máquina de escrever

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Os homens que não gostam de mulheres

Piropo é uma palavra enganadora porque alude a um elogio, a algo gracioso, embora muitas vezes seja um ataque. Não é preciso fazer um estudo de opinião para saber que nem todos os piropos são do género "Não sabia que as flores andavam" ou "Esse corte de cabelo vai muito bem com o formato da tua cara". Ao longo dos anos, escutei de várias mulheres histórias de abusos, o relato de uma violação (pelo próprio namorado) e incontáveis frases de agressão, como aquela que, em Madrid, uma amiga ouviu a caminho do emprego: "Até te comia o período à colherada."

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Macacos kitados

Donald Trump disse que uma jornalista lhe fez perguntas inconvenientes porque estava menstruada. Nuno da Câmara Pereira acredita que, entre os homossexuais, 90 por cento "escolheram" sê-lo por uma questão de moda. Pedro Arroja avança que a pulsão dos africanos pelo sexo está na origem da sua falta de produtividade. O que é que todos temos em comum com estes homens? Ignorância e preconceitos. Como eles, todos somos ignorantes em muitas áreas de conhecimento e todos nós, por mais liberais e igualitárias que sejam as nossas convicções, temos algum tipo de preconceito. No entanto, nem todos fazemos da ignorância e da mentira um estandarte da bazófia. E muitos de nós, dando-se conta dos seus preconceitos, tentam desenvencilhar-se deles ao longo da vida, dispondo-se a mudar de opinião sobre algo que nos foi passado como adquirido. Para cada vez que nos disseram que deus fez o mundo em menos de uma semana, há seis mil anos, e a mulher surgiu da costela de Adão, houve uma aula de ciências, um livro ou um documentário explicando a teoria da evolução, a procriação da espécie e a verdadeira idade do planeta.

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E o Rio, continua lindo?

Na Rua 3 do Vidigal, a TV no bar do Carlão mostra os jogos internacionais e os moleques suspendem a peladinha sempre que passa um mototáxi, o cheiro da gasolina tornando a humidade e a doçura da clorofila ainda mais pegajosas. O bar do Carlão: um barraco forrado a gordura e ferrugem, que serve hambúrgueres filé-minhau e onde a melodia do comentador desportivo, cantada nas colunas do plasma, parece narrar a peladinha dos moleques como se fosse uma final do campeonato do mundo. Lá em baixo, o mundo além da favela: o areal do Leblon ao Arpoador, o calçadão e a classe média-alta em movimento, uma fluidez erótica protagonizada por quem corre, pedala ou desliza num skate com pernas de caramelo e pele de muitos cremes franceses. Lá em cima: o morro Dois Irmãos, todo pedra e mato, Mordor dos cariocas, onde as nuvens se aninham como a namorada pós-orgásmica num motel. E, claro, um radiozinho a tocar algures em cada casa, quiosque, boteco, ônibus, a banda sonora da cidade entrecortada por buzinas, pregões, xingamentos e cantadas: "Me chama de previsão do tempo e diz que tá rolando um clima."