Maria Antónia de Almeida Santos

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Maria Antónia de Almeida Santos

"O clima das gerações"

Greta Thunberg chegou nesta semana a Lisboa num dia cheio de luz. À chegada, disse: "In order to change everything, we need everyone." Respondemos-lhe, dizendo que Portugal não tem energia nuclear, que 54% da eletricidade consumida no país é proveniente de fontes renováveis e que somos o primeiro país do mundo a assumir o compromisso de alcançar a neutralidade de carbono em 2050. Sabemos - tal como ela - que isso não chega e que o atraso na ação climática é global. Mas vamos no caminho certo.

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Dos pobres também reza a história

Já era tempo de a humanidade começar a atuar sem ideias preconcebidas sobre como erradicar a pobreza. A atribuição do Prémio Nobel da Economia esta semana a Esther Duflo, ao seu marido Abhijit Vinaayak Banerjee e a Michael Kremer, pela sua abordagem para reduzir a pobreza global, parece indicar que estamos finalmente nesse caminho. Logo à partida, esta escolha reforça a noção de que a pobreza é mesmo um problema global e que deve ser assumido como tal. Em seguida, ilustra a validade do experimentalismo na abordagem que se quer cada vez mais científica às questões económico-sociais. Por último, pela análise que os laureados têm feito de questões específicas e precisas, temos a demonstração da importância das políticas económico-financeiras orientadas para as pessoas.

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Bolsonaro jamais será poeta

Bolsonaro fez saber que assinará o diploma do Prémio Camões a Chico Buarque até 2026. Ou seja, à maneira dos novos arrivistas do populismo, pratica a promessa que deixa no ar apenas a atmosfera da ameaça. Buarque já agradeceu o duplo louvor e eu afirmo que Camões certamente secundaria a ironia. Alguém duvida de que Camões, hoje em dia, faria poesia com a democracia? Para mim, é certo que sim. A democracia, no mundo e como regime, vive cada vez mais o debate com os princípios que a defendem e lhe servem de suporte. Nós não somos exceção. Das eleições de domingo, a primeira conclusão tem de ser mesmo a de que Portugal votou, em todos os aspetos, pela pluralidade. Cabe a todos, como em 2015, interpretar esse voto. A diferença, agora, é talvez que essa perceção vai sempre ter de ser feita à luz do que foi a última legislatura e os resultados que Portugal alcançou. A geringonça foi inovadora na sua génese e na sua prática e alcançou projeção também por isso. A articulação em campanha dos seus integrantes despertou, por consequência, natural curiosidade. Essa atenção acabou, no entanto, por se esbater no mesmo horizonte da prática governativa recente - a lógica do diálogo construtivo. Todavia, isso não pode esconder o contexto hostil em que a oposição mergulhou a última campanha eleitoral. É claro que evidenciá-lo é tão útil como escondê-lo e, por isso, o melhor será refletir sobre o mesmo. O que ganharam todos os que se dedicaram a ignorar a revolução na economia portuguesa que nos mostrou a revisão, pelo INE, dos números do PIB desde 2016? E o que ganharam os portugueses com a austeridade e o correspondente desprezo pela necessidade de interpretar o contexto macroeconómico e a perceção das medidas e decisões adequadas, em função do mesmo, à indução do crescimento social pleno? Portugal votou pela recusa da proposta eleitoral cuja única sustentação era a redução da despesa sem especificar onde e em quê e sem outro âmbito de explicação que não o do milagre. Com a revisão em alta do crescimento económico e um crescimento acima do de Espanha desde 2017, como pôde a oposição reclamar mérito, falar do diabo ou dizer que o crescimento não era, afinal, "estrutural"? Ao PSD e ao CDS resta a prestação de contas interna. O mito das "meias derrotas", tal como o dos copos "meio cheios ou meio vazios", já não ilude ninguém. O protagonismo da derrota só se ameniza pela dignidade com que se assume o mesmo. Às restantes forças políticas cabe lutar pela estabilidade plural para que Portugal as mandatou. A democracia, mais do que um resultado, é sempre um processo e, como a própria geringonça nos ensina, nunca poderá ser dada por finda. Como Buarque explica, é um pouco como a poesia, que nunca se poderá dar verdadeiramente por atingida. Deputada do PS

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Maria Antónia de Almeida Santos

Não podemos suspender o planeta

Não há dúvida de que a capacidade de reação coletiva, seja nas redes sociais seja na rua, está cada vez mais amplificada. Há uma nova demonstração disso, a propósito da Amazónia. Houve outras, como a protagonizada por Greta Thunberg ou como a reação ao fogo na Catedral de Notre-Dame de Paris. Aliás, tornou-se viral comparar a Amazónia e a Notre-Dame, com base na expressão da solidariedade global para com uma e outra (a própria Greta comparou Notre-Dame ao planeta). À partida, a comparação é possível, pois ambas são símbolos civilizacionais. A recente troca de palavras azedas entre Macron e Bolsonaro reavivou a comparação. A identidade de uma civilização não se perpetua também através dos símbolos culturais que faz perdurar? Penso que sim.

Maria Antónia de Almeida Santos

Nothing silly about this season

A silly season está quase aí. Na língua portuguesa, creio que o conceito nunca conseguiu tradução consensual. Mas nem por isso deixou de ter expressão no nosso quotidiano, no nosso entretenimento e no nosso jornalismo. É claro que a silly season não é bem o que era (já nada no mundo é). As alterações climáticas trouxeram um novo paradigma à vida humana, com as mudanças recorde a nível da temperatura e os novos fenómenos climáticos mais extremados que, em conjunto, deram origem a ecossistemas mais inflamáveis. O aumento da intensidade dos incêndios florestais trouxe-nos também a consciência de que o verão se tornou mais do que praia e romarias e de que, nas notícias, não aparecem já só festas, festivais e vedetas, mas também dor, sofrimento e perda. Os meses estivais são agora algo que já não pode mesmo ser encarado apenas de forma ligeira. No verão, a urgência de responsabilidade no entretenimento, na segurança, na saúde e no jornalismo veio mesmo para ficar. As questões ambientais espelham as mudanças físicas do nosso planeta e materializam a exigência de uma nova atitude perante as mesmas.

Maria Antónia de Almeida Santos

Livro de instruções para uma geringonça 

Todos os governos ficam para a história. No sentido em que esta faz sempre o registo dos factos, das políticas e dos acontecimentos. Há, é certo, aqueles que alcançam mais notoriedade pelo mérito das suas políticas e os que ficam conhecidos pelo seu inverso. Mas sabe-se de algum que ficasse associado a um processo linguístico? O atual governo é certamente um candidato pioneiro a tal. Refiro-me (sem aspirar a linguista e de forma simples) ao processo em que a uma palavra se acrescenta coletivamente um sentido - no caso uma conotação positiva - ao seu significado inicial. É o caso, claro, da palavra "geringonça". De estrutura "frágil", "complexa" e de "funcionamento precário", "geringonça" passou a significar também uma solução governativa capaz de superar a fraqueza apontada na sua origem.

Maria Antónia de Almeida Santos

Planeta é só um!

"Planet B is fake news". Quem disse o contrário, já se sabe, mentiu. Abecedários à parte, verdade e facto continua a ser que é urgente termos um plano global para continuarmos a ter planeta. Todos os dias somos confrontados nos media com factos e imagens que nos descrevem como a nossa Terra se torna pela ação humana cada vez menos bela, menos harmoniosa e menos acolhedora, como quem se defende de uma agressão continuada. Infelizmente, a maioria destes dados já não são news e muito menos serão fake, até porque são validados pela realidade sentida em espectro global - desde a redução da precipitação na bacia mediterrânica ao degelo dos glaciares do Alasca. É certo que há hoje mais atenção às questões ambientais, como nos demonstrou a extraordinária atitude da juventude mundial, com a sua capacidade de mobilização global na luta pela preservação do planeta e do futuro. Já há mais respostas, como a reciclagem das embalagens e a reutilização do saco de plástico do jornal do fim-de-semana e do saco do supermercado (exemplos - entre os muitos que há - da simplicidade prática). No entanto, continuamos por descobrir ferramentas que tornem mais fácil globalizar a luta pela saúde do planeta e as medidas concretas que a expressam.

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Maria Antónia de Almeida Santos

Dia Mundial da Saúde – é profilático lembrar 

A democracia, constituída por pessoas e orientada para as mesmas, não assume também ela um certo cariz orgânico? Tal como o corpo humano, é algo que tem de ser cuidado e mantido. O mesmo se passa com o SNS. Hoje, é aceite que é ao SNS que cabe concretizar o direito à proteção de saúde universal, geral e tendencialmente gratuita, que a Constituição prevê. No entanto, tendo por referência uma cobertura universal, há, de facto, uma questão que se impõe: que equilíbrio possível entre o número de cidadãos alcançados, o investimento e os recursos existentes? À nossa democracia e ao SNS devemos a síntese entre qualidade e sustentabilidade que permita manter e alargar a prestação efetiva de cuidados de saúde que temos atualmente.

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Maria Antónia de Almeida Santos

A cidadania pode e deve estar isenta de complexidade

Foi anunciada nesta semana a criação de um novo serviço da Autoridade Tributária (AT), que privilegia o diálogo na relação com os contribuintes. Os seus princípios orientadores, para além da promoção da literacia fiscal, são a prevenção do litígio e a substituição do contencioso pelo consenso. Ser contribuinte tem uma carga cultural e social a que ninguém é alheio. É uma das valências da cidadania e também a expressão da confiança dos cidadãos no Estado e nos serviços que este lhes proporciona. No entanto, tal como a sociedade se tornou mais complexa, a compreensão do procedimento tributário também se tornou mais exigente para o cidadão. É certo que a comunicação entre os contribuintes e a AT é cada vez mais ágil, em virtude da digitalização e da informatização. Mesmo assim, para alguns, e sobretudo para os mais afastados das novas tecnologias, fiscal pode ser ainda sinónimo de procedimentos complicados e de inquietude.

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Maria Antónia de Almeida Santos

Há vacina para as fake news?

A internet foi das mais admiráveis invenções tecnológicas da história da humanidade, com o seu contributo para a democratização no acesso ao conhecimento e na partilha da informação. A imagem da mensagem na garrafa que navegava pelos mares foi já ironicamente substituída na cabeça de todos pela hashtag # . A comunicação torna-se cada vez mais instantânea, com o chat , as redes sociais e as aplicações, em que o indivíduo consegue partilhar experiências e estados de espírito e projetar aquela identidade com que se sente virtualmente confortável...

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Maria Antónia de Almeida Santos

Silêncio e preconceito

Portugal tem uma tradição humanista e solidária invejável que está ilustrada, aliás, no nosso percurso artístico, cultural e democrático. O papel histórico de interface de civilizações conferiu-nos o elã de interlocutor privilegiado de culturas e o laço afetivo com a nossa vasta diáspora fomentou em nós a ideia de que, quem espera tolerância, tem necessariamente de praticá-la. A isto juntámos Abril e os valores da liberdade, plasmados numa Constituição assente na dignidade social e na igualdade. Por si só, no entanto, a ideia enraizada dos nossos "brandos costumes" poderá acarretar o perigo de nos esquecermos de averiguar ciclicamente se a sua brandura ainda perdura.

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Maria Antónia de Almeida Santos

Ser ou não ser, eis a questão

De facto, desde o famoso "to be, or not to be" de Shakespeare que não se assistia a tão intenso dilema britânico. A confirmação do desacordo do Brexit e o chumbo da moção de censura a May agudizaram a imprevisibilidade do modo como o Reino Unido acordará desse mesmo desacordo. Uma das causas do Brexit terá sido certamente a corrente nacionalista, de base populista, com a qual a Europa em geral se debate. Mas não é a única causa. Como deverá a restante Europa reagir? Em primeiro lugar, com calma e serenidade. Em seguida, com muita atenção, pois invariavelmente o único ganho do erro resulta do que aprendemos com o mesmo. Imperativo é também que aprendamos a aprender em conjunto.