Maria Antónia de Almeida Santos

Maria Antónia de Almeida Santos

Bolsonaro jamais será poeta

Bolsonaro fez saber que assinará o diploma do Prémio Camões a Chico Buarque até 2026. Ou seja, à maneira dos novos arrivistas do populismo, pratica a promessa que deixa no ar apenas a atmosfera da ameaça. Buarque já agradeceu o duplo louvor e eu afirmo que Camões certamente secundaria a ironia. Alguém duvida de que Camões, hoje em dia, faria poesia com a democracia? Para mim, é certo que sim. A democracia, no mundo e como regime, vive cada vez mais o debate com os princípios que a defendem e lhe servem de suporte. Nós não somos exceção. Das eleições de domingo, a primeira conclusão tem de ser mesmo a de que Portugal votou, em todos os aspetos, pela pluralidade. Cabe a todos, como em 2015, interpretar esse voto. A diferença, agora, é talvez que essa perceção vai sempre ter de ser feita à luz do que foi a última legislatura e os resultados que Portugal alcançou. A geringonça foi inovadora na sua génese e na sua prática e alcançou projeção também por isso. A articulação em campanha dos seus integrantes despertou, por consequência, natural curiosidade. Essa atenção acabou, no entanto, por se esbater no mesmo horizonte da prática governativa recente - a lógica do diálogo construtivo. Todavia, isso não pode esconder o contexto hostil em que a oposição mergulhou a última campanha eleitoral. É claro que evidenciá-lo é tão útil como escondê-lo e, por isso, o melhor será refletir sobre o mesmo. O que ganharam todos os que se dedicaram a ignorar a revolução na economia portuguesa que nos mostrou a revisão, pelo INE, dos números do PIB desde 2016? E o que ganharam os portugueses com a austeridade e o correspondente desprezo pela necessidade de interpretar o contexto macroeconómico e a perceção das medidas e decisões adequadas, em função do mesmo, à indução do crescimento social pleno? Portugal votou pela recusa da proposta eleitoral cuja única sustentação era a redução da despesa sem especificar onde e em quê e sem outro âmbito de explicação que não o do milagre. Com a revisão em alta do crescimento económico e um crescimento acima do de Espanha desde 2017, como pôde a oposição reclamar mérito, falar do diabo ou dizer que o crescimento não era, afinal, "estrutural"? Ao PSD e ao CDS resta a prestação de contas interna. O mito das "meias derrotas", tal como o dos copos "meio cheios ou meio vazios", já não ilude ninguém. O protagonismo da derrota só se ameniza pela dignidade com que se assume o mesmo. Às restantes forças políticas cabe lutar pela estabilidade plural para que Portugal as mandatou. A democracia, mais do que um resultado, é sempre um processo e, como a própria geringonça nos ensina, nunca poderá ser dada por finda. Como Buarque explica, é um pouco como a poesia, que nunca se poderá dar verdadeiramente por atingida. Deputada do PS

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Maria Antónia de Almeida Santos

Uma opinião sustentável

De um ponto de vista global e a nível histórico, poucos conceitos têm sido tão úteis e operativos como o do desenvolvimento sustentável. Trouxe-nos a noção do sistémico, no sentido em que cimentou a ideia de que as ações, individuais ou em grupo, têm reflexo no conjunto de todos. Semeou também a consciência do "sustentável" como algo capaz de suprir as necessidades do presente sem comprometer o futuro do planeta. Na sequência, surgiu também o pressuposto de que a diversidade cultural é tão importante como a biodiversidade e, hoje, a pobreza no mundo, a inclusão, a demografia e a migração entram na ordem do dia da discussão mundial.

Maria Antónia de Almeida Santos

Heróis à prova de fogo

Todos crescemos com heroínas e heróis. Através da ficção, foi-nos criada a imagem de uma/um alguém, protagonista de grandes feitos, com altos valores morais e éticos, que passa por várias aventuras e perigosas peripécias mais ou menos credíveis. Alguém à prova de bala e à prova de tudo, que concretiza atos de coragem e bravura, em defesa dos outros e em nome da justiça e de outros altos valores. Os romances e a banda desenhada, as séries na televisão e os videojogos, Os Cinco da Enid Blyton, o Harry Potter e tantos outros exemplos mais ou menos atuais, deram-nos a faculdade de conseguir atribuir múltiplos rostos àquilo que o heroísmo significou para nós numa fase inicial das nossas vidas. A ficção, como a educação e a religião, também ensina valores que determinam a forma como nos comportamos e interagimos com os outros e com o meio ambiente.

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Maria Antónia de Almeida Santos

Um país singular: Portugal

Na quinta-feira foi o Dia Mundial da Pessoa Refugiada, depois do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, em que celebrámos um país singular na pluralidade da sua diáspora e história. O que têm os dois dias em comum? A resposta primeira e óbvia é a de que tratam ambos de questões que, em abstrato, se prendem com o conceito de identidade. Se a 10 de junho lembramos o coletivo da nossa história, da sua cultura, da literatura e até da geografia, a 20 celebramos a coragem de todos aqueles cuja identidade é um contexto de fuga a perseguições por motivos de raça, religião, nacionalidade, grupo social ou opiniões políticas. Aqueles que, por intolerância institucionalizada na sua terra de origem, não têm regresso possível à casa de que fugiram.

Maria Antónia de Almeida Santos

45 x Abril

Abril de 1974 foi a porta para um mundo melhor. Pela primeira vez, a governação começou a ser, pela liberdade e pelo voto, orientada para as pessoas. Abril institucionalizou pela prática a coragem da democracia e desenhou-nos uma nova identidade perante a Europa. Ainda hoje se associa a Portugal a imagem histórica da revolução sem armas que trocou o crivo da censura pelo cravo da liberdade, da poesia e da música. Há novidade para alguém nestas palavras? Idealmente, a resposta será "não". Mas nunca é de mais lembrar profilaticamente que a democracia tem de acreditar nas pessoas e na cultura democrática que só elas podem perpetuar.

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Maria Antónia de Almeida Santos

Afinal, para que serviu a austeridade?

"Penso sobre como poderíamos ter feito diferente." São palavras de Wolfgang Schäuble sobre as políticas de austeridade da altura da crise da zona euro, na sua entrevista de março ao Financial Times. Será estranho que cite aqui alguém como o antigo ministro alemão das Finanças? Não. Apesar de seguir fiel ao seu pensamento económico (curiosamente, em toda a entrevista, não refere Portugal...), é percetível nas suas palavras uma ténue abertura para, pelo menos, refletir sobre a austeridade irresponsável com que se respondeu à crise da zona euro. Até se podia fazer um paralelo com a atual oposição em Portugal, se não se desse o caso de esta não manifestar vontade mesmo nenhuma de refletir com lucidez sobre a questão e de o próprio Schäuble, em 2017, ter elogiado o governo e Portugal pelo que conseguimos. Apesar dos resultados, a direita considera não estar enganada quanto ao sucesso e à infalibilidade da sua austeridade. E continua, claro, a ter dúvidas apenas muito raramente. Um (entre os que abundam) exemplo claro disso é a recente crítica por parte da direita à redução do IVA da restauração. É clara a opção da direita pela receita fácil e austera do corte que enriquece o populismo, em vez da aposta no retorno económico das medidas como a referida.

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Maria Antónia de Almeida Santos

Olha o robô, é pra menina e pro menino

A automação e a robotização têm vindo progressivamente a alterar o nosso quotidiano e o mundo como o conhecemos. A vida, hoje, é muito mais confortável com a caixa automática do supermercado, com a impressora 3D e com tantos outros gadgets que surgem quase diariamente. Ainda não nos tínhamos acabado de entender cabalmente com o GPS do automóvel e eis que surgem já testes com veículos de condução autónoma. A tecnologia parece querer assegurar-nos, cada vez mais, que tem cada vez menos limites na sedução e na busca do nosso conforto...

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Maria Antónia de Almeida Santos

A crueldade não é tradição

"Não há tempo a perder" - são as palavras de António Guterres. No mundo, Portugal incluído, mais de 200 milhões de meninas e mulheres vivem com algum tipo de mutilação genital feminina (MGF). Para mulheres e meninas, esta prática cruel e nociva não é apenas uma mutilação física, é a amputação de um direito e uma violação gritante dos direitos sexuais e reprodutivos. A MGF é um atentado à liberdade e à autonomia da sexualidade, que visa claramente a subjugação da mulher. Com frequência, assistimos a uma dupla crueldade. É que, por vezes, a própria mulher é tornada parte deste processo, como protagonista da mutilação a outras mulheres e meninas, conferindo-se-lhe até uma certa sacralidade ancestral no nefasto ritual. Esta tradição torna-se, assim, um meio de crueldade que tem por fim institucionalizar a misoginia.

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Maria Antónia de Almeida Santos

Ser jovem na CPLP e no mundo

Qualquer definição do conceito de "juventude" ou de "jovem" acarreta o perigo da conclusão de que a única característica irrefutável que lhe podemos atribuir é a transitoriedade. Aliás, o mundo consumista em que vivemos tenta, por vezes até ao sacrifício, incutir-nos a obrigatoriedade de esconder qualquer vestígio de que a juventude passou... Em linha com as várias definições científicas, sociológicas e académicas, é libertador ultrapassar esse conceito artificial da mera constatação de que ser jovem é algo que começamos por ser numa determinada altura da nossa vida, para noutra o deixarmos de ser. Útil, mesmo, é a constatação de que o início da estabilização da identidade e das noções de tolerância, pertença e partilha culturais se dá na juventude.

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Maria Antónia de Almeida Santos

A escolha de outubro de 2019

Em outubro de 2019 os portugueses vão ser chamados a fazer uma escolha. Esta frase não é novidade só por si. A verdadeira notícia é que os portugueses vão poder verdadeiramente escolher. Antes escolheu-se um rumo, sem alternativas, à laia de única via - o caminho do empobrecimento, de cuja inevitabilidade tentaram convencer-nos. Quem não se lembra de que antes se escolheu ir "para além da troika"? Nesta legislatura, escolheu-se ir para além da austeridade, mas para a recusar e opor-lhe o sentido da esperança.

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Maria Antónia de Almeida Santos

 VIH/sida – enquanto esperamos pela cura, matemos o estigma

O VIH - vírus da imunodeficiência humana é, entre as doenças crónicas, aquela em que a dimensão da representação social é mais premente. A sociedade, no seu conjunto, acostumou-se a associar uma determinada imagem a cada doença crónica, replicada pelos meios de comunicação (em todas as suas valências), pelo mundo das artes e da cultura e por outras instâncias que ajudam à construção da perceção global. Temos tendência até a interiorizar uma representação visual partilhada que associamos ao doente oncológico, ao diabético, ao doente que faz hemodiálise, entre tantos outros. Temos, mas não devíamos ter.

Maria Antónia de Almeida Santos

Sem armas ou com que armas…

Interrogo-me, por vezes, qual o lugar da identidade nacional neste mundo que se vê ironicamente tanto mais globalista quanto ameaçado de nacionalismos. Portugal tem tido uma identidade coesa e respeitada, fruto também dos seus séculos de história pelo mundo, que nos tem permitido um certo sossego em relação à questão. No entanto, na conjuntura mundial em que vivemos, temos de ter consciência de que um país será tanto mais competitivo quanto mais capaz for de gerir coletivamente a imagem que projeta.