Marisa Matias

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O CDS e a (des)educação 

Não é preciso ler livros como Pedagogia do Oprimido, Pedagogia da Autonomia ou Educação: Prática da Liberdade, do enorme Paulo Freire, para perceber o papel fundamental da educação. As sociedades diferem, os contextos também, mas é inevitável não pôr em causa, em nenhuma sociedade ou contexto, a educação. Lembrei-me muito destes ensinamentos de Paulo Freire a propósito da inenarrável proposta apresentada pelo CDS na última semana. Entrar a "preços de mercado" em universidades públicas para quem não tiver notas suficientemente altas é a proposta.

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Bons samaritanos

O alemão Dariush Beigui que, nos tempos livres, utilizou o seu barco ou comandou tripulações de outros barcos para salvar vidas no Mediterrâneo, é um dos dez que enfrentarão a justiça italiana, numa situação similar à de Miguel Duarte, cujas sentenças poderão ir até 20 anos de prisão. Em entrevista, Beigui afirmou que é difícil haver mais malícia do que a que está presente quando se impede alguém de salvar vidas. Tem razão. Aqueles que não querem salvar vidas não devem poder impedir quem o quer fazer. Nas pessoas que salvou ele viu o que seria estar em desespero, a lutar pela vida, e ninguém querer ajudá-lo.

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Renovar a Europa

Esta Europa diz querer-se autónoma e unida. Depois de ter falhado a união por via de políticas que servissem efetivamente as suas populações, as lideranças europeias passaram a buscá-la noutras miragens. Trump foi eleito presidente nos Estados Unidos e não foi preciso muito tempo para se "encontrar" esse desígnio: o melhor remédio para unir-nos seria o de reforçar uma alternativa à NATO. Como? Trabalhando para um exército comum. Foi com determinação que, no plenário de Estrasburgo, a chanceler Angela Merkel o pronunciou com todas as letras. Foi também com pompa e circunstância que Emmanuel Macron se fez ouvir defendendo a ideia de um exército europeu como forma de redução da dependência dos Estados Unidos na defesa.

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Dias D

Nesta semana comemoraram-se os 75 anos do Dia D. Mais de dez mil homens das tropas aliadas britânicas desembarcaram na Normandia, naquele que ficou conhecido como o momento de viragem na Segunda Guerra Mundial. Milhares de homens perderam a vida e esse é um facto histórico marcante de importância inegável, mas não é a história toda. Nunca tendo morrido de amores pela União Soviética, parece-me muito limitada a forma como se olha para o Dia D como "o dia" e incompreensível o apagão histórico que é feito ao papel das tropas soviéticas para o fim da Segunda Guerra Mundial com milhões de vidas perdidas. Sabemos que a história elege sempre os seus vencedores, mas também sabemos dos impactos que cada leitura histórica tem na perceção global. O fim da Segunda Guerra Mundial foi, sim, um dos melhores momentos da nossa memória, daqueles em que sentimos e sabemos que ganhámos todos.

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Greta Thunberg

A Antonia estava em Estrasburgo e aproveitou para vir ao Parlamento assistir ao discurso da Greta Thunberg, que para ela é uma heroína. A menina de 7 ou 8 anos emocionou-se quando a Greta se emocionou e não descolou os olhos enquanto ela falava. Quando, no final do discurso, se passou à ronda dos grupos parlamentares, a Antonia perguntou se podia sair. Disse que tinha entendido tudo o que a Greta tinha dito, mas que lhe custava estar ali porque não percebia nada do que diziam as pessoas que estavam agora a falar. Poucos minutos antes de a Antonia ter pedido para sair, eu tinha comentado com a minha colega Jude, com quem a Antonia estava, que me envergonhava a forma como os grupos parlamentares estavam a dirigir-se a Greta.

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Penalizações antecipadas

Um estudo da OCDE publicado nesta semana mostra que Portugal é dos países que mais penalizam quem se reforma antecipadamente e menos beneficia quem trabalha mais anos do que deve. A atual idade de reforma é de 66 anos e cinco meses. Se se sair do mercado de trabalho antes do previsto, o corte é de 36% se for um ano e de 45%, se forem três anos. Ou seja, em três anos é possível perder quase metade do rendimento para o qual se trabalhou uma vida. As penalizações são injustas para quem passou, literalmente, a vida toda a trabalhar e não tem como vislumbrar a possibilidade de deixar de fazê-lo.

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Queremos os vossos filhos

Há poucas imagens que me ficam presas à memória como se nunca tivesse saído desse episódio. Um delas é a da mulher síria que, em 2013, atravessava a fronteira em direção ao Líbano. Eu estava aí com a chefe de delegação da União Europeia no Líbano, numa missão que procurava acautelar a resposta de emergência às três mil pessoas refugiadas que entravam no país a cada dia que passava. Na altura não se falava de refugiados sírios ainda por estes lados. Ora bem, esta mulher estava em final de tempo de gravidez. Tinha feito mais de 80 quilómetros a pé, atravessado o Anti-Líbano - a cordilheira síria que do outro lado da fronteira faz espelho com o monte Líbano - e estava exausta, com frio, com fome e sede e o desespero de ter perdido a casa e a família num bombardeamento. Chegou sozinha e poucas horas depois teve a bebé. Quando regressámos para falar com ela, disse-nos apenas: "Agradeço a Deus." Na altura pensei, eu que não acredito na existência de Deus, que talvez tivesse sido mesmo obra de Deus, já que nós fomos totalmente incapazes de evitar situações como esta.