Luís Castro Mendes

Luís Castro Mendes

A beleza de identificar fascistas

Keats dizia que o poeta é o menos poético dos seres, porque não tem identidade. Talvez essa capacidade de viver pelos outros e, em nome dos outros, usar as palavras constitua hoje, nestes tempos pejados até à náusea do peso das identidades, uma grave falta e um culposo desvio. Se Fernando Pessoa não era nem um camponês, nem um médico monárquico, nem um engenheiro naval, que direito tinha ele de falar por Alberto Caeiro, por Ricardo Reis e por Álvaro de Campos, numa clara e despudorada apropriação cultural? Se Shakespeare não era um mouro de Veneza, nem um príncipe da Dinamarca, que direito tinha ele de vir falar por Otelo e Hamlet?

Luís Castro Mendes

A começar o ano

Uma crónica pode ser muita coisa. É um género de fluida identidade, mais perto da nossa própria voz e das dúvidas que nos assaltam do que de qualquer assertividade persuasiva. Karl Kraus denunciava os riscos destes exercícios, susceptíveis de induzir graves erros e simplificações nos seus leitores e Claudio Magris seguia este austero ensinamento; mas Montaigne legitimara há muito tempo estas indagações, a que chamou ensaios, assumindo de caminho que a maior parte das coisas que pensamos são inanidades.

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Sobre diplomacia cultural

À conceção tradicional da diplomacia como arte e técnica do diálogo e da negociação entre Estados, ao nível dos seus poderes políticos soberanos, veio acrescentar-se nos nossos dias um conceito mais alargado de diplomacia. Entende-se hoje que as relações entre os povos e as nações, através das suas entidades económicas, das suas instituições culturais e educativas e das organizações da sociedade civil, são também sujeito e objeto da diplomacia e como tal devem ser reconhecidas e incentivadas pela tradicional e insubstituível diplomacia estatal.

Luís Castro Mendes

Arrumar a biblioteca

Alguém disse que olhar uma biblioteca pessoal era como ver por dentro o cérebro do seu proprietário. Neste momento, em que me encontro a arrumar de novo os milhares de livros que guardei durante a vida, sou levado a pensar que as nossas bibliotecas contam verdadeiramente a história das nossas vidas, os interesses permanentes e constantes, os interesses passageiros e datados, as viagens feitas e por fazer, as histórias do nosso cérebro na sua memória, na sua imaginação, nas suas ilusões e nas suas paixões.

Luís Castro Mendes

A guerra não é um país estrangeiro

O mundo ocidental instalou-se na guerra, como se voltasse, com alívio, à essencial natureza das coisas. Os meus colegas indianos, quando lá passei, tinham-me alertado: a força dos países não se mede na sua riqueza, mede-se no seu poder militar, nas suas armas. Voltámos, na nossa Europa, a viver no mundo hobbesiano da guerra de todos contra todos, mundo donde os nossos irmãos humanos asiáticos e africanos nunca verdadeiramente chegaram a sair, mundo que responde talvez à nossa mais funda natureza.

Luís Castro Mendes

Em casa, com Camões

De acordo com os meus projetos e planos, deveria estar a escrever esta crónica em Paris, onde a minha editora francesa me convidou a participar hoje, dia 10 de junho, no Marché de la Poésie de Saint Sulpice, fora de quaisquer temporadas cruzadas ou descruzadas, de qualquer dia de Camões ou das comunidades portuguesas, apenas num mercado de editores de poesia... A covid atenta e solícita, que veio entretanto ter comigo, para me oferecer generosamente uma infeção nos brônquios, impediu-me de sair do país em dia tão memorável, deixando-me a tossir em casa e a pensar em Camões.

Luís Castro Mendes

Considerações pessimistas de um otimista

A situação presente inspira um pessimismo, que nenhuma promessa de novidade veio ainda transformar. O clima espiritual antes das guerras foi já descrito por muitos autores e historiadores e em todas elas vimos surgir o mesmo ambiente intelectual e moral que, nas páginas do último Expresso, o comentador Daniel Oliveira descreveu bem como a aproximar-se das águas em que a extrema direita se sente bem: o belicismo e o militarismo, o maniqueísmo, a propaganda, a diabolização do outro e o debate emocional.