Não Há Almoços Grátis

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Exploração e materialismo

Os direitos dos trabalhadores, sobretudo mais jovens, estão em perigo com a transformação económica. Grande parte dos novos empregos, criados por apps na chamada "gig economy" da Uber, da Airbnb, da TaskRabbit, etc., são temporários, contingentes, precários, mal pagos e sem garantias. O mundo ficou chocado com a descrição das condições laborais no armazém da multinacional Amazon em Tilbury, Essex, na reportagem do Sunday Mirror de Londres, publicada a 27 de Novembro do ano passado, depois de o jornalista Alan Selby lá ter trabalhado cinco semanas. Entretanto, muitos empregos são perdidos para países pobres, onde nas sweatshops se opera em circunstâncias aviltantes. Sempre houve exploração, mas estamos a entrar numa nova realidade, revivendo no mundo digital as piores condições do século XIX.

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O avesso e a sublime

Vemos a realidade do avesso. Os acontecimentos que marcam e fazem a actualidade são reais, mas distorcidos e confusos, como o fundo de uma tapeçaria. O seu significado só surgirá quando olharmos do outro lado, vendo o desenho da realidade como foi concebido. O recuo do tempo permite vislumbrar essa diferença, pois, com o passar dos anos, vamos entendendo a dinâmica oculta aos contemporâneos, obrigados a existir no reverso confuso do quotidiano.

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Apanhados de surpresa

É espantoso que as elites nacionais andem alheias ao essencial da situação económico-financeira. Assim, elas ficarão tão surpreendidas com a próxima crise como ficaram com a anterior. Por inacreditável que pareça, o país repete um mesmo erro em menos de dez anos. Pela segunda vez numa geração, a sociedade portuguesa será apanhada de surpresa por uma derrocada devastadora, que está latente há muito tempo, sem que ninguém dê por ela. É hoje evidente que, apesar dos terríveis sofrimentos da crise passada, os portugueses não aprenderam as lições de 2008.

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Somos todos Centeno

A situação económica portuguesa é esquizofrénica. Como no famoso romance de Robert Louis Stevenson de 1886, por vezes parece o próspero Dr. Jekyll, outras o sinistro Mr. Hyde. Isso não é novidade. Vivemos assim até 2008, quando a crise internacional nos obrigou a assumir a contradição. Agora os sinais de recaída amontoam-se a cada dia. Só é estranho que o país reincida na mesma doença tão distraído como há dez anos.

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Epidemia global

O mundo está perigoso, muito perigoso. As ameaças tradicionais - ataques terroristas, ditadores maníacos e escaladas nucleares -, devastadoras em épocas passadas, permanecem pavorosas e ainda podem gerar um drama global. Mas não está aí o sinal mais assustador de todos. Pior do que o crescimento dos maus é a divisão dos bons. O principal drama da conjuntura actual é a fractura radical que se vem instalando em sucessivas sociedades democráticas. Essa é a epidemia que pode vir a sacrificar esta geração.