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Ruy Castro

Aparvalhado diante de Pelé

Pelé fez 78 anos no outro dia. Não houve grandes comemorações - certamente estão esperando pela data redonda, a dos 80, para que lhe rendamos todas as homenagens. Tem sido comovente vê-lo nos últimos anos, de andador ou cadeira de rodas, ainda se recuperando de uma cirurgia no fémur. Faz-nos pensar que o jogador mais completo que já existiu, o inventor de jogadas, o homem dos 1281 golos, o atleta do século, nivelou-se a todos nós ao descer ao seu nível de humanidade. E isso é injusto. Assim como Edson - Edson Arantes do Nascimento, sua persona, você sabe - sempre se referiu a Pelé como Pelé, na terceira pessoa, não está certo que Pelé, finalmente, tenha passado a se ver como Edson.

Ruy Castro

O mundo sem fim de Elza Soares 

O musical de teatro Elza - sucesso no Rio, agora em São Paulo e, pelo visto, até ao fim dos tempos no resto do Brasil - é mais uma prova de que Elza Soares, em cuja vida o espetáculo se baseia, é o maior caso de ressurreição na história da música brasileira. Em sua carreira como cantora, que já passa de 60 anos, ela experimentou um período de enorme sucesso, nos anos 1960 e 70, e outro de total obscuridade, nos anos 1980 e 90. Mas, desde então, começou a voltar e nunca mais parou. Na verdade, nunca mais parou de crescer. Hoje, aos 81 anos oficialmente - sua idade real é mais difícil de calcular -, e cantando sentada, Elza Soares está maior do que em qualquer época de sua carreira. E com potencial para crescer ainda mais.

Ruy Castro

Entrando e saindo da zona fantasma

"A gente morre é para provar que viveu." Quem disse isso mesmo? Não, não foi o conselheiro Acácio, embora a frase ficasse bem na sua boca. Foi Guimarães Rosa, em seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras, em 1967. Rosa morreria três dias depois, de infarto, em seu apartamento em Copacabana, o que, para muitos, foi um gesto exagerado para confirmar a sua frase. Achávamos que os seus livros Sagarana, Corpo de Baile e Grande Sertão: Veredas já eram mais do que suficientes para justificar uma vida.

Ruy Castro

À mercê de uma faísca

Nelson Rodrigues deixou, entre muitas, uma frase que pode explicar a tragédia que se abateu sobre o Rio no domingo passado, a destruição por incêndio do Museu Nacional. "Subdesenvolvimento não se improvisa", disse Nelson. "É obra de séculos." Da mesma forma, uma catástrofe como esta não acontece de uma hora para a outra. Vinha sendo meticulosamente preparada desde pelo menos 1960, quando o então presidente Juscelino Kubitschek mudou a capital do Brasil, do Rio para a quase lunar Brasília, ainda em construção, e deu as costas ao património histórico e artístico brasileiro, concentrado no Rio em grande parte.