Mural

Catarina Pires

Voar ou o Euromilhões ao contrário

Aperto o cinto, fecho os olhos, agarro-me aos braços da cadeira e tento apagar o cérebro (o que no meu caso é quase impossível, dado o nível de overthinking que o encharca). Isto acontece em todas as descolagens e aterragens. Ao mínimo solavanco, sobressalto-me de tal forma que o vizinho do lado, conhecido ou desconhecido, dá sinal de contágio. O medo tem esse efeito. Durante a viagem vou de olhos postos no ecrã com o aviãozinho, a ver em que ponto da rota estou e o tempo que falta para chegar. De tempos a tempos, observo, perscrutante, o estado de espírito da tripulação. Nem as refeições nem o chá, café ou laranjada me distraem.

Opinião

Agostar

Em francês há um nome para as pessoas que tiram férias em agosto: aoûtiens, qualquer coisa como agostianos ou, porque não, agostinhos, que também serve, indica-me o dicionário, para frutos que aparecem em agosto. Ora eu não sou agostinha, sou mais juinetiste ou até mesmo junina (para os adeptos das férias neste mês os franceses já não têm nome). Ou seja, faço parte dos que estão com pressa para ir de férias, gostam dos dias mais longos, querem evitar multidões e os preços exorbitantes da época alta. Espera-me depois um agosto tranquilo na cidade e geralmente complicado no trabalho... porque está toda a gente de férias. Mas claro que quando era pequena pertenci muitas vezes à maioria moral de agostinhos e acho que um nome faz mesmo falta. É daquelas palavras que não sabíamos que faziam falta até vermos que os outros têm, como quando os estrangeiros ficam apaixonados pela nossa saudade. E esta nem sequer é intraduzível. Intraduzível sim foi o meu espanto ao procurar sítios para ficar na primeira semana de agosto: pagar por uma semana o dobro do que pago de renda não é uma opção e uma tenda no quintal de alguém por 40 euros por noite só me faz rir.

Miguel Marujo

Beijos que enchem o mar

Não é a página em branco, vazia de palavras, que assusta o jornalista. É a falta de palavras exatas para contar o que se viu e ouviu e tocou e cheirou e provou. Deixemos os cinco sentidos assim, na cadência da conjunção, evitando as vírgulas abruptas, que nos ensinam a respirar entre as palavras mas tiram o prazer de ir somando palavras enquanto nos lembramos de cada um dos cinco sentidos. De novo, não é a página vazia que assusta. Cada um dos sentidos preenche um espaço na página branca e vai dando corpo ao texto. Num sábado, 6 de julho, fomos despertados do torpor de uns dias de férias com a notícia: "Morreu João Gilberto." E mais uma vez apressámo-nos em obituários que se devoram nas redes sociais (pelo menos é uma colorida página de necrologia) até ao próximo morto. Acaba por faltar sempre tempo, daquele que vivíamos nas longas férias do verão azul da infância (e nunca os dias sem fazer nada eram dias vazios), enquanto levávamos a bicicleta pelos defensões das marinhas (ainda havia montes de sal) para ouvir o restolhar das águas e dos pássaros. E já nos estávamos a perder de novo. Falta sempre tempo - para saborear, para ir ouvir de novo, ler as palavras que acompanham o violão, tatear os discos, cheirar os corpos. "Melhor do que o silêncio, só João", arrumou Caetano Veloso. E assim nos ensinou como nunca ganha o vazio, qualquer vazio. Damos outro salto no tempo - e não há nenhum vazio entre este tempo e esse, em Manchester, quando, em maio de 2017, no final de um minuto de silêncio de homenagem pelas vítimas do atentado no concerto de Ariana Grande, a voz de uma mulher irrompeu na multidão a cantar Don't Look Back in Anger, e um a um todos em volta se foram juntando e cantando a canção dos Oasis. A música salva, sabemos, por isso quando João nos sussurrou Chega de Saudade, percebemos que vazio algum nos ganha. "Vai minha tristeza/ E diz a ela/ Que sem ela não pode ser", e logo à frente nos enche tudo de futuros. "Mas se ela voltar, se ela voltar/ Que coisa linda, que coisa louca/ Pois há menos peixinhos a nadar no mar/ Do que os beijinhos/ Que eu darei na sua boca."

Ricardo Santos

Mon chéri

"Nestas serras o esquecimento está cheio de memória." A cem quilómetros de Cáceres, na Extremadura espanhola, a placa junto ao miradouro é daquelas que fazem pensar. A vista para as tais serras impressiona. Esta é terra de cereja, é o Vale do Jerte, a área de maior produção de cerejas de Espanha, com mais de um milhão e meio de árvores. E é a terra de um dos maiores massacres da história de Espanha. Mirador de la Memória é o nome daquele ponto de vista pejado de estátuas. Foi idealizado por Francisco Cedenilla Carrasco e é uma homenagem às vítimas da Guerra Civil Espanhola e da ditadura franquista. As imponentes estátuas têm marcas de balas do tamanho de cerejas. Em 2011, três anos depois da inauguração do espaço, pai e filho vieram aqui praticar tiro ao alvo, insatisfeitos com a democracia. Vandalizaram o miradouro a tiros de caçadeira. O Agrupamento de Cooperativas do Vale de Jerte tem mais de 3500 sócios, representa 80% da economia local e chega a uma média anual de 15 milhões de quilos de cereja. Feitas as contas, são cerca de 50 milhões de euros arrecadados por ano, fruto (que melhor palavra?) das vendas para o mercado espanhol e internacional. A Ferrero vem aqui buscar cerejas para as enfiar dentro de um bombom de chocolate inundado por licor. É um dos campeões de vendas da marca em cada Natal. E a cada Natal recorda-se por estas terras o 25 de dezembro de 1937, quando um grupo de 60 guardas civis fuzilou 34 homens no campo de tiro de um quartel de Cáceres, a cidade-museu da Extremadura. Eram professores, sindicalistas, militantes de partidos democráticos. E nem o alcaide da cidade escapou. Nos dias seguintes, a cifra chegou às 196 execuções. No tempo das cerejas, que não se esqueça o passado.

1864

A urgência de ser eurofederalista no século XXI

É certo que todos somos condicionados pelas nossas experiências de vida. E ter vivido em Bruxelas e andado na Escola Europeia a meio da adolescência até entrar na faculdade em Lisboa influenciou muito a forma como vejo a organização da sociedade. E foi na escola, convivendo com colegas de outros Estados europeus - sentando-me na carteira ao lado de franceses e alemães, jogando à bola com holandeses e italianos -, que entendi que as diferenças existentes não são muito diversas das que se encontram entre pessoas de cidades e regiões das mesmas nações. Um lisboeta e um portuense talvez até tenham mais em comum com um parisiense ou com um milanês do que com um santacombadense ou com um barranquense.

Leonídio Paulo Ferreira

A Europa cabe num café

Nunca estive em Vladivostoque, mas sei que se entrar num dos seus cafés sentirei estar na Europa. Já estive em Buenos Aires, no café Tortoni, e senti mesmo estar em casa. Alguns dirão ter sentido isso em Boston. Ou em Montreal. Assim, onde começa e onde acaba a Europa? Do Atlântico aos Urais, há quem diga como o slogan na moda a seguir à queda do Muro de Berlim, outros procurando respeitar o que mostram os mapas. Sabe a pouco.

Catarina Pires

Pensas que estás na barraca onde vives?

No outro dia, uma professora perguntou isto à minha filha, que tem 12 anos e está no 6º ano. "Pensas que estás na barraca onde vives?" Ela contou-me, ao jantar, olhar crítico, mas descontração saudável, que tanto me descansa. "Achas bem, mãe?" Primeira (e estúpida) reação minha: "O que é que fizeste para a professora perguntar isso?" Ela, com aquele ar incrédulo dos pré-adolescentes: "Só estava torta na cadeira, mãe. Achas bem uma professora perguntar isso?"