Miguel Romão

Miguel Romão

A nossa Polícia Judiciária

Nesta semana houve pelo menos uma boa notícia: o reforço da capacidade da Polícia Judiciária (PJ), com a entrada em funções de quase 100 novos inspetores. E, especialmente, o planeamento de novas entradas para os próximos anos, da forma como qualquer recrutamento para serviços públicos deveria ser feito, aparentemente com previsão, tempo e cuidado. Nada disso se deve, infelizmente, creio, a nenhum político ou a nenhuma política, apesar da necessidade da sua condescendência e da sua vontade de correr para a fotografia. Imagino que se deva sobretudo a Luís Neves, o diretor Nacional da PJ, e à sua direção, alguém que não só sabe o que faz como sabe como fazer.

Miguel Romão

Elogio da coragem

No documentário sobre a vida de Robert MacNamara e o seu exercício de cargos públicos em tempo de guerra, The Fog of War, de Errol Morris, o antigo Secretário da Defesa norte-americano (1961-1968) durante a guerra do Vietname, sob as presidências de Kennedy e de Johnson, relata um facto pouco conhecido. Durante a Segunda Guerra Mundial, a dado momento verificou-se que 20% das missões aéreas norte-americanas eram abortadas no seu início pelos próprios pilotos, com diversas justificações, desde logo falhas técnicas ou problemas de combustível. Recolhidos e analisados com detalhe os dados, descobriu-se, no entanto, a verdadeira causa dessas desistências e que era não mais do que o medo dos pilotos, sabendo-se que muitos deles seriam abatidos e não voltariam da missão. A solução encontrada foi apenas uma: os seus comandantes passaram a integrar igualmente as missões aéreas. E as desistências desceram, de um dia para o outro, para apenas 4%.

Miguel Romão

Vamos falar de remunerações nos serviços públicos?

No dia em que foi pública a contratação pelo Ministério das Finanças de Sérgio Figueiredo como consultor, com uma remuneração equivalente à de ministro, um amigo meu, de competência e seriedade imbatíveis, recusava com grande tristeza um cargo de direção superior numa entidade pública nacional de referência para o qual fora convidado. Porquê? Porque verificara que o seu salário seria em torno dos 2000 euros e, vivendo a mais de 250 quilómetros de Lisboa, e uma vez que era natural e pressuposta a exclusividade de funções e a permanência na capital, isso não chegaria sequer para pagar o arrendamento de uma casa adicional em Lisboa, mais combustível e portagens, querendo ver a família e amigos ao fim-de-semana, esse luxo asiático.

Opinião

A sã ingenuidade de António Costa Silva

No dia 8 de abril, intervindo no parlamento e em resposta ao Bloco de Esquerda, na apresentação do programa de Governo, o ministro da Economia e do Mar mostrou-se concordante com a introdução de um imposto sobre os lucros extraordinários de empresas, desde logo as energéticas, em virtude da situação de guerra e do aumento galopante dos preços aos consumidores, na sequência aliás de uma recomendação da Comissão Europeia e de outras instituições internacionais. Os ministros das Finanças e do Ambiente, este último que tutela a energia, devem ter adorado a informação recebida em direto no plenário da Assembleia da República. Poucos dias depois, Costa Silva viria, contudo, a assegurar que a medida nunca fora discutida em Conselho de Ministros e que não estava "de todo" a ser considerada. Para inauguração de funções, não está mal.

Opinião

O novo programa de Governo para a Justiça

Não há qualquer dúvida de que o programa eleitoral do Partido Socialista foi devidamente referendado e apoiado pelo voto popular nas últimas eleições legislativas. E isso retrata-se num programa de Governo que, também na área da justiça, se repercute na escolha de prioridades e de ações, que o novo executivo e o novo parlamento, de maioria absoluta do PS, devem assumir e implementar, usando a liberdade e a legitimidade democráticas que atingiram.

Miguel Romão

A Ucrânia é só o princípio?

A recente intervenção militar da Rússia na Ucrânia veio baralhar as cartas que o Ocidente contava usar para os próximos anos. Quando se esperava - pelo menos os não militares - que o quadro internacional estabilizasse a favor da perspetiva ocidental do mundo, eis que a Rússia resolve mudar de jogo e entrar pelas fronteiras da Europa. Fronteira é isso mesmo, frons, testa, espaço de embate à primeira tentativa. E a Ucrânia, na fronteira entre o mundo eslavo e a civilização ocidental, é um campo de batalha apto e privilegiado para esse confronto.

Miguel Romão

Rui Rio e o seu programa

PS e PSD, os dois grandes partidos, oferecem uma perspetiva política que provavelmente agrada à larga maioria dos eleitores. Será assim? Há muito de conservação do que existe que deve ser valorizado em termos eleitorais. Com uma parte cada vez mais substancial da população e do eleitorado mais envelhecidos, a tendência natural será a de se votar no que se crê que se conhece e reconhece. António Costa e Rui Rio, entretanto, fizeram também questão em personalizar, de forma muito direta, esta eleição. Escolher-se-á, portanto, o próximo primeiro-ministro, seja assim ou não (e há seguramente todo um país órfão, nestas semanas, de Marcelo Rebelo de Sousa, esse pai de todos, agora ausente no seu carinho omnipresente e soberano).