Margarita Correia

Margarita Correia

Variantes ou variedades do português?

Nas primeiras aulas de linguística, aprende-se que uma das características universais da linguagem (entendida como capacidade distintiva da espécie humana, que se manifesta através das muitas línguas existentes) é a variação, i.e., o processo pelo qual, apesar de reconhecermos a unidade de uma língua (por constituir um sistema linguístico, com gramática (regras) e léxico (palavras) específicos, que se desenvolveu espontaneamente no seio de uma comunidade e é partilhado pelos indivíduos que a constituem), essa língua é usada de formas variadas, no dia a dia dos falantes.

Margarita Correia

Do valor do espanhol e do valor do português, ou da visão estratégica e da falta dela

O Plano de Recuperação, Transformação e Resiliência espanhol (equivalente ao nosso PRR) prevê a atribuição de 140 mil milhões de euros de transferências e créditos europeus para o país entre 2021 e 2026. Deste plano foram até agora aprovados 11 PERTE (Projetos Estratégicos para a Recuperação e Transformação Económica), a saber: 1) para o desenvolvimento do veículo elétrico e conectado; 2) para a saúde de vanguarda; 3) de energias renováveis, hidrogénio renovável e armazenamento; 4) Agroalimentar; 5) Nova economia da língua; 6) Economia circular; 7) para a indústria naval; 8) Aeroespacial; 9) de digitalização do ciclo da água; 10) de microeletrónica e semicondutores; e 11) de economia social e dos cuidados.

Margarita Correia

Dicionário da Língua Portuguesa Medieval

Terá lugar hoje (28-11), pelas 18.00 horas, na livraria Leya Bucholz (Lisboa), a apresentação do Dicionário da Língua Portuguesa Medieval (DLPM), resultante de um projeto desenvolvido, entre 2004 e 2007, no Centro de Linguística da Universidade Nova de Lisboa (UNL), e coordenado por João Malaca Casteleiro (Universidade de Lisboa - ULisboa), Maria Francisca Xavier (UNL), ambos já falecidos, e, ainda, por Maria de Lourdes Crispim, professora aposentada da UNL. A obra, publicada em julho deste ano, tem a chancela da Editorial Caminho.

Opinião

Como é hoje a Presença da Língua Portuguesa na Internet?

O projeto Presença da Língua Portuguesa na Internet (PPI) foi executado, em 2021, pelo Observatório da Diversidade Linguística e Cultural na Internet, sob coordenação da Cátedra UNESCO em Políticas Linguísticas para o Multilinguismo (UFSC, Brasil), com financiamento do Ministério das Relações Exteriores do Brasil, através do Instituto Internacional da Língua Portuguesa (IILP). O documento, de 118 p., encontra-se disponível online e contém informação valiosa para quem se ocupa (ou deveria ocupar) de desenvolver políticas linguísticas para o português.

Opinião

O ensino de línguas na Turquia

Ouve-se falar da Turquia, mas, a avaliar por mim própria, o conhecimento que se tem desse extenso país baseia-se em ideias e notícias descontextualizadas: país geográfica e culturalmente encravado entre a Europa e a Ásia, pertencente à OTAN, com alguma instabilidade política, que tem desde 2014 o peculiar presidente Recep Erdogan e mudou o seu regime de parlamentar para presidencial em 2017. Ultimamente, a Turquia adquiriu notoriedade devido ao veto à entrada de Finlândia e Suécia na OTAN e à mediação na guerra entre a Ucrânia e a Rússia. A sua situação linguística, apesar de importante caso de estudo para a sociolinguística, sobre o qual há tanto a dizer, é basicamente desconhecida.

Margarita Correia

Das línguas indígenas

Não se sabe ao certo quantas línguas vivas existem. Os números disponíveis não são rigorosos, porque, por um lado, não existe entendimento sobre os critérios usados para contar línguas (e não é de todo consensual estabelecê-los), por outro, algumas línguas não estarão registadas por pertencerem a pequenas comunidades rurais pouco acessíveis e, por fim, porque, sendo a maioria delas línguas em risco, o seu estado é extremamente volátil. O Ethnologue (publicação de referência que fornece estatísticas sobre as línguas vivas), na edição deste ano, assinala a existência de 7151 línguas; já a UNESCO, na sua documentação oficial, refere o número aproximado de 6700. Acredita-se que 90% das línguas do mundo são faladas por menos de cem mil habitantes, i.e., mais de seis mil delas estão em risco de extinção. Existem línguas que já têm apenas um falante vivo: enquanto falantes de uma língua com centenas de milhares de falantes, poderemos entender devidamente a profunda solidão em que estas pessoas vivem?

Margarita Correia

Dos povos indígenas

Comemora-se a 9 de agosto o Dia Internacional dos Povos Indígenas do Mundo, instituído pela Resolução 49/214 da Assembleia Geral da ONU, em 1994. O tema das comemorações deste ano é o papel das mulheres indígenas na preservação e transmissão do conhecimento tradicional; haverá emissões online com declarações e testemunhos. Em 2007, pela Resolução 61/295, foi aprovada a Declaração sobre os Direitos dos Povos Indígenas, documento constituído por 46 artigos, abrangendo as diferentes áreas da vida destes povos, desde a relação com as sociedades dominantes, a educação, a cultura, a saúde e a economia, entre outros.

Margarita Correia

Chéquia e o sururu toponímico da atualidade

Irrompeu na Comunicação Social, a propósito da Liga das Nações da UEFA-2022/23, o inquietante topónimo "Chéquia" para denominar o país geralmente conhecido como República Checa, forma que muitos nunca haviam decerto ouvido ou lido. O sururu ficou montado! E não, não é por acaso que escolho esta palavra que, no Brasil, nomeia os plebeus mexilhões, mas que por cá usamos para falar de confusões, desordens e conflitos. Nada como o futebol para, com uma simples palavrinha (qual efeito-borboleta da teoria do caos), gerar um grande sururu.

Língua somos todos

Do assédio moral

Surgiram nas últimas semanas artigos de opinião originados pelas denúncias de assédio na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. Destaco o de 23 de maio, "Assédio, poder e sistemas de oportunidade", de Carlos Gouveia, linguista como eu, que, além de esclarecer a distinção entre "assédio sexual" e "assédio moral", dá conta de situações de assédio moral na universidade portuguesa. Porque, segundo o autor, muitos casos de assédio moral "nem sequer são tomados como tal" e porque, de acordo com Fernanda Peralta, "o assédio não existe quando ninguém pergunta", contribuamos para "chamar os bois pelos nomes", i.e., falemos de assédio.

Margarita Correia

O cair das máscaras

Vivemos no final da semana passada a concretização de um desejo imenso: o de poder deixar cair as máscaras com que, literalmente, nos cobrimos ao longo dos dois últimos anos, impedindo-nos de ler no rosto do outro as suas reações e emoções. Amanhã, quando entrar nas salas de aulas, vou finalmente conhecer o rosto dos meus alunos e certamente ter algumas surpresas ao constatar que muitos deles são bem diferentes daquilo que tenho imaginado. Os meus netos vão finalmente rever ou ver pela primeira vez os rostos das pessoas que os cuidam no jardim de infância e terão a oportunidade de ver os movimentos faciais que os adultos fazem ao falar, elemento crucial para aprender a articular os sons e adquirir a linguagem nas suas diferentes facetas.