Mural

João Céu e Silva

11/9, subprime e covid-19. Agora só faltam os extraterrestres

Depois de esta pandemia acabar, chegará a hora em que ficaremos mentalmente livres para pensar o que quisermos e olhar o mundo com mais à vontade, pelo menos até ao regresso do vírus - se isso acontecer - em novembro. Sob essa ameaça temporal, preferi fazer previsões à distância de umas décadas e cheguei à conclusão de que mesmo sendo um tempo novo teremos ainda direito a grandes surpresas pela nossa frente - como foi esta quarentena mundial. A história não acabou e se o século XXI tem sido pródigo em situações inesperadas, decerto que nos 80 anos que faltam para o seu fim outros prodígios acontecerão.

1864

Lembranças de conservas

Gosto de recordar pessoas pelas suas manias. Aquelas únicas e originais de que nos lembramos quando estamos longe ou temos saudades. Seja algo físico como uma maneira peculiar de mexer no cabelo para adormecer ou a forma de atender e mexer no telefone ou até mesmo o vestir uma certa peça. Lembro-me de uma certa forma de o meu avô pentear os seus já poucos cabelos num espelho oval com a figura de um jogador dos anos 1940 do Sporting. Ou da forma como o meu pai me dizia para ter cuidado sempre que ia fazer surf: "Não te afastes muito..."

1864

Twitter: a rede social perfeita...ou talvez não

Para quem não sabe - eu também não sabia - a maioria das redes sociais têm três fases. Sim, nada cientificamente provado, mas na minha experiência de utilizador bastante regular de redes sociais é isso que se passa. Sobretudo com uma rede diferente como o Twitter. Passo a explicar. A rede foi fundada pelos norte-americanos Jack Dorsey, Ed Williams, Biz Stone e Noah Glass em 2006 e apenas permitia frases até aos 140 carateres nos primeiros anos. Uma espécie de sms da internet. E, ao contrário de outras redes, que eram mais voyeuristas e partilhavam fotos, sobretudo. No Twitter era mais um espaço de partilha de ideias e opiniões.

Filipe Gil

Espirrar a primavera

O despertador toca. Enquanto se estica para carregar no snooze do despertador e ficar mais uns minutos a contrariar a realidade, é invadido por espirros. Muitos, oito ou nove sem parar. Do outro lado da cama resmunga-se pelo barulho. Sem vontade e com a sensação de que acabou de levar vários estalos na cara, cambaleia para o WC. Mal dá três passos e abre a porta do quarto, mais cinco espirros tolhem-lhe o movimento. Ouve um chiiiuuu ao fundo, agora vindo do outro quarto, o dos miúdos. Estranho o tom acusatório.

João Céu e Silva

As epidemias preguiçosas da modernidade

Num país atrasado como era Portugal no tempo do anterior regime era normal que as novidades fossem um sinal da modernidade a que os portugueses não tinham acesso e, portanto, estivessem muito disponíveis para abraçar. Fazer bandas como as dos Beatles mesmo que os discos deles só chegassem meses depois, por exemplo. Após a Revolução de Abril, ao olharem para as fotografias dos revolucionários, todos os homens deixaram crescer os cabelos e as barbas desordenadamente como as de Che Guevara e Fidel, por exemplo. Quando chegaram os CD, 99% abandonarem o vinil em pouco tempo, depois o MP3 e os downloads, por exemplo...

Opinião

Aquelas quatro notas

Pan pan pan paaam... Pan pan pan paam... Quatro notas límpidas - e todo um universo naquela ideia simples. Como uma pergunta lançada no ar, que se vai repetindo nos vários instrumentos de infinitas maneiras, aquele pan pan pan paam sucede-se numa escalada cada vez mais tensa, atravessa a orquestra, reinventa-se em timbres e alturas e, já à beira de não poder prosseguir, atinge um ponto de luz, e espraia-se no horizonte - para logo recomeçar. São talvez as mais famosas quatro notas do nosso imaginário musical, que as tornou suas de muitas maneiras: nas canções pop rock, no cinema, nos desenhos animados, no humor, e até na resistência à tirania. E se um cão chamado Beethoven nos faz sorrir, um cartoon nos arranca uma gargalhada e uma boa rockalhada à base das famosas quatro notas nos enche de pica (talvez não funcione para todos), a sua utilização na luta contra a guerra e a opressão não podia ser mais apropriada ao seu criador - Beethoven, claro.

1864

Cem anos depois, igual só mesmo um crash como o de 1929

Estávamos no primeiro dia de 1920 e ninguém sabia o que iria acontecer nessa década. Cem anos depois, repete-se a ignorância. Ou seja, a cronologia dos acontecimentos da história está sempre em aberto e a humanidade ainda longe de ser um programa de computador. Nada melhor para quem gosta de viver a vida de um mundo aventuroso, coisa que dois portugueses fizeram entre 1920 e 1929. A saber: os aviadores Gago Coutinho e Sacadura Cabral, que resolveram voar sobre o Atlântico entre Lisboa e o Rio de Janeiro. A viagem não foi fácil e o relato que se tem dela, se bem que muitas vezes pareça que foi partir e chegar, representou uma grande aventura e recolha de conhecimentos. Tanto que quando Charles Lindbergh fez o mesmo - pelo Atlântico norte, em 1927 -, agradeceu o que os dois portugueses tinham feito. Mesmo que esses cinco anos tenham proporcionado ao norte-americano uma evolução nos aviões e na navegação que lhe permitiram cumprir a distância numa única viagem.