Margarita Correia

Margarita Correia

LGP, uma língua silenciosa

Conheci pessoas surdas ainda na infância, dois primos direitos da minha mãe, os "mudos". Percebi mais tarde que não eram mudos nem surdos-mudos, mas sim surdos, e que não falavam como as pessoas "normais" porque a surdez os impedia de adquirir a língua oral. Tiveram estes "mudos" a sorte de ser gémeos e assim criarem uma forma de comunicação própria. Não tiveram, porém, a possibilidade de adquirir uma língua, visto que, embora a capacidade da linguagem seja inata, a aquisição de uma língua pressupõe integração em uma comunidade que a fale. Ambos moraram sempre juntos, casaram-se, constituíram famílias e fizeram as suas vidas como puderam, relativamente isolados do resto do mundo. Lembro-me de os ver ocasionalmente, "na loja", a confraternizar com os homens da aldeia usando gestos e sons que impressionavam a criança que eu era.

Margarita Correia

Do medo e do terror

Medo "provém do latim "metus" e é, em português, o nome genérico da emoção que acompanha a tomada de consciência de um perigo. Os vários nomes de significado relacionado (e.g. "receio", "pavor", "temor", "terror") denotam diferentes nuances ou intensidades de medo. Todos eles podem denotar também, por metonímia, o objeto que provoca a emoção. "Terror" constitui o nome do medo mais intenso ou avassalador e provém do nome latino "terror, terroris", com idêntico significado. O nome "terreur" em francês designa, desde 1789, o conjunto de meios de coerção política que permitia manter os opositores em estado de terror, e o Terror ("La Terreur"), com maiúscula, designa o regime instaurado em França entre setembro de 1793 e julho de 1794, encabeçado por Robespierre, que se caracterizou pela execução daqueles que se consideravam inimigos da Revolução. São da mesma época as primeiras atestações em francês das palavras "térrorisme", denotando um regime de terror político e "térroriste", denotando o partidário ou o agente de tal regime. O dicionário Houaiss propõe o ano de 1836 (no dicionário de Francisco Solano Constâncio, editado em Paris) como o da primeira atestação das palavras portuguesas "terrorismo" e "terrorista", não indicando étimos, mas apenas a sua estrutura morfológica ("terror" + -"ismo" / -"ista"). Em inglês, segundo o Merriam-Webster online, o par "terrorism"/"terrorist" surge logo em 1795 para se referir ao Terror francês. Até ao século XX, ambos os termos são marcadamente políticos e referem-se ao terror do Estado para com o povo. No mesmo sítio é-nos dito que, em 1920, em jornais como o Chicago Tribune, "terrorism" adquire aceção politicamente neutra, para referir o terror instalado pelos "gangsters", e que é em 1934 que o termo passa a ser usado para designar já não apenas o terror imposto pelo governo, mas também aquele que é imposto contra o governo. Atualmente, "terrorismo" designa o emprego sistemático de medidas violentas com objetivo político e dizem-se "terroristas" os atos arbitrários de violência extrema, executados para criar um clima de terror e desestabilizar o sistema social e político vigente. Ao escrever sobre a decapitação de Samuel Paty pela primeira vez, centrei-me na motivação do ato, identificando-a como sendo o fundamentalismo religioso, e o seu alvo a laicidade da escola. Para reforçar o meu ponto de vista dei o exemplo do movimento Escola sem Partido, no Brasil. Ao fazê-lo, alerta-me uma leitora, coloquei a execução de Samuel Paty no mesmo plano, desvalorizando-a. Entre o que se pretende veicular e o que se consegue efetivamente veicular vai frequentemente alguma distância; eu tinha obrigação de o ter tido em conta. O ato de pura barbárie cometido contra Samuel Paty a 16 de outubro foi um ato de terrorismo, tal como o ataque na basílica de Notre-Dame em Nice, a 29. O móbil destes atos é o fundamentalismo islâmico. A sua natureza é terrorista. O seu alvo é a sociedade francesa e também os valores da Europa. Ambos são atos chocantes, horrendos, inaceitáveis. Ambos podem apenas merecer repulsa e rejeição. Perante ambos, resta fortalecer a luta contra o terror e a favor da liberdade. Nenhum ato terrorista pode ser desvalorizado. Professora e investigadora, coordenadora do Portal da Língua Portuguesa

Margarita Correia

A escola e a cidadania

No meio da discussão sobre a disciplina Cidadania e Desenvolvimento (CD), dei comigo a indagar a origem e a semântica da palavra "cidadania". Esta teve o seu "nascimento" em português na 2.ª edição do Novo Dicionário da Língua Portuguesa, de Cândido de Figueiredo (1913), que a descreve como "Neol. Bras. Qualidade de cidadão", sem abonação, nem etimologia. Nos dicionários que consultei, nada encontrei sobre a sua proveniência; nada me espantaria, porém, que a palavra tivesse entrado em português pelo francês, como aconteceu com tantas outras. O Dictionnaire historique de la langue française conta-nos que a palavra "citoyenneté", equivalente de "cidadania", teve a sua primeira atestação em 1783, com as conotações patrióticas e o conteúdo afetivo que citoyen adquiriu na época da Revolução Francesa. Os primeiros usos de "citoyenneté" denotam a participação no governo da cité (civis, civitas), segundo o modelo cívico da Antiguidade Clássica; a partir do século XIX adquiriu o seu sentido jurídico, afetivamente neutro, de membro de um estado ou nação. É este sentido jurídico que predomina na maioria dos dicionários contemporâneos de língua portuguesa consultados, indicando às vezes "cidadania" como sinónimo de "nacionalidade". Na Infopédia encontramos a descrição mais adequada dos significados de "cidadania", em quatro aceções, de que transcrevo apenas as pertinentes neste contexto: "a) DIREITO vínculo jurídico que traduz a condição de um indivíduo enquanto membro de um Estado ou de uma comunidade política, constituindo-o como detentor de direitos e de obrigações perante essa mesma entidade" e b) "exercício dessa condição, através da participação na vida pública e política de uma comunidade" - logo, há pessoas com cidadania na aceção a) que não tiveram ou têm acesso à cidadania na aceção b): e.g. as mulheres até 1974 ou os menores de 18 anos. É na aceção b) que a palavra "cidadania" é usada na disciplina de CD.

Margarita Correia

Das crenças

Nos últimos meses, dei comigo a refletir mais demoradamente sobre as crenças. Não, não foi impulso místico o que me levou a pensar no assunto, mas antes a perplexidade com que assisto à aparente convicção com que alguns governantes propalam ideias que contrariam a evidência e a ciência - e.g. o SARS-Cov 2 está controlado e em breve a pandemia estará resolvida; o uso de hidroxicloroquina ou o consumo de vodca previnem a COVID-19. Digo "aparente convicção" porque me custa acreditar que governantes de países creiam efetivamente no que dizem: provavelmente estou condicionada pela crença - justificada? - de que um governante é um indivíduo minimamente racional e inteligente.

Margarita Correia

Quero ver o português na CEE!

Comemora-se em 2020, o 35.º aniversário da assinatura do tratado de adesão de Portugal à então Comunidade Económica Europeia. Desde 1977, quando apresentou a candidatura, a adesão tornou-se entre nós tema de conversas, entretenimento - e.g. a canção dos G.N:R., Portugal na CEE, de 1982 (com cujo refrão brinco) - e até de literatura - e.g. a Jangada de Pedra (1986), de José Saramago. Ninguém negará o impacto maioritariamente positivo que ela teve no desenvolvimento do país e nas nossas vidas, e.g. a nível político, económico, social, educativo, científico. Pouco ou nada se fala, porém, do impacto que a adesão à CEE teve no desenvolvimento e difusão da língua portuguesa.

Opinião

Visões sobre a língua portuguesa

No tempo da troika, assisti a uma mesa-redonda, na qual se discutia a União Europeia, o euro, o estado social e a economia de países como Portugal, assim como se equacionava o interesse de o nosso país abandonar a UE e adotar o escudo. Os oradores e a maioria do público eram pessoas acima dos 50. Quando se abriu o debate, a maioria dos participantes esteve em consonância com a mesa, trazendo argumentos para justificar os benefícios de Portugal deixar de pertencer à UE. Uma das pessoas mais jovens da audiência pediu a palavra e explicou ser uma jornalista, desempregada, de 30 e poucos anos, com um irmão que se preparava para partir para um intercâmbio Erasmus; explicou que os seus amigos estavam maioritariamente na casa dos 30, 40 anos, que se sentiam cidadãos europeus de facto, se identificavam com a União e nem lhes passava pela cabeça abdicar de todos os benefícios que a Europa lhes trouxera, nomeadamente a mobilidade e a modernidade. A intervenção criou alguma consternação entre os presentes. Ninguém esgrimiu argumentos contra o que fora dito, mas o ambiente arrefeceu e a discussão ficou por ali.