Miguel Romão

Miguel Romão

Ainda (e sempre) Otelo

A minha avó materna, nascida em 1914, não tinha o que chamaríamos hoje de grande consciência política. Tinha algumas convicções, poucas e absolutamente seguras, que valem o que valem: a de que Salazar e Marcello Caetano eram simplesmente uns "cínicos", o que, para ela, significava que provavelmente pensavam uma coisa e diziam outra; e que Otelo e Jorge Sampaio eram as melhores pessoas que lhe tinham aparecido, no seu julgamento simultaneamente sábio e ingénuo, como figuras políticas depois do 25 de Abril. Várias vezes a ouvi, eu criança, provavelmente passeado por ela em direção ao Mercado de Campo de Ourique, elogiar Otelo - e estamos a falar de 1981, 82, 83. Tal como, depois, a via com imensa atenção às intervenções públicas, na televisão, de Jorge Sampaio.

Miguel Romão

Duas histórias, a mesma racionalidade

1 Pedro Adão e Silva, que conheço há mais de 20 anos e de quem me considero amigo, será seguramente um excelente responsável pelas comemorações dos 50 anos do 25 de Abril de 1974. Não é por ser socialista ou próximo do PS, nem por ser uma figura conhecida na comunicação social ou sequer por ser um professor universitário que faz a sua carreira pública há muitos anos, avaliado seguramente em diversos momentos. É provavelmente por ser também quase o seu "oposto": alguém que cresceu na democracia, que não se comoveu ou subjugou a convites e propostas partidárias ou institucionais, que fez o seu próprio caminho, bom, mau, mediano, como quiserem - mas que é o próprio reflexo de Abril: liberdade, não enfeudamento ao Estado ou a capitalistas em regime de monopólio, mundividência, navegar por latitudes mais amplas, individuais e coletivas.

Miguel Romão

Peste, água, fogo

Innerarity escrevia, há uma década, sobre a atual "coligação dos vivos" (O Futuro e os Seus Inimigos), pensando num futuro cada vez mais difícil de prever e de controlar, desde logo pela nossa imediatez e curto prazo da decisão política e a centrifugação do tempo de pensamento e de decisão, distantes de uma ideia de solidariedade intergeracional para o futuro. Ainda muito antes de haver covid-19. E ainda antes de uma urgência tornada mais premente, mas anunciada, passe a redundância, em torno da pressão sobre o ambiente e as alterações climáticas.

Miguel Romão

Uma justiça feita por pessoas – e as suas circunstâncias

Um aspeto fundamental da decência devida do Estado tem que ver com o funcionamento da justiça. Neste momento, o que temos é uma realidade de autoavaliação e de autopromoção em cargos judiciários, quando a justiça é um assunto que a todos envolve. E uma progressão na carreira, e para os lugares profissionais nos tribunais superiores, que valoriza quase automaticamente os profissionais na função. Tentou-se em tempos fixar um recrutamento mais alargado e mais publicamente aferível, boicote com grande sucesso, no nosso contexto paroquial-corporativo.