Lutador

Nelson Mandela

Adeus, Zuma

Não foi à toa que o Soccer City se ergueu em uníssono numa monumental assobiadela quando entrou Jacob Zuma: está em curso um processo de irreconciliação entre muitos sul-africanos e o presidente. Há dias rebentou um enorme escândalo, em contraste absoluto com a categoria de Mandela. Zuma resolveu fazer obras em casa com dinheiros públicos. A conta? À volta de 14 milhões de euros. O crime? Menosprezar o parlamento e enganar os contribuintes. Dois contrastes com Mandela: o respeito pelo cidadão como base da democracia pós-apartheid e o parlamento como sede da responsabilização entre órgãos de soberania. Num país com 70% de desemprego jovem e um terço a viver com menos de dois dólares por dia, é natural que o ANC seja hoje visto com crescente desconfiança. Por outras palavras, o ANC meteu a moralidade política de Mandela na gaveta. Tendo em conta que as desigualdades sociais se acentuaram desde a saída de Mandela, que a primazia económica continental está hoje ao alcance da Nigéria, que cinco milhões de contaminados com HIV são desprezados politicamente, não custa prever o que aí vem. Um 2014 com mais partidos a vigiar o governo e um ANC em queda (70% em 2004, 65% em 2009). Não nos admiremos se Zuma evocar abusivamente Mandela para compor a desordem ou mesmo cisões no ANC. Isto não é alarmismo, é realismo. É verdade que durante a "transição impossível" feita por De Klerk e Mandela, houve violência e boicote à discrição. Mas havia liderança pelo exemplo, um projeto de reconciliação nacional acima de gulas pessoais. Zuma não transporta nada disto. Como se viu no traumático massacre em Marikana, no ano passado, há uma agressividade no ar a fazer lembrar os tempos do apartheid. A memória de Mandela não se esgota numa semana de cerimoniais com Zuma a fazer de anfitrião. Precisa de ser dignificada. E Zuma tem estado tudo menos à altura.