Maria do Rosário Pedreira

Maria do Rosário Pedreira

Ligar os pontos

Fiz uma parte significativa da minha formação sem poder escolher canetas, lápis ou cadernos, não porque na minha escola exigissem um material específico, mas porque o mercado era então tremendamente escasso. Vendiam-se uns cadernos pautados ou quadriculados com capa lisa e, para os rascunhos, umas sebentas que ficavam mesmo sebentas num instante, pois eram feitas de um papel tão mau como o que absorvia o óleo das batatas fritas lá em casa. As borrachas com cheiro a morango não passavam de um sonho, os afia-lápis eram todos de alumínio; e, às costas, em lugar das mochilas leves e coloridas de hoje, carregávamos umas pastas duras que levavam meses a perder o cheiro a couro. Até os passatempos nos suplementos juvenis dos jornais eram sensaborões: ligar os pontos para encontrar uma figura, pintar de acordo com o modelo, sair de um labirinto... Sem hipótese, porém, de saber o que o futuro traria - marmitas lindas para substituir aqueles termos de xadrez que davam sempre um ar de pudim à comida -, andávamos satisfeitos com o presente.

Maria do Rosário Pedreira

O sexo das inocentes

Tornei-me adolescente num tempo em que quase tudo o que dava prazer era pecado. No colégio, corria o boato de que, perdida a virgindade, seria impossível encontrar marido, e uma freira irlandesa chegou a sugerir que, se nos sentássemos um dia ao colo de um rapaz, puséssemos uma revista pelo meio... Pior era não se poder fazer perguntas sobre sexo (usar a palavra já era um escândalo) nem haver sobre a matéria livros disponíveis, pelo que os mitos e a ignorância não podiam senão crescer e multiplicar-se. Lembro-me, por exemplo, de uma miúda com quem fazia ginástica pensar que as mulheres tinham de ser operadas à barriga para darem à luz, contando que uma vizinha não chegara a tempo à maternidade e tivera o bebé "como uma cadela". Já na faculdade, a um ano de terminar o curso, uma colega anunciou que não queria ter filhos porque com o parto "aquilo" alargava e nunca mais se tinha prazer. (E ia ser professora...) Mas não se pense que os rapazes sabiam muito mais do que nós, pois já não eram tempos de os pais os mandarem a um bordel de confiança, mas também ainda não havia assim tantas adolescentes dispostas a ter relações sexuais. Safavam-se os que tinham lábia ou a sorte de apanhar uma estrangeira de férias em Portugal - e, nesse aspecto, as suecas eram as que tinham fama de ser mais avançadas.

Maria do Rosário Pedreira

Agendas

Disse Pessoa que "o poeta é um fingidor", mas, curiosamente, é a palavra "ficção", geralmente associada à narrativa em prosa, que tem origem no verbo latino fingire. E, em ficção, quanto mais verdadeiro parecer o faz-de-conta melhor, mesmo que a história esteja longe de ser real. Exímios nisto, alguns escritores conseguem transformar o fingido em algo tão vivo que chegamos a apaixonar-nos por personagens que, para nosso bem, não podem saltar do papel. Falo dos criminosos, vilões e malandros que, regra geral, animam a literatura e os leitores. De facto, haveria Crime e Castigo se o estudante não matasse a onzeneira? Com uma Bovary fiel ao marido, ainda nos lembraríamos de Flaubert? Nabokov ter-se-ia tornado célebre se Humbert Humbert não andasse a babar-se por uma menor? E poderia Stanley Kowalski ser amoroso com Blanche DuBois sem o público abandonar a peça antes do intervalo e a bocejar? Enfim, tratando-se de ficção, é um gozo encontrar um desses bonitões que levam a rapariga para a cama sem a mais pequena intenção de se envolverem com ela, ou até figuras capazes de ferir de morte com o refinamento do seu silêncio, como a mãe da protagonista de Uma Barragem contra o Pacífico quando recebe a visita do pretendente da filha: vê-o chegar com um embrulho descomunal, mas não só o pousa toda a santa tarde numa mesa sem o abrir, como nem sequer se digna perguntar o que é...

Maria do Rosário Pedreira

Modernices

O paleoantropólogo francês Yves Coppens - membro da equipa que descobriu o esqueleto de Lucy (um Australopithecus afarensis com mais de três milhões de anos) em 1974, mudando para sempre a nossa compreensão da evolução humana - contou, quando passou por Lisboa nos anos 1990, uma história deliciosa. A avó era profundamente católica e, como tal, não queria de maneira nenhuma aceitar que o homem descendesse do macaco (Australopithecus significa, aliás, "macaco do sul"). No entanto, diante do reconhecimento universal de que o neto era alvo, começou a pensar que talvez estivesse a ser demasiado radical. Então, chamou-o ao seu quarto, fechou a porta para ninguém a ouvir e, depois de o felicitar pelo êxito das suas conquistas, atalhou: "Olha, Yves, tu até podes descender do macaco, mas eu não."

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Para inglês ver

Com o Brexit, os franceses, que sempre foram um bocado chauvinistas, começaram logo a esfregar as mãos: se a língua mais falada nas reuniões da UE era a do país que estava de saída, havia ali uma oportunidade para impor o regresso do francês às instituições europeias. Não acredito. Além de já poucos países-membros ensinarem o francês como disciplina obrigatória, o inglês é o idioma da música, do cinema e da televisão que a maioria das pessoas ouve e vê em toda a Europa (e no mundo), tendo-se por isso tornado uma espécie de segunda língua para os que não a têm como primeira (incluindo os franceses, que finalmente se resolveram a aprendê-la). Aqui no burgo, onde os intelectuais foram durante anos influenciados pela cultura francesa, há hoje uma geração mais tecnológica que deixou de saber como se dizem certas coisas na língua materna, mas é absolutamente fluente em inglês. Basta ir ao LinkedIn para ver que todos os nossos conhecidos são agora managers, experts, founders, owners, services providers, coaches, columnists, analysts, strategists, freelancers... e que, quando tentam o português, o cargo fica, ainda assim, a cheirar a tradução, como no caso de um psicoterapeuta que se apresenta como "constelador sistémico" (por momentos, até pensei que se dedicasse à astrologia). Num restaurante, por causa da chapinha de metal no bolso do uniforme, um cliente perguntou ao empregado se nascera no estrangeiro e donde lhe vinha o nome "Trainee". Realmente, por que diabo não escrevem simplesmente "Estagiário" ou "Formando" se estamos em Portugal? É verdade que o crescimento do turismo não ajuda: numa semana, abriu uma dúzia de restaurantes na capital, mas nenhum foi baptizado em português... E há quem ache que o inglês dá um ar cosmopolita, mas depois meta o pé na argola, escrevendo no programa de um congresso que, a meio da manhã, está previsto um redundante "intervalo para coffee break". Exagera-se a tal ponto nas inglesices que uma mãe bem-humorada contava recentemente no Facebook que a filha ficou admiradíssima ao descobrir que "Famalicão" não se escrevia... "Family Cão". Um dia destes, uma jovem leitora escreveu lá para a editora a propor uma parceria: nós oferecíamos-lhe livros, ela dizia bem deles nas redes sociais. E não foi de modas, indicando logo os géneros literários da sua preferência: "YA, NA, Fantasy, Sci-Fi e Thrillers." Olha, filha, deve haver aqui algum engano... Era para a Amazon que querias escrever, não era? Adeus, futuro.Editora e escritora. Escreve de acordo com a antiga ortografia

Maria do Rosário Pedreira

De poucas palavras

Há muitos anos, publiquei um pequeno ensaio fascinante sobre a memória, no qual se dizia que o nosso declínio começa quando, de repente, nos falta o nome para a coisa. Estamos sentados à mesa e pedimos a alguém que nos passe o... E não aparece a palavra "sal", "açúcar", o que for, ainda que a tenhamos debaixo da língua. Não há nada mais irritante do que querermos recordar-nos do nome de alguém - um actor, um ex-colega, o oftalmologista que nos atende há anos - e não conseguirmos, mesmo sabendo que, a partir de certa idade, as nossas conversas se enchem de buracos: "Hoje encontrei a..., aquela que é mulher do..., a que trabalhava na empresa de um que era tio da..." Parece uma charada.

Maria do Rosário Pedreira

A praga do silêncio

Lá em casa costumamos fazer umas miniférias a seguir à Feira do Livro - não só porque ela nos rouba, pelo menos, três fins-de-semana seguidos e dois feriados (o que só por si justificaria a necessidade de repouso), mas também porque, para quem ama os livros, a tristeza cresce de ano para ano com a situação, e as férias ajudam a recuperar do desapontamento. Na verdade, são cada vez mais as pessoas que vão ao Parque Eduardo VII tirar uma selfie com uma tia cozinheira em vez de comprar um livro de um escritor a sério. Neste ano, que a feira era antiplástico, chegou-se ao cúmulo de, em alguns pavilhões, se venderem mais sacos de pano do que livros; e até ouvi uma rapariga, com um exemplar de O Tatuador de Auschwitz na mão, comentar que nunca na vida pensara que, nos campos de concentração, os nazis deixassem os judeus fazer tatuagens. Ai, mãe... Depois disto, eu tinha mesmo de me afastar para esquecer a tragédia que aí vem - e para ler, claro, enquanto há bons livros.

Maria do Rosário Pedreira

Não sabe/Não responde

Nas semanas que antecederam as eleições para o Parlamento Europeu, fosse nos jornais, fosse na rádio ou na televisão, não houve cronista, político ou comentador que não apelasse ao voto. Muitos fizeram-no até num tom pedagógico, referindo-se a um direito que custou muito a conquistar, tentando arrancar da mais profunda letargia milhares de jovens que, tendo atingido a idade de ir às urnas, não se identificam com os partidos existentes, mas também nada fazem pela criação de movimentos alternativos ou de protesto. As constantes chamadas de atenção não serviram, porém, de muito: se uma sondagem alertara para o facto de só 3% (!) dos jovens portugueses estarem certos de ir votar, os resultados vieram mostrar que esses números não andavam longe da verdade.

Maria do Rosário Pedreira

Merecer

Andei na faculdade num tempo em que ir às aulas era uma festa. Depois de anos de um ensino categórico e papagueante, parecia que todas as portas se tinham finalmente aberto para podermos arejar as nossas cabeças. Longe de se cingirem à bibliografia das respectivas disciplinas, os professores mandavam-nos ir ao teatro e ver exposições, ler romances e assistir a concertos, e de vez em quando até nos propunham trocar as suas aulas por um programa que consideravam igualmente edificante.