Opinião - Em Foco

Pedro Marques Lopes

Um governo pró-forma

É impossível saber se este era o governo que Passos Coelho queria ou o que foi possível. É evidente que a capacidade de trazer gente de peso para um governo que corre o risco muito sério de durar pouco mais de 15 dias seria sempre muito limitada. E pouco importa se o primeiro-ministro queria mostrar um governo para a legislatura ou formar um de combate político. Um executivo para ser levado a sério teria de ter sempre os dois componentes. Este nem tem gente em que possamos reconhecer grande capacidade de luta política, nem tem gente com peso técnico e político para que possamos dizer que foi pensado para efetivamente governar. É um governo que, fora a troika Passos, Portas, Maria Luís, tem nas principais pastas gente de segunda linha, ex-secretários de estado e gente do partido disposta a esta espécie de comissão de serviço - há um toque quase humorístico ou, quem sabe, de remoque a Portas: a criação do ministério da modernização administrativa.Talvez Passos Coelho quisesse mostrar outra gente, outra vontade, mas, seja como for, não o conseguiu ou, pura e simplesmente, não achou que valesse a pena. Assim sendo, estamos perante um mero governo pró-forma; muito provavelmente, o governo mais provisório da história da nossa democracia. Os pesos pesados do PSD ficaram no partido ou no Parlamento e é desde aí que se organizará o combate político. E o primeiro objetivo não é difícil de adivinhar: preparar o caminho para exigir eleições antecipadas logo que os prazos constitucionais permitam e, pelo caminho, pressionar nesse sentido o próximo presidente da República. Passos Coelho foi o primeiro a assumir que este governo é para meia dúzia de dias. Fica, também, a mensagem para o Presidente da República: Passos não quer ficar à frente dum governo de gestão.

Opinião

O presidente da junta (golpista)

Desconfio que, em 1975, Soares combateu a extrema-esquerda menos por convicção ideológica do que pela necessidade de "definir" o PS de acordo com a vontade da maioria dos portugueses. Sei que, em 2015, o Dr. Costa procura a extrema-esquerda por falta de alternativas que não incluam o linchamento imediato. No fundo, ambos se moveram e movem por interesses privativos: a diferença é que o egoísmo do primeiro beneficiava da consolidação de um partido democrático e, naqueles anos de chumbo, isso beneficiou o país. Por infelicidade de circunstâncias, o egoísmo do segundo condena o partido e, caso o chumbo regresse, desgraça o país.

Um ponto é tudo

Os excedentes de animação política

Durante todo agosto, mês das notícias parvas, publiquei diariamente, no DN, um folhetim político sobre a campanha eleitoral que ia seguir-se. Coisas ficcionadas, que eu, o ingénuo!, julguei demasiado bizarras... Pus Portas a saltar o muro da Capela do Rato para encontros clandestinos com Costa. Fiz Passos inventar um António Costa com as posições do Bloco de Esquerda. Imaginei um resultado eleitoral em que o cargo de primeiro-ministro não ia para o ganhador mas para Maria Luís. Criei a notícia sobre a ameaça de Mariana Mortágua em votar socialista se o BE continuasse sectário com o PS... Inventei tanto que chamei ao folhetim "As eleições que ninguém queria ganhar".

Pangeia

Síria não vai ser novo Afeganistão para russos

Síria 2015 e Afeganistão 1979-1989. O que há em comum entre a primeira intervenção russa fora do espaço da ex-União Soviética desde 1991 e a última guerra travada pelo Exército Vermelho? O terreno ser o mundo islâmico. E as coincidências não ficam por aí: em ambos os casos, Moscovo socorreu um regime aliado laico desafiado por uma rebelião dominada por fundamentalistas islâmicos, financiada por países do mundo arabo-muçulmano e atrativa de estrangeiros fanatizados. Significa isto que Vladimir Putin, sempre atento ao passado nacional, ignorou as lições da história e deixou a Rússia meter-se num atoleiro?

Opinião

Costa e o xadrez às cegas

Temos de saber de que modalidade estamos a falar... Em 2010, Federer, então número um do ranking mundial de ténis, veio ao Estoril Open e bateu umas bolas com 30 crianças. Os jornais escreveram, com o sorriso devido, que ele fez uma partida múltipla com os miúdos. Também em 2010, o grande mestre israelita Alik Gershon fez 523 partidas simultâneas de xadrez, o que é ainda recorde. Então, que modalidade pratica António Costa? Já sabemos que corre de sede em sede - do PCP, BE, "Os Verdes", PAN, PSD-CDS (dupla partida, em São Caetano à Lapa e no Rato)... Mas bate bolas ou pula com o cavalo e faz diagonais com o bispo? Às vezes, nas conferências de imprensa finais, Costa sua, e parece ser ténis. Mas pelas palavras (como, ontem, incitando Jerónimo e Catarina, servindo-se de Pedro e Paulo) vê-se que é xadrez. Aquilo é esgotante, mas não é de bíceps, é mental. Calculem o esforço que é não confundir as reivindicações do PAN, na Almirante Reis, com, logo mais abaixo, na Rua da Palma, as de Catarina - baixam-se as taxas moderadoras dos gatos ou da classe operária? Vão dizer, simultâneas com cinco ou seis parceiros é leve comparadas com o tal recorde de 523... É? Esquece-se que Costa caprichou e está a fazer partidas múltiplas e às cegas, as mais difíceis, sem ver o tabuleiro. E ainda falta o jogo com Cavaco. Conta-se que este, quando estudante, pretendia ter inventado um infalível sistema de múltiplas no velho Totobola. E se for verdade?

Opinião

O mundo ao contrário

Um distraído observador estrangeiro que ignorasse o resultado das eleições de 4 de outubro ficaria convencido de que o PR tinha indigitado António Costa (AC) para formar governo. Depois de ter dito, ainda no calor dos resultados, que não iria contribuir para uma "maioria negativa" feita com os fragmentos de uma esquerda dividida por hostilidades antigas, AC lançou-se numa corrida, distribuindo-se por reuniões classificadas de modo encomiástico com o PCP, o BE e o PAN, em contraste com o vazio mutuamente defensivo da reunião com a coligação. Na política não existe a propriedade comutativa da adição. A ordem dos fatores importa e não é indiferente a sua sequência. AC deveria ter esperado que fossem os líderes da coligação a tomar a iniciativa de formar governo, que lhes pertence pelo resultado eleitoral, e pela escolha do PR. Deveria bater-se pelas suas quatro linhas vermelhas, condicionando o eventual futuro governo minoritário da direita a respeitar junto das instituições europeias e dos credores a exigência de um papel mais interveniente de Portugal na reconstrução de uma Europa capaz de sair da armadilha da austeridade. Para isso, AC tem um claro mandato eleitoral. Pelo contrário, ao concentrar em si a iniciativa, e ao falar com todos ao mesmo tempo, AC corre o risco de tropeçar na sombra da sua hiperatividade. Desobriga a coligação de esclarecer as razões da sua estranha passividade, quando urge encontrar uma solução de governo, correndo, ainda, o risco de ser visto como o único caso da III República de um secretário-geral que em vez de se tornar primeiro-ministro depois de ganhar as eleições quer ser primeiro-ministro para se manter como secretário-geral, mesmo depois de as ter perdido.

Um ponto é tudo

António Costa e o ovo de Colombo

António Costa merece elogios por enunciar uma boa ideia: o PCP e o BE não são pestíferos. Boa ideia porque eles recolhem um milhão dos votos nacionais (um quinto) e o essencial do que dizem é legítimo (embora muito erradinho, valha-me Deus). E, além de boa, é ideia peregrina, excêntrica, o suficiente para espantar o país: pegar num ovo e pô-lo de pé. Clap! Clap! Clap!, aplausos para quem disse o que todos podiam saber mas não o disseram antes. Foi o mérito de Costa, em palavras e factos ("negociemos"). Daí o meu elogio, que é só um pouco exagerado. Mas para ser totalmente merecido falta descobrir o Novo Mundo, não só pôr o ovo de pé. Porque o que temos é pouco, com um risco acrescido: o de vir a ser muito, demasiado. Sim, é pouco trazer o PCP e o BE para o lugar onde afinal já estão, a democracia parlamentar. Sim, é pouco mas salutar para a democracia portuguesa que o PSD e o CDS se convençam de que não se pode condenar o PCP e o BE ao limbo. E, sim, ter aproveitado a atual crise política para dessacralizar uma realidade foi o mérito de António Costa, na semana passada. Outra coisa, porém, é o que pode acontecer nesta semana. Recorro outra vez à metáfora, Costa diz que há uma solução nova: parte-se ligeiramente a casca e o ovo fica de pé! Fica? Interrogo-me porque pareceu-me que, antes de a experiência ser apresentada aos portugueses, não houve tempo de cozer o ovo. E se o ovo está cru e a gema e a clara se espalham na mesa?