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Diário do Mundial

Uma Máquina Para Matar Purismos

Ao minuto 39 do Espanha-Irão, Sergio Ramos, descaído sobre a esquerda, variou de flanco para a direita do meio-campo ofensivo. A bola descreveu uma parábola perfeita e chegou a Carvajal, que almofadou um primeiro toque imaculado e a deixou nos pés de outro colega. Não foi um momento particularmente memorável; qualquer equipa tem dois ou três por jogo. A diferença é que a Espanha tem vinte ou trinta. Nenhuma outra selecção presente na Rússia faz um investimento estético tão exorbitante na acção mais simples. Qualquer triangulação no meio-campo se organiza espontaneamente numa sequência de Fibonacci. Cada atraso ao guarda-redes acrescenta um anexo ao Museu do Prado. Esta prodigalidade com a própria excelência não é, evidentemente, saudável. Como o hábito de vestir um roupão de três mil euros para ir fumar à marquise, trata-se de um distúrbio, e assim deve ser encarado.