Maria Antónia de Almeida Santos

Maria Antónia de Almeida Santos

É urgente voltar à natureza

No que toca à pandemia, haverá um antes e um depois. O mundo para o qual desconfinamos agora é outro. Temos vivido absorvidos pela preocupação e pela salvaguarda da vida humana. Esse processo tem trazido cansaço e saturação e ainda outra certeza: temos, globalmente, de mudar de vida. Agora estamos no durante e é esta a fase para preparar o que se seguirá. É o tempo de delinear a profilaxia de situações como a que vivemos. Para tal, é necessário perceber a melhor forma de tornar essa prevenção o mais "transitiva" possível, no sentido em que esta possa promover uma transição civilizacional efetiva em áreas essenciais à saúde e à vida.

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Maria Antónia de Almeida Santos

A tentação do excesso

A Constituição da República Portuguesa fez, a 2 de abril, 44 anos. Recordá-la não é um hábito, é um tónico. É o norte de princípios fundamentais da democracia portuguesa, como o da presunção da inocência e outros. É a sua prática e observância que faz a profilaxia de populismos e extremismos. Nunca como agora, e em tudo, aliás, precisámos tanto de profilaxia. O risco global de termos de enfrentar uma "tempestade perfeita", quando falamos de direitos, liberdades e garantias, não é baixo.

Maria Antónia de Almeida Santos

Preparemo-nos: basta não andar distraído e ser solidário

À atual emergência de saúde pública está a corresponder um autêntico sismo civilizacional, com várias ondas de choque. Uma delas é a do choque ideológico. Como em tudo na vida, há sempre uma lição a aprender, até mesmo com as coisas más. A primeira grande lição da crise sanitária global é a de que precisamos de um Estado decisor em áreas como a saúde e a segurança básica. Percebemos melhor, agora, que isso é decisivo para a nossa sobrevivência. Outra lição é a de que é em tempos de exceção que se cimenta a igualdade. Outras haverá e teremos tempo de estudá-las.

Maria Antónia de Almeida Santos

Não me estou nas tintas para a Constituição

A aprovação dos cinco projetos para a despenalização da eutanásia trouxe o consenso necessário para continuar o processo legislativo - ainda longo - que lhe corresponde. Mas não só. Sendo algo comum no Parlamento, no sentido em que tantos projetos (das mais variadas índoles) são também discutidos, esta aprovação em particular, por abordar algo tão sensível e complexo, reforça e ilustra também a legitimidade do legislador e a saúde da própria democracia representativa.

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Maria Antónia de Almeida Santos

Que venham os anos vinte! 

O ano 2020 trouxe já uma controvérsia. "Ressuscitou", via redes sociais e não só, a mesma questão da viragem do milénio - quando adotámos o calendário gregoriano, não houve ano zero e, como tal, a segunda década dos anos 2000 só terminará no final do ano que agora se iniciou. Mas os "loucos anos vinte" já começaram? É uma questão engraçada, quando encarada com espírito relativista e com a noção de que o réveillon é sempre réveillon. A festa é celebrada das mais diversas maneiras pelo mundo fora e mesmo no nosso país há diferentes tradições e superstições. Talvez só as passas e a contagem decrescente (ou crescente, consoante o ponto de vista) sejam consensuais, uma vez que a "passa zero", ao não ser comida, não conta.... Mas penso que é também do (con)senso comum associar ao fim de ano uma noção de balanço e de resoluções. Quem nunca pensou algo como: "Este ano tenho de levar uma vida mais saudável" ou "Este ano tenho de arranjar mais tempo para mim e para os meus filhos"?

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Maria Antónia de Almeida Santos

A escolha de Marieke Vervoort

"Vivi coisas com as quais a maioria das pessoas só pode sonhar." Esta foi a frase da atleta paralímpica belga Marieke Vervoort, campeã em mundiais e com quatro medalhas nos Jogos Paralímpicos, que decidiu morrer na terça-feira passada, aos 40 anos, por sua decisão, com aprovação de dois médicos e para interromper a dor terminal. Com recordes nacionais e europeus, brilhou em mundiais e conquistou quatro medalhas em Jogos Paralímpicos: ouro e prata nos 100 e 200 metros em Londres (2012) e bronze e prata nos 100 e 400 metros no Rio de Janeiro (2016). É esta a memória - de vitória - que nos deixa. Diagnosticada aos 14 anos com uma doença degenerativa, a luta, para ela, tal como a conquista, foi uma constante que lhe definiu a vida. Vai ficar-me como incontornável, para além do seu exemplo, a sua frase: "Vivi coisas com as quais a maioria das pessoas só pode sonhar." Marieke teve inclusivamente algo que poucos têm - a possibilidade de decidir sobre a última memória que deixamos de nós mesmos.

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Maria Antónia de Almeida Santos

Dos pobres também reza a história

Já era tempo de a humanidade começar a atuar sem ideias preconcebidas sobre como erradicar a pobreza. A atribuição do Prémio Nobel da Economia esta semana a Esther Duflo, ao seu marido Abhijit Vinaayak Banerjee e a Michael Kremer, pela sua abordagem para reduzir a pobreza global, parece indicar que estamos finalmente nesse caminho. Logo à partida, esta escolha reforça a noção de que a pobreza é mesmo um problema global e que deve ser assumido como tal. Em seguida, ilustra a validade do experimentalismo na abordagem que se quer cada vez mais científica às questões económico-sociais. Por último, pela análise que os laureados têm feito de questões específicas e precisas, temos a demonstração da importância das políticas económico-financeiras orientadas para as pessoas.

Maria Antónia de Almeida Santos

Da radicalização e da prudência

O mundo inteiro tem assistido ao Brexit com suspense e atenção. "Assistir" parece-me a palavra correta. Não só pela velocidade dos acontecimentos, que lembra a ficção, mas também porque sabemos que assistir é verdadeiramente a única coisa que podemos fazer. A grande tradição democrática e parlamentarista da Grã-Bretanha trouxe-lhe a alcunha de Mother of Parliaments. Mesmo nunca sabendo o que esperar do Brexit, temos a consciência de que o seu desenlace será algo que marcará de forma indelével a cultura democrática universal. A verdade é que é uma situação muito complexa. De um certo ponto de vista, a sua origem pode ter estado também no facto de o processo de construção da União Europeia ter talvez descurado uma necessária atitude didática que realçasse o que temos de comum a nível cultural e histórico.

Maria Antónia de Almeida Santos

Nothing silly about this season

A silly season está quase aí. Na língua portuguesa, creio que o conceito nunca conseguiu tradução consensual. Mas nem por isso deixou de ter expressão no nosso quotidiano, no nosso entretenimento e no nosso jornalismo. É claro que a silly season não é bem o que era (já nada no mundo é). As alterações climáticas trouxeram um novo paradigma à vida humana, com as mudanças recorde a nível da temperatura e os novos fenómenos climáticos mais extremados que, em conjunto, deram origem a ecossistemas mais inflamáveis. O aumento da intensidade dos incêndios florestais trouxe-nos também a consciência de que o verão se tornou mais do que praia e romarias e de que, nas notícias, não aparecem já só festas, festivais e vedetas, mas também dor, sofrimento e perda. Os meses estivais são agora algo que já não pode mesmo ser encarado apenas de forma ligeira. No verão, a urgência de responsabilidade no entretenimento, na segurança, na saúde e no jornalismo veio mesmo para ficar. As questões ambientais espelham as mudanças físicas do nosso planeta e materializam a exigência de uma nova atitude perante as mesmas.