Leonídio Paulo Ferreira

Opinião

E elogiar a japonesa Naomi em vez de só se falar da birra de Serena?

Naomi Osaka, filha de um haitiano e de uma japonesa, nova estrela do ténis. É dela que se devia estar a falar e não de Serena Williams. Depois da derrota na final do US Open, e dos insultos ao árbitro português Carlos Ramos, a tenista veterana americana, 36 anos, tem sido falada e refalada, como se em campo tivesse estado sozinha. Até a japonesa de 20 anos, que cresceu a admirar as irmãs Serena e Venus, se sentiu incomodada pela polémica em torno do jogo. "Espero que Serena não esteja zangada comigo", disse mesmo. Mas como salientou o New York Times, não tem nada por que pedir desculpa, "simplesmente fez tudo melhor do que Williams; serviu melhor, moveu-se melhor, devolveu melhor".

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O Brasil e o rei que gostava de franguinhos

Hoje é Dia do Brasil, país que só existe assim, grande e todo ele a falar português, porque D. João VI foi o único que enganou Napoleão (é o próprio corso que o diz) ao trocar Lisboa pelo Rio de Janeiro e ao criar lá Pedro, menino que um dia seria o primeiro imperador brasileiro. Foi esse mesmo D. João VI quem começou o museu nacional que há dias ardeu na Quinta da Boa Vista, no Palácio de São Cristóvão que serviu de casa à família real portuguesa (ali nasceu D. Maria II, a nossa rainha carioca) e depois de 1822 à família imperial brasileira, todos Bragança. Sim, D. João VI foi um rei admirável, talvez mais bem recordado no Brasil, que deixou de ser colónia graças a ele, do que em Portugal, apesar da justiça que lhe começa a ser feita por biógrafos como Jorge Pedreira e Fernando Dores Costa.

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Fui ao Irão espiar a tática de Carlos Koorosh

Carlos Queiroz, ou Koorosh, já era um herói no Irão ainda antes da vitória sobre Marrocos e da derrota mínima frente à Espanha. Estive em reportagem em Teerão em dezembro e só ouvi falar bem do técnico português, que pela segunda vez apurara a seleção iraniana para a fase final de um Mundial de futebol. Uma revista escolheu-o como figura desportiva do ano e chegou a ser recebido pelo presidente da república islâmica a quem ofereceu uma camisola da seleção.

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Um presidente americano herói numa ilha africana

Não está exatamente igual ao Ulysses S. Grant que surge em tantas pinturas a receber a rendição do confederado Robert E. Lee em Appomattox, batalha decisiva da Guerra Civil americana, mas esta estátua em Bolama é mesmo do general nortista que depois foi eleito presidente. E foi já como presidente dos Estados Unidos que Grant liderou a arbitragem internacional que confirmou a ilha de Bolama (mesmo nome da cidade) como parte da Guiné portuguesa, afastando as pretensões britânicas.

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Tanto que o Papa deve às nossas caravelas

Nisto de contas da Igreja, e fé ou não à parte, sempre me pareceu que Portugal recebia pouco pelo muito que deu ao catolicismo, sobretudo à boleia das caravelas. De um lado, pouco mais de uma dezena de santos, meros dois cardeais em simultâneo a maior parte do tempo, um só Papa em 900 anos. Do outro, um primeiro rei a tudo fazer para oferecer território à cristandade, um século XIII brilhante com João XXI, Santo António e frei Lourenço de Portugal (embaixador papal ao Grão-Mongol), depois do século XV uma missionação que resultou no Brasil, o país com mais católicos no mundo, e também em Timor, o país asiático com maior percentagem de católicos, já para não falar nessa Índia onde a maioria dos 30 milhões de cristãos não tem apelido nem deixado pelos britânicos anglicanos nem herdado dos ortodoxos sírios que viviam na costa do Malabar antes de Vasco da Gama lá chegar; chamam-se, isso sim, Fernandes, Noronha, De Souza ou Dias (mesmo que pronunciem Dáias, como um dia ouvi em Bombaim).

Opinião

São 1200 milhões e nossos vizinhos

Costumamos olhar muito para os números para tentar perceber África, seja os 300 mil anos atrás em que por lá apareceram os primeiros homens, seja os 1200 milhões de pessoas que vivem hoje no continente. Mas mais do que nos números - mesmo que positivos como o aumento das democracias e a diminuição dos golpes militares - deveríamos sim prestar atenção à diversidade, pois se há uma África há também muitas Áfricas, mais de 50 países.

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O arsenal de Trump

Se fosse por si só um orçamento militar, o aumento das despesas de defesa dos Estados Unidos previsto por Trump para 2019 seria o terceiro mais alto, só atrás do americano mesmo e do chinês. Estamos a falar de 90 mil milhões de dólares, pois dos 610 mil milhões ontem revelados no relatório anual do SIPRI o presidente planeia passar para 700 mil milhões, com o intuito de desenvolver uma série de novas armas, desde porta-aviões a sistemas de interceção de mísseis. Um verdadeiro maná para a indústria de defesa, sobretudo a dos Estados Unidos, país que conta com seis das dez maiores companhias do setor, numa lista encabeçada pela Lockheed Martin, fabricante dos F-16 e dos Black Hawk. "Tornar a América grande outra vez" foi o slogan de campanha que levou Trump à Casa Branca e com este investimento o presidente não só agrada ao seu secretário da Defesa, o estimado general Mattis, como envia uma mensagem clara a Pequim e a Moscovo: o poderio militar às ordens de Washington é inequivocamente superior, passando a ser três vezes maior ao da China e dez vezes ao da Rússia. Há dias, em entrevista ao DN, George Friedman afirmava que os Estados Unidos são tão poderosos que podem perder guerras. Ora, o geopolitólogo, que hoje fala na 3.ª Conferência de Lisboa, talvez conclua agora que Trump não admite sequer que a América perca alguma guerra, pequena ou grande.

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Esta não é guerra para Trump querer

Missão cumprida, disse ontem Trump poucas horas depois de uma chuva de mísseis americanos e não só ter caído sobre a Síria. É uma frase com antecedentes perigosos quando dita por um presidente americano, basta recordar que Bush filho a pronunciou em maio de 2003, menos de dois meses depois do início da intervenção no Iraque, e porém mais de uma década depois ainda um grupo jihadista como o Daesh era capaz de conquistar Mossul, terceira maior cidade do país, obrigando os Estados Unidos a fazer nova guerra.

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Ainda bem que Michelle não teve medo

Estive no Lorraine Motel em novembro de 2000, era o edifício onde foi assassinado Martin Luther King já um museu dedicado aos direitos cívicos, ou seja, um monumento à luta dos negros para alcançar a plena cidadania nos Estados Unidos. Estava ali em Memphis como repórter do DN, a relatar como a América via o duelo entre Al Gore e George W. Bush, os candidatos presidenciais dos dois grandes partidos. Mas o meu interesse pelo museu era também pessoal, pois tinha marcada para dentro de semanas em Lisboa a defesa de uma tese de mestrado que lidava com a história negra nos Estados Unidos. E se não é possível falar dessa história sem invocar os primeiros escravos chegados a Jamestown em 1619, a criação da Libéria ou o impacte da Guerra Civil, também é incontornável abordar a figura do reverendo batista morto em 1968.