Mural

Filipe Gil

Começou a Era da distância?

Eram 07.43. A persiana automática abriu-se na hora e na medida certa para que o sol daquela manhã de primavera batesse na cara e o despertasse. Não custou a levantar, o cheiro do café acabado de fazer vinha do balcão da cozinha. Tinha chegado o dia, pensou. Ao mesmo tempo perguntou à assistente pessoal - uma coluna de som carregada de inteligência artificial com a voz da atriz Scarlett Johansson quando era nova - para confirmar a agenda para esse dia. Interrompeu-a quando esta começou a debitar as principais notícias do dia. Não quis saber, naquele dia não.

Ricardo Santos

Quatro Estrelas Michelin

Foram cinco dias a caminhar entre os 1500 e os 3800 metros de altitude, para cima e para baixo pelos Andes peruanos. À custa de um mosquito e da infeção que causou, os pés já estavam a passar para o azul, depois da vermelhidão e das comichões iniciais. Só doíam ao fim de cada dia do trekking, quando o corpo percebia que era tempo de descansar. A última noite antes de chegar a Aguas Calientes - que hoje se chama Machu Picchu Pueblo - foi passada num baldio de uma pequena aldeia que não sei mesmo se teria nome. Num rés-do-chão com as portas fechadas, Freddy, o guia, montou uma discoteca. A bola de espelhos rodava, a música saía do computador e, na parede, posters de duas impossibilidades por aquelas paragens: Tina Turner e uma praia paradisíaca.

1864

Lembranças de conservas

Gosto de recordar pessoas pelas suas manias. Aquelas únicas e originais de que nos lembramos quando estamos longe ou temos saudades. Seja algo físico como uma maneira peculiar de mexer no cabelo para adormecer ou a forma de atender e mexer no telefone ou até mesmo o vestir uma certa peça. Lembro-me de uma certa forma de o meu avô pentear os seus já poucos cabelos num espelho oval com a figura de um jogador dos anos 1940 do Sporting. Ou da forma como o meu pai me dizia para ter cuidado sempre que ia fazer surf: "Não te afastes muito..."

Ricardo Santos

A Sra. Dona Maria Helena

Já sabia quem ela era, mas nunca a tinha visto ao vivo. Estendi a mão quase sem levantar os olhos do chão. A pele marcada e fria dos seus dedos pareceu-me estranha. A cara enrugada, os óculos, o cabelo branco apanhado no topo da cabeça, o sorriso tranquilo deixaram-me mais tranquilo. "Muito prazer", disse-me. Estávamos no 14.º Arrondissement de Paris, na sua casa, onde vivia desde o fim da década de 1930 com o marido, que entretanto já tinha morrido. Pintor, como ela.

João Céu e Silva

O mundo seria maior sem pontes

Falar de pontes pode parecer um debate estéril, mas sem elas o mundo seria maior e hoje em dia queremos tudo à distância de um dedo. O que diriam os milhares de pessoas que vão passar o fim de semana ao Algarve se não tivessem a Ponte 25 de Abril para os pôr em casa em poucos minutos e fossem obrigados a ir até Cacilhas e atravessar o rio num ferry, com filas pelo meio ou ir por Vila Franca de Xira e fazer o único bocado de autoestrada que então existia em Portugal?

1864

"Gripado"

Era o tempo dos liceus e dos contínuos - não havia cá escolas secundárias nem auxiliares educativos -, e o senhor Simão, a quem todos chamavam o Gripado, era figura central daquele nosso pequeno grande mundo, em que tudo assumia proporções imensas e definitivas. Mesmo tudo: as injustiças e a vontade de as mudar; as músicas rebeldes "que vinham de fora" e que o núcleo de rádio passava em afronta ao reitor, que se fazia de surdo para manter a autoridade; os panfletos clandestinos de impressão mal-amanhada que em gestos secretos, e crendo salvar o mundo, trocávamos febrilmente atrás do pavilhão, e as amizades intensas, os segredos, as gargalhadas e as lágrimas, os primeiros amores e os primeiros beijos. Um mundo inteiro a girar no nosso pequeno mundo, que para nós era único, e para sempre o seria.

João Céu e Silva

Grande mesmo era Raul Cortez a fazer de Salieri

Protagonizar os grandes compositores no cinema é uma tarefa tão difícil como a de os próprios comporem grandes sinfonias, nada que tenha proibido vários cineastas de o tentarem. Talvez Mozart seja o mais fácil de replicar, usando os seus traços de genialidade desde criança como fez Milos Forman no premiadíssimo Amadeus. Após 13 nomeações, coisa não tão vulgar assim, levou oito Óscares para várias categorias, e deixou para sempre a imagem na mente dos espectadores do mundo (sur)real de Mozart, fixando a sua vida por várias gerações. No entanto, quando tento recordar o nome do ator que fazia de Mozart, nem uma vaga memória. Após uma busca descobre-se que foi Tom Hulce...

1864

Cem anos depois, igual só mesmo um crash como o de 1929

Estávamos no primeiro dia de 1920 e ninguém sabia o que iria acontecer nessa década. Cem anos depois, repete-se a ignorância. Ou seja, a cronologia dos acontecimentos da história está sempre em aberto e a humanidade ainda longe de ser um programa de computador. Nada melhor para quem gosta de viver a vida de um mundo aventuroso, coisa que dois portugueses fizeram entre 1920 e 1929. A saber: os aviadores Gago Coutinho e Sacadura Cabral, que resolveram voar sobre o Atlântico entre Lisboa e o Rio de Janeiro. A viagem não foi fácil e o relato que se tem dela, se bem que muitas vezes pareça que foi partir e chegar, representou uma grande aventura e recolha de conhecimentos. Tanto que quando Charles Lindbergh fez o mesmo - pelo Atlântico norte, em 1927 -, agradeceu o que os dois portugueses tinham feito. Mesmo que esses cinco anos tenham proporcionado ao norte-americano uma evolução nos aviões e na navegação que lhe permitiram cumprir a distância numa única viagem.