Maria do Rosário Pedreira

Maria do Rosário Pedreira

Não sabe/Não responde

Nas semanas que antecederam as eleições para o Parlamento Europeu, fosse nos jornais, fosse na rádio ou na televisão, não houve cronista, político ou comentador que não apelasse ao voto. Muitos fizeram-no até num tom pedagógico, referindo-se a um direito que custou muito a conquistar, tentando arrancar da mais profunda letargia milhares de jovens que, tendo atingido a idade de ir às urnas, não se identificam com os partidos existentes, mas também nada fazem pela criação de movimentos alternativos ou de protesto. As constantes chamadas de atenção não serviram, porém, de muito: se uma sondagem alertara para o facto de só 3% (!) dos jovens portugueses estarem certos de ir votar, os resultados vieram mostrar que esses números não andavam longe da verdade.

Maria do Rosário Pedreira

Merecer

Andei na faculdade num tempo em que ir às aulas era uma festa. Depois de anos de um ensino categórico e papagueante, parecia que todas as portas se tinham finalmente aberto para podermos arejar as nossas cabeças. Longe de se cingirem à bibliografia das respectivas disciplinas, os professores mandavam-nos ir ao teatro e ver exposições, ler romances e assistir a concertos, e de vez em quando até nos propunham trocar as suas aulas por um programa que consideravam igualmente edificante.

Maria do Rosário Pedreira

Língua madrasta

À procura de umas fotografias antigas em casa da minha mãe, fui dar com um desses caderninhos de significados em que escrevíamos, do lado esquerdo, uma palavra que não conhecíamos e, do direito (depois de consultarmos o dicionário ou perguntarmos a um adulto), um sinónimo ou a respectiva definição. E, tendo em conta que na capa estava escrito "3.ª Classe" a tinta permanente, fiquei admirada com o número de palavras lá registadas que hoje seriam consideradas difíceis para uma catraia de 8 anos: animosidade, baeta, comezinho, ícone, ninharia... De facto, desde que as novas tecnologias ditaram uma mudança de paradigma - e sobretudo por falta de leitura, mas também pela informalidade que se imprimiu à comunicação -, os jovens usam um léxico extremamente reduzido e estão cada vez mais longe de dominar a língua materna.

Maria do Rosário Pedreira

Desperdícios

Uma escritora irreverente (e de direita, já agora) disse num almoço que, antes do 25 de Abril, quem comia bem eram os pobres, pois podiam deliciar-se com um entrecosto enquanto os ricos eram desgraçadamente alimentados a soufflés e empadões. Perdoe-se-lhe a desfaçatez com o sentido de humor. Efectivamente, eram tempos em que se trocavam os punhos e os colarinhos das camisas para durarem mais um ano e Salazar mandava virar os fatos do avesso quando começavam a ficar coçados do direito. Em nossa casa - e vivíamos sem austeridade - éramos, no mínimo, sete à mesa e, como tal, praticava-se essa cultura de aproveitamento que produzia refeições incríveis com as sobras da véspera: fatias recheadas com carne, passadas por ovo e farinha e depois fritas; pastelão com frango desfiado; pudim de peixe; batatas e tomates no forno com picado - enfim, um sem-número de receitas que evitavam desperdício alimentar e faziam jus à expressão "economia doméstica". Além disso, bebia-se água da torneira (refrigerantes às refeições?); lanchava-se pão com manteiga (as bolachas estavam guardadas numa lata e eram distribuídas com parcimónia); comia-se sobremesa apenas aos domingos; e, uma vez por outra, lá se levava para a escola uma sombrinha de chocolate dentro da bolsa do guardanapo de pano com o nome bordado. Também por isso, quando havia festas, sabiam melhor os pãezinhos de leite com fiambre, as sanduíches de queijo em triângulos, os suspiros, a mousse, os petit fours, o pudim flã e aquele bolo com cobertura de glacé no qual se espetavam as velas.

Maria do Rosário Pedreira

Erros seus, má fortuna

Quando completei o ensino primário - tempo de ir em fila indiana para o refeitório e brincar ordeiramente no recreio (mas também de cópias, ditados e cantar a tabuada) -, os alunos não davam tantos erros de ortografia como agora; e, se algum tinha mais de três numa daquelas redacções escritas em papel almaço e ilustradas com lápis de cor, isso era sentido quase sempre como uma humilhação. De tal modo me incutiram desde cedo a importância de entregar um texto sem mácula que, quando o meu primeiro namorado me mandou de umas férias em Vidago um postal que dizia "Chegá-mos bem" e mais duas calinadas imperdoáveis, achei melhor rifá-lo - e, para que percebesse porquê, devolvi-lhe o postal para as termas com os erros sublinhados a vermelho.

Maria do Rosário Pedreira

Ementa de Natal

Há já uns tempos que noto uma obsessão generalizada com a comida. Abrem restaurantes a toda a hora, criam-se bairros gastronómicos, organizam-se eventos internacionais para contar estrelas Michelin, os chefs são as novas vedetas nas capas das revistas. Há cursos de cozinha até para crianças, e não só proliferam programas de culinária em vários canais televisivos (todos com audiências respeitáveis) como de repente se tornou a ambição de qualquer actriz, jornalista, tia ou apresentadora publicar um livro de receitas e fazer um show cooking. Enquanto isso, os casais já pouco conversam à mesa, preocupados que estão em fotografar com o telemóvel tudo o que têm no prato para depois partilharem as imagens nas redes sociais e receberem mil deliciadas interjeições e carinhas satisfeitas. Mas já terão parado um segundo para pensar onde acaba tudo aquilo que se come?