Marisa Matias

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Desigualdade em tempos de crise

A cada crise que enfrentamos pesam mais as décadas de integração desigual e do grande consenso liberal que transformou o mapa político europeu. Em Portugal, como nos restantes países da União Europeia, vivemos a consequência da desistência da luta pelos direitos do trabalho, do combate à pobreza e às desigualdades e da defesa do Estado social, mesmo que as sociedades se procurem organizar. A evidência é a forma como a propagação do covid-19 nos põe à prova como sociedade a cada dia que passa.

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Hanau

Em junho do ano passado, o presidente da província de Kassel sofreu um ataque à porta de sua casa pela sua política de apoio a refugiados. No dia 9 de outubro do ano passado, em Halle, um alemão, de 27 anos, disparou várias vezes à porta da sinagoga da cidade. Seguiu para o cemitério hebraico e disparou, continuou para um restaurante de kebab e disparou. No final, duas pessoas morreram, no que poderia ter sido um massacre. Há cerca de uma semana foi detida uma célula de 15 extremistas alemães que planificavam um atentado em larga escala: um ataque articulado a várias mesquitas no país. Esta semana, foi o horror que se viu em Hanau. Um alemão, de 43 anos, matou nove pessoas e feriu gravemente cinco, antes de se matar, assim como à sua mãe, na sua própria casa. Antes do atentado, publicou um vídeo no Facebook onde detalhava o que ia fazer. As vítimas tinham em comum o facto de serem imigrantes, curdos na sua maioria, um jovem bósnio e uma mulher polaca. Entre as vítimas, estava ainda uma mulher grávida.

Marisa Matias

Aqueles que não vemos

A Europa está cheia de pessoas que todos os dias trabalham sem que os seus direitos sejam reconhecidos. Mais do que isso, a Europa está cheia de pessoas que trabalham sem que se saiba que elas existem. Portugal não é exceção. Basta pensarmos nos trabalhadores nos olivais intensivos no Alentejo e nas sucessivas denúncias de violação dos seus direitos para termos apenas um exemplo. É por isso que a luta dos 26 trabalhadores sem papéis da Chronopost Alforteville e a sua vitória desta semana é tão bonita e tão simbólica.

Marisa Matias

Emergências

Há dez anos participei, em Copenhaga, na conferência anual das Nações Unidas para o combate às alterações climáticas, a COP15. Na altura, chegava ao fim o Protocolo de Quioto e o desfecho foi uma gigantesca desilusão. Nenhuma alternativa foi criada, nenhuma medida concreta foi avançada e dez anos volvidos aqui seguimos, retidos entre as promessas e o pouco feito. Na semana que antecede mais uma COP, desta feita em Madrid, voltamos às discussões sobre o que está em cima da mesa. Não houve muito caminho feito, mas há hoje a perceção de que vivemos tempos de emergência.

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As vidas dos outros

Poucas votações me ficaram tão presas na pele como esta que hoje, quinta-feira, decorreu no plenário em Estrasburgo. Tratou-se do voto sobre a criação de mecanismos europeus de proteção de vidas no Mediterrâneo. Foi uma negociação longa que colmatou numa votação também ela longa e muito dividida. Quando todas as emendas ao texto proposto já tinham ido a votos e chegámos ao voto final, aconteceu o impensável na minha cabeça. A proposta de salvar vidas foi chumbada por dois votos, 290 contra 288. Um murro no estômago, um nó na garganta. Pensei para comigo: há mesmo uma maioria de representantes que quer que continuem a morrer pessoas no Mediterrâneo? Ainda não recomposta, a bancada da extrema-direita celebrou e gritou entusiasticamente o resultado final. Do outro lado do hemiciclo, silêncio e impotência. A maioria tinha mesmo decidido que quem se faz ao Mediterrâneo não deve ter acesso a salvamento ou resgate, que nenhuma das vidas perdidas contou.

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Marisa Matias

A invasão ainda não acabou

Há uma semana fomos confrontados com a invasão de territórios curdos no norte da Síria por parte de forças militares turcas. Os Estados Unidos retiraram as suas tropas, na sequência da inenarrável declaração de Trump sobre a falta de apoio dos curdos na Normandia, e as populações de Rojava viram-se, uma vez mais, sob ataque. As tentativas sucessivas de genocídio e de eliminação cultural do povo curdo por parte da Turquia não é, infelizmente, uma novidade, mas não é por repetir-se que se deve naturalizar e abandonar as nossas preocupações.

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Bons samaritanos

O alemão Dariush Beigui que, nos tempos livres, utilizou o seu barco ou comandou tripulações de outros barcos para salvar vidas no Mediterrâneo, é um dos dez que enfrentarão a justiça italiana, numa situação similar à de Miguel Duarte, cujas sentenças poderão ir até 20 anos de prisão. Em entrevista, Beigui afirmou que é difícil haver mais malícia do que a que está presente quando se impede alguém de salvar vidas. Tem razão. Aqueles que não querem salvar vidas não devem poder impedir quem o quer fazer. Nas pessoas que salvou ele viu o que seria estar em desespero, a lutar pela vida, e ninguém querer ajudá-lo.

Marisa Matias

Dias D

Nesta semana comemoraram-se os 75 anos do Dia D. Mais de dez mil homens das tropas aliadas britânicas desembarcaram na Normandia, naquele que ficou conhecido como o momento de viragem na Segunda Guerra Mundial. Milhares de homens perderam a vida e esse é um facto histórico marcante de importância inegável, mas não é a história toda. Nunca tendo morrido de amores pela União Soviética, parece-me muito limitada a forma como se olha para o Dia D como "o dia" e incompreensível o apagão histórico que é feito ao papel das tropas soviéticas para o fim da Segunda Guerra Mundial com milhões de vidas perdidas. Sabemos que a história elege sempre os seus vencedores, mas também sabemos dos impactos que cada leitura histórica tem na perceção global. O fim da Segunda Guerra Mundial foi, sim, um dos melhores momentos da nossa memória, daqueles em que sentimos e sabemos que ganhámos todos.