Marisa Matias

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Aqueles que não vemos

A Europa está cheia de pessoas que todos os dias trabalham sem que os seus direitos sejam reconhecidos. Mais do que isso, a Europa está cheia de pessoas que trabalham sem que se saiba que elas existem. Portugal não é exceção. Basta pensarmos nos trabalhadores nos olivais intensivos no Alentejo e nas sucessivas denúncias de violação dos seus direitos para termos apenas um exemplo. É por isso que a luta dos 26 trabalhadores sem papéis da Chronopost Alforteville e a sua vitória desta semana é tão bonita e tão simbólica.

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2020 em contraciclo

A ordem mundial está a mudar e os conflitos estão longe de resolver-se. É difícil de prever o desfecho de muitos de eles, mas as sociedades movem-se em contextos muito diferentes. Logo a abrir o ano, Hong Kong volta a levantar-se. Na realidade, nem houve uma paragem depois das 746 manifestações registadas nos últimos meses por Kong Tsung-gan, nas quais participaram mais de 13 milhões de pessoas. No Iraque, as multidões que se levantaram em outubro levaram à demissão do primeiro-ministro Adil Abdul-Mahdi no início de dezembro. Protestos que cresceram à medida que crescia a repressão. Abrir-se-á uma nova página na trágica história recente? No Chile, também desde outubro as ruas estão cheias de reivindicações contra as desigualdades. Em todos estes casos, os elementos comuns foram a repressão e a resistência.

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Baralhar e dar de novo

Na próxima semana irá finalmente a votos a Comissão Von der Leyen. Depois de propostas de nomes rejeitadas, depois de várias controvérsias associadas aos novos portfólios apresentados pela presidente eleita, finalizou-se o processo sem, contudo, eliminar a ameaça de conflitos de interesses ou mudar significativamente os portfólios. Nas contas finais, parece que tudo não passou de um jogo de equilíbrios partidários, muito longe dos interesses dos cidadãos.

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"Todo o mundo tem relógio, mas perdemos o tempo"

A frase certeira é de Célia Xakriabá. Ao longo desta semana, e durante os próximos dias, a Associação Articulação dos Povos Indígenas do Brasil, em parceria com organizações da sociedade civil, dá corpo à campanha Sangue Indígena: Nenhuma Gota a Mais. Uma delegação de representantes indígenas composta por Alberto Terena, Angela Kaxuyana, Celia Xakriabá, Dinaman Tuxá, Elizeu Guarani Kaiowá e Kretã Kaingang esteve nesta semana no Parlamento Europeu. Não se tratou de uma visita de cortesia, mas antes de uma denúncia das sistemáticas violações contra os povos indígenas brasileiros, bastante agravadas desde que Jair Bolsonaro assumiu a presidência do Brasil.

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À procura de uma guerra?

Donald Trump nunca escondeu a sua agenda em relação ao Médio Oriente e, em particular, à escolha de aliados. A administração Trump manteve a aliança com a Arábia Saudita e, ao rasgar o acordo nuclear com o Irão, deu a entender qual seria o principal alvo na região. À beira da eleição presidencial, Trump não teve ainda a "sua guerra". George Bush teve a guerra do Golfo, Bill Clinton teve a guerra do Afeganistão, George W. Bush, o filho, teve a guerra do Iraque - com a preciosa ajuda de Blair, Aznar e Durão Barroso - e Obama teve indiretamente a guerra da Síria. O reacender da tensão com o Irão ao longo da última semana pode ser uma "compensação" dessa ausência, ou pode mesmo ser mais do que isso.

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Amazónia

Eliane Brum escreveu, no El País uma magnífica análise sobre o Brasil atual. É o retrato de uma sociedade que se sente doente. A forma como descreve os impactos da polarização política e a degradação social na população é um murro no estômago. Eliane Brum desmonta, um por um, os argumentos tantas vezes repetidos que procuram justificar uma suposta trajetória política linear que trouxe o Brasil à eleição de Bolsonaro. Quantas vezes ouvimos falar em "jogo democrático", "normalidade" ou "autenticidade" nos tempos políticos que vivemos? Pois, não há nada de "normal" e o que muitas vezes se proclama "autêntico" é tão-simplesmente sintoma de uma democracia também ela doente.

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O CDS e a (des)educação 

Não é preciso ler livros como Pedagogia do Oprimido, Pedagogia da Autonomia ou Educação: Prática da Liberdade, do enorme Paulo Freire, para perceber o papel fundamental da educação. As sociedades diferem, os contextos também, mas é inevitável não pôr em causa, em nenhuma sociedade ou contexto, a educação. Lembrei-me muito destes ensinamentos de Paulo Freire a propósito da inenarrável proposta apresentada pelo CDS na última semana. Entrar a "preços de mercado" em universidades públicas para quem não tiver notas suficientemente altas é a proposta.

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Dias D

Nesta semana comemoraram-se os 75 anos do Dia D. Mais de dez mil homens das tropas aliadas britânicas desembarcaram na Normandia, naquele que ficou conhecido como o momento de viragem na Segunda Guerra Mundial. Milhares de homens perderam a vida e esse é um facto histórico marcante de importância inegável, mas não é a história toda. Nunca tendo morrido de amores pela União Soviética, parece-me muito limitada a forma como se olha para o Dia D como "o dia" e incompreensível o apagão histórico que é feito ao papel das tropas soviéticas para o fim da Segunda Guerra Mundial com milhões de vidas perdidas. Sabemos que a história elege sempre os seus vencedores, mas também sabemos dos impactos que cada leitura histórica tem na perceção global. O fim da Segunda Guerra Mundial foi, sim, um dos melhores momentos da nossa memória, daqueles em que sentimos e sabemos que ganhámos todos.