Mário Cláudio

A Alma Vagueante

Eugénio de Andrade, Obscuro Domínio

Quando me pedem um testemunho sintético do meu longo trato com Eugénio de Andrade, declaro invariavelmente, "Da minha parte foi sempre uma amizade grata e sincera, mas não incondicional." A súmula parece por vezes surpreender o interlocutor, porventura habituado a essas expressões mais calorosas, de fim de carta, nas quais o adjectivo "fraternal", ou a expressão "sem quebra", marcam presença. E explico então que semelhante reserva não contende com a firmeza, nem com a lealdade, do afecto, e muito menos com a estima literária que sempre dediquei ao poeta de As Mãos e os Frutos, e a quem me manteria tributário pela raríssima solidariedade com que me distinguiu.

A Alma Vagueante

As Letras da Amizade

Quando dois amigos, e ambos escritores, coincidem no quadro cronológico que os deuses lhes concederam, ou no maior segmento dele, alguns fenómenos interessantes, mas perturbadores, poderão desencadear-se. Se a vizinhança no tempo, e o reiterado convívio, os dispensa de reparar no trabalho um do outro, a defesa que mutuamente empreendem, sempre que ameaçados pelo advento das gerações a seguir, condu-los com frequência ao sectarismo, e ao fechamento às novas propostas de criação. Vasco Graça Moura, e o subscritor destas linhas, unidos por tais factores, exemplificarão talvez, e salvas todas as diferenças, inclusive as qualitativas, semelhante dinâmica.

A Alma Vagueante

Luísa Dacosta ou A Mecânica da Desistência

As figuras que têm desfilado por estas colunas, todas elas transcendentes já da glória do mundo, resvalaram muitas vezes para o esquecimento, e não raro apesar de festejadíssimas em vida. Ferreira de Castro por exemplo, com quem se iniciou esta secção, foi muito lido, traduzido em idiomas inúmeros, e até candidato ao Prémio Nobel, mas o seu nome mergulharia no ocaso que atesta a transitoriedade das coisas humanas. Deslindar o porquê de tal fenómeno, tentar deduzir as leis da sua verificação, e conformar-se com ele, ou rebelar-se contra o seu império, constitui objecto da Sociologia da Literatura e Leitura, disciplina que brilha pela ausência nos programas académicos.

A Alma Vagueante

Óscar ou Ele Próprio-o-Outro

Os alunos do Liceu D. Manuel II, do Porto, bafejados pela sorte de contarem com Óscar Lopes entre os seus professores, falavam do mestre com admiração, e até com esse respeito, raro nos adolescentes, que no caso se manifestava independente da inscrição ideológica da família de que provinham. Nascido em Leça da Palmeira, o que explicava a sua inquebrantável ternura por António Nobre, poeta que apesar disso ele incluiria na classe dos pequeno-burgueses reaccionários, Óscar Luso Lopes tornar-se-ia para mim, e misteriosamente, de convívio em simultâneo afectuoso e inacessível. Daí que jamais conseguisse eu tratá-lo pelo nome de baptismo, coisa a que me espantava se afoitassem, e com o maior dos despachos, vários bichos-caretas que pouco o frequentavam, mas que para tal se julgavam legitimados pela permissividade pós-25 de Abril.

A Alma Vagueante

Um Poeta na Permanência de Deus

Creio que, se me excluir a mim mesmo, Manuel António Pina terá sido o escritor português, de quantos nasceram já no século XX, com quem mais remotamente convivi. A questão da "alteridade", formulada em termos de se averiguar quem afinal escreve, se nós mesmos, se o outro, interessava sobremaneira ao autor do mais extenso título da nossa poesia, Ainda não É o Fim nem o Princípio do Mundo Calma É apenas Um Pouco Tarde. Falo por isso de mim como ele gostava de falar de si, ilustrando o tema que continua a fazer as delícias dos psiquiatras debruçados sobre as naturezas criativas, e sobre as diversas patologias com elas conexas, ou talvez não.