Mário Cláudio

A Alma Vagueante

Os Dias sem Sombra de Guilherme de Melo

As atitudes discriminatórias, seja qual for a modalidade apresentada, tendem fatalmente a eternizar-se, quando as respectivas vítimas avocam a sua condição como irreparável culpa, ou como bandeira desfraldada. No primeiro dos casos abre-se uma nova página do Martirológio, a prometer talvez o acesso a um altar, e no segundo resvala-se para um militantismo que, coroado embora pelos louros do herói, reduz os comuns à mera dimensão folclórica. E o perigo de anonimato, ou de ghettização, que espreita uma e outra destas reacções, rapidamente aproveitado pela vigilância do opressor, conduz a apartheids de natureza vária, e à conversão do mundo num lugar inabitável.

A Alma Vagueante

O Natal Passado de David Mourão-Ferreira

Talvez o mais citado poema natalício do nosso século XX seja a Ladainha dos Póstumos Natais, de David Mourão-Ferreira, e nele se ilustram duas facetas notórias da personalidade do poeta. Nas suas linhas denuncia-se o gozo da intimidade doméstica, não raro erigida por David em chancela pessoal, e apesar do mundanismo de que se tornava fácil acusá-lo. Por outro lado deduz-se dos mesmos versos a magoada reflexão sobre a transitoriedade das coisas terrestres, tema em que exercitaram o seu engenho os imperadores Adriano e Marco Aurélio, familiares como Mourão-Ferreira da Bacia Mediterrânica, e como ele debruçados para a melancolia da existência, tocada pela exaltação da beleza, que tanto deve aos estóicos como aos epicuristas.

A Alma Vagueante

"Lisboa É Longe"

Tive uma inesquecível amiga, judia alemã, e refugiada em Londres, que nos idos de setenta se me afigurava antiquíssima, e tanto como devo parecer hoje aos que vão na idade em que eu ia na altura. Na sua juventude em Paris Hilda Blum encontrara-se com Nijinski, e falava do bailarino com a memória fresca, e idêntica à que usamos, quando nos referimos agora a Amália Rodrigues. Daí que a crivasse eu de importunas perguntas sobre como era, ou não era, o extraordinário criador de O Espectro da Rosa, e sobre como se manifestavam quantos no grupo dele se haviam tratado por "tu cá, tu lá", Diaghilev, Picasso, Cocteau, ou Stravinsky.

A Alma Vagueante

O Último Árbitro

Será um lugar-comum declarar que os escritores, e também as crianças, necessitam de um modelo parental que lhes imponha o código, lhes atribua o prémio, e lhes sentencie o castigo, sob pena de se transformarem em autocráticos monstros, exploradores do próximo, ou em adultos inúteis, a coçar os costados nas esquinas. Por anos e anos João Gaspar Simões encarnaria o grande irmão, aterrorizando e protegendo, verberando e excluindo, os letrados da nossa terra, e desempenhando uma missão que o situava entre o mestre-escola e o juiz. A tenacidade, e inclusive a verrina, que injectava na sua canseira de árbitro das letras lusas, não tornariam a ser igualadas.

A Alma Vagueante

Um vulcão chamado Sena

O convívio com qualquer criador tece-se de sinuosos acasos, circunstância que por vezes ganha corpo, quando do diálogo imediato com a obra se transita ao contacto pessoal com quem a segrega. O nome de Jorge de Sena pontuar-me-ia as leituras da adolescência, não como do grande escritor que ele era, espraiado pela poesia, pelo teatro, pelo ensaio e pela novelística, mas quase exclusivamente como do tradutor, aliás de inexcedível qualidade, de muitos dos marcos supremos da literatura universal.