Mural

1864

"Não estou a fazer nada"

As oito letras da palavra "governar" correspondem, segundo o dicionário, a "exercer o governo de, administrar, gerir, dominar ou imperar", entre outras possibilidades. É verdade que estes significados não são desconhecidos da maioria dos portugueses, no entanto, as recentes eleições explicaram melhor que, ao verem surgir os resultados eleitorais, "exercer o governo" não era a primeira preocupação dos eleitores (e comentadores), preferindo antes conjugar os dois últimos significados: dominar ou imperar. Era só disso que se falava face aos números que o governo precisava para ser o dono do país durante quatro anos enquanto se faziam apostas sobre os partidos que teriam de se deixar "dominar" para que houvesse um futuro a quatro anos.

1864

A salto

Um dia desapareceu. Não fez avisos, não deixou carta, nenhuma explicação. Simplesmente deixou de aparecer na loja de tecidos do velho tio que, mais por piedade, o acolhera. António atendia às vezes ao balcão e até encantava as senhoras da boa sociedade provinciana, mas quando a conversa passava para os tecidos a coisa descarrilava. António não distinguia um tweed de um algodão, uma seda de um linho fino, ou de uma chita barata. E o pior, invetivava o tio, irrepreensível no seu fato de bom corte, era que António não queria aprender. O jovem olhava-o com um olhar sonhador, dizia "sim, meu tio", e calava-se.

Tiago Guilherme

"Jornalar" é rotina prazerosa

Há aquelas rotinas que quase esquecemos, de tão automáticas. As básicas, como os cuidados de higiene, que fazemos quando acordamos e antes de nos deitarmos, e aquelas que foram surgindo ao longo do tempo e que são adaptadas às circunstâncias. O café onde tomamos o pequeno-almoço, o transporte que apanhamos para ir trabalhar, o tempo que dedicamos à TV ou às redes sociais depois de jantar... Estas rotinas, quase obrigatórias, acrescentam pouco ou nada às nossas vidas. São chatas, repetitivas e raramente saem da atividade normal.

Filipe Gil

O vazio da mente, mente?

Há apps. Há tutoriais no YouTube. Há livros e mais livros que enchem secções próprias nas livrarias. E inúmeros artigos na comunicação social (nacional e internacional). É hoje possível saber tudo, mas tudo, sobre o assunto que está na ordem do dia há vários anos: a meditação. Parece ser a cura para os males dos tempos que vivemos. Entre eles a falta de sono, a obesidade, a autoconfiança e a calma interior - aquela mesmo que nos faz falta quando respondemos acima do tom ao chefe mais chato. O truque da meditação, dizem "as fontes ligadas ao processo", é esvaziar a mente. E é aí mesmo que a coisa se torna herculínea. Porque é tão simples quanto difícil. Já tentei. Juro. Inúmeras vezes. Passei por todos os processos. Desde o vídeo do YouTube com música com passarinhos que ajudam, de facto, a adormecer - mas só. Às apps com vozes radiofónicas que nos tentam acalmar. E acalmam. De tal forma que nessa altura encontro tempo para ter ideias para a minha vida. Para artigos, para reportagens, para finalmente pensar em terminar com aquele seguro parvo que subscrevi sem saber bem porquê, ou para começar a pensar naquela viagem que adio há anos. Consigo fazer isso tudo menos o real designo da meditação: ter a cabeça vazia. Uma das apps, que tem muito sucesso e que já ganhou vários prémios internacionais (Headspace), guia-nos pelo processo. Tenta ensinar-nos a respirar, a sentir o estômago, os pelos da nuca e a percorrermos o corpo para termos noção do que sentimos e somos. Antes de chegar aos joelhos acontecem-me, sistematicamente, duas coisas: ou tenho uma ideia, levanto-me e vou apontar no smartphone; ou adormeço. Sendo a segunda a mais recorrente. Começo a pensar seriamente que a meditação não funciona com mentes que se querem criativas. Tudo isto, da cabeça vazia, fez-me recordar uma história. Há uns anos, no tempo em que era muito feliz nos corredores do Liceu Pedro Nunes, ia frequentemente a casa de um dos meus melhores amigos, o Ricardo. Não raras as vezes pedia-me para fazer pouco barulho porque o pai estava a meditar no quarto. Lembro-me de ficar maravilhado. Ter um pai que medita deve ser brutal. Passados uns belos anos, e sendo eu agora pai de dois rapazes bem ativos, nada me tira da cabeça que era truque do senhor para poder descansar, dormitar e ter paz por uns momentos no final do dia do regresso do trabalho. Este foi talvez o grande ensinamento que a meditação me deu. E mais dia menos dias vou começar a meditar como a metodologia do pai do Ricardo.

Paula Sá

Uma costureira, um sexólogo e a nossa generosidade

Numa redação de colegas doutos e experientes, eu, jovem jornalista, fui atirada às feras. Enviada ao Porto para cobrir um congresso de sexologia - tema apelativo mas sem especialistas ou voluntários para o tratar -, cheguei à estação de São Bento muito em cima da hora. Quando tudo podia correr mal, com um frio de rachar, do meu casacão caiu o único botão que impedia o vento gélido de me enregelar. Corri para a Baixa e entrei numa retrosaria esbaforida. Contei a minha desgraça à empregada de balcão e pedi um carro de linhas e uma agulha.

Opinião

A mosca da cereja que veio do Japão para o Fundão

Com Dum Dum não escapa um. Mata moscas, melgas e mosquitos. Recordo-me da embalagem do spray e do cheiro intenso que iria gasear o mosquedo da quinta dos meus avós. Era presença indispensável no cabaz de compras da minha avó Piedade quando se ia aviar à loja do Ti Chico Ferrador, na estação dos comboios de Castelo Novo, aos pés de granito da serra da Gardunha. No cabaz vinham ainda a cera búfalo, o tulicreme e o pão da "arraia". Era o princípio do verão, o junho do nosso contentamento. As tardes ficavam longas e quentes e as moscas começavam a sua lenta invasão, zumbindo em sonolência molengona a perturbar a sesta. A minha avó gaseava-as com "remédio para as moscas". O meu avô Manel preferia um método mais sustentável. Enrolava o Jornal do Fundão como se fosse um taco de basebol e pumba, sem dó nem piedade, acrescentava vírgulas e pontos finais esborrachando-as na capa do JF . Isto no tempo em que os jornais tinham outra utilidade, ou pelo menos alguma. Depois vieram outros métodos drosomicidas, como os sacos de água pendurados à porta ou os esturricantes aparelhos de néon, mas nunca nada foi tão eficiente como o Jornal do Fundão nas mãos do meu avô. Era junho e o ar cheirava a cerejas, que pintavam as árvores cor de rubi e se depenicavam em malgas com água fresca. Não haverá nunca sabor como o dessas cerejas, as dos meus avós. Eram pequenas mas carnudas, com lábios de beijos ternos. Também gostávamos de cuspir os caroços para o quintal para ver se mais nasciam. Quantas mais se cuspiam, mais nasciam. O princípio dos verões na quinta dos meus avós era o tempo das cerejas e das moscas. Agora as moscas são uma das grandes ameaças ao ouro vermelho do Fundão. A insaciável mosca tem nome de moto japonesa, chama-se Drosophila suzukii e, reza a lenda, veio a esvoaçar do Japão, onde a cereja é fruto sagrado de samurai, de vida breve mas intensa. No Japão, as cerejeiras chamam-se sakuras. Existem mais de 600 tipos de sakura, com flores rosa, branca e amarela. As cerejas japonesas chamam-se sakuranbo e são também um símbolo de amor erótico. Há uma sakura com mais de dois mil anos chamada jindai zakura. Tem mais de dez metros de altura e reza a lenda que foi plantada pelo imperador Takeru. Do Japão, voam charters de turistas para o Fundão para ver as cerejeiras em flor e o nosso "hanami beirão" (cerejeiras em flor). E se os turistas são que nem moscas, parece que as moscas do Japão aterraram no Fundão. A voraz suzukii, também conhecida como mosca-da-asa-manchada ou mosca-do-vinagre, é uma praga que perturba a produção de cereja na Cova da Beira. A glutona nipónica perfura o fruto aurífico, colocando lá os seus ovinhos que geram larvas e se alimentam do fruto da nossa seleção, até ele tombar podre e inútil. Há vários meios de combater o mosquedo, mas nenhum seria tão eficaz como o Jornal do Fundão nas mãos do meu avô ou a metralhadora Dum Dum nas mãos da minha avó.