Mário Cláudio

A Alma Vagueante

Eugénio de Andrade, Obscuro Domínio

Quando me pedem um testemunho sintético do meu longo trato com Eugénio de Andrade, declaro invariavelmente, "Da minha parte foi sempre uma amizade grata e sincera, mas não incondicional." A súmula parece por vezes surpreender o interlocutor, porventura habituado a essas expressões mais calorosas, de fim de carta, nas quais o adjectivo "fraternal", ou a expressão "sem quebra", marcam presença. E explico então que semelhante reserva não contende com a firmeza, nem com a lealdade, do afecto, e muito menos com a estima literária que sempre dediquei ao poeta de As Mãos e os Frutos, e a quem me manteria tributário pela raríssima solidariedade com que me distinguiu.

A Alma Vagueante

No Reino Flutuante

Ao longo de mais de quatro décadas, e praticamente sem intercadências, Eduardo Prado Coelho exerceria um magistério importantíssimo, mas não raro desmesurado, na nossa vida cultural. Protagonista único na constância da recepção dos objectos das letras, a acrescer a episódicas incursões ao universo do cinema, ou ao campo da política, acabaria por cunhar uma matriz estética, hoje em dia legitimamente avaliável. Os critérios de gosto a que se ateve, e que amparariam um punhado de praticantes de um certo vanguardismo dos anos sessenta, seriam como é natural substituídos por distintas propostas que tão-só de longe a longe, e ao sabor de amizades pessoais, Prado Coelho sufragaria a contragosto, e com risco de resvalar para o sectarismo.

A Alma Vagueante

Óscar ou Ele Próprio-o-Outro

Os alunos do Liceu D. Manuel II, do Porto, bafejados pela sorte de contarem com Óscar Lopes entre os seus professores, falavam do mestre com admiração, e até com esse respeito, raro nos adolescentes, que no caso se manifestava independente da inscrição ideológica da família de que provinham. Nascido em Leça da Palmeira, o que explicava a sua inquebrantável ternura por António Nobre, poeta que apesar disso ele incluiria na classe dos pequeno-burgueses reaccionários, Óscar Luso Lopes tornar-se-ia para mim, e misteriosamente, de convívio em simultâneo afectuoso e inacessível. Daí que jamais conseguisse eu tratá-lo pelo nome de baptismo, coisa a que me espantava se afoitassem, e com o maior dos despachos, vários bichos-caretas que pouco o frequentavam, mas que para tal se julgavam legitimados pela permissividade pós-25 de Abril.

Literatura

Saramago

A notoriedade de José Saramago nas letras pátrias, e sobretudo nas europeias, dispensa-me do esforço de procurar a habitual perífrase, a servir de título a esta crónica, e capaz de tornar mais nítida, ou mais cativante, a personalidade--tema que desejo tratar aqui. "Saramago" sem mais, desligado da graça de baptismo, e de qualquer adereço que a acompanhe, bastará de facto para identificar quem com Fernando Pessoa representa a literatura portuguesa, e em termos idênticos àqueles em que Cristiano Ronaldo simboliza o futebol internacional. O ficcionista de Todos os Nomes foi de resto brindado por um apelido que regista tanto de bravio como de truculento, sublinhando dois dos traços mais genuínos do seu carácter.

A Alma Vagueante

Um vulcão chamado Sena

O convívio com qualquer criador tece-se de sinuosos acasos, circunstância que por vezes ganha corpo, quando do diálogo imediato com a obra se transita ao contacto pessoal com quem a segrega. O nome de Jorge de Sena pontuar-me-ia as leituras da adolescência, não como do grande escritor que ele era, espraiado pela poesia, pelo teatro, pelo ensaio e pela novelística, mas quase exclusivamente como do tradutor, aliás de inexcedível qualidade, de muitos dos marcos supremos da literatura universal.