Marisa Matias

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A invasão ainda não acabou

Há uma semana fomos confrontados com a invasão de territórios curdos no norte da Síria por parte de forças militares turcas. Os Estados Unidos retiraram as suas tropas, na sequência da inenarrável declaração de Trump sobre a falta de apoio dos curdos na Normandia, e as populações de Rojava viram-se, uma vez mais, sob ataque. As tentativas sucessivas de genocídio e de eliminação cultural do povo curdo por parte da Turquia não é, infelizmente, uma novidade, mas não é por repetir-se que se deve naturalizar e abandonar as nossas preocupações.

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Palavras

Na sua apresentação no início desta semana, Ursula von der Leyen congratulou-se: "Esta Comissão é tão diversa como a Europa." Referia-se, claro está, às pessoas que iria propor para o novo Colégio. A frase proferida é quase um tratado e encaixa perfeitamente no resto do aparato apresentado, mas a Europa é - por boas e por más razões - muito mais diversa do que esta Comissão. É composta por culturas e origens diferentes, por idiomas diversos, por múltiplos credos. Há na Europa uma concentração obscena de riqueza nas mãos de poucos que convivem com milhões de pessoas que vivem ainda na pobreza. Diversidade existe sim, mas ela não está espelhada, nem de longe, na atual Comissão. Estão representadas as diferentes nacionalidades e línguas? Sim. Há paridade de género? Sim. Mas a Europa não é toda branca e de classe média-alta. Muito menos vive toda numa "caixa" cada vez mais isolada do meio onde se insere. Ao afirmar que a Comissão era tão diversa quanto a Europa, Von der Leyen tornou invisíveis milhões de europeus e de europeias.

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O CDS e a (des)educação 

Não é preciso ler livros como Pedagogia do Oprimido, Pedagogia da Autonomia ou Educação: Prática da Liberdade, do enorme Paulo Freire, para perceber o papel fundamental da educação. As sociedades diferem, os contextos também, mas é inevitável não pôr em causa, em nenhuma sociedade ou contexto, a educação. Lembrei-me muito destes ensinamentos de Paulo Freire a propósito da inenarrável proposta apresentada pelo CDS na última semana. Entrar a "preços de mercado" em universidades públicas para quem não tiver notas suficientemente altas é a proposta.

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Vilas de Potemkin

Diz a lenda que, em 1737, o líder militar do império russo, Grigory Potemkin, mandou construir várias aldeias falsas para mostrar à czarina Catarina II, na sua excursão à recém-anexada Crimeia, como tudo tinha sido um sucesso e que a urbanização da região estava concluída. No seu trajeto a czarina haveria de ver belas aldeias, que na verdade não passavam de fachadas pintadas que encobriam o vazio e a pobreza. Ocorreu-me esta imagem nesta semana na sequência de um tweet publicado pelo ainda presidente do Parlamento Europeu Antonio Tajani.

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Brexitar

São sobretudo britânicos, mas também alemães, malteses, espanhóis. As chamadas para o centro de informação direta da União Europeia aumentaram exponencialmente nos primeiros três meses deste ano e a razão é o Brexit. Num trabalho realizado pelo Politico, são bem elucidativas as preocupações de quem telefona. Do lado britânico, há o caso do cidadão que estará em Espanha no dia 12 de abril e pergunta se poderá regressar a casa. As crianças que estarão numa visita de estudo na Alemanha e não sabem o que lhes acontecerá. Há ainda os problemas com os animais de estimação adotados em outros países da União Europeia. De fora, há as queixas da falta de eficiência no processo. Há os problemas práticos do cidadão que tem um voo de ligação por Londres e não sabe se o deixam embarcar na escala. E há obviamente as inúmeras chamadas sobre qual será a data da saída: 12 de abril? 22 de maio?

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Crónica de uma morte anunciada

Na localidade toda a gente sabia que os irmãos Vicário estavam a preparar alguma coisa e que Santiago ia morrer, mas quando realmente aconteceu ninguém estava à espera. Crónica de Uma Morte Anunciada, de Gabriel García Márquez, é um livro genial, como são os livros de García Márquez. O que arrepia neste é o quanto despe a realidade das cumplicidades não assumidas, cobardes e perigosas, e do lavar de mãos quando a tragédia acontece.

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Cursos de maquilhagem

"Certifiquem-se de que usam pó para fixar a maquilhagem, para que se tiverem de trabalhar durante o dia as nódoas negras não apareçam." Estas palavras foram ditas numa emissão da televisão pública marroquina que, em 2016, na véspera do Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra as Mulheres, resolveu dedicar um segmento para ensinar a disfarçar as marcas das agressões com maquilhagem. Se isto não bastasse, a apresentadora terminou o segmento dizendo: "Esperamos que estas dicas de beleza vos ajudem a seguir com as vossas rotinas diárias." Este ano, a Associação Sindical de Juízes resolveu organizar um workshop de maquilhagem para o 8 de março, em que se comemora o Dia Internacional da Mulher.