Mural

Paula Sá

Uma costureira, um sexólogo e a nossa generosidade

Numa redação de colegas doutos e experientes, eu, jovem jornalista, fui atirada às feras. Enviada ao Porto para cobrir um congresso de sexologia - tema apelativo mas sem especialistas ou voluntários para o tratar -, cheguei à estação de São Bento muito em cima da hora. Quando tudo podia correr mal, com um frio de rachar, do meu casacão caiu o único botão que impedia o vento gélido de me enregelar. Corri para a Baixa e entrei numa retrosaria esbaforida. Contei a minha desgraça à empregada de balcão e pedi um carro de linhas e uma agulha.

João Céu e Silva

Saramago e Lobo Antunes na inquisição

Quanto tempo é necessário para se conhecer o escritor António Lobo Antunes e escrever sobre ele e a sua obra? No meu caso, levou dois anos de entrevistas quase semanais, de que resultaram 500 páginas - após muito desbaste e autocensura - num volume intitulado Uma Longa Viagem com António Lobo Antunes. Diga-se que falar com um escritor desta dimensão não é coisa fácil e, para se chegar a um resultado biográfico/literário aceitável, é necessário conversar muito. Conseguir aprofundar a vida, a escrita, a publicação e ao que se negou. Sem deixar de voltar aos temas tempos depois para ver se era mesmo verdade o que tinha sido dito, tanto assim que entre encontros acabou um livro, publicou um segundo e começou o terceiro.

Ricardo Santos

Mon chéri

"Nestas serras o esquecimento está cheio de memória." A cem quilómetros de Cáceres, na Extremadura espanhola, a placa junto ao miradouro é daquelas que fazem pensar. A vista para as tais serras impressiona. Esta é terra de cereja, é o Vale do Jerte, a área de maior produção de cerejas de Espanha, com mais de um milhão e meio de árvores. E é a terra de um dos maiores massacres da história de Espanha. Mirador de la Memória é o nome daquele ponto de vista pejado de estátuas. Foi idealizado por Francisco Cedenilla Carrasco e é uma homenagem às vítimas da Guerra Civil Espanhola e da ditadura franquista. As imponentes estátuas têm marcas de balas do tamanho de cerejas. Em 2011, três anos depois da inauguração do espaço, pai e filho vieram aqui praticar tiro ao alvo, insatisfeitos com a democracia. Vandalizaram o miradouro a tiros de caçadeira. O Agrupamento de Cooperativas do Vale de Jerte tem mais de 3500 sócios, representa 80% da economia local e chega a uma média anual de 15 milhões de quilos de cereja. Feitas as contas, são cerca de 50 milhões de euros arrecadados por ano, fruto (que melhor palavra?) das vendas para o mercado espanhol e internacional. A Ferrero vem aqui buscar cerejas para as enfiar dentro de um bombom de chocolate inundado por licor. É um dos campeões de vendas da marca em cada Natal. E a cada Natal recorda-se por estas terras o 25 de dezembro de 1937, quando um grupo de 60 guardas civis fuzilou 34 homens no campo de tiro de um quartel de Cáceres, a cidade-museu da Extremadura. Eram professores, sindicalistas, militantes de partidos democráticos. E nem o alcaide da cidade escapou. Nos dias seguintes, a cifra chegou às 196 execuções. No tempo das cerejas, que não se esqueça o passado.

1864

A urgência de ser eurofederalista no século XXI

É certo que todos somos condicionados pelas nossas experiências de vida. E ter vivido em Bruxelas e andado na Escola Europeia a meio da adolescência até entrar na faculdade em Lisboa influenciou muito a forma como vejo a organização da sociedade. E foi na escola, convivendo com colegas de outros Estados europeus - sentando-me na carteira ao lado de franceses e alemães, jogando à bola com holandeses e italianos -, que entendi que as diferenças existentes não são muito diversas das que se encontram entre pessoas de cidades e regiões das mesmas nações. Um lisboeta e um portuense talvez até tenham mais em comum com um parisiense ou com um milanês do que com um santacombadense ou com um barranquense.

Leonídio Paulo Ferreira

Trump adoraria ser adorado assim

A primeira vez que visitei uma biblioteca presidencial americana foi há 20 anos, em Boston, todo um museu dedicado a John Kennedy. Até há uma reprodução do estúdio de TV onde num debate o luminoso filho da aristocracia do Massachusetts esmagou o soturno Richard Nixon, californiano que subira a pulso até à vice-presidência e um dia chegaria mesmo a presidente. Também estão em exposição, claro, vestidos de Jackie.