Maria do Rosário Pedreira

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Maria do Rosário Pedreira

Os deuses das moscas

Com a idade, tendemos a olhar para o passado em jeito de balanço; mas, curiosamente, arrependemo-nos sobretudo do que não fizemos nem vamos já a tempo de fazer. Cá em casa, tentamos, mesmo assim, combater o vazio mostrando um ao outro o que foi a nossa vida antes de estarmos juntos e revisitando os lugares que nos marcaram. Já fomos, por exemplo, a Macieira de Cambra em busca de uma rapariga com quem o Manel dançara um Verão inteiro (e encontrámo-la, mas era tudo menos uma rapariga); e, mais recentemente, por causa de um casamento no Gerês, fizemos um desvio para eu ir ver o hotel das termas onde ele passava férias com os avós quando era adolescente. Ainda hoje o Manel me fala com saudade daqueles julhos pachorrentos, entre passeios ao rio Homem e jogos de cartas numa varanda larga onde as senhoras inventavam napperons e mexericos, enquanto os maridos, de barrigas fartas de tripas e francesinhas no ano inteiro, tratavam dos intestinos com as águas milagrosas de Caldelas. Nas redondezas, havia, ao que parece, uma imensidão de campos; e, por causa das vacas que ali pastavam, os hóspedes não conseguiam dar descanso aos mata-moscas, ameaçados pelas ferradelas das danadas que, não bastando zumbirem irritantemente, ainda tinham o hábito de pousar onde se sabe.

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O fim da correspondência

Na inauguração de uma exposição em Lisboa, o fotógrafo argentino Daniel Mordzinski contou que, quando começou a fazer retratos de escritores, eram ainda tempos de pombos-correio e cartas de amor. Também eu cresci numa época em que as raparigas esperavam todos os dias que o carteiro lhes entregasse um aerograma vindo de África (e que não fossem más notícias) ou umas linhas do noivo que tinha ido a salto para França, fugindo à guerra e à pobreza. A trabalhar lá em casa, a Virgínia, que tinha os olhos espantosamente verdes, casara-se por procuração com o namorado que vivia na Suíça; e, com grande pena nossa, aguardava apenas a "carta de chamada" para se lhe juntar, enquanto eu, a frequentar o ciclo preparatório, ensinava à irmã dela que, em francês, o seu nome se dizia "Marie du Ciel", caso também ela quisesse trocar Lisboa por Genève (o que era mais do que certo). Contudo, as que cá ficavam não deixavam de ter direito a missivas: apaixonada por um fulano da terra que não lhe ligava um caracol, a Augusta tanto se queixou ao carteiro de nunca lhe trazer uma cartinha que ele decidiu escrever-lhe em nome próprio e a história entre os dois acabou em casório.

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As novas amêndoas

Quando eu era pequena, em nossa casa as compras faziam-se ao mês num grande armazém; e lembro-me de ver chegar de uma assentada uma grande saca de batatas (que ia logo para a varanda), pacotes de arroz, farinha, massa, feijão, sal e açúcar, garrafas de azeite e óleo, embalagens de bolacha maria, frascos de compota, azeitonas e sei lá que mais. Nada era especialmente apetecível, excepto as tabletes de chocolate para fazer mousse (que quase sempre desapareciam misteriosamente da despensa ao fim de uma semana) e um saco de rebuçados sortidos iguais aos que as pastelarias vendiam em frascos de vidro, sendo os meus favoritos umas bolas com sabor a tangerina. Em crianças, todos éramos bastante gulosos lá em casa, e eu paguei caro o vício: vendo numa tarde ao lado do fogão o que parecia um delicioso caramelo embrulhado em papel de prata, mastiguei a coisa mais salgada e horrível de que tenho memória: um cubo de caldo de galinha! Mas não fui a única castigada: a minha irmã enfiou na boca três rebuçados de uma só vez e engasgou-se de tal maneira que foi preciso bater-lhe nas costas com toda a força... Os rebuçados até saíram disparados, chocando com a parede.

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Nem tanto à terra

No Portugal da ditadura, em que no campo as mulheres aumentavam a própria miséria tendo todos os anos mais um filho (mas, se alguém lhes perguntava porquê, respondiam coisas como "Isto morre"), muitas crianças preferiam o trabalho agrícola à sala de aula, fosse por terem de andar quilómetros a pé até à escola (quase sempre descalças e com fome), fosse por os professores lhes baterem por dá cá aquela palha, às vezes só para mostrar quem é que mandava. Conheço quem tenha levado reguadas nos nós dos dedos (trinta seguidas por ter defendido uma colega acusada injustamente de roubar um bolo); quem chorasse diariamente no caminho para a escola com medo de um ponteiro que todas as semanas ameaçava partir-se numa cabeça diferente; e até quem tenha deixado os estudos na segunda classe por a professora lhe espetar as unhas na parte mais carnosa da orelha de cada vez que descobria um erro na conta de somar. Não foi, felizmente, o meu caso, embora também me recorde de, no colégio onde andei, haver uma palmatória pendurada no gabinete da directora para inibir comportamentos demasiado afoitos. Mas nunca a vi avermelhar uma só mão.

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O verdadeiro método de estudar

Uma cunhada minha - mal acostumada às notas altas da restante prole - teve de chamar a atenção da filha de 10 anos (que não seguiu, pelos vistos, as pisadas dos irmãos) para a importância de estudar. Mas a miúda, em vez de acusar o toque e prometer endireitar-se, deixou a mãe perdida de riso ao replicar que "há vida para além da escola". A verdade é que eu, até chegar ao último ciclo do secundário, em que pude finalmente estudar o que me interessava, também não fui uma aluna por aí além; gostava de conversar nas aulas, tinha preguiça de copiar do quadro e, regra geral, estava a olhar pela janela para um dia lindo quando a professora ditava alguma coisa que era preciso anotar. Não fosse a perseverança da minha mãe, o mais certo era ter perdido um ano, de tal modo me desentendi com a Física e a Matemática numa altura em que só se podia chumbar a uma delas.

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Morrer em directo

Para os meus irmãos não voltarem à carga com a história de terem um cão - o que numa casa alcatifada, como eram quase todas no final dos anos sessenta, estava fora de questão -, a minha mãe tentou arrumar o assunto (pelo menos, temporariamente) comprando-nos três peixinhos de aquário, dos quais, por acaso, me calhou o mais feio. Era um espécime amarelo que alguém classificou como golden para me consolar, mas cuja falta de graça tentei compensar com um nome suficientemente snob: Mr. Pickwick.

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Algoritmo e mulheres nuas

Na minha infância, quase não havia pronto-a-vestir; por isso, a minha irmã e eu íamos às lojas de fazendas da Baixa, e era frequentemente no saudoso Eduardo Martins que escolhíamos o xadrez para os kilts desse Inverno, numa espécie de livros de amostras com remate em ziguezague de que ainda hoje sinto saudades. Comprados os forros, os fechos e as fivelas (com o desconto que a minha mãe nunca se esquecia de pedir, fazendo-nos corar), partíamos então dali as três para a modista, que tinha na sala uma cristaleira atafulhada de budas e usava, qual mestra de vudu, uma pulseira almofadada cravada de alfinetes.

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Adeus, futuro: "As drogas e os simples"

Antes de haver supermercados, as drogarias desempenhavam um papel fundamental na organização doméstica, e a do meu bairro cheirava àquele quadrado de sabão com que então se esfregava a roupa na tábua canelada do tanque. Além de vender pentes, vassouras, lixa e aguarrás, era lá que se encontravam coisas com nomes incríveis como Benzovac (que tirava nódoas), Solarine (que areava pratas), borato, bicarbonato e permanganato (para usos vários) e até um pó lilás que, misturado com água oxigenada, descolorava buços e pêlos de braços num tempo em que não se usava a depilação. Atrás do balcão, além de um rapaz que catrapiscava a minha irmã, era possível ver uma longa fila de frascos de vidro com tampa de metal, todos devidamente etiquetados, com as várias substâncias que faziam do estabelecimento uma drogaria.

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Natureza morta

Desde que nasci até sair de casa dos meus pais, morei numa das mais movimentadas avenidas da capital - e, às vezes, dizem-me que ainda trago o cheiro da gasolina agarrado à pele e o eco do trânsito nos ouvidos. Passei a infância cheia de pena de não poder ir "à terra", como tantas colegas que tinham quintas, hortas e avós num canto qualquer do país; mas a minha família paterna estava em Lisboa pelo menos desde o reinado de D. Luís; e a materna, antes de poder ver a Sé da janela de casa, entretivera-se por áfricas e brasis, sem nunca sentir o apelo da província.