Maria do Rosário Pedreira

Maria do Rosário Pedreira

Cinemínimo

Agora, obrigados que estamos ao isolamento, o cinema é uma boa forma de passar o tempo, mesmo que ver grandes filmes num ecrã pequeno não seja o ideal. E, porém, como Ruy Castro confessava aqui há umas semanas, também eu já não sou a papa-filmes que fui durante boa parte da minha vida. Não só pelas pipocas - o cheiro é insuportável e nisso Ruy Castro tem absoluta razão -, mas também porque o cinema que hoje se faz é muitas vezes previsível e mal escrito e, ainda que as técnicas tenham evoluído para tornar tudo tão verosímil como fantástico, saio frequentemente de um filme sem que ele me tenha deixado qualquer marca. Falo, claro, das produções que passam na maioria dos cinemas, porque há uma filmografia de qualidade que raramente cá chega e, se chega, fica apenas uns dias numa sala escolhida e num horário estrambólico. Deve ser por isso, aliás, que as séries conquistaram os novos cinéfilos que, habituados aos ecrãs pequenos, as vêem onde e quando lhe apetece.

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Mascarada

Contaram-me que o poeta e jornalista Fernando Assis Pacheco e a sua família adoravam o Carnaval e - disfarçados com perucas, chapéus e roupas espalhafatosas ou trapalhonas - faziam verdadeiros "assaltos" a casa de amigos e conhecidos que, frequentemente, tardavam a perceber quem tinham à frente. E que uma vez, ficando a saber que em Mérida havia um Carnaval famoso, para lá rumaram com a mala cheia de trajes e adereços, andando mascarados pelas ruas da cidade.

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Mães e filhas

Já não fui a tempo de brincar com os Nenucos, que se babavam, choravam lágrimas de verdade, davam passinhos, diziam mamã; mas lembro-me dos bonecos chorões dos anos 1960, que tinham um corpo maleável, cabelo a sério (e não apenas pintado na cabeça) e uma data de acessórios irresistíveis, como biberões, babetes e até uma alcofa. Lá em casa, brincávamos muito aos pais e às mães - e decerto replicávamos o comportamento dos nossos pais pensando que estávamos a educar os nossos filhos como bem entendíamos. A brincadeira constituía, de resto, uma espécie de estágio para o futuro, tendo em conta que então se esperava que as meninas se casassem e constituíssem família. Não foi o meu caso, mas conheço quem tenha aprendido a mudar fraldas com bonecos.

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Você (não) está aqui

Até há pouco tempo, quando viajávamos, o recepcionista do hotel tinha sempre à mão para nos entregar um mapa desdobrável que, regra geral, exibia no verso anúncios a restaurantes e espectáculos caça-turistas e uma planta ampliada do centro da cidade onde estavam assinalados com desenhos ingénuos os sítios que não podíamos deixar de visitar. E fazia um círculo a esferográfica na rua do hotel - como quem diz "Você está aqui" - marcando o início da caminhada e mostrando o trajecto até ao destino. Lembro-me também de ser comum encostar o carro à berma numa cidade desconhecida e abrir o vidro para perguntar a um transeunte onde ficava determinada rua. Contávamos connosco e com a bondade de estranhos.

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O sexo das inocentes

Tornei-me adolescente num tempo em que quase tudo o que dava prazer era pecado. No colégio, corria o boato de que, perdida a virgindade, seria impossível encontrar marido, e uma freira irlandesa chegou a sugerir que, se nos sentássemos um dia ao colo de um rapaz, puséssemos uma revista pelo meio... Pior era não se poder fazer perguntas sobre sexo (usar a palavra já era um escândalo) nem haver sobre a matéria livros disponíveis, pelo que os mitos e a ignorância não podiam senão crescer e multiplicar-se. Lembro-me, por exemplo, de uma miúda com quem fazia ginástica pensar que as mulheres tinham de ser operadas à barriga para darem à luz, contando que uma vizinha não chegara a tempo à maternidade e tivera o bebé "como uma cadela". Já na faculdade, a um ano de terminar o curso, uma colega anunciou que não queria ter filhos porque com o parto "aquilo" alargava e nunca mais se tinha prazer. (E ia ser professora...) Mas não se pense que os rapazes sabiam muito mais do que nós, pois já não eram tempos de os pais os mandarem a um bordel de confiança, mas também ainda não havia assim tantas adolescentes dispostas a ter relações sexuais. Safavam-se os que tinham lábia ou a sorte de apanhar uma estrangeira de férias em Portugal - e, nesse aspecto, as suecas eram as que tinham fama de ser mais avançadas.

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Ler e/ou escrever

Há muitos anos, recebi um original de ficção de uma autora estreante que pedia uma opinião absolutamente sincera sobre a sua obra. Designar por "obra" o que ainda não devia passar de um rascunho fez-me logo pensar em ego inflamado. Por isso decidi que, se a resposta fosse negativa, não entraria em detalhes, sob o risco de o castelo de cartas cair com demasiado estrondo. Comecei pela sinopse; mas, além de só prometer banalidades, tinha uma repetição escusada, uma imagem de gosto duvidoso, um parêntese que abria e não fechava e até um erro ortográfico que, mesmo com boa vontade, não podia ser gralha. O romance propriamente dito não era melhor, e recusei-o invocando a estrutura confusa, o final previsível, inconsistências várias e um certo desconhecimento da gramática.

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Os sapatos de Deus

Regra geral, ouço o noticiário da rádio porque me cansei de telejornais demasiado longos e cheios de falsas notícias, bem como dos erros de ortografia nos rodapés. Em minha casa, o televisor não tem, aliás, grande serventia, pois liga-se quase só para o futebol - e não é que eu aprecie muito, mas pelo menos o ruído de fundo não me incomoda enquanto leio. Além disso, quando vivemos com alguém, se não queremos que a relação estiole, temos de ceder em alguma coisa - e esta, confesso, é uma cedência que não me custa nada fazer ao Manel que, enquanto dura o desafio, dá pontapés no ar cheio de nervoso miudinho e enche o cinzeiro de beatas.

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Para inglês ver

Com o Brexit, os franceses, que sempre foram um bocado chauvinistas, começaram logo a esfregar as mãos: se a língua mais falada nas reuniões da UE era a do país que estava de saída, havia ali uma oportunidade para impor o regresso do francês às instituições europeias. Não acredito. Além de já poucos países-membros ensinarem o francês como disciplina obrigatória, o inglês é o idioma da música, do cinema e da televisão que a maioria das pessoas ouve e vê em toda a Europa (e no mundo), tendo-se por isso tornado uma espécie de segunda língua para os que não a têm como primeira (incluindo os franceses, que finalmente se resolveram a aprendê-la). Aqui no burgo, onde os intelectuais foram durante anos influenciados pela cultura francesa, há hoje uma geração mais tecnológica que deixou de saber como se dizem certas coisas na língua materna, mas é absolutamente fluente em inglês. Basta ir ao LinkedIn para ver que todos os nossos conhecidos são agora managers, experts, founders, owners, services providers, coaches, columnists, analysts, strategists, freelancers... e que, quando tentam o português, o cargo fica, ainda assim, a cheirar a tradução, como no caso de um psicoterapeuta que se apresenta como "constelador sistémico" (por momentos, até pensei que se dedicasse à astrologia). Num restaurante, por causa da chapinha de metal no bolso do uniforme, um cliente perguntou ao empregado se nascera no estrangeiro e donde lhe vinha o nome "Trainee". Realmente, por que diabo não escrevem simplesmente "Estagiário" ou "Formando" se estamos em Portugal? É verdade que o crescimento do turismo não ajuda: numa semana, abriu uma dúzia de restaurantes na capital, mas nenhum foi baptizado em português... E há quem ache que o inglês dá um ar cosmopolita, mas depois meta o pé na argola, escrevendo no programa de um congresso que, a meio da manhã, está previsto um redundante "intervalo para coffee break". Exagera-se a tal ponto nas inglesices que uma mãe bem-humorada contava recentemente no Facebook que a filha ficou admiradíssima ao descobrir que "Famalicão" não se escrevia... "Family Cão". Um dia destes, uma jovem leitora escreveu lá para a editora a propor uma parceria: nós oferecíamos-lhe livros, ela dizia bem deles nas redes sociais. E não foi de modas, indicando logo os géneros literários da sua preferência: "YA, NA, Fantasy, Sci-Fi e Thrillers." Olha, filha, deve haver aqui algum engano... Era para a Amazon que querias escrever, não era? Adeus, futuro.Editora e escritora. Escreve de acordo com a antiga ortografia

Maria do Rosário Pedreira

Os deuses das moscas

Com a idade, tendemos a olhar para o passado em jeito de balanço; mas, curiosamente, arrependemo-nos sobretudo do que não fizemos nem vamos já a tempo de fazer. Cá em casa, tentamos, mesmo assim, combater o vazio mostrando um ao outro o que foi a nossa vida antes de estarmos juntos e revisitando os lugares que nos marcaram. Já fomos, por exemplo, a Macieira de Cambra em busca de uma rapariga com quem o Manel dançara um Verão inteiro (e encontrámo-la, mas era tudo menos uma rapariga); e, mais recentemente, por causa de um casamento no Gerês, fizemos um desvio para eu ir ver o hotel das termas onde ele passava férias com os avós quando era adolescente. Ainda hoje o Manel me fala com saudade daqueles julhos pachorrentos, entre passeios ao rio Homem e jogos de cartas numa varanda larga onde as senhoras inventavam napperons e mexericos, enquanto os maridos, de barrigas fartas de tripas e francesinhas no ano inteiro, tratavam dos intestinos com as águas milagrosas de Caldelas. Nas redondezas, havia, ao que parece, uma imensidão de campos; e, por causa das vacas que ali pastavam, os hóspedes não conseguiam dar descanso aos mata-moscas, ameaçados pelas ferradelas das danadas que, não bastando zumbirem irritantemente, ainda tinham o hábito de pousar onde se sabe.

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A praga do silêncio

Lá em casa costumamos fazer umas miniférias a seguir à Feira do Livro - não só porque ela nos rouba, pelo menos, três fins-de-semana seguidos e dois feriados (o que só por si justificaria a necessidade de repouso), mas também porque, para quem ama os livros, a tristeza cresce de ano para ano com a situação, e as férias ajudam a recuperar do desapontamento. Na verdade, são cada vez mais as pessoas que vão ao Parque Eduardo VII tirar uma selfie com uma tia cozinheira em vez de comprar um livro de um escritor a sério. Neste ano, que a feira era antiplástico, chegou-se ao cúmulo de, em alguns pavilhões, se venderem mais sacos de pano do que livros; e até ouvi uma rapariga, com um exemplar de O Tatuador de Auschwitz na mão, comentar que nunca na vida pensara que, nos campos de concentração, os nazis deixassem os judeus fazer tatuagens. Ai, mãe... Depois disto, eu tinha mesmo de me afastar para esquecer a tragédia que aí vem - e para ler, claro, enquanto há bons livros.