Maria do Rosário Pedreira

Maria do Rosário Pedreira

Preparem-se

Antes de encontrar alguém disposto a aturar-me, vivi 17 anos sozinha. Foi um período importante de autoconhecimento (temos mais tempo para olhar para nós e por nós) em que descobri que solidão e silêncio são coisas de que todos deviam desfrutar. Havia fins-de-semana em que praticamente só lia e pensava. Os meus amigos - quase todos animais sociais - achavam aquilo esquisito, mas eu sentia-me bem assim e sei que, se não tivessem sido esses anos a sós, não teria o mesmo respeito pelos outros. De qualquer modo, a menos que chovesse, era muito raro passar um dia inteiro em casa: saía para tomar um café, fazer compras ou dar um passeio. E via pessoas, mesmo que não fossem conhecidas.

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O estado da arte

As recentes notícias sobre o desconhecimento do paradeiro de mais de cem obras da Colecção de Arte do Estado - algumas das quais se crê terem sido roubadas - recordaram-me um romance que publiquei com grande entusiasmo há alguns anos. Adoração, de Cristina Drios, debruça-se sobre o período que Caravaggio passou na Sicília em 1609, aguardando um indulto papal para um crime de sangue que cometera em Roma e pintando Natividade com São Francisco e São Lourenço, quadro que, reproduzido na capa do livro, foi infelizmente roubado em 1969 na cidade de Palermo. Apesar de o romance avançar hipóteses muito hábeis para a autoria do furto, o quadro na realidade nunca apareceu, tal como se verificou com obras-primas de mestres como Vermeer, Rembrandt, Van Gogh, Monet, Cézanne, Picasso, enfim, a lista é longa, e há suspeitas de que algumas acabaram destruídas - como se supõe ter sido o caso de um quadro de Picasso que o ladrão escondeu num caixote de lixo, mas terá ido parar ao camião triturador antes de ele ter podido recuperá-lo.

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Mascarada

Contaram-me que o poeta e jornalista Fernando Assis Pacheco e a sua família adoravam o Carnaval e - disfarçados com perucas, chapéus e roupas espalhafatosas ou trapalhonas - faziam verdadeiros "assaltos" a casa de amigos e conhecidos que, frequentemente, tardavam a perceber quem tinham à frente. E que uma vez, ficando a saber que em Mérida havia um Carnaval famoso, para lá rumaram com a mala cheia de trajes e adereços, andando mascarados pelas ruas da cidade.

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Ligar os pontos

Fiz uma parte significativa da minha formação sem poder escolher canetas, lápis ou cadernos, não porque na minha escola exigissem um material específico, mas porque o mercado era então tremendamente escasso. Vendiam-se uns cadernos pautados ou quadriculados com capa lisa e, para os rascunhos, umas sebentas que ficavam mesmo sebentas num instante, pois eram feitas de um papel tão mau como o que absorvia o óleo das batatas fritas lá em casa. As borrachas com cheiro a morango não passavam de um sonho, os afia-lápis eram todos de alumínio; e, às costas, em lugar das mochilas leves e coloridas de hoje, carregávamos umas pastas duras que levavam meses a perder o cheiro a couro. Até os passatempos nos suplementos juvenis dos jornais eram sensaborões: ligar os pontos para encontrar uma figura, pintar de acordo com o modelo, sair de um labirinto... Sem hipótese, porém, de saber o que o futuro traria - marmitas lindas para substituir aqueles termos de xadrez que davam sempre um ar de pudim à comida -, andávamos satisfeitos com o presente.

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Uma banana para Cambridge

Num pertinente ensaio intitulado O Futuro da Ficção, que nos prepara para tempos bastante sensaborões na cena artística, António-Pedro Vasconcelos, recorrendo sempre a dados históricos, mostra como têm sido curtos os períodos de grande criatividade e como entre eles, às vezes por mais de século e meio, se prolongam modorras e vazios inventivos. Estou, assim, obviamente grata por ainda ter sido contemporânea de Borges, Beckett, Picasso, Cartier-Bresson, Escher, Visconti, Piazzolla ou Frank Lloyd Wright, criadores geniais nas respectivas áreas. Hoje, que toda a gente pode publicar um livro ou editar um álbum de música, que as câmaras dos telemóveis ajudam qualquer aselha a fazer uma fotografia decente, que os filmes, sobretudo os das grandes produtoras, são planos e previsíveis, não me faltariam razões para dizer que atravessamos um desses períodos de esvaziamento criativo que permitem a todos serem artistas. Mas é nas artes plásticas que o escândalo está decididamente instalado: enquanto numa feira de arte contemporânea uma banana presa à parede com fita-cola foi vendida por 120 mil dólares (bem, só a ideia, porque a banana acabou comida por um artista concorrente numa performance), um grupo de estudantes vegetarianos da Universidade de Cambridge exigiu que fosse retirado da parede do refeitório O Mercado das Aves, uma tela flamenga seiscentista, por causar repulsa a quem não come carne. Adeus, futuro.

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Ocidentalmente

Chocou a família ao declarar que não faria a primeira comunhão, saiu de casa aos 13 anos para ir estudar na cidade grande, alterou o nome para poder usar a bengala com as iniciais do pai, polemizou com Getúlio Vargas, esteve preso, a Igreja acusou-o de ser comunista e teve um cortejo de dez mil pessoas no seu funeral. Este "revolucionário" chamava-se Monteiro Lobato (1882-1948) e é conhecido como o autor de O Sítio do Pica-Pau Amarelo, mas escreveu muitos outros livros, foi traduzido em todo o mundo e integra o cânone da literatura brasileira.

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Eternos meninos

Roubo a Julian Barnes uma frase notável d'O Papagaio de Flaubert: "Quando somos novos, pensamos que os velhos se queixam de os tempos já não serem o que eram porque isso lhes torna mais fácil não ter medo de morrer. Quando somos velhos, tornamo-nos impacientes com o modo como os jovens aplaudem o progresso mais insignificante mas não dão importância à barbárie do mundo. Não vou dizer que as coisas estão piores, o que digo é que, se estivessem, os jovens não dariam por isso. Os velhos tempos eram bons porque nós éramos jovens e ignorávamos quão ignorantes os jovens podem ser."

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Os sapatos de Deus

Regra geral, ouço o noticiário da rádio porque me cansei de telejornais demasiado longos e cheios de falsas notícias, bem como dos erros de ortografia nos rodapés. Em minha casa, o televisor não tem, aliás, grande serventia, pois liga-se quase só para o futebol - e não é que eu aprecie muito, mas pelo menos o ruído de fundo não me incomoda enquanto leio. Além disso, quando vivemos com alguém, se não queremos que a relação estiole, temos de ceder em alguma coisa - e esta, confesso, é uma cedência que não me custa nada fazer ao Manel que, enquanto dura o desafio, dá pontapés no ar cheio de nervoso miudinho e enche o cinzeiro de beatas.

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Velharias

Pertenço a uma família em que as mulheres têm tendência para a longevidade. A minha bisavó paterna - que, de resto, nunca dizia a idade - morreu com uns simpáticos 92 anos; e, quando o médico, horas antes do seu último suspiro, tentou a sorte perguntando-lhe pela milionésima vez quantos anos tinha, ela limitou-se a responder baixinho: "Vinte e cinco." E talvez na sua cabeça os tivesse: segundo a minha mãe, quando iam à Baixa e lhe dava o braço para atravessarem a rua, ela sacudia-o imediatamente, comentando: "Credo, menina! O moço e o cego, não." Já a minha avó - que cheirava ao pó-de-arroz da Madame Campos e trazia sempre entalado na manga um lenço de assoar -, alimentada a chá, canja e peixe cozido, com banho de imersão diário e sem noção do que era a ecologia, viveu até aos 94 anos. Nascida em finais do século XIX, teve o seu primeiro bilhete de identidade já depois do 25 de Abril; e, quiçá honrando a memória da mãe, jurava que lhe tinham acrescentado indevidamente dois anos aos que já tinha, mas que não sabia como reclamar. Sendo mãe do meu pai, foi curiosamente com a nora e os netos que decidiu ficar a viver quando o filho lhe anunciou que iria divorciar-se. Essa nora - a minha adorada mãe - não foge à regra e completou recentemente 95 anos. Tendo começado a fumar aos 15, resolveu deixar aos 85 (para quê, meu Deus?) e, antes de sofrer de degenerescência macular, lia o jornal de ponta a ponta, incluindo a necrologia, e pedia-nos livros emprestados todas as semanas; mas, se lhe levávamos um desses romances mais leves, telefonava, zangada, ao fim de dez páginas, a dizer que já passara a fase da literatura juvenil...

Maria do Rosário Pedreira

Na montra

O meu otorrino disse-me que tenho ouvidos de surfista e perguntou-me se praticava (ou tinha praticado) a modalidade; embora lhe tenha respondido que não, calculo que a maneira de ser dos meus ouvidos se deva à circunstância de eu ter passado muitas férias com a cabeça debaixo de água (no mar ou na piscina) e de ter dado incontáveis mergulhos de pranchas. Lá em casa até se contava que, tinha eu 7 ou 8 anos, assustei a sério a mãe de uma amiga (que resolvera celebrar os anos na piscina do demolido Hotel Estoril-Sol) ao subir tranquilamente à prancha dos dez metros (que era a mais alta) e chamar toda a gente lá de cima apenas um segundo antes de saltar. A senhora ficou sem pinga de sangue, antevendo uma tragédia mais do que certa e perguntando-se como daria a triste notícia à minha família. E eu lembro-me de que a altura da prancha, para alguém que media apenas 1,20 m, impunha efectivamente respeito, mas pensar em descer dezenas de degraus, ainda por cima molhados, era bastante mais assustador.