Miriam Halpern Pereira

Miriam Halpern Pereira

Da censura de Estado à criminalização: a violência e o medo

A censura de Estado constitui sempre uma forma de violência. A limitação da liberdade de expressão mata o pensamento e o sentimento, que perecem sem a sua manifestação linguística e imagética. O Estado Novo montou uma máquina administrativa para aplicar a censura a todas as formas de expressão do pensamento e do sentimento. Limitava a informação disponível e portanto o desenvolvimento do nosso raciocínio, carecíamos de instrumentos fundamentais para compreender o mundo em que vivíamos. Limitava evidentemente a capacidade de criação e de inovação. O objetivo era exatamente esse, encerrar-nos no estreito molde ideológico, político e sociológico delineado pelo Estado Novo. Era em si uma forma de enorme violência psicológica, consolidada mediante um colete de forças ideológico-político imposto no ensino, de que o livro único era o produto principal. As censuras sociais e familiares tendiam a inserir-se neste monstruoso edifício. O medo era uma consequência inevitável e essencial: medo da ostracização, da perda do emprego, da prisão e da solidão. Induzia a obediência e a submissão a uma autoridade inquestionável.