Nuno Saraiva

Editorial

Um coelho da cartola

Ontem, dia de arranque do Congresso do Partido Socialista, o presidente do PSD tirou um coelho da cartola. Agarrando naquela que é uma das suas principais bandeiras, a urgência de reformar a Segurança Social para garantir sustentabilidade, Pedro Passos Coelho convocou o PS para a negociação. E, desta vez, seguiu a estratégia certa. Ao dar garantias de que não pretende alterar o modelo que está em vigor - isto é, que não mexe no princípio de retribuição em que os trabalhadores ativos assumem o pagamento das pensões atuais -, de que abdica do plafonamento e de que a poupança necessária de 600 milhões não se fará à custa de cortes nas pensões em pagamento, Passos deixa pouca margem a António Costa para rejeitar conversas. Na verdade, o caminho que o líder do PSD decidiu seguir foi o de expurgar de preconceitos ideológicos o debate sobre a reforma da Segurança Social e, desse modo, colocar no PS o ónus de um eventual fracasso nesta negociação. É certo que, tendo em conta o passado mais ou menos recente, a ficha de Passos Coelho em matéria de credibilidade e confiança no que respeita ao cumprimento de palavra dada não está limpa. Mas fechar as portas ao diálogo com o líder do PSD sobre esta matéria apenas com base no passado seria um erro trágico, na medida em que todos reconhecem que esta é uma reforma prioritária para garantir o futuro do sistema de pensões. E, por outro lado, seria também uma manifestação de sectarismo assente exclusivamente num processo de intenções contra o líder do PSD. O PS, como ontem alguém dizia, é o único partido da democracia portuguesa que pode gabar-se de já ter partilhado responsabilidades governativas com todas as forças políticas que tradicionalmente chegam ao Parlamento. Será bom que António Costa aproveite esta manifestação de vontade para manter essa tradição. Se o não fizer, quem perde é o país e, no limite, os pensionistas do futuro.

Editorial

O que diz Marcelo

A mensagem do Presidente da República é clara. Até às eleições autárquicas do próximo ano - etapa que uma vez cumprida abre um novo ciclo - não há espaço para instabilidades ou crises políticas. Ou seja, Marcelo está a ser Marcelo, que é como quem diz, faz análise de curto prazo. Nas últimas semanas, os afetos e os sorrisos têm dado lugar a ferroadas e a alguns alertas. Depois do amparo dos primeiros tempos de coabitação, a realidade estatística e a crueza dos números acabaram por arrefecer as relações entre o Presidente e o primeiro-ministro. O aparente distanciamento começou na semana passada. A 17 de maio, depois de conhecidos os resultados económicos do primeiro trimestre, Marcelo Rebelo de Sousa admitiu que pode vir a ser necessário rever em baixa as previsões de crescimento para este ano, ainda que "sem alarmismos mas com lucidez". Dois dias depois, ainda na ressaca da avaliação económica negativa e com o governo a recusar alterar as previsões, Marcelo enfatizou o "otimismo ligeiramente irritante" de António Costa. No tempo que se seguiu foram saindo previsões nacionais e internacionais sobre a economia portuguesa que acentuam a desconfiança em relação ao cumprimento das metas estabelecidas pelo governo. O quadro político em que Marcelo se move tem, por isso, duas variáveis além da fragilidade da economia portuguesa. Por um lado, o Presidente da República sabe que não pode continuar colado em absoluto às opções políticas de António Costa e a irradiar felicidade com os resultados da governação. Tem de ter margem para se distanciar em caso de fracasso para não ser arrastado pela corrente de uma eventual crise política e económica. O que não significa, necessariamente, posicionar-se como "força de bloqueio". E, por outro lado, apontando ao pós-eleições autárquicas está também a enviar recados para dentro do PSD. Ou seja, aquilo a que Marcelo chama de novo ciclo implica também a substituição de Pedro Passos Coelho na liderança do partido em caso de derrota eleitoral em 2017. Seja como for, o que diz Marcelo é muito simples: o Orçamento para o próximo ano é para aprovar, custe o que custar. Mas a estabilidade, sendo um bem escasso e essencial, não é um fim em si mesmo. E o barómetro do Presidente/analista são as próximas autárquicas.

Editorial

Pessimismo

O mundo está perigoso. Por via democrática, isto é, através do voto popular, temos assistido nos últimos tempos à ascensão de personagens políticas de perfil tenebroso. Nas Filipinas, por exemplo, o novo presidente eleito é um populista de meter medo, como todos os populistas, sejam eles de esquerda ou de direita. Propõe-se reintroduzir a pena de morte abolida há dez anos e enforcar "duas vezes" os condenados até que "a cabeça se separe do corpo". E é um adepto ferrenho da justiça popular e do atirar primeiro e perguntar depois. Nos Estados Unidos, Donald Trump e o seu discurso misógino e xenófobo está na pole position para assegurar a nomeação republicana às presidenciais americanas e, dizem as sondagens, ameaça chegar à Casa Branca prometendo, entre outras coisas, acabar com o controlo de armas e deportar os imigrantes. Na Europa, os austríacos deram a vitória à primeira volta das presidenciais ao candidato da extrema-direita que, sem qualquer pejo, faz afirmações racistas e assume um discurso que raia o nacional-socialismo alemão de outros tempos. Em França, Marine le Pen e as suas posições atentatórias do mais elementar humanismo são cada vez mais populares. Pelo caminho, figuras como o húngaro Viktor Orbán e outros responsáveis políticos europeus têm investido em derivas ideológicas ameaçadoras da dignidade humana e de liberdades elementares que põem em causa os mais básicos valores europeus como a solidariedade e a tolerância. Estes são apenas alguns exemplos. E nada disto é surpreendente. Os povos europeus, como os do resto do mundo, sentem-se desiludidos e descrentes com o presente que o destino lhes reservou. As economias estão anémicas, o desemprego é elevado e as oportunidades são escassas, e os políticos desbarataram todo o seu capital de credibilidade com promessas vãs de amanhãs que cantam e contradições absolutas entre aquilo que se diz e aquilo que se faz. Este caldo é terreno fértil para os demagogos e os inimigos da liberdade e da civilização. Portugal ainda é, apesar de tudo, um oásis neste mundo perigoso. Mas não tenhamos ilusões, o sucessivo défice de participação eleitoral é sintoma de um país entorpecido e alheado à espera de um qualquer D. Sebastião vindo da bruma. Sabemos, pelas lições da história, que não há nada pior para as democracias do que o sebastianismo messiânico. E de duas, uma: ou acordamos todos ou, um dia destes, entramos num pesadelo sem saída. Não é pessimismo, é realismo.