Miguel Marujo

Miguel Marujo

Beijos que enchem o mar

Não é a página em branco, vazia de palavras, que assusta o jornalista. É a falta de palavras exatas para contar o que se viu e ouviu e tocou e cheirou e provou. Deixemos os cinco sentidos assim, na cadência da conjunção, evitando as vírgulas abruptas, que nos ensinam a respirar entre as palavras mas tiram o prazer de ir somando palavras enquanto nos lembramos de cada um dos cinco sentidos. De novo, não é a página vazia que assusta. Cada um dos sentidos preenche um espaço na página branca e vai dando corpo ao texto. Num sábado, 6 de julho, fomos despertados do torpor de uns dias de férias com a notícia: "Morreu João Gilberto." E mais uma vez apressámo-nos em obituários que se devoram nas redes sociais (pelo menos é uma colorida página de necrologia) até ao próximo morto. Acaba por faltar sempre tempo, daquele que vivíamos nas longas férias do verão azul da infância (e nunca os dias sem fazer nada eram dias vazios), enquanto levávamos a bicicleta pelos defensões das marinhas (ainda havia montes de sal) para ouvir o restolhar das águas e dos pássaros. E já nos estávamos a perder de novo. Falta sempre tempo - para saborear, para ir ouvir de novo, ler as palavras que acompanham o violão, tatear os discos, cheirar os corpos. "Melhor do que o silêncio, só João", arrumou Caetano Veloso. E assim nos ensinou como nunca ganha o vazio, qualquer vazio. Damos outro salto no tempo - e não há nenhum vazio entre este tempo e esse, em Manchester, quando, em maio de 2017, no final de um minuto de silêncio de homenagem pelas vítimas do atentado no concerto de Ariana Grande, a voz de uma mulher irrompeu na multidão a cantar Don't Look Back in Anger, e um a um todos em volta se foram juntando e cantando a canção dos Oasis. A música salva, sabemos, por isso quando João nos sussurrou Chega de Saudade, percebemos que vazio algum nos ganha. "Vai minha tristeza/ E diz a ela/ Que sem ela não pode ser", e logo à frente nos enche tudo de futuros. "Mas se ela voltar, se ela voltar/ Que coisa linda, que coisa louca/ Pois há menos peixinhos a nadar no mar/ Do que os beijinhos/ Que eu darei na sua boca."

Mural

Às malvas com as convenções

Quando Salvatore recebe a notícia da morte de Alfredo, o projecionista do pequeno cinema da sua aldeia natal, a sua vida passa-nos no grande ecrã: desde os tempos da infância, quando o pequeno Totó, como chamavam a Salvatore, se apaixonou pela magia do cinema, à adolescência em que se enamora de Elena. Mas a melhor síntese da sua vida está num pequeno filme que Alfredo lhe deixou e que não é mais do que uma extraordinária montagem de cenas cortadas dos filmes que eram exibidos no Cinema Paradiso e o padre mandava censurar ao som de um sino.

Miguel Marujo

A casa que perdeu o chão

É uma casa que já perdeu o chão. O mar veio e galgou areias e pedras e a casa lá ficou, suspensa no ar, inclinada enquanto resiste à queda definitiva. Quem ali vivia já desistiu mas há alguns que resistem, em casas nas dunas, algumas de pescadores - que esses são cada vez menos e a faina já não rende - outras de habitação de veraneio, do tempo em que se permitiam todos os devaneios. E há restaurantes na beira da estrada mas o mar já se abeira deles em dias alterados.