Margarita Correia

Margarita Correia

Graças a Deus. Ou graças a nós.

Fomos abalados pela execução de Samuel Paty, professor de História e Geografia, a 16 de outubro, frente à escola onde trabalhava, nos arredores de Paris. A causa próxima do crime foi a exibição, numa aula de Ensino Moral e Cívico, de duas das caricaturas de Maomé publicadas pelo Charlie Hebdo. A disciplina de Ensino Moral e Cívico é obrigatória ao longo de todo o currículo do ensino não superior, desde o ataque ao Charlie Hebdo em 2015, que é um dos temas do programa. Os seus objetivos são: respeitar os outros, adquirir e partilhar os valores da República (liberdade, igualdade, fraternidade, democracia, cidadania, laicidade, liberdade de expressão) e construir para si mesmo uma cultura cívica.

Margarita Correia

Da linguagem não discriminatória

Fez notícia a Diretiva sobre a Utilização de Linguagem não Discriminatória, enviada pelo secretário-geral do Ministério da Defesa Nacional aos chefes de gabinete dos chefes de Estado-Maior-General das Forças Armadas (FA) e de cada ramo. O ofício que acompanha o documento é de 18 de setembro, terá chegado aos destinatários na semana de 21, mas só a 30 ouvi falar dele, na comunicação social e nos perfis da Associação de Oficiais das FA e da Associação Nacional de Sargentos. Tratando-se de matéria tão sensível como o comportamento linguístico e de um público-alvo tão particular, seria de esperar que o ofício e o documento anexo fossem irrepreensíveis, inatacáveis, mas estão longe de o ser.

Opinião

Que nos contam as palavras "racismo" e "xenofobia"?

Tanto se fala hoje de racismo e manifestações "contra o antirracismo" (leia-se: a favor do racismo) que dei comigo a refletir sobre esta e a palavra "xenofobia". Tive dúvidas quanto à pertinência do tema, mas elas dissiparam-se ao consultar o sítio web do dicionário Merriam-Webster, que, a propósito das diferenças entre "racism" and "xenophobia", nota que nunca é bom sinal verificar um substancial acréscimo das consultas de termos relacionados e indesejáveis como "racismo" e "xenofobia", como acontece desde o aparecimento da covid-19 e subsequente pandemia global (tradução minha).

Opinião

O português, o IILP e o sistema global das línguas

Em 2001, na obra Words of World, Abram de Swaan propõe que o "sistema global das línguas" é parte integrante do "sistema mundial", e que este, além da linguística, comporta uma dimensão política, uma económica e uma cultural. Propõe ainda que o sistema global das línguas se organiza em constelação, cujo centro é atualmente o inglês, língua hipercentral. Em torno do inglês gravitam 12 línguas supercentrais (alemão, árabe, chinês, espanhol, francês, hindi, japonês, malaio, português, russo e suaíli), de âmbito internacional, e todas, à exceção do suaíli, com mais de cem milhões de falantes cada. Em torno das línguas supercentrais, gravitam cerca de cem línguas centrais, em conjunto faladas por cerca de 95% da população mundial, que têm em comum o serem frequentemente "línguas nacionais" ("national languages", segundo o autor), oficiais dos países ou regiões onde são faladas, de registo escrito, usadas na comunicação, na política, na administração, na justiça e no ensino. Finalmente, as línguas periféricas ou minoritárias, provavelmente mais de seis mil, constituem cerca de 98% das línguas existentes, mas são, em conjunto, faladas por cerca de 10% da população mundial, línguas de memória, com escassa tradição escrita. Para de Swaan, este sistema assenta no multilinguismo, i.e., grande parte da população mundial fala mais do que uma língua, pelo menos duas de "órbitas" diferentes. Os falantes de uma língua periférica usam em geral uma língua central, quando necessitam de comunicar com falantes de outra língua periférica; os falantes de línguas centrais diferentes recorrem a uma língua supercentral como veicular; e, por fim, o inglês é veicular para os falantes de línguas supercentrais diferentes. A veicularidade constitui-se, portanto, como importante mais-valia para as línguas.

Margarita Correia

A escola e a norma linguística

Há uns anos, dei aulas de Didática, no Ramo Educacional da FLUL, a estudantes licenciados que pretendiam tornar-se professores de português do 3.º ciclo do ensino básico e do secundário. Começava o semestre com o seguinte tópico para discussão: "Se os alunos já sabem falar português, até já quase completaram a sua aquisição e se até já aprenderam ler e escrever, o que é que um professor de português como língua materna terá para lhes ensinar?"

Opinião

E ainda bem!

A variação é uma característica das línguas. Todas as línguas variam em função de tempo, geografia, condição social ou contexto de uso. Todas as línguas apresentam variação, com exceção de línguas como o latim e o grego clássico, que hoje já não variam porque são línguas mortas, mas que tiveram variedades distintas em épocas, lugares e contextos distintos. A língua portuguesa não é diferente das demais línguas vivas e, como tal, apresenta variação. E ainda bem!