Margarita Correia

Margarita Correia

Parabéns, Ciberdúvidas!

O Ciberdúvidas da Língua Portuguesa completou, a 15 de janeiro, 25 anos de existência. Este serviço público informal foi criado em 1997 por João Carreira Bom, jornalista, cronista e contista, e por José Mário Costa, também jornalista e que foi responsável, desde 2006, por várias temporadas do programa Cuidado com a Língua!, da RTP. João Carreira Bom faleceu em 2002 e muita falta me fizeram as suas crónicas no Expresso, de que fui leitora ávida e guardo uma doce memória, textos que revelavam um excelente domínio da língua portuguesa, povoados de criatividade e humor.

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Os direitos linguísticos, um quarto de século depois

Quando a Organização das Nações Unidas celebrou o Dia Mundial dos Direitos Humanos, no passado dia 10 de dezembro, dei comigo a revisitar a Declaração Universal dos Direitos Linguísticos, também conhecida como Declaração de Barcelona (DB). Este documento foi assinado em junho de 1996, pela UNESCO, o PEN Internacional (PEN: Poets, Essayists, Novelists) e outras organizações não governamentais, e visou, especialmente no que se refere a línguas ameaçadas de extinção, garantir a possibilidade de "corrigir os desequilíbrios linguísticos com vista a assegurar o respeito e o pleno desenvolvimento de todas as línguas e estabelecer os princípios de uma paz linguística planetária, justa e equitativa, como fator fundamental da convivência social", de acordo com a Introdução.

Margarita Correia

Falar "brasileiro" ou falar "americano", eis a questão!

Até aos 10 anos, vivi num ambiente linguístico peculiar. Os meus pais, portugueses emigrados na Venezuela, falavam um registo de contacto entre português e espanhol; a minha madrinha, brasileira do Nordeste emigrada na Venezuela, falava o seu registo de contacto. Não sei ao certo qual terá sido a primeira língua que falei, ou qual registo, mas sei que, aos 5 anos, fui alfabetizada em espanhol, língua que desde então tenho a certeza de falar. Entre os amigos da família havia falantes de português (portugueses e brasileiros, com vários sotaques) e falantes de castelhano (venezuelanos, espanhóis, cubanos, colombianos...), de galego, catalão, basco, de italiano, eu sei lá! Entre as colegas de escola havia quem falasse alemão, francês, inglês, iídiche. Cresci no meio de uma grande algaraviada! O resultado foi eu hoje falar e até ensinar português europeu e entender outras variedades do português; falar espanhol de variedade venezuelana e entender outras variedades; falar francês por o ter estudado por 12 anos e ter habilitação profissional para o ensinar como língua estrangeira; falar inglês, que aprendi no ensino básico e de que muito preciso para o exercício da profissão; falar italiano, que aprendi quase sem dar por isso, como se sempre tivesse estado dentro de mim.

Margarita Correia

Carta Europeia para as Línguas Regionais e Minoritárias

O Conselho da Europa, fundado em 1949, é a principal organização de defesa dos direitos humanos do continente e tem o inglês e o francês como línguas de trabalho. Conta com 47 países membros; Portugal aderiu em 1976. No Conselho da Europa encontram-se a Convenção Europeia dos Diretos Humanos e o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos, provavelmente a mais conhecida das suas instituições. Entre as áreas em que exerce atividade, a promoção do multilinguismo e dos direitos linguísticos ocupa lugar privilegiado, até porque um dos objetivos do Conselho da Europa é conseguir uma união mais forte entre os seus membros, visando o reconhecimento e a salvaguarda dos ideais e princípios que fazem parte da sua herança comum.

Margarita Correia

Intérprete, ficção e realidade

O filme The Interpreter (coprodução de Reino Unido, Estados Unidos e França, de 2005, realizada por Sydney Pollack) conta-nos a história de Silvia Broome, uma jovem e bela intérprete da ONU, nascida em Matobo, um daqueles países fictícios, de gente de pele escurinha, tão úteis à representação maniqueísta que os estado-unidenses fazem do mundo. Uma noite, ao regressar à sede da organização para recuperar alguns pertences, ela escuta dois indivíduos que planeiam um assassinato, usando uma das línguas indígenas de Matobo, que ela domina; ao aperceberem-se da sua presença, a vida de Silvia Broome fica em risco, alimentando todo o enredo deste thriller de desfecho previsível.

Margarita Correia

Das línguas nacionais

No âmbito das comemorações do Dia Mundial da Língua Portuguesa, fui convidada pela embaixada e o Centro Cultural de Cabo Verde a participar na Conferência Desafios das línguas nacionais e da língua portuguesa nalguns países da CPLP - Contextos locais/Desafios Globais. Houve participantes de vários países, que falaram das situações linguísticas respetivas. A língua nacional de Cabo Verde é o crioulo, ou língua cabo-verdiana, cujo estatuto, situação sociolinguística e ensino se encontram longe de resolvidos; muitas foram as intervenções que focaram esta questão. A mim tocou-me falar sobre as línguas nacionais portuguesas.

Margarita Correia

Da prole de littĕra, ou de como o léxico se vai adaptando às necessidades

"Literacia", de origem anglófona, terá sido cunhado no português europeu na década de 1990, no relatório Literacia em Portugal. Resultados de uma pesquisa extensiva e monográfica, no qual se define o termo como capacidade de processamento de informação escrita, na vida quotidiana (social, profissional, pessoal), através da leitura, escrita e cálculo. Isoladamente, o termo não levanta problemas: tem alguma dose de transparência (deixa inferir que tem algo a ver com letra, leitura, literatura), mas, como as palavras não existem isoladamente, antes ganham sentido da relação que estabelecem com outras, a importação de "literacia" criou um problema: como designar em Portugal uma pessoa capaz de processar informação escrita? Letrado? Literato? "Literado", como intuitivamente escrevem os meus alunos?