Marisa Matias

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Queremos os vossos filhos

Há poucas imagens que me ficam presas à memória como se nunca tivesse saído desse episódio. Um delas é a da mulher síria que, em 2013, atravessava a fronteira em direção ao Líbano. Eu estava aí com a chefe de delegação da União Europeia no Líbano, numa missão que procurava acautelar a resposta de emergência às três mil pessoas refugiadas que entravam no país a cada dia que passava. Na altura não se falava de refugiados sírios ainda por estes lados. Ora bem, esta mulher estava em final de tempo de gravidez. Tinha feito mais de 80 quilómetros a pé, atravessado o Anti-Líbano - a cordilheira síria que do outro lado da fronteira faz espelho com o monte Líbano - e estava exausta, com frio, com fome e sede e o desespero de ter perdido a casa e a família num bombardeamento. Chegou sozinha e poucas horas depois teve a bebé. Quando regressámos para falar com ela, disse-nos apenas: "Agradeço a Deus." Na altura pensei, eu que não acredito na existência de Deus, que talvez tivesse sido mesmo obra de Deus, já que nós fomos totalmente incapazes de evitar situações como esta.

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Cursos de maquilhagem

"Certifiquem-se de que usam pó para fixar a maquilhagem, para que se tiverem de trabalhar durante o dia as nódoas negras não apareçam." Estas palavras foram ditas numa emissão da televisão pública marroquina que, em 2016, na véspera do Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra as Mulheres, resolveu dedicar um segmento para ensinar a disfarçar as marcas das agressões com maquilhagem. Se isto não bastasse, a apresentadora terminou o segmento dizendo: "Esperamos que estas dicas de beleza vos ajudem a seguir com as vossas rotinas diárias." Este ano, a Associação Sindical de Juízes resolveu organizar um workshop de maquilhagem para o 8 de março, em que se comemora o Dia Internacional da Mulher.

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O calote de 38 milhões de euros

A ADSE é o maior subsistema complementar de saúde em Portugal e, com esse peso, tem negociado com os privados tabelas de pagamento de serviços. Há já alguns anos que a ADSE é totalmente paga pelos trabalhadores, os mesmos que através dos seus descontos também financiam o Serviço Nacional de Saúde (SNS). Em 2015 e 2016, os grupos privados decidiram não cumprir as tabelas negociadas e cobraram mais 38 milhões de euros em relação ao negociado e a ADSE exigiu que os prestadores convencionados regularizassem os pagamentos. O caso avançou a ponto de a ADSE pedir um parecer à Procuradoria-Geral da República, que lhe deu razão. Em circunstâncias normais, os privados pagariam o calote e não se falava mais do assunto, sendo certo que o assunto era já grave o suficiente para que dele se falasse. Mas não foi isso que aconteceu, os privados uniram-se em cartel para ameaçar a ADSE, suspender os acordos vigentes e tentar convencer a opinião pública de que têm o direito de impor a tabela de preços que bem entendem fugindo aos compromissos negociados previamente. Grupo Mello e CUF, à cabeça, lançaram-se nesta missiva para que, mais uma vez, prevaleça o negócio à frente da saúde.

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Um tweet

"Fixem bem este nome: Lara. Tinha 2 anos e foi assassinada pelo pai. A 7 de fevereiro, a violência doméstica conta já com dez vítimas mortais. Da próxima vez que disserem que não há desigualdade de género, que não há discriminação ou violência contra as mulheres, lembrem-se da Lara." Escrevi estes 240 caracteres na minha conta de Twitter e não me lembro de tamanha onda de insultos. Não falo de debate de ideias, falo de insultos. Aparentemente, uma coisa não tem nada que ver com a outra que também não está relacionada com a outra coisa. As coisas são: o assassínio de uma criança pelo próprio pai, a violência doméstica e a desigualdade de género. Pois, insisto: não devemos esquecer este nome, o horror e as suas causas. Falo de um crime abjeto com um motivo deixado escrito pelo próprio homicida: culpar a mãe. A mãe que foi vítima de violência doméstica. A violência doméstica que resulta da desigualdade de género.

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Mulheres

Nesta semana, um país inteiro juntou-se solidariamente às mulheres andaluzas. Falo do nosso país vizinho, como é óbvio. A chegada ao poder do partido Vox foi a legitimação de um discurso e de uma postura sexistas que julgávamos já eliminadas aqui por estes lados. Pois não é assim. Se durante algumas décadas assistimos ao reforço dos direitos das mulheres, nos últimos anos, a ascensão de forças políticas conservadoras e sexistas mostrou o quão rápida pode ser a destruição de direitos que levaram anos a construir. Na Hungria, as autoridades acham que o lugar da mulher é em casa, na Polónia não podem vestir de preto para não serem confundidas com gente que acha que tem direitos, em Espanha passaram a categoria de segunda na Andaluzia. Os exemplos podiam ser mais extensos, os tempos que vivemos são estes. Mas há sempre quem não desista, e onde se escreve retrocesso nas instituições, soma-se resistência nas ruas.

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Brincar com o fogo

Não direi palavras de repúdio por quem tem dificuldades em chegar ao fim do mês com as contas pagas. Quem nunca viveu em dificuldade tem, certamente, uma enorme capacidade de solidariedade e de mobilização por quem pouco ou nada tem, mas dificilmente saberá a dura realidade de como é quando quase tudo falta. Falo disto a propósito da recente manifestação dos coletes amarelos em Portugal. Haverá na gente que se mobilizou muita gente que não sabe o que é viver sem dificuldades. Preocupa-me a sério que não haja respostas ou que estas pessoas não vejam as respostas que poderão existir, mas custa-me tremendamente ver essas dificuldades serem aproveitadas seja por quem for.

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Marisa Matias

Da ilusão da segurança 

Estava, como habitualmente, nos trabalhos da sessão plenária de Estrasburgo quando soube, ainda antes de ser notícia, que estava a haver um tiroteio no centro da cidade. É impossível não sofrer quando há tragédias, quando há mortes e ferimentos graves de pessoas que se limitavam a viver a sua vida ou a fazer o seu trabalho. É também evidente que toca ainda mais fundo quando, entre as pessoas atingidas, estão pessoas de quem sabemos os nomes, conhecemos ou nos cruzámos, como o jornalista italiano que estava a fazer a cobertura do mercado de Natal ou o músico polaco que integrava o movimento da música pela paz.

Marisa Matias

Um Estado contra uma greve

Nos últimos anos temos assistido a lutas de trabalhadores e trabalhadoras como enfermeiros, técnicos superiores de diagnóstico e terapêutica, professores, médicos, estivadores. Usam a voz que têm: greves, manifestações, marchas, concentrações. Caracteriza-os a precariedade, o desinvestimento público, a falta de meios, o não reconhecimento das carreiras e das qualificações. Em suma, o que os une é algum destes tipos de abandono. Ou, em alguns casos, de todos os tipos de abandono.