Marisa Matias

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Queremos os vossos filhos

Há poucas imagens que me ficam presas à memória como se nunca tivesse saído desse episódio. Um delas é a da mulher síria que, em 2013, atravessava a fronteira em direção ao Líbano. Eu estava aí com a chefe de delegação da União Europeia no Líbano, numa missão que procurava acautelar a resposta de emergência às três mil pessoas refugiadas que entravam no país a cada dia que passava. Na altura não se falava de refugiados sírios ainda por estes lados. Ora bem, esta mulher estava em final de tempo de gravidez. Tinha feito mais de 80 quilómetros a pé, atravessado o Anti-Líbano - a cordilheira síria que do outro lado da fronteira faz espelho com o monte Líbano - e estava exausta, com frio, com fome e sede e o desespero de ter perdido a casa e a família num bombardeamento. Chegou sozinha e poucas horas depois teve a bebé. Quando regressámos para falar com ela, disse-nos apenas: "Agradeço a Deus." Na altura pensei, eu que não acredito na existência de Deus, que talvez tivesse sido mesmo obra de Deus, já que nós fomos totalmente incapazes de evitar situações como esta.

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Crónica de uma morte anunciada

Na localidade toda a gente sabia que os irmãos Vicário estavam a preparar alguma coisa e que Santiago ia morrer, mas quando realmente aconteceu ninguém estava à espera. Crónica de Uma Morte Anunciada, de Gabriel García Márquez, é um livro genial, como são os livros de García Márquez. O que arrepia neste é o quanto despe a realidade das cumplicidades não assumidas, cobardes e perigosas, e do lavar de mãos quando a tragédia acontece.

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Marisa Matias

Às escondidas

São 11 mil registos de empresas, organizações não governamentais e consultoras que estão acreditadas junto às instituições europeias. Para estas trabalham cerca de 80 mil pessoas. Setor financeiro, indústria do petróleo, representantes de movimentos indígenas, ativistas do ambiente ou dos direitos digitais, indústria farmacêutica, indústria automóvel, associações de doentes, indústria do armamento, em suma, imaginem um setor de atividade ou movimento qualquer, é muito provável que esteja nessa lista. Estou a falar de lobby. Ao contrário de outras assembleias, no Parlamento Europeu o lobby não é uma atividade totalmente obscura. Há um registo e quem nela trabalha tem acesso a quase todos os cantos do Parlamento. Quem está acreditado como lobista pode esperar em lugares de passagem, nos bares, ir até à porta dos gabinetes dos deputados que procuram, circular pelos edifícios. A cada dia do Parlamento haverá tantos ou quase tantos lobistas como deputados.

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O Jamaica é aqui

Chega de fingir que vivemos num país onde não há racismo. Existe e é abafado e escondido para que se possa continuar a dizer que não existe, que tudo se resume a uns episódios pontuais. Perguntem à jovem cigana que há um par de semanas contava perante um auditório, em Lisboa, como perdeu a hipótese de um emprego porque a dona da loja a viu falar com a sua mãe e percebeu a sua origem. Prestem atenção a todos os batráquios, grandes e pequenos, mais ou menos verdes, que servem de "decoração" um pouco por todo o país para afastar ciganos. Perguntem a quem vive no Jamaica ou na Cova da Moura se tem o mesmo acesso ao emprego ou à justiça. Perguntem às pessoas que se levantaram para defender o direito à liberdade de expressão de um dirigente da extrema-direita num canal de televisão, mas que não se deram ao trabalho de gastar um segundo para ouvir as razões dos jovens que quiseram manifestar-se pacificamente e sair da invisibilidade forçada. Perguntem aos ativistas antirracismo que quase todos os dias veem ameaçada a sua integridade e que têm de ter as costas muito largas para abarcar com todo o tipo de insultos e difamações.