Marisa Matias

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Emergências

Há dez anos participei, em Copenhaga, na conferência anual das Nações Unidas para o combate às alterações climáticas, a COP15. Na altura, chegava ao fim o Protocolo de Quioto e o desfecho foi uma gigantesca desilusão. Nenhuma alternativa foi criada, nenhuma medida concreta foi avançada e dez anos volvidos aqui seguimos, retidos entre as promessas e o pouco feito. Na semana que antecede mais uma COP, desta feita em Madrid, voltamos às discussões sobre o que está em cima da mesa. Não houve muito caminho feito, mas há hoje a perceção de que vivemos tempos de emergência.

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"Todo o mundo tem relógio, mas perdemos o tempo"

A frase certeira é de Célia Xakriabá. Ao longo desta semana, e durante os próximos dias, a Associação Articulação dos Povos Indígenas do Brasil, em parceria com organizações da sociedade civil, dá corpo à campanha Sangue Indígena: Nenhuma Gota a Mais. Uma delegação de representantes indígenas composta por Alberto Terena, Angela Kaxuyana, Celia Xakriabá, Dinaman Tuxá, Elizeu Guarani Kaiowá e Kretã Kaingang esteve nesta semana no Parlamento Europeu. Não se tratou de uma visita de cortesia, mas antes de uma denúncia das sistemáticas violações contra os povos indígenas brasileiros, bastante agravadas desde que Jair Bolsonaro assumiu a presidência do Brasil.

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À procura de uma guerra?

Donald Trump nunca escondeu a sua agenda em relação ao Médio Oriente e, em particular, à escolha de aliados. A administração Trump manteve a aliança com a Arábia Saudita e, ao rasgar o acordo nuclear com o Irão, deu a entender qual seria o principal alvo na região. À beira da eleição presidencial, Trump não teve ainda a "sua guerra". George Bush teve a guerra do Golfo, Bill Clinton teve a guerra do Afeganistão, George W. Bush, o filho, teve a guerra do Iraque - com a preciosa ajuda de Blair, Aznar e Durão Barroso - e Obama teve indiretamente a guerra da Síria. O reacender da tensão com o Irão ao longo da última semana pode ser uma "compensação" dessa ausência, ou pode mesmo ser mais do que isso.

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Palavras

Na sua apresentação no início desta semana, Ursula von der Leyen congratulou-se: "Esta Comissão é tão diversa como a Europa." Referia-se, claro está, às pessoas que iria propor para o novo Colégio. A frase proferida é quase um tratado e encaixa perfeitamente no resto do aparato apresentado, mas a Europa é - por boas e por más razões - muito mais diversa do que esta Comissão. É composta por culturas e origens diferentes, por idiomas diversos, por múltiplos credos. Há na Europa uma concentração obscena de riqueza nas mãos de poucos que convivem com milhões de pessoas que vivem ainda na pobreza. Diversidade existe sim, mas ela não está espelhada, nem de longe, na atual Comissão. Estão representadas as diferentes nacionalidades e línguas? Sim. Há paridade de género? Sim. Mas a Europa não é toda branca e de classe média-alta. Muito menos vive toda numa "caixa" cada vez mais isolada do meio onde se insere. Ao afirmar que a Comissão era tão diversa quanto a Europa, Von der Leyen tornou invisíveis milhões de europeus e de europeias.

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Marisa Matias

O CDS e a (des)educação 

Não é preciso ler livros como Pedagogia do Oprimido, Pedagogia da Autonomia ou Educação: Prática da Liberdade, do enorme Paulo Freire, para perceber o papel fundamental da educação. As sociedades diferem, os contextos também, mas é inevitável não pôr em causa, em nenhuma sociedade ou contexto, a educação. Lembrei-me muito destes ensinamentos de Paulo Freire a propósito da inenarrável proposta apresentada pelo CDS na última semana. Entrar a "preços de mercado" em universidades públicas para quem não tiver notas suficientemente altas é a proposta.

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Vilas de Potemkin

Diz a lenda que, em 1737, o líder militar do império russo, Grigory Potemkin, mandou construir várias aldeias falsas para mostrar à czarina Catarina II, na sua excursão à recém-anexada Crimeia, como tudo tinha sido um sucesso e que a urbanização da região estava concluída. No seu trajeto a czarina haveria de ver belas aldeias, que na verdade não passavam de fachadas pintadas que encobriam o vazio e a pobreza. Ocorreu-me esta imagem nesta semana na sequência de um tweet publicado pelo ainda presidente do Parlamento Europeu Antonio Tajani.

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Marisa Matias

Brexitar

São sobretudo britânicos, mas também alemães, malteses, espanhóis. As chamadas para o centro de informação direta da União Europeia aumentaram exponencialmente nos primeiros três meses deste ano e a razão é o Brexit. Num trabalho realizado pelo Politico, são bem elucidativas as preocupações de quem telefona. Do lado britânico, há o caso do cidadão que estará em Espanha no dia 12 de abril e pergunta se poderá regressar a casa. As crianças que estarão numa visita de estudo na Alemanha e não sabem o que lhes acontecerá. Há ainda os problemas com os animais de estimação adotados em outros países da União Europeia. De fora, há as queixas da falta de eficiência no processo. Há os problemas práticos do cidadão que tem um voo de ligação por Londres e não sabe se o deixam embarcar na escala. E há obviamente as inúmeras chamadas sobre qual será a data da saída: 12 de abril? 22 de maio?