Maria do Rosário Pedreira

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Maria do Rosário Pedreira

Modernices

O paleoantropólogo francês Yves Coppens - membro da equipa que descobriu o esqueleto de Lucy (um Australopithecus afarensis com mais de três milhões de anos) em 1974, mudando para sempre a nossa compreensão da evolução humana - contou, quando passou por Lisboa nos anos 1990, uma história deliciosa. A avó era profundamente católica e, como tal, não queria de maneira nenhuma aceitar que o homem descendesse do macaco (Australopithecus significa, aliás, "macaco do sul"). No entanto, diante do reconhecimento universal de que o neto era alvo, começou a pensar que talvez estivesse a ser demasiado radical. Então, chamou-o ao seu quarto, fechou a porta para ninguém a ouvir e, depois de o felicitar pelo êxito das suas conquistas, atalhou: "Olha, Yves, tu até podes descender do macaco, mas eu não."

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Eternos meninos

Roubo a Julian Barnes uma frase notável d'O Papagaio de Flaubert: "Quando somos novos, pensamos que os velhos se queixam de os tempos já não serem o que eram porque isso lhes torna mais fácil não ter medo de morrer. Quando somos velhos, tornamo-nos impacientes com o modo como os jovens aplaudem o progresso mais insignificante mas não dão importância à barbárie do mundo. Não vou dizer que as coisas estão piores, o que digo é que, se estivessem, os jovens não dariam por isso. Os velhos tempos eram bons porque nós éramos jovens e ignorávamos quão ignorantes os jovens podem ser."

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Contranatura

Tenho um amigo que é ateu a maior parte do tempo; mas, quando o espectáculo da natureza lhe tira o fôlego, pergunta-se se não existirá realmente uma sumidade capaz dessa magia sem truques, pois o homem, por mais coisas que tenha inventado, não conseguiu ainda mover a montanha, nem pendurar a Lua no céu, nem mandar chover sobre a terra e o fogo quando é preciso, nem produzir flocos de neve que não passem de farrapinhos de algodão. Pondo de lado a questão teológica, a natureza é, de facto, uma espécie de milagre e, como se isso não bastasse, ainda faz milagres que são tudo menos naturais.

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Velharias

Pertenço a uma família em que as mulheres têm tendência para a longevidade. A minha bisavó paterna - que, de resto, nunca dizia a idade - morreu com uns simpáticos 92 anos; e, quando o médico, horas antes do seu último suspiro, tentou a sorte perguntando-lhe pela milionésima vez quantos anos tinha, ela limitou-se a responder baixinho: "Vinte e cinco." E talvez na sua cabeça os tivesse: segundo a minha mãe, quando iam à Baixa e lhe dava o braço para atravessarem a rua, ela sacudia-o imediatamente, comentando: "Credo, menina! O moço e o cego, não." Já a minha avó - que cheirava ao pó-de-arroz da Madame Campos e trazia sempre entalado na manga um lenço de assoar -, alimentada a chá, canja e peixe cozido, com banho de imersão diário e sem noção do que era a ecologia, viveu até aos 94 anos. Nascida em finais do século XIX, teve o seu primeiro bilhete de identidade já depois do 25 de Abril; e, quiçá honrando a memória da mãe, jurava que lhe tinham acrescentado indevidamente dois anos aos que já tinha, mas que não sabia como reclamar. Sendo mãe do meu pai, foi curiosamente com a nora e os netos que decidiu ficar a viver quando o filho lhe anunciou que iria divorciar-se. Essa nora - a minha adorada mãe - não foge à regra e completou recentemente 95 anos. Tendo começado a fumar aos 15, resolveu deixar aos 85 (para quê, meu Deus?) e, antes de sofrer de degenerescência macular, lia o jornal de ponta a ponta, incluindo a necrologia, e pedia-nos livros emprestados todas as semanas; mas, se lhe levávamos um desses romances mais leves, telefonava, zangada, ao fim de dez páginas, a dizer que já passara a fase da literatura juvenil...

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As novas amêndoas

Quando eu era pequena, em nossa casa as compras faziam-se ao mês num grande armazém; e lembro-me de ver chegar de uma assentada uma grande saca de batatas (que ia logo para a varanda), pacotes de arroz, farinha, massa, feijão, sal e açúcar, garrafas de azeite e óleo, embalagens de bolacha maria, frascos de compota, azeitonas e sei lá que mais. Nada era especialmente apetecível, excepto as tabletes de chocolate para fazer mousse (que quase sempre desapareciam misteriosamente da despensa ao fim de uma semana) e um saco de rebuçados sortidos iguais aos que as pastelarias vendiam em frascos de vidro, sendo os meus favoritos umas bolas com sabor a tangerina. Em crianças, todos éramos bastante gulosos lá em casa, e eu paguei caro o vício: vendo numa tarde ao lado do fogão o que parecia um delicioso caramelo embrulhado em papel de prata, mastiguei a coisa mais salgada e horrível de que tenho memória: um cubo de caldo de galinha! Mas não fui a única castigada: a minha irmã enfiou na boca três rebuçados de uma só vez e engasgou-se de tal maneira que foi preciso bater-lhe nas costas com toda a força... Os rebuçados até saíram disparados, chocando com a parede.

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Nem tanto à terra

No Portugal da ditadura, em que no campo as mulheres aumentavam a própria miséria tendo todos os anos mais um filho (mas, se alguém lhes perguntava porquê, respondiam coisas como "Isto morre"), muitas crianças preferiam o trabalho agrícola à sala de aula, fosse por terem de andar quilómetros a pé até à escola (quase sempre descalças e com fome), fosse por os professores lhes baterem por dá cá aquela palha, às vezes só para mostrar quem é que mandava. Conheço quem tenha levado reguadas nos nós dos dedos (trinta seguidas por ter defendido uma colega acusada injustamente de roubar um bolo); quem chorasse diariamente no caminho para a escola com medo de um ponteiro que todas as semanas ameaçava partir-se numa cabeça diferente; e até quem tenha deixado os estudos na segunda classe por a professora lhe espetar as unhas na parte mais carnosa da orelha de cada vez que descobria um erro na conta de somar. Não foi, felizmente, o meu caso, embora também me recorde de, no colégio onde andei, haver uma palmatória pendurada no gabinete da directora para inibir comportamentos demasiado afoitos. Mas nunca a vi avermelhar uma só mão.

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O verdadeiro método de estudar

Uma cunhada minha - mal acostumada às notas altas da restante prole - teve de chamar a atenção da filha de 10 anos (que não seguiu, pelos vistos, as pisadas dos irmãos) para a importância de estudar. Mas a miúda, em vez de acusar o toque e prometer endireitar-se, deixou a mãe perdida de riso ao replicar que "há vida para além da escola". A verdade é que eu, até chegar ao último ciclo do secundário, em que pude finalmente estudar o que me interessava, também não fui uma aluna por aí além; gostava de conversar nas aulas, tinha preguiça de copiar do quadro e, regra geral, estava a olhar pela janela para um dia lindo quando a professora ditava alguma coisa que era preciso anotar. Não fosse a perseverança da minha mãe, o mais certo era ter perdido um ano, de tal modo me desentendi com a Física e a Matemática numa altura em que só se podia chumbar a uma delas.

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Morrer em directo

Para os meus irmãos não voltarem à carga com a história de terem um cão - o que numa casa alcatifada, como eram quase todas no final dos anos sessenta, estava fora de questão -, a minha mãe tentou arrumar o assunto (pelo menos, temporariamente) comprando-nos três peixinhos de aquário, dos quais, por acaso, me calhou o mais feio. Era um espécime amarelo que alguém classificou como golden para me consolar, mas cuja falta de graça tentei compensar com um nome suficientemente snob: Mr. Pickwick.

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Algoritmo e mulheres nuas

Na minha infância, quase não havia pronto-a-vestir; por isso, a minha irmã e eu íamos às lojas de fazendas da Baixa, e era frequentemente no saudoso Eduardo Martins que escolhíamos o xadrez para os kilts desse Inverno, numa espécie de livros de amostras com remate em ziguezague de que ainda hoje sinto saudades. Comprados os forros, os fechos e as fivelas (com o desconto que a minha mãe nunca se esquecia de pedir, fazendo-nos corar), partíamos então dali as três para a modista, que tinha na sala uma cristaleira atafulhada de budas e usava, qual mestra de vudu, uma pulseira almofadada cravada de alfinetes.