na altura. Não creio que tenha sido precipitado à época. O que acho é que do Manzarra de 2007/08, nas marchas populares, nos beijinhos do SIC ao Vivo e, claro, do Curto Circuito, para o Manzarra de 2011 vai uma grande diferença. No Ídolos ganhou calo, no Achas Que Sabes Dançar consolidou essa caminhada e hoje Manzarra, para um certo tipo de entretenimento, é uma mais-valia clara da SIC. Mesmo num programa desinteressante como Chamar a Música, Manzarra consegue dar graça ao formato. E continua, talvez surpreendentemente, a liderar as noites de domingo.

Crónica de TV

'Paparazzi'? Esqueça!

Esqueça tudo o que leu sobre paparazzi, aqueles profissionais que passam a vida atrás das figuras públicas para fotografá-las para jornais e revistas de sociedade. Esqueça tudo o que lhe contaram. Ou esqueça mesmo o que ouviu de alguns famosos portugueses, mais indignados com o jogo do gato e do rato. Esqueça. Em Portugal não há paparazzi. Há fotógrafos que fazem as ditas fotos, é certo. Há, é verdade, uma imprensa que se especializou em celebridades. E não é mentira também que é essa imprensa que apresenta melhores resultados de vendas, imune à crise que tem dizimado a indústria.

crónica de tv

Tiro ao alvo

1 E Agosto nunca mais acaba, pensarão os programadores dos canais generalistas. Com 25 dias contabilizados pela Marktest, os canais de cabo e IPTV, todos juntos, não param de aumentar a sua distância em relação à TVI, SIC e RTP1. O conjunto de canais temáticos já vai com 30% de quota de mercado, mais quatro pontos do que no mês passado. Um crescimento feito à custa dos privados: a TVI, que teve 24,7 em Julho, está agora abaixo dos 23%, mesmo com o início da época futebolística, enquanto a SIC, que registou 23,7 há um mês, não deverá fechar Agosto muito acima dos 21 pontos. Mesmo a RTP1, que teve a Volta a Portugal, os jogos das selecções (o particular com o Luxemburgo e o Mundial de sub-20), a Liga dos Campeões e a Supertaça Europeia, deverá ter um crescimento inferior a um ponto percentual.

Planeta Media

Futurologias contrastadas

A edição, o cinema, a rádio e a televisão estão a ser objecto de enormes mutações, fruto da conjunção da Internet e da digitalização. E o aparecimento dos tablets tácteis tem acelerado estas mutações, nomeadamente no que diz respeito à recepção, ao consumo dos conteúdos. Mas é sobretudo sobre o futuro de imprensa escrita (e mais exactamente: impressa) que as interrogações são mais frequentes, da parte dos simples cidadãos como dos especialistas.