Marisa Matias

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Marisa Matias

Um dia para não esquecer

Já me emocionei muitas vezes no Parlamento Europeu. Sei bem que o lugar não é associado a tais sentimentos. Também já senti frustração, desalento, tristeza, mas deixem-me falar-vos da emoção. Esta semana que agora termina foi a semana da recusa da integração do Tratado Orçamental no direito comunitário por parte da comissão de Assuntos Económicos e Monetários. O Tratado Orçamental - ou, se quiserem, a formulação jurídica da austeridade e do empobrecimento - foi aprovado em 2012 e passou a vigorar a 1 de janeiro de 2013. Por não haver unanimidade no Conselho Europeu (o Reino Unido e a República Checa ficaram de fora) ganhou forma de tratado intergovernamental, com uma vigência de cinco anos. No final desse período deveria ser incorporado no direito comunitário, ou seja, já em janeiro deste ano.

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Elas

Ela é uma pessoa fascinante. Sagaz, inteligente, linda, doce e lutadora. Não tem proteção, é toda ela quando se apresenta. Não consegue disfarçar a amargura que lhe vai na alma e não pede desculpas por isso. Nesta semana partilhou várias fotografias nas redes sociais vindas diretamente do seu "baú das recordações". Fotografias de jogos de futebol, de namoro, de sedução, do dia do casamento num dia 13 de 1981. O olhar é o mesmo, a beleza continua lá toda, mas desse amor resta, sobretudo, a memória dela, que ela quis partilhar connosco nesta semana. Quando a conheci, há uns dois anos e meio, ele ainda vinha com ela aos eventos públicos. Agora já não vem. Ela vem, só aparentemente, sozinha, porque ele vem sempre com ela. Ele é a parte total dos dias dela. Ela carrega o amor, como só ela sabe, o cansaço, a tristeza, e agora quase toda a memória do que foi a história deles. Nos olhos dela avista-se tudo como se fosse uma manhã límpida. Ela é do Porto.

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A ilusão das coisas sem importância nenhuma

No dia 21 de setembro várias pessoas, entre elas Eleonora Forenza, eurodeputada italiana, e Antonio Perillo, foram agredidas em Bari quando participavam numa manifestação antifascista. Os agressores são da Casa Pound, uma organização neofascista italiana. Há cerca de dois anos, estava com outro colega meu, Miguel Urban, e algumas dezenas de migrantes em frente ao Parlamento Europeu quando, vindos do nada, militantes do partido grego Aurora Dourada agrediram alguns dos migrantes e depois fugiram. Poderia seguir com exemplos sem fim. Onde quero chegar é à constatação de que a violência neofascista já está entre nós e que tem sido, basicamente, ignorada ou desvalorizada.

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Marisa Matias

O Brasil é aqui

Nos 50 anos do Maio de 68 ocorre-me que tão pouco tempo passou para aqui chegarmos. Aqui, a este lugar onde é proibido (não) proibir. O Brasil vive um momento-chave e de todas as partes há quem ache que não temos nada que ver com isso. Em bom rigor, no sentido estrito, até nem é connosco, mas não é preciso pensar muito para perceber que é. A discussão não anda longe da que foi feita recentemente em relação à Hungria, nem do mal que faz a toda a gente haver no mundo um governo como o de Duterte, nas Filipinas, ou do estremecer que foi a eleição de Trump nos Estados Unidos. Mas, feitas as contas, isso quer dizer o quê? Que é a vida? Que temos de acostumar-nos? Que nesta casa comum não temos nada que ver com nada? Recuso a ingerência, mas recuso igualmente a apatia fria e calculista de quem acha que no silêncio é que está o ganho.

Marisa Matias

Provocações

Desde 1987 começou uma romaria nazi ao túmulo de Rudolf Hess, delegado de Hitler, em Wunsiedel, na Baviera alemã. A paróquia local decidiu não renovar a concessão do cemitério e o corpo de Hess foi exumado em 2011. Contudo, a exumação não pôs fim à romaria que continuava a organizar-se em direção ao local onde em tempos esteve o túmulo. A população local fartou-se e, em novembro de 2014, começou a pôr-lhe fim. Habitantes e comerciantes recolheram dez mil euros que, caso os nazis concluíssem a romaria desse ano, reverteriam a favor da organização antinazi Exit Deutschland. No trajeto da romaria espalharam cartazes a agradecer a "generosidade" e a motivar os participantes na marcha como ativistas involuntários da luta contra o nazismo na Alemanha. No chão pintaram metas distintas onde escreveram "parabéns, já doaram mil euros contra o nazismo" ou "obrigado pelos cinco mil euros". Houve marchantes que não continuaram e houve outros que, ainda que a contragosto, caminharam até ao fim. Os dez mil euros recolhidos foram mesmo entregues à Exit Deutschland e a romaria nazi começou a ter o seu fim em Wunsiedel a partir de um ato de profunda provocação e de perversão do sentido da própria romaria. Lembrei-me muito deste episódio nesta semana a propósito das "caçadas coletivas" a migrantes em Chemnitz, também na Alemanha, como já me tinha lembrado em maio, aquando das manifestações de extrema-direita em Berlim. O que é que mudou na Alemanha desde 2014 até hoje? Muita coisa, seguramente, mas uma fundamental. Em novembro de 2014, o governo de Merkel preparava a política de "portas abertas" para refugiados e o partido de extrema-direita AfD (Alternativa para a Alemanha) era apenas um embrião. Em 2018, Merkel já mudou a sua política de "portas abertas", subscreveu a vergonhosa proposta de criação de centros de detenção para migrantes, numa tentativa de evitar ser afastada do poder, e o AfD converteu-se na terceira força política alemã com 92 deputados. O que mudou fundamentalmente foi, portanto, a naturalização e normalização da extrema-direita. O problema da extrema-direita não é, obviamente, um problema alemão. É um problema europeu. O que os exemplos alemães mostram é a rapidez com que assistimos à normalização e naturalização da extrema-direita no espaço público europeu, e o quanto isso é preocupante. Quando a extrema-direita começou a chegar ao poder nos países europeus algumas das suas políticas xenófobas já lá estavam pela mão da social-democracia e da democracia cristã e, evidentemente, contribuíram também para essa "normalização", mas não deixa de ser assustador o silêncio dos cidadãos europeus face a ela. O descontentamento com as políticas e os seus representantes pode justificar uma ausência de mobilização social, mas o silêncio perante a normalização da barbárie tem razões mais profundas. Creio que na Europa já passámos todas a linhas e temos de perceber que vivemos uma profunda crise identitária. Lembro-me de Wunsiedel porque tenho saudades de um futuro onde a provocação e a desobediência à norma fazem parte da intervenção pública na vida política. Sobretudo quando a norma começa a ser a barbárie.Eurodeputada do BE