Marisa Matias

COVID-19

Os países onde "não há" covid-19

Numa altura em que muito se fala sobre a pandemia fica sempre por saber "o que aconteceu" aos países que antes marcavam a agenda política. O caso mais flagrante é o da Síria. Tantos anos de exposição pelas razões da guerra e pelos trajetos trágicos de quem teve de abandonar a sua casa, a Síria desapareceu do mapa. Desapareceu, em grande medida, porque não há dados para apresentar sobre a crise que domina os nossos dias, porque não há dados sobre testes feitos, porque os dados sobre pessoas contaminadas são mínimos e pouco credíveis, porque até na tragédia que se vive é preciso encaixar nos padrões dominantes.

Opinião

Desconfinar

Vivemos um ciclo político que acumula várias crises e para as quais ainda não vimos respostas eficazes. À crise económica e social juntaram-se a crise ambiental, a crise humanitária e a crise pandémica. Se é verdade que estas crises exigem respostas internacionais, também é verdade que precisamos de respostas nacionais. A crise pandémica que vivemos veio reforçar a necessidade de rutura com o modelo atual. Numa altura que os países se preparam para abandonar gradualmente as medidas mais restritivas, quais são os sinais no sentido dessa mudança?

Marisa Matias

Desigualdade em tempos de crise

A cada crise que enfrentamos pesam mais as décadas de integração desigual e do grande consenso liberal que transformou o mapa político europeu. Em Portugal, como nos restantes países da União Europeia, vivemos a consequência da desistência da luta pelos direitos do trabalho, do combate à pobreza e às desigualdades e da defesa do Estado social, mesmo que as sociedades se procurem organizar. A evidência é a forma como a propagação do covid-19 nos põe à prova como sociedade a cada dia que passa.

Marisa Matias

Racismo não é opinião

A senadora Liliana Segre tem 90 anos. Em 1944, quando tinha 13 anos e fazia trabalho escravo numa fábrica em Auschwitz, foi deportada numa das marchas da morte. Das 776 crianças italianas com menos de 14 anos que foram enviadas para Auschwitz, apenas 25 sobreviveram. Liliana foi uma delas. O dia 27 de janeiro é celebrado como o Dia da Libertação, o Dia Internacional da Lembrança do Holocausto. Foi nesse dia que as tropas soviéticas chegaram a Auschwitz e se depararam com os horrores perpetrados pelo nazismo nos campos de concentração. Não foi o dia em que todos os judeus foram libertados, muitos tiveram de esperar ainda longos meses. Não foi igualmente o dia de libertação de Liliana Segre, que só chegaria mais tarde, mas foi ela que neste ano, no 75.º aniversário do dia da Libertação, veio contar a sua história. Desde novembro do ano passado que Liliana Segre é obrigada a ter proteção policial. Tudo começou quando começou a receber todos os dias dezenas de mensagens de ódio e ameaças através das redes sociais. Um ódio crescente em Itália e um pouco por toda a Europa. Para uma sobrevivente do nazismo, o regresso desse ódio é um sinal vivido com muita preocupação. A sua história e de tantos milhões de pessoas que passaram pelo mesmo que ela, muitas delas sem sobreviver, deveria ser o antídoto para qualquer renascimento do ódio étnico e racial, mas, infelizmente, os tempos que vivemos começam a dar sinais de que ninguém está poupado, nem mesmo as vítimas do maior crime contra a humanidade. O nazismo não se fez de um dia para o outro. Precisou de muitos anos, precisou de muitas vozes caladas, de muito medo. Precisou de uma total falta de dignidade e da insensibilidade de milhões de pessoas ao sofrimento de outras pessoas como elas. Precisou de uma estratégia afinada de criação de "inimigos". Precisou de silêncio, de muito silêncio. Estes 75 anos deviam servir-nos para mostrar como há horrores da história que não podem ser repetidos, seja qual for o tipo de intensidade. E que o respeito pela humanidade não pode permitir nenhum tipo de cedência. O branqueamento do nazismo tantas vezes feito, assim como o branqueamento do racismo, não pode ter lugar em sociedades democráticas. Mas, infelizmente, este exercício começa a ser cada vez mais comum. Ainda nesta semana assistimos em Portugal à discussão das declarações de André Ventura sobre Joacine Katar Moreira em espaço público. Uma discussão que assentou no pressuposto mais errado de todos: que as palavras de Ventura são opinião. Não são. Nazismo e racismo não são opiniões, são crimes. Ora, a discussão a que assistimos em Portugal traduziu-se nesta preocupante tendência de naturalização da ofensa racista, de valores que em última instância são mais propícios a sociedades fascistas. Em vez de ludibriar os factos, precisamos de enfrentá-los, venham com botas cardadas ou com pezinhos de lã...Eurodeputada do BE

Marisa Matias

Quem protege os lançadores de alerta?

Dois anos após o assassinato de Daphne Caruana Galicia, a jornalista de investigação maltesa, ainda não está concluído o processo de investigação sobre o seu assassinato. Há evidências e associações a altos cargos do governo de Muscatt, mas ainda não caiu o governo e o primeiro-ministro diz que só se demitirá em janeiro. Caruana Galicia investigava crimes de fraude e evasão fiscal e esteve ligada aos Panama Papers. Ainda antes de integrarem o governo, o homem que viria a ser chefe de gabinete do primeiro-ministro e um dos homens que viria a ser ministro do seu governo foram apanhados através de formulários que provavam a transferência de grandes quantidades de dinheiro para paraísos fiscais. Até hoje, o que sabemos é que ela tinha razão e que o governo de Malta tem sido um empecilho a uma investigação transparente e independente. A família de Daphne continua a ser ameaçada, quem a defende continua a ser silenciado.

Premium

Marisa Matias

Palavras

Na sua apresentação no início desta semana, Ursula von der Leyen congratulou-se: "Esta Comissão é tão diversa como a Europa." Referia-se, claro está, às pessoas que iria propor para o novo Colégio. A frase proferida é quase um tratado e encaixa perfeitamente no resto do aparato apresentado, mas a Europa é - por boas e por más razões - muito mais diversa do que esta Comissão. É composta por culturas e origens diferentes, por idiomas diversos, por múltiplos credos. Há na Europa uma concentração obscena de riqueza nas mãos de poucos que convivem com milhões de pessoas que vivem ainda na pobreza. Diversidade existe sim, mas ela não está espelhada, nem de longe, na atual Comissão. Estão representadas as diferentes nacionalidades e línguas? Sim. Há paridade de género? Sim. Mas a Europa não é toda branca e de classe média-alta. Muito menos vive toda numa "caixa" cada vez mais isolada do meio onde se insere. Ao afirmar que a Comissão era tão diversa quanto a Europa, Von der Leyen tornou invisíveis milhões de europeus e de europeias.

Marisa Matias

Longe da vista

Há tentações que são perigosas para a humanidade, uma delas é a de tentar resolver as ameaças existentes por tentar esquecê-las ou por reduzi-las no mapa. Nos dias que correm, mastiga-se um assunto até não poder mais e, depois, quando fica mais longe da vista é como se desaparecesse. Podia falar da Venezuela, da Amazónia, etc., mas refiro-me neste caso ao ISIS, o autoproclamado Estado Islâmico, sobre o qual na União Europeia não têm faltado análises acerca do seu recuo, ignorando que estas forças estão a organizar-se e a ganhar forma em outras regiões do mundo. Os anúncios sobre a sua quase morte são, por isso, claramente exagerados.