Leonídio Paulo Ferreira

Leonídio Paulo Ferreira

Ainda Biden não se sentou e Xi já lhe está a fazer xeque

Ainda é cedo para perceber o alcance do novo acordo comercial patrocinado pela China e que abrange uma quinzena de países da Ásia-Pacífico, incluindo Japão, Coreia do Sul e Austrália, mas basta envolver 2,2 mil milhões de consumidores, um terço do comércio global e um quarto do PIB mundial para ser tido em conta, incluindo nos Estados Unidos, onde se está a dois meses de Joe Biden assumir a presidência, com o contrariar da ascensão chinesa como principal desafio, uma das poucas linhas de continuidade com o derrotado Donald Trump.

Opinião

Trump vs Kamala em 2024

Num célebre debate televisivo em 1984, em vésperas de ser reeleito, Ronald Reagan, de 73 anos, responde com uma tirada genial a uma pergunta do moderador sobre a idade certa para se ser presidente. Diz o candidato republicano, antigo ator, garantir que não fará da juventude do adversário um tema da campanha. Até Walter Mondale, 17 anos mais novo, não consegue prender o riso. Nas urnas o democrata acaba esmagado pelo mais velho presidente dos Estados Unidos, título disputado por Donald Trump, se consideramos a chegada à Casa Branca, pois tinha 70, mas agora batido sem nuances por Joe Biden, que terá 78 anos no dia da tomada de posse.

Leonídio Paulo Ferreira

O Arizona vingou John McCain, mas chegará para derrotar Trump?

Se se confirmar a vitória de Joe Biden no Arizona (até a Fox a prevê), o primeiro estado a trocar de partido entre 2016 e 2020 nesta noite eleitoral, o grande responsável será alguém que morreu há dois anos: John McCain, senador durante três décadas e candidato republicano derrotado por Barack Obama nas presidenciais de 2008. Donald Trump maltratou em vida McCain, o eleitorado do Arizona não perdoou neste 3 de novembro.

Leonídio Paulo Ferreira

A América é um filme de Hollywood, daqueles mesmo muito bons

Cheguei numa tarde de finais de outubro de 2000 a Hope, Arkansas, num daqueles autocarros metalizados da Greyhound, com o galgo desenhado, que nos habituámos a ver nos filmes passados na América profunda. E sim, estava no Deep South, o sul profundo, e sim, sentia-me numa película de Hollywood. Ali tinha nascido Bill Clinton, que estava então de saída da Casa Branca, ali havia ainda memória da mercearia dos avós, ali se encontrava ainda quem se recordava das bolsas de estudo ganhas pelo menino-prodígio que se fez advogado em Yale, regressou ao Arkansas para ser governador e só voltou a sair do estado natal para ser presidente dos Estados Unidos. O sonho americano existe mesmo e ver como começou naquele caso era o objetivo da reportagem para o DN, na primeira de duas eleições presidenciais que cobri ao serviço do jornal e em que a regra foi evitar Washington.

Leonídio Paulo Ferreira

Quando os portugueses se casavam no Irão

Houve portugueses a casar-se com iranianas no século XVI e a estabelecer-se na antiga Pérsia, contou-me Mohammad Jafar Chamankar, académico que tem investigado as relações entre o Irão e Portugal, velhas de 500 anos, como assinalou nesta semana em Lisboa uma conferência na Torre do Tombo. Esta faceta da miscigenação portuguesa no Médio Oriente é muita vezes relegada para um plano secundário por feitos como a conquista de Ormuz, que fez do golfo Pérsico um mar português durante um século, mas não deixa de dizer muito sobre o peculiar império que, graças ao domínio da tecnologia naval e a uma bravura admirável, o país foi construindo.

Leonídio Paulo Ferreira

Suu Kyi, a minha heroína que já não o é

Li há dias que um barco com refugiados rohingyas tinha chegado à ilha de Sumatra, na Indonésia, depois de sete meses em alto mar. Sete meses! E quase em simultâneo, o The New York Times publicou o testemunho de dois soldados birmaneses sobre os assassínios e as violações que lhes foi ordenado fazer contra esse pequeno povo muçulmano, cerca de um milhão de pessoas, três quartos das quais vivem hoje em campos de refugiados no Bangladesh depois de fugirem das suas cidades, vilas e aldeias no estado de Rakhine, na costa do Índico. Sem surpresa, pois, também há dias o Parlamento Europeu decidiu retirar o Prémio Sakharov para os Direitos Humanos a Aung San Suu Kyi, a líder da Birmânia, que até agora pouco ou nada fez para proteger os rohingyas da violência dos militares e dos extremistas budistas e chegou a ir em 2019 a Haia, ao Tribunal Internacional, responder por acusações de genocídio.

Opinião

Um discurso de fé nos europeus 

Foi uma fortíssima declaração de fé na União Europeia aquilo que Ursula von der Leyen fez nesta manhã, dirigindo-se muito aos jovens. A presidente da Comissão Europeia não só elogiou a cooperação entre os Estados membros no combate à covid-19, desde os corredores verdes quando as fronteiras estavam fechadas até ao repatriamento solidário dos pontos mais remotos do planeta, como declarou que os europeus têm de estar na linha da frente na procura de uma vacina, garantindo que esta será para todos e não apenas para aqueles que a possam pagar. Como realçou, o nacionalismo nas vacinas mata, só a cooperação internacional salvará vidas.

Leonídio Paulo Ferreira

Nem os 7-0 deitaram o Vitória ao chão!

Fiz duas reportagens de futebol internacional na minha carreira: uma com o Sporting em Jerusalém, porque era época de atentados e o diretor de então achou que eu era homem para fazer as duas coberturas, a do jogo da UEFA e a do conflito israelo-árabe; a segunda foi com o Vitória de Setúbal em Roma, ainda hoje penso que o Mário Bettencourt Resendes e o António Ribeiro Ferreira (diretor adjunto) me quiserem dar uma prenda, por eu ser do clube e este há mais de duas décadas estar arredado das competições europeias.

Leonídio Paulo Ferreira

Honestidade, decência e moral no país de Amin Maalouf

Escreveu um dia Amin Maalouf sobre os poderosos do Líbano: "Gostaria de que se preocupassem mais com a honestidade e a decência. Só porque têm uma religião, acreditam estar dispensados de ter uma moral." E cito-o nesta altura em que as múltiplas ondas de choque da explosão gigante em Beirute na terça-feira parecem estar a querer destruir o pequeno Líbano, porque se há um libanês famoso e que merece ser ouvido é mesmo Amin Maalouf, antigo repórter de guerra que trocou Beirute por Paris e se transformou em romancista e ensaísta de enorme sucesso.

Opinião

O Líbano sempre sob a ameaça da guerra de todos contra todos 

A explosão em forma de cogumelo transmitida pelas televisões do mundo inteiro certamente contribuiu para o clima de histeria em torno do sucedido nesta terça-feira em Beirute ainda antes de se saber ao certo o número de vítimas (grande!), mas só quem não conhecer a história do pequeno Líbano pode duvidar de como algo que até pode ter sido acidental é naquele país explosivo (e aqui não estou a fazer nenhum jogo de palavras).

Leonídio Paulo Ferreira

Europa seis meses nas mãos de Merkel, ou seja, bem entregue

Bem me disse o biógrafo da então candidata democrata-cristã a chanceler que Ângela Merkel era capaz de surpreender. E aconteceu logo naquelas eleições alemãs de 2005, que cobri para o DN, pois derrotou o social-democrata Gerhard Schröder e assumiu a liderança do país, posição em que se encontra até hoje, depois de mais três vitórias. Que seja a Alemanha, ou melhor ela, a encabeçar a reação europeia à crise gerada pela pandemia, é pois um sinal de esperança para todos.

Leonídio Paulo Ferreira

A amante escrava de Thomas Jefferson e a América de George Floyd

Há muitas maneiras de contar a história dos negros nos Estados Unidos: por exemplo, lembrar que a primeira baixa da chamada Revolução Americana foi Crispus Attucks, um antigo escravo morto no Massacre de Boston, em 1770. Aproveitados pelos propagandistas da rutura com Jorge III, os disparos do Exército britânico naquele dia sobre civis desarmados (incluindo o herói negro) contribuíram para o clima político que, acumulando-se incidente sobre incidente, levou à Declaração de Independência, em 1776.