Miguel Marujo

Miguel Marujo

Peregrinação interior

Deixem-me blasfemar: Johann Sebastian Bach é tido como o compositor de todos os tempos. Mas quando ouço Prélude de la Partita pour Violin nº 3 precedido de Pepa Nzac Gnon Ma vacilo. Estou a meter no mesmo saco Bach e um tema tradicional gabonês, interpretado por Elugu Ayong?! Sim, estou. Na música, descobrimos, desarmados, que Bach desenha uma melodia que se entrelaça na perfeição com os sons da selva africana, vozes, percussões, violoncelo, música, beleza e a dança do povo fang, do norte do Gabão, derrotando discursos das falsas superioridades civilizacionais. (Ouçam então Lambarena - Bach to Africa.)

Miguel Marujo

Filhos de uma política menor

No último dia da legislatura anterior, PSD e CDS, partidos que garantiam então a maioria parlamentar, aprovaram o fim da isenção das taxas moderadoras para a interrupção voluntária de gravidez, com o pretexto de uma iniciativa de cidadãos, condicionando assim o regime jurídico que permite à mulher livremente optar por recorrer ao aborto até às 10 semanas. Não ouvimos então ninguém usar o argumento de que os deputados não estavam mandatados para o fazer, uma vez que os programas eleitorais do PSD e CDS ignoravam explicitamente essa proposta.

Opinião

A oportunidade perdida - na ADSE

Quando do anúncio em abril de 2012 do fecho da Maternidade Alfredo da Costa, em Lisboa, o então ministro da Saúde, Paulo Macedo, dizia que essa era a solução porque o número de partos era elevado naquele centro de excelência e estava-se longe de responder à capacidade instalada noutros centros hospitalares como Santa Maria, Estefânia e São Francisco Xavier. Na altura, o Ministério recusou a sugestão de que os partos de beneficiários da ADSE (a Direção-Geral de Proteção Social aos Trabalhadores em Funções Públicas) fossem primeiro realizados nos hospitais públicos e só em caso de incapacidade destes fossem encaminhados para os privados.

Opinião

Um congresso numa imagem e duas frases

Sexta-feira assistimos a um momento histórico: Carvalho da Silva deixou ao fim de 25 anos a liderança da CGTP. Nesse longo consulado, o rosto do sindicalismo português teve tempo de construir uma central sindical que se libertou do espartilho partidário, estabeleceu pontes e esteve atento à novidade da "rua" que nasceu fora de partidos e sindicatos, como a "geração à rasca". No sábado, vimos a entrada de alguém que terá não mais do que oito anos para responder ao "preconceito anticomunista", como Arménio Carlos classifica quem o critica por ser secretário-geral da CGTP e membro do Comité Central do PCP. A imagem desta página conta a narrativa deste congresso: Carvalho da Silva aproveitou um intervalo no primeiro dia para afinar o discurso com que se despediu da liderança - e marcar a diferença para o líder que se lhe seguiu. Apesar das violentas críticas às políticas do Governo e ao acordo de concertação social, Carvalho da Silva sabe ler sinais diferentes de um mundo a preto e branco, ao lembrar a esperança que (e foi o único exemplo que deu) a eleição de Obama trazia (em 2008, o PCP preferiu classificar esta eleição de "ilusão" mediática). No final, Arménio teria uma palavra para Carvalho da Silva, mas apenas diluída na coletiva menção dos "camaradas" que saíram. Muito pouco, quase nada. "Há sempre um outro camarada mais mediatizado, mas esta CGTP não é o que era sem as formiguinhas que estão lá todos os dias", disse o novo líder. Pouco mais que ingratidão.