nuno camarneiro

Opinião

Quando tudo arde

Às 11:00 da manhã de 11 de Setembro de 2001 um amigo despertou-me pelo telefone contando-me coisas estranhas. "Já sabes o que aconteceu? Vai ligar a televisão, é uma cena do caraças!..." E era, uma "cena do caraças". Eu tinha 24 anos e aprendi que os grandes momentos chegam sempre quando menos esperamos e pela voz de alguém mais atento e mais desperto. Ontem foi uma colega do departamento de restauro através do Facebook (os anúncios acompanham os meios). "Nuno, estás em casa? O que se passa em Paris? Na rua estavam pessoas a espreitar por uma montra e só vi fumo e chamas a sair de Notre-Dame, parece coisa séria...". E era uma coisa séria.

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nuno camarneiro

Tudo teima em mudar

Atarde vai tristonha, lenta e cinzenta, da janela do gabinete espreito o Douro a querer ser mar e apetece-me fugir para longe das frequências por corrigir e dos sumários por lançar. Ao contrário do que dizia T.S. Eliot, é dezembro, e não Abril, o mês mais cruel. Toca o telemóvel e vejo no ecrã o rosto sereno e sorridente do Joel Neto. Parece que adivinha, o sacana do açoriano. - Meu querido amigo, como estás? Tinha saudades tuas e apeteceu-me fazer uma coisa antiga, que é ligar para desejar um bom Natal... A delicadeza do Joel apanha-me sempre desprevenido, é o último cultor de um certo tipo de bondade. Respondo com frases incertas, mais ou menos isto, os livros assim, a vida assado... Tudo vai andando... E sei que não o convenço, que as pausas trémulas denunciam mais do que posso ou quero revelar. Ele aceita o jogo e falamos do fim dos jornais e da literatura, da pulsão inútil e romântica que nos obriga a afundar com o navio. Se pudermos, iremos a cantar. Falamos ainda da Catarina e do Sandro, moravam ali nos Anjos, e agora, onde estão? O tom de voz altera-se e imagino-o a falar com o vento, numa versão ilhoa do Eclesiastes. - Caramba, meu caro, tudo termina e tudo teima em mudar... E eu daqui e ele tão lá olhamos para as mesmas ondas e partilhamos o silêncio como se fosse um cigarro. Assim é, meu querido amigo, bom Natal para ti e bom ano novo, iremos a cantar.

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A Voz dos Anjos

Os meus votos para 2020

O ano de 2018 está a dar as últimas e já pouco podemos esperar dele, fez o que pôde, mas não foi muito. O que vem a seguir também não promete grande coisa tendo em conta o que se avizinha - Brexit (ou não Brexit, ou mais ou menos Brexit), eleições várias que se preveem ao mesmo tempo histéricas e aborrecidas e nem um Mundial de futebol ou uns Jogos Olímpicos para alegrar as hostes. Perdido a velas, perdido a remos, prefiro apontar a 2020 e pedir ao futuro o que falta ao presente.

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nuno camarneiro

Amor em tempo de cólera

Foi no domingo à tarde na Rua Heliodoro Salgado, que vai do Forno de Tijolo à Penha de França. Um BMW cinzento descia o empedrado a uma velocidade que contrariava a calidez da tarde e os princípios da condução defensiva. De repente, o focinhito de um Smart vermelho atravessa-se no caminho. Travagem brusca, os veículos quedam-se a poucos centímetros. Uma buzinadela e outra de resposta, o rapaz do BMW grita e agita a mão direita à frente dos olhos com os dedos bem abertos, "és ceguinha? És ceguinha?" A senhora do Smart bate repetidamente com o indicador na testa, "tem juízo, pá, tem juízo". Mais palavras, alguma mímica e, de repente, os dois calam-se, sorriem e começam a rir com vontade. Levantam as mãos em sinal de paz, desejam bom Natal e vão às suas vidas.

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nuno camarneiro

Delicadamente pra ti, Fausto

Neste fim de semana assisti ao concerto de Fausto Bordalo Dias na Casa da Música e dei por mim a fazer parte de uma celebração que em muito ultrapassou a sua dimensão musical. Um observador imparcial talvez falasse do som, de algumas falhas na voz, das sílabas que por vezes se embrulharam... Mas arrisco-me a dizer que não havia um único espectador imparcial naquela sala. Mais do que um concerto, tratou-se de uma ação de graças, uma ocasião única para retribuirmos com aplausos todas as palavras e melodias que Fausto nos ofereceu ao longo da carreira.

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nuno camarneiro

Uma aldeia no centro da cidade

Os vizinhos conhecem-se pelos nomes, cultivam hortas e jardins comunitários, trocam móveis a que já não dão uso, organizam almoços, jogos de futebol e até magustos, como aconteceu no sábado passado. Não estou a descrever uma aldeia do Minho ou da Beira Baixa, tampouco uma comunidade hippie perdida na serra da Lousã, tudo isto acontece em plena Lisboa, numa rua com escadinhas que pertence ao Bairro dos Anjos.