Maria Antónia de Almeida Santos

Opinião

Além do chavão

Penso que a palavra mais adequada para definir a sessão legislativa que findou é "reinvenção". Não uma reinvenção programada, na esteira de uma reflexão e discussão prolongadas. Essa, por isso mesmo, tem a possibilidade de ser gradual na sua execução. Esta reinvenção, ao invés, teve a decisão e a ação urgentes para salvaguardar vidas, sempre no respeito pelos pressupostos democráticos. Apesar da sua urgência, não deixou, lá por isso, de ser uma reinvenção constitucionalmente preparada e debatida. A expressão "ninguém fica para trás" conseguiu ser mais do que um slogan, inclusivamente na congregação dos esforços das esferas executiva, parlamentar e civil. Todos os esforços contaram e contam. Ao chavão "a crise é uma oportunidade de mudança" opusemos a reinvenção da ação pela solidariedade concertada e efetiva.

Maria Antónia de Almeida Santos

Os advérbios da democracia

O advérbio que mais facilmente nos pode ocorrer é o "politicamente", com o "correto" a seguir. Sobre o "politicamente correto" já se discutiu muito. A vaga recente de populismo tem promovido a sua abolição para mediatizar o antissistema e o "antipoliticamente correto". Pelo caminho, deixam cair a importância da serenidade e da solidariedade (institucionais e não só) numa democracia plena. A democracia e a solidariedade vão muito além da discussão populista, calculista e estéril. O aproveitamento mediático e político não resolve problemas, ao contrário das atitudes construtivas, do diálogo e do consenso.

Maria Antónia de Almeida Santos

É urgente voltar à natureza

No que toca à pandemia, haverá um antes e um depois. O mundo para o qual desconfinamos agora é outro. Temos vivido absorvidos pela preocupação e pela salvaguarda da vida humana. Esse processo tem trazido cansaço e saturação e ainda outra certeza: temos, globalmente, de mudar de vida. Agora estamos no durante e é esta a fase para preparar o que se seguirá. É o tempo de delinear a profilaxia de situações como a que vivemos. Para tal, é necessário perceber a melhor forma de tornar essa prevenção o mais "transitiva" possível, no sentido em que esta possa promover uma transição civilizacional efetiva em áreas essenciais à saúde e à vida.

Maria Antónia de Almeida Santos

O vírus do nosso descontentamento

"A pandemia acabou com a ideia de que os responsáveis políticos sabem o que fazem." A frase é do ex-presidente Barack Obama e vai fazer história, como outras que tem proferido. É algo enigmática e é bastante mais do que apenas uma crítica velada a Donald Trump. A crítica tem toda a razão de ser. Alguém que, sabendo que padece de obesidade mórbida, recorre à hidroxicloroquina como se fosse canja de galinha (pensando que se não fizer bem, mal não fará) não sabe, de facto, o que faz. Infelizmente, não é o único e o mundo da lusofonia também tem os seus exemplos. Jair Bolsonaro tenta replicar os modos de atuação de Trump e radicalizar a tradicional influência cultural, política e religiosa que os EUA têm no Brasil. A semelhança nota-se até nas demissões polémicas, de que a atriz Regina Duarte é exemplo recente, digno até das suas telenovelas, mas sem final feliz.

Maria Antónia de Almeida Santos

As conversas com os nossos pais

A globalização foi das coisas sobre que mais se teorizou nas últimas décadas. Houve uma imensidão de académicos e cientistas que nos alertou para vicissitudes, virtudes e defeitos. Em termos ambientais, não houve falta de avisos à navegação por quem nos pedia, por favor, que nos preocupássemos e que pensássemos se queríamos, afinal, continuar vivos ou passar a dinossauros. De forma preocupada, picavam o nosso sono e atenção.

Maria Antónia de Almeida Santos

Só podemos confiar

Não é a primeira epidemia que Portugal enfrenta. Muito menos o mundo todo. O que há de diferente agora? A especificidade do covid-19 enquanto agente patogénico passa também por possuir a característica de ser o primeiro vírus verdadeiramente "viral". Viral, no sentido em que surge num momento em que a nossa capacidade de comunicação global, alicerçada nas redes sociais e nos media, é cada vez mais plena. Este facto, útil para difundir boas práticas e estratégias de contenção e de defesa sanitária, tem o reverso de facilitar também a replicação de angústias e de stress. Muitas das vezes - a larga maioria - esta disseminação do medo não assenta em nada mais do que fantasias, falsas narrativas e mitos. Os portugueses já passaram por várias epidemias e Portugal teve os meios, soube responder e todos os planos funcionaram de forma exemplar. Portugal, no conjunto internacional, foi até um exemplo citado em epidemias passadas. Só podemos estar confiantes de que também desta vez estará tudo a postos para assegurar capacidade instalada bastante para enfrentar esta nova pandemia.

Maria Antónia de Almeida Santos

Uma viagem histórica que devemos abraçar

O PSD continua a adotar a política do cata-vento e do imediato. Incapaz de pensar num plano mais alargado - o do interesse dos portugueses - gira conforme o vento do populismo e do mediatismo. Está a especializar-se em posições circulares, daquelas em que nada é claro, em que um "sim" pode significar não só o acordo, mas também o seu contrário. O que verdadeiramente lhe interessa é o desgaste da ação governativa, sem que pareça ser-lhe imputável o prejuízo e o atraso que advenham desse bloqueio. Pelo meio, quer devolver o país à incerteza.

Maria Antónia de Almeida Santos

Madonna's Fall

Madonna parece finalmente ter encontrado o seu "Fall" ou, como nós, portugueses, costumamos dizer, o "outono da sua vida". A material girl está finalmente a envelhecer e tem cancelado concertos devido a dor crónica. Isto não teria importância nenhuma (nem terá) se não se desse o facto de ela ser um dos maiores ícones do espetáculo, da música e da cultura pop e de massas. "I made it through the wilderness, somehow I made it through", verso inicial de um dos seus primeiros êxitos, ainda ecoa som dentro da nossa cabeça e é ainda (re)conhecido. Não deixa de ser também digno de atenção que a cantora tenha escolhido (facto que muito nos prestigia) Lisboa, cidade antiga, para viver esta fase da sua vida. Na sua relação com Lisboa, assenta que nem uma luva outro verso seu, o "didn't know how lost I was, until I found you"...

Maria Antónia de Almeida Santos

Contas certas com prioridades certas

Cada vez mais, ouvimos dizer que o vínculo entre os cidadãos e a vida política é, hoje em dia, menos pleno do que antes. Rui Rio, esta semana, falou até de um "divórcio entre a sociedade e os partidos". Percebe-se o recurso a esta metáfora por parte do PSD, devido ao seu clima interno de discórdia. No entanto, constatar o afastamento não basta e não nos isenta. Há também que refletir sobre o conceito de "democracia de proximidade" de que tanto falamos e do que isso significa. O que é - de facto - uma democracia de proximidade? Em primeiro lugar, é a democracia próxima dos problemas e anseios dos cidadãos. Basta olhar para a esfera pública para perceber que se exige cada vez mais à democracia que seja capaz de resolver problemas reais e estruturais.

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Maria Antónia de Almeida Santos

"O clima das gerações"

Greta Thunberg chegou nesta semana a Lisboa num dia cheio de luz. À chegada, disse: "In order to change everything, we need everyone." Respondemos-lhe, dizendo que Portugal não tem energia nuclear, que 54% da eletricidade consumida no país é proveniente de fontes renováveis e que somos o primeiro país do mundo a assumir o compromisso de alcançar a neutralidade de carbono em 2050. Sabemos - tal como ela - que isso não chega e que o atraso na ação climática é global. Mas vamos no caminho certo.

Maria Antónia de Almeida Santos

As pop stars da cena política

O Litlle Britain da BBC vai voltar para uma emissão especial de rádio, a propósito do Brexit, a que se vai chamar Little Brexit. O humor em torno da política é lugar-comum no tempo da história. No Reino Unido, nem a rainha Isabel lhe escapou e Little Brexit, agora, vai assentar como uma luva à atual situação britânica, to say the least (ou, no caso, the "littlest"..). O ator Matt Lucas até lembra fisicamente Boris Johnson e o Parlamento britânico habituou-nos já àquele funcionamento singular, em modo tão superlativo como irreverente e imprevisível, a que Bercow deu voz.

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Maria Antónia de Almeida Santos

O discurso do medo contra-ataca

Foi apresentada nesta semana a nova arma ligeira do Exército português. À arma em si não vou referir-me. Não sou qualificada para isso e nunca peguei em arma alguma. Reconheço, no seguimento do processo de modernização em curso em Portugal, a necessidade óbvia e já antiga de inovar também aí. É adequado, em contexto de paz, apostar neste investimento? À partida, fará sempre sentido no espírito do velho provérbio "se queres a paz, prepara a guerra". Mas adequa-se também pela dignidade que traz ao nosso exército e a Portugal no concerto global das nações, pela excelência que é reconhecida às nossas forças armadas, no seu conjunto, em missões internacionais.

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Maria Antónia de Almeida Santos

Uma opinião sustentável

De um ponto de vista global e a nível histórico, poucos conceitos têm sido tão úteis e operativos como o do desenvolvimento sustentável. Trouxe-nos a noção do sistémico, no sentido em que cimentou a ideia de que as ações, individuais ou em grupo, têm reflexo no conjunto de todos. Semeou também a consciência do "sustentável" como algo capaz de suprir as necessidades do presente sem comprometer o futuro do planeta. Na sequência, surgiu também o pressuposto de que a diversidade cultural é tão importante como a biodiversidade e, hoje, a pobreza no mundo, a inclusão, a demografia e a migração entram na ordem do dia da discussão mundial.