Maria Antónia de Almeida Santos

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Maria Antónia de Almeida Santos

Livro de instruções para uma geringonça 

Todos os governos ficam para a história. No sentido em que esta faz sempre o registo dos factos, das políticas e dos acontecimentos. Há, é certo, aqueles que alcançam mais notoriedade pelo mérito das suas políticas e os que ficam conhecidos pelo seu inverso. Mas sabe-se de algum que ficasse associado a um processo linguístico? O atual governo é certamente um candidato pioneiro a tal. Refiro-me (sem aspirar a linguista e de forma simples) ao processo em que a uma palavra se acrescenta coletivamente um sentido - no caso uma conotação positiva - ao seu significado inicial. É o caso, claro, da palavra "geringonça". De estrutura "frágil", "complexa" e de "funcionamento precário", "geringonça" passou a significar também uma solução governativa capaz de superar a fraqueza apontada na sua origem.

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Maria Antónia de Almeida Santos

Mais e melhor democracia

Viver com os media costumava ser uma experiência simples. Em virtude do avanço da tecnologia, o acesso até está, claro, atualmente cada vez mais fácil... A informação tem vários formatos, ao gosto de cada um. Todavia, a outros níveis, na televisão, nas redes, na rádio e até no jornal, está tudo mais complexo. As redes sociais e as fake news populistas trouxeram a necessidade acrescida de verificar factos e afirmações e o perigo do chamado "efeito bolha". E o confronto com a realidade do mundo não poderá, também ele, ser ambíguo e complexo? Por um lado, há o desalento das notícias, dos artigos de opinião e dos posts que dão força às ideologias negativas que radicalizam a nacionalidade e teimam em recusar à ajuda humanitária aos migrantes uma dimensão global, por exemplo. Aquelas ideologias que querem fazer tábua rasa, pela negação, da memória da democracia. Por outro lado, é também verdade que há esperança. Na doença da bebé Matilde, ficou patente - inclusivamente por via do Serviço Nacional de Saúde - que é também a solidariedade que nos une. Tal como no caso da Capitana Carola (o nome e as circunstâncias não lembram os do célebre Capitano Corelli?), que envia uma poderosa mensagem aos Trumps e aos Salvinis do nosso mundo.

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E se a abstenção falasse?

"As pessoas têm medo das mudanças. Eu tenho medo que as coisas nunca mudem.". São duas frases simples do mais recente laureado com o Prémio Camões - o nosso Chico Buarque. A simplicidade destas frases mostra-nos a lucidez de quem sabe (talvez por ser poeta...) que a mudança também é evolução e que não tem de ser algo complexo. O mundo é feito também de coisas simples e uma delas é o voto. Quem vota decide e acompanha a mudança, influenciando a evolução. Votar é sobretudo um dever fácil de cumprir. Nestas eleições, tivemos até o voto antecipado em mobilidade, o fim do número de eleitor, os boletins de voto em braille, o recenseamento automático para quem reside no estrangeiro e o voto eletrónico presencial. Apesar do voto cada vez mais simples, é impossível ignorar a evolução (negativa) da abstenção. Os resultados da participação portuguesa nas eleições europeias são um bom (mau) exemplo. O grande vencedor destas últimas eleições foi mesmo, com a sua maioria cada vez mais silenciosa e perigosa, o partido da abstenção.

Maria Antónia de Almeida Santos

45 x Abril

Abril de 1974 foi a porta para um mundo melhor. Pela primeira vez, a governação começou a ser, pela liberdade e pelo voto, orientada para as pessoas. Abril institucionalizou pela prática a coragem da democracia e desenhou-nos uma nova identidade perante a Europa. Ainda hoje se associa a Portugal a imagem histórica da revolução sem armas que trocou o crivo da censura pelo cravo da liberdade, da poesia e da música. Há novidade para alguém nestas palavras? Idealmente, a resposta será "não". Mas nunca é de mais lembrar profilaticamente que a democracia tem de acreditar nas pessoas e na cultura democrática que só elas podem perpetuar.

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Maria Antónia de Almeida Santos

O planeta dos sustentáveis 

Ao ambiente e ao planeta já não basta a simples manifestação da amizade e da esperança. Devemos-lhes a prática do respeito. Esta é, basicamente, a mensagem da jovem e global ativista Greta Thunberg. É uma mensagem positiva e inesperada. Positiva, porque em matéria de respeito pelo ambiente, demonstra que já chegámos à consciencialização urgente de que a ação já está atrasada em relação à emergência de catástrofes como a de Moçambique. Inesperada (ao ponto do embaraço para todos), pela constatação de que foi a nossa juventude, de facto e pela onda da sua ação, a globalizar a oportunidade para operacionalizar a esperança.

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Maria Antónia de Almeida Santos

Traduzir a democracia em realidade

Ao passarmos os olhos pela história recente da democracia como regime e sistema político, percebemos que um dos seus grandes desafios tem sido concretizar os valores que a norteiam. Se genericamente a democracia lutou, numa primeira fase, pela implantação dos valores da igualdade, liberdade e solidariedade, posteriormente, viu-se (e vê-se!) confrontada com a necessidade absoluta de traduzir a teoria dos princípios democráticos na sua prática política. A estabilidade da democracia enquanto garante da justiça social e até enquanto sistema depende da capacidade de garantirmos a filiação da prática política aos valores democráticos.

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Maria Antónia de Almeida Santos

A crueldade não é tradição

"Não há tempo a perder" - são as palavras de António Guterres. No mundo, Portugal incluído, mais de 200 milhões de meninas e mulheres vivem com algum tipo de mutilação genital feminina (MGF). Para mulheres e meninas, esta prática cruel e nociva não é apenas uma mutilação física, é a amputação de um direito e uma violação gritante dos direitos sexuais e reprodutivos. A MGF é um atentado à liberdade e à autonomia da sexualidade, que visa claramente a subjugação da mulher. Com frequência, assistimos a uma dupla crueldade. É que, por vezes, a própria mulher é tornada parte deste processo, como protagonista da mutilação a outras mulheres e meninas, conferindo-se-lhe até uma certa sacralidade ancestral no nefasto ritual. Esta tradição torna-se, assim, um meio de crueldade que tem por fim institucionalizar a misoginia.

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Maria Antónia de Almeida Santos

Permitir pode ser útil, mas é  sobretudo necessário

Na nossa sociedade, o papel do binómio proibição-permissão tem assumido grande relevo. A verdade é que uma das primeiras coisas que nos ensinam é precisamente o que nos é interdito e o que nos é permitido. Tem sido a primeira base estruturante do indivíduo, a nível comportamental e educacional, desde a infância, através da adolescência e até à idade adulta. É frequentemente na perceção que resulta deste binómio que alicerçamos as nossas noções do certo e do errado, do lícito e do ilícito, quando falamos de vida em comunidade. Nesta perspetiva, a da harmonização de costumes e modos de estar em conjunto, é óbvia a sua utilidade para a ordem estabelecida. Mas, quando falamos numa perspetiva mais complexa e mais ampla, como a das políticas públicas de saúde e sociais, o simples proibir basta? Não deveremos nós, enquanto pais, cidadãos e responsáveis políticos, ter a maturidade suficiente para atingir aquela fase de questionação saudável que todos atravessamos, em que se reflete sobre a proibição, a sua prática e a sua utilidade?

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Maria Antónia de Almeida Santos

No tempo da família nada se perde, tudo se concilia e tudo se constrói

Poucos valores têm permanecido imutáveis ao longo da evolução da humanidade. A evolução da própria racionalização da contagem do tempo é espelho disso. Aliás, a par da noção de tempo, as próprias noções de família, de parentalidade e de género têm ganho novas dimensões. As civilizações do mundo, desde a antiguidade ao tempo presente, convencionaram diversas conceções do tempo e das suas valências. No entanto, todas tiveram, frequentemente, sempre um objetivo comum - a racionalização tendo em vista uma organização instituída, quer laboral, quer defensiva, quer social ou até no âmbito das relações de poder. De fora ficava, por regra, o tempo dos afetos e da família.

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Maria Antónia de Almeida Santos

 VIH/sida – enquanto esperamos pela cura, matemos o estigma

O VIH - vírus da imunodeficiência humana é, entre as doenças crónicas, aquela em que a dimensão da representação social é mais premente. A sociedade, no seu conjunto, acostumou-se a associar uma determinada imagem a cada doença crónica, replicada pelos meios de comunicação (em todas as suas valências), pelo mundo das artes e da cultura e por outras instâncias que ajudam à construção da perceção global. Temos tendência até a interiorizar uma representação visual partilhada que associamos ao doente oncológico, ao diabético, ao doente que faz hemodiálise, entre tantos outros. Temos, mas não devíamos ter.