Miguel Marujo

1864

Blasfemos, graças a deus

Os Monty Python entraram algures nos ecrãs da RTP, talvez ainda a preto e branco - falha-se-me a memória e o Dr. Google não ajuda -, com aquele pé a esmagar um homem num genérico que antecipava já o humor desconcertante de travo surrealista e maluco, verdadeiramente louco, que ainda hoje nos faz rir a bandeiras despregadas. Monty Python's Flying Circus está cheio de episódios desses, como a Inquisição Espanhola, Spam ou as Avozinhas do Inferno, entre dezenas e centenas de outros, que ocupariam páginas e páginas.

Miguel Marujo

Onde anda o livro?

Quando a memória da leitura se perde no tempo, nada como regressar aos livros com a miúda, aqueles livros que fizeram a nossa infância, agora que ela também vai descobrindo as palavras encadeadas umas nas outras. Há tempos, depois de ter visto um espetáculo de dança que relatava a viagem de 80 dias à volta do mundo, a partir da obra que Júlio Verne tinha escrito em 1872, contei-lhe algumas dessas peripécias, a partir do relato parcelar que a dança tinha reavivado. Teve uma única pergunta para me fazer: consegue dar-se a volta ao mundo em 80 dias? Se isto é tão grande, é mais do que legítima a questão, pensei. Que sim, que hoje em dia até se pode fazer em menos tempo.

Mural

Às malvas com as convenções

Quando Salvatore recebe a notícia da morte de Alfredo, o projecionista do pequeno cinema da sua aldeia natal, a sua vida passa-nos no grande ecrã: desde os tempos da infância, quando o pequeno Totó, como chamavam a Salvatore, se apaixonou pela magia do cinema, à adolescência em que se enamora de Elena. Mas a melhor síntese da sua vida está num pequeno filme que Alfredo lhe deixou e que não é mais do que uma extraordinária montagem de cenas cortadas dos filmes que eram exibidos no Cinema Paradiso e o padre mandava censurar ao som de um sino.

Opinião

A oportunidade perdida - na ADSE

Quando do anúncio em abril de 2012 do fecho da Maternidade Alfredo da Costa, em Lisboa, o então ministro da Saúde, Paulo Macedo, dizia que essa era a solução porque o número de partos era elevado naquele centro de excelência e estava-se longe de responder à capacidade instalada noutros centros hospitalares como Santa Maria, Estefânia e São Francisco Xavier. Na altura, o Ministério recusou a sugestão de que os partos de beneficiários da ADSE (a Direção-Geral de Proteção Social aos Trabalhadores em Funções Públicas) fossem primeiro realizados nos hospitais públicos e só em caso de incapacidade destes fossem encaminhados para os privados.

Opinião

Um congresso numa imagem e duas frases

Sexta-feira assistimos a um momento histórico: Carvalho da Silva deixou ao fim de 25 anos a liderança da CGTP. Nesse longo consulado, o rosto do sindicalismo português teve tempo de construir uma central sindical que se libertou do espartilho partidário, estabeleceu pontes e esteve atento à novidade da "rua" que nasceu fora de partidos e sindicatos, como a "geração à rasca". No sábado, vimos a entrada de alguém que terá não mais do que oito anos para responder ao "preconceito anticomunista", como Arménio Carlos classifica quem o critica por ser secretário-geral da CGTP e membro do Comité Central do PCP. A imagem desta página conta a narrativa deste congresso: Carvalho da Silva aproveitou um intervalo no primeiro dia para afinar o discurso com que se despediu da liderança - e marcar a diferença para o líder que se lhe seguiu. Apesar das violentas críticas às políticas do Governo e ao acordo de concertação social, Carvalho da Silva sabe ler sinais diferentes de um mundo a preto e branco, ao lembrar a esperança que (e foi o único exemplo que deu) a eleição de Obama trazia (em 2008, o PCP preferiu classificar esta eleição de "ilusão" mediática). No final, Arménio teria uma palavra para Carvalho da Silva, mas apenas diluída na coletiva menção dos "camaradas" que saíram. Muito pouco, quase nada. "Há sempre um outro camarada mais mediatizado, mas esta CGTP não é o que era sem as formiguinhas que estão lá todos os dias", disse o novo líder. Pouco mais que ingratidão.