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Maria Antónia de Almeida Santos

Uma opinião sustentável

De um ponto de vista global e a nível histórico, poucos conceitos têm sido tão úteis e operativos como o do desenvolvimento sustentável. Trouxe-nos a noção do sistémico, no sentido em que cimentou a ideia de que as ações, individuais ou em grupo, têm reflexo no conjunto de todos. Semeou também a consciência do "sustentável" como algo capaz de suprir as necessidades do presente sem comprometer o futuro do planeta. Na sequência, surgiu também o pressuposto de que a diversidade cultural é tão importante como a biodiversidade e, hoje, a pobreza no mundo, a inclusão, a demografia e a migração entram na ordem do dia da discussão mundial.

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Maria do Rosário Pedreira

Os deuses das moscas

Com a idade, tendemos a olhar para o passado em jeito de balanço; mas, curiosamente, arrependemo-nos sobretudo do que não fizemos nem vamos já a tempo de fazer. Cá em casa, tentamos, mesmo assim, combater o vazio mostrando um ao outro o que foi a nossa vida antes de estarmos juntos e revisitando os lugares que nos marcaram. Já fomos, por exemplo, a Macieira de Cambra em busca de uma rapariga com quem o Manel dançara um Verão inteiro (e encontrámo-la, mas era tudo menos uma rapariga); e, mais recentemente, por causa de um casamento no Gerês, fizemos um desvio para eu ir ver o hotel das termas onde ele passava férias com os avós quando era adolescente. Ainda hoje o Manel me fala com saudade daqueles julhos pachorrentos, entre passeios ao rio Homem e jogos de cartas numa varanda larga onde as senhoras inventavam napperons e mexericos, enquanto os maridos, de barrigas fartas de tripas e francesinhas no ano inteiro, tratavam dos intestinos com as águas milagrosas de Caldelas. Nas redondezas, havia, ao que parece, uma imensidão de campos; e, por causa das vacas que ali pastavam, os hóspedes não conseguiam dar descanso aos mata-moscas, ameaçados pelas ferradelas das danadas que, não bastando zumbirem irritantemente, ainda tinham o hábito de pousar onde se sabe.

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Marisa Matias

Palavras

Na sua apresentação no início desta semana, Ursula von der Leyen congratulou-se: "Esta Comissão é tão diversa como a Europa." Referia-se, claro está, às pessoas que iria propor para o novo Colégio. A frase proferida é quase um tratado e encaixa perfeitamente no resto do aparato apresentado, mas a Europa é - por boas e por más razões - muito mais diversa do que esta Comissão. É composta por culturas e origens diferentes, por idiomas diversos, por múltiplos credos. Há na Europa uma concentração obscena de riqueza nas mãos de poucos que convivem com milhões de pessoas que vivem ainda na pobreza. Diversidade existe sim, mas ela não está espelhada, nem de longe, na atual Comissão. Estão representadas as diferentes nacionalidades e línguas? Sim. Há paridade de género? Sim. Mas a Europa não é toda branca e de classe média-alta. Muito menos vive toda numa "caixa" cada vez mais isolada do meio onde se insere. Ao afirmar que a Comissão era tão diversa quanto a Europa, Von der Leyen tornou invisíveis milhões de europeus e de europeias.

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João Taborda da Gama

Notas do Japão (III)

Últimos desejos para os últimos dias em Tóquio é visitar essas duas marcantes instituições nipónicas do período pós-Showa: a Bershka e o Starbucks. A Bershka porque já se sabe que que não tem o mesmo que lá em Portugal, oh pai menos, oh pai nem venhas, oh pai o que é que tu sabes disso, nunca deves ter entrado numa Bershka. Claro que também não foram sensíveis ao argumento de estarmos em Tóquio, o poder de compra aqui ser diferente, a valorização do iene face ao euro, tudo isto é irrelevante, não por as minhas princesas serem insensíveis às grandes dinâmicas do comércio internacional, que até são, mas porque a ida à Bershka não é para comprar, é só para ver. Claro que é só para ver, incluindo ver em braille, mas nunca é só para ver. Porque vamos lá chegar e vai haver aquelas calças - e eu não tenho calças - e aquele top - e eu já não tenho tops nenhuns -, coisas que só há nesta Bershka, do outro lado do mundo, na cidade mais cara do mundo. Mas o que é isso a comparar com a desgraça de não ter calças e as aulas estarem a começar.