O fator humano

O fator humano

As senhoras que me dão ordens no GPS conforme as línguas

Agora penso: a primeira coisa que devia ter feito antes de começar a escrever era telefonar à Maria Helena Mira Mateus. É uma enciclopédia em matéria de linguística, o grande tema da vida da professora que não se limitou a estudar o trabalho dos outros, mergulhou a fundo e veio à superfície com novas ideias e teorias. Em vez disso resolvi deixar a conversa com a Maria Helena para mais tarde e com mais tempo, agora que já saboreei o livro em que conta Uma Vida Cheia de Palavras.

O fator humano

O Casal e O Outro Casal, os corpos em fusão

É como se fosse um espelho, mas a reproduzir imagens que são ao mesmo tempo diferentes e idênticas. No andar térreo está Le Couple, o casal Arpad Szenes e Maria Helena Vieira da Silva. No andar de cima está O Outro Casal, Helena Almeida e Artur Rosa. Os dois casais têm em comum a profunda ligação, uma coisa física e quase feroz, a tal ponto que não é possível desvendar onde está o corpo de cada um nas imagens.

O fator humano

Ruth, a filha do talhante, jogou no Benfica

Cresci com um herói chamado Eusébio da Silva Ferreira. O país não tinha grandes figuras públicas para admirar ou para suscitar a minha devoção, a não ser nomes que não se podia dizer em público. Eusébio era o herói que partilhávamos e por isso, mais do que lembrar as lágrimas daquele jogo com a Inglaterra em 1966, prefiro falar da euforia do segundo, do terceiro, do quarto e do quinto golos na baliza da Coreia do Norte, aquela vertigem depois de estar a perder por 3-1. Grande Eusébio.

O fator humano

Frascos, caixas e saquinhos de pano. Menos é mais, já dizia o outro

Uma pessoa levantava-se para ir para a escola (era o meu caso), abria a porta da rua e no puxador, do lado de fora, estava pendurado um saco de pano com pão fresco. No chão, havia garrafas de leite do dia que era conveniente ferver - por cima ficava uma camada de nata. Dentro de casa estava o jornal, dobrado e atirado com perícia pela janela deixada entreaberta. Ao sábado, o padeiro, o leiteiro e o ardina passavam para receber .

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A barata, esse pequeno animal dotado de superpoderes

O genoma da barata ou, melhor dizendo, os genomas de duas das cinco mil espécies de baratas foram descodificados e o resultado não é brincadeira nenhuma. Estes insetos têm características que lhes permitem sobreviver nos habitats mais extremos e fazem-no há milhões de anos. Foram contemporâneos dos dinossauros, há provas disso, e ainda cá estão com uma saúde indestrutível. Arrisco mesmo dizer que, em pleno século XXI, se sentiriam confortáveis dentro de uma lata de inseticida, reproduzindo-se com o maior à-vontade.

O fator humano

O falso capitão e o filho do inventor de papagaios de papel

Está para breve a estreia de um filme que, mais uma vez, fala da II Guerra Mundial. Este é, vá lá saber-se como, totalmente diferente de tudo o que já vi. Chama-se O Capitão e é a história verdadeira de um soldado desertor alemão que, na confusão dos últimos meses do conflito, se faz passar por um oficial com ordens diretas de Hitler. Este ponto de partida, resultante de um puro acaso, vai dar origem a uma sucessão de acontecimentos que parecem inacreditáveis. Se no fim não houvesse a informação de que o caso era real, poderia parecer uma construção bem urdida mas do capítulo das coisas que não podem acontecer, demasiado fantasiosas.

O fator humano

Em que dedo anda o anel que me roubaram?

"Poderia até ser eu própria mas sem o dom da admiração quer dizer - alguém completamente diferente" Esta é a estrofe final de um poema de Wislawa Szymborska, num pequeno livrinho ("Instante", Relógio d"Água) acabado de publicar e que veio da livraria para a minha casa e desatei logo a ler. Desculpem, isto pode parecer uma coisa muito a armar a intelectual, mas não haveria escritora mais afastada dessa ideia de ah e tal uma coisa indecifrável. Ela escreve sobre as pequenas coisas e maravilha-me sempre, porque dentro da escrita dela descubro novas perguntas, dúvidas, admirações. E mesmo quando fala de Platão, no poema "Platão ou o porquê", faz dele uma pessoa com quem parece estar a conversar e ficavam ali os dois e eu quietinha a ouvi-los. Uma vez vi um documentário sobre ela na televisão e agora aparece-me na cabeça um parêntesis: (Há pessoas que veem documentários e depois escrevem sobre eles e mais valia ficarem a ruminar lá para elas, e acho que sabem do que estou a falar, mas se não sabem eu digo: José António Saraiva e a crónica sobre mudança de sexo. Uma pessoa fica com vergonha alheia. Fim de parêntesis e não se fala mais nisso, estamos à mesa). Mas eu não queria trazer aqui a pequenez de espírito, era mesmo sobre Wislawa e a poesia dela e recordar o documentário, ela a comprar souvenirs delirantes nos lugares por onde anda e sem saber bem em que gaveta estarão a medalha e o diploma do Nobel. Portanto, voltando ao livro que trouxe para casa e desatei a ler, proponho um poema chamado "Lista", uma coisa alusiva à época em que há quem faça listas de decisões. Eu não faço e da passagem do ano gosto é do fogo-de-artifício. A lista de Wislawa é outra coisa: "Preparei uma lista de perguntas / cujas respostas já não chegarei a saber /ou por ser demasiado cedo para elas / ou não conseguir entendê-las" E vai de questões como "Quando cessarão as guerras / e o que as substituirá" ou "No anelar de quem / andará o meu anel de estimação / furtado ou perdido." Acontece que por duas vezes me assaltaram casas onde vivi e roubaram-me anéis. E outras coisas. De estimação algumas delas. Durante uns tempos espreitei montras onde havia anéis para ver se os encontrava. Manobra inútil, evidentemente, e posso ir mais longe e confessar que ainda hoje o faço, embora não me recorde bem dos anéis que me desapareceram. A pergunta de Wislawa é muito mais intrigante e, lá está, poética. Em que dedo andará? E abre caminhos extraordinários à imaginação. Já a outra pergunta é diferente: quando cessarão as guerras e o que as substituirá. É esta segunda frase que faz a diferença. Quando cessarão as guerras é uma pergunta retórica, bem intencionada, paz e amor, etc. Mas ao querer saber o que as substituirá, aí está a pergunta sobre que mundo seria esse, que pessoas seriam essas, e se seriam pessoas, e por aí adiante. Ser jornalista é como ser uma criança ou uma Wislawa: é observar o mundo e fazer perguntas. Os porquês, por um lado, e as hipóteses alternativas (não, não é a verdade alternativa, isso é outra conversa e não é para aqui chamada). Eu tornei-me jornalista por acaso, nunca pensei quero ser jornalista quando for grande, isso estava fora de qualquer efabulação da minha infância. Mas sei que consegui incomodar pessoas cheias de certezas e preconceitos com as minhas perguntas e dúvidas, e então na adolescência nem vos digo mais, porque as perguntas e dúvidas iam dando lugar a certezas que felizmente fui deixando pelo caminho. No meio disto, se há coisa que me dê prazer é esse dom da admiração de que Wislawa fala, a capacidade de espanto e maravilhamento. Desse dom não prescindo, parada a olhar um céu estrelado, um quadro, um poema uma música, uma pedra como aquela coleção que herdei de um tio-avô, tão vasta que está agora numa escola onde as minhas filhas aprenderam e ainda cá tenho algumas dentro de uma caixa de sapatos. Não fiquei poeta, nem cientista nem professora, fiquei jornalista e gosto disso.

O fator humano

"Cada geração deve retraduzir para si as grandes obras universais"

"Às vezes, tudo o que precisamos é de um bom livro", diz a dedicatória em letra bem legível, um presente de Natal antecipado que recebi há poucos dias. O Mundo é Pequeno, de Somerset Maugham, uma edição da Minerva em papel amarelo e amarelado pelo tempo. Tinha lido na adolescência No Fio da Navalha e Servidão Humana, nas edições dos Livros do Brasil que voltaram recentemente às livrarias pela mão da Asa. Mas nunca tinha navegado pelas ilhas da Indonésia deste livro que já ganhou agora um lugar na estante.

Opinião

José, Josiane, Mariazinha, Zé Pedro. Sem ódio, keinen Hass

José Vieira é um herói da resistência ao nazismo e nós não sabíamos. Nem ele teve certamente noção da sua grandeza. Se falarmos só do início e do fim, parece a história habitual de um emigrante: nasceu em Valença em 1907, morreu em França em 1994. Mas se dissermos que foi comunista, resistiu à ocupação da França, foi trabalhador forçado em fábricas alemãs e autor de vários atos de sabotagem, foi tão maltratado e passou tantas dificuldades que o corpo ficou incapacitado para o trabalho, e se lhe acrescentarmos a expressão "keinen Hass" - sem ódio -, temos uma figura que não podia ficar esquecida.

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O cão que ensinou a Rita a coser

A criança dirige-se à parede e estende a mão para o campo de luz onde se sucedem imagens. Estica o dedo e faz o gesto de passar a página. Baixa a mão mas as imagens continuam a mudar. Hesita, volta a aproximar a mão da parede, muda a página mas o ritmo das imagens não lhe obedece. Olha, perplexa, para o adulto que a acompanha. "Repara, a luz vem do projetor que está atrás de ti." Observa o aparelho de onde sai um cone de luz, volta aos desenhos na parede e tenta de novo controlar o movimento. O adulto coloca a mão diante da luz e a sombra projeta-se na parede. "Vês? Os desenhos saem daqui, experimenta pôr-te à frente, ficas com as imagens no teu corpo." O irmão mais velho vem inspecionar o assunto. Olham um para o outro: que coisa tão estranha, dizem as expressões deles. Brincam, desconfiados, com a luz e as sombras.

O fator humano

Às voltas com o problema do tempo num berlinde azul

Como sabes a que horas precisas de ir para a cama? Esta foi a pergunta feita por uma pequenina Delaney ao astronauta Randy "Komrade" Bresnik, que anda lá em cima às voltas na Estação Espacial Internacional (ISS). Aí está uma boa pergunta, disse ele, na imponderabilidade do interior da nave. É que ele vê o Sol pôr-se 16 vezes por dia e portanto aquela coisa de telefonar à família, lavar os dentes e ir para a cama obedece ao relógio que traz no pulso e ao programa intenso de trabalho.