Leonídio Paulo Ferreira

Leonídio Paulo Ferreira

A amante escrava de Thomas Jefferson e a América de George Floyd

Há muitas maneiras de contar a história dos negros nos Estados Unidos: por exemplo, lembrar que a primeira baixa da chamada Revolução Americana foi Crispus Attucks, um antigo escravo morto no Massacre de Boston, em 1770. Aproveitados pelos propagandistas da rutura com Jorge III, os disparos do Exército britânico naquele dia sobre civis desarmados (incluindo o herói negro) contribuíram para o clima político que, acumulando-se incidente sobre incidente, levou à Declaração de Independência, em 1776.

Leonídio Paulo Ferreira

Alguém que não goste de Jacinda?

A primeira-ministra neozelandesa, Jacinda Ardern, deve andar entre os líderes mais populares do mundo, mesmo governando uma pequena nação dos antípodas. A sua ideia de uma semana de trabalho de quatro dias para dar oportunidade à população de conhecer o próprio país foi recebida com aplauso geral, e muita gente gostava que não fosse algo só para os kiwis, o petit nom dos cinco milhões de neozelandeses. Com o país fechado para evitar a covid-19 - uma luta tão bem-sucedida que na sexta-feira houve um caso depois de quatro dias sem notícias de novos infetados -, a intenção é salvar a indústria turística nestes tempos de pouca vontade de fazer voos transcontinentais.

Leonídio Paulo Ferreira

O dia que fez o meu pai voltar da guerra

Faço parte dos portugueses que nasceram antes do 25 de Abril, hoje menos de metade da população, mesmo que só tivesse dois anos e meio no momento da Revolução. Não tenho memórias daquele dia, mas sei o quanto foi importante para mim: primeiro que tudo, permitiu que o meu pai voltasse para casa, ele que dois anos antes tinha sido mandado para Moçambique combater; depois, permitiu que o meu país se tornasse melhor, não só livre como moderno, sem império mas mais próspero, com o contributo também de quem perdeu tudo na descolonização tardia e teve de refazer a vida. Temos todos a agradecer à Revolução de 1974, por exemplo, este Serviço Nacional de Saúde que tão dignamente tem-se comportado durante a atual pandemia, garantindo que um doente - incluindo os estrangeiros que escolheram viver entre nós - quando entra no hospital não tenha de se preocupar com o plafond do cartão de crédito, só em ser curado.

Leonídio Paulo Ferreira

O problema dos holandeses connosco

Que países ou povos se transcenderam na história da humanidade, perguntei um dia ao autor de um livro intitulado A Grande História do Mundo. Respondeu-me, os mongóis por causa do império de Gengis Khan, os portugueses por causa dos Descobrimentos e, para certa surpresa minha, os holandeses. Sim, os holandeses, que depois da reação do primeiro-ministro António Costa à conversa "repugnante" de um ministro chamado Wopke Hoekstra sobre descontrolo orçamental dos espanhóis, voltam a ficar mal na fotografia, pelo menos aos olhos dos europeus do sul, sobretudo os ibéricos, que esperam solidariedade nestes tempos de coronavírus.

Opinião

O "Coronário" Trump da Doutrina Monroe

Numa célebre mensagem ao Congresso em dezembro de 1823, James Monroe falou de um sistema americano por oposição a um sistema europeu e como os Estados Unidos se viam como o garante do primeiro. Acrescente-se que o presidente americano destinava as suas palavras sobretudo à hipótese de os países da Santa Aliança tentarem intervir nas Américas para devolver as colónias rebeldes à Coroa Espanhola, e era mais uma advertência do que uma ameaça dada a fraqueza militar relativa dos Estados Unidos na época.

Leonídio Paulo Ferreira

As três órfãs de Merkel

A CDU sente-se já órfã de Merkel, a Alemanha também, e o que é mais impressionante ainda é que a própria Europa agora a 27 parece pouco preparada para uma saída de cena da chanceler alemã, no entanto mais do que anunciada. É certo que Angela Dorothea Merkel, a filha de um pastor luterano criada na RDA e sucessora do carismático Helmut Kohl à frente dos democratas-cristãos no pós-reunificação, é chanceler desde 2005, o que lhe dá uma experiência política sem par entre os líderes da União Europeia, e com igual ou parecido só em figuras como o russo Vladimir Putin ou o japonês Shinzo Abe. Quando Merkel derrotou o chanceler social-democrata Gerhard Schröder, já lá vão quase 15 anos, Xi Jinping ainda não era sequer vice-presidente da China e Donald Trump, esse, embora popular como magnata do imobiliário e organizador de concursos de misses, era inimaginável na Casa Branca. Chegou a pensar-se que a sucessão de Merkel tanto na CDU como à frente da Alemanha estava resolvida com a ascensão de Annegret Kramp-Karrenbauer, ou AKK, a delfim. Seria tudo uma questão de oportunidade, talvez com Merkel a sair de cena a tempo de dar à atual ministra da Defesa espaço para enfrentar uma campanha eleitoral e legitimar nas urnas a sucessão. Mas a demissão de AKK da liderança do partido reabre uma era de incertezas internas, até porque um dos favoritos, Friedrich Merz, se assume como uma espécie de anti-Merkel, pelo menos no sentido de querer levar a CDU mais para a direita, acabando com o centrismo quase social-democrata dos últimos anos. Também a nível da União Europeia, e sobretudo no contexto da saída do Reino Unido, parecia bem encaminhado um reforço do eixo franco-alemão graças a um bom entendimento pessoal entre Emmanuel Macron e Merkel, malgrado ele ser mais ousado do que ela. Um bom entendimento que talvez se prolongasse com AKK se esta chegasse a chanceler nas eleições que deverão acontecer no próximo ano. E digo talvez porque houve ocasiões em que a ministra da Defesa (que sucedeu no cargo a outra delfim de Merkel, a agora presidente da Comissão Europeia Ursula von der Leyen) criticara já o presidente francês e o seu fervor por um centralismo europeu decalcado da tradição gaulesa. Também Merz será tudo menos um adepto de um centralismo europeu, seja no sentido de limitar as competências alemãs na gestão do seu orçamento, seja no sentido de implicar os bancos alemães em algum tipo de sistema de salvaguarda geral do setor. Aliás, não é de esperar que outro líder da CDU, caso Merz perca, por exemplo, para Armin Laschet, presidente do governo estadual da Renânia do Norte-Vestefália, seja um campeão do centralismo que Macron defende. Contudo, Laschet em tempos chegou a admitir a hipótese das eurobonds. Não existem verdadeiras alternativas ao eixo franco-alemão na União Europeia. Bem pode Macron desafiar a Polónia a ter mais protagonismo (agora que a saída do Reino Unido a transformou num dos cinco grandes) ou fazer as pazes com a Itália através de uma cimeira com Giuseppe Conte (um primeiro-ministro renascido depois de Matteo Salvini ter deixado a pasta do Interior), que na realidade será sempre a ação conjunta de Paris e de Berlim a fazer avançar decisões ou a desbloquear impasses. E isto por muito natural que se torne o surgimento de grupos dentro dos 27, como os "países frugais" e os "países amigos da coesão" agora, grupos que serão sempre voláteis, feitos e refeitos consoante o que o interesse nacional recomendar. Ora, mais importante do que resolver este sentimento de orfandade em relação a Merkel, que por enquanto continua em plenas funções, é garantir que o eixo franco-alemão funciona na sua versão benigna, não como dupla que coordena diktats aos restantes mas sim como dupla que inspira o projeto europeísta. E uma forma de o reforçar, dando alento aos seus líderes para se entender mesmo quando as personalidades não são de química mútua fácil, é na política externa avançar para decisões por maioria qualificada, assumidas claramente como tal e não encapotadas, como aconteceu há semanas em relação ao plano americano para o conflito israelo-palestiniano. É que, tal como há vida depois do Brexit, também terá de haver vida depois de Merkel. E desafios como o do aquecimento global, o terrorismo islâmico ou as migrações não vão desaparecer só porque a admirável chanceler se reformou.

Leonídio Paulo Ferreira

O quarto “não” dos palestinianos

Se contarmos o plano de partilha da ONU, a solução oferecida por Bill Clinton e o mapa apresentado por Ehud Olmert, já por três vezes desde 1947 os palestinianos recusaram a hipótese de um Estado. Agora, perante a proposta feita por Donald Trump, acrescentam uma quarta recusa, sem dúvida a mais justificada de todas, pois nem sequer foram consultados antes, com um telefonema de última hora do presidente americano a não ser atendido para não servir de argumento. O problema é que, como sempre, são o lado que mais fica a perder. E sem grandes perspetivas de poder inverter a relação de forças, perante um Israel cada vez mais forte (e apoiado pelos Estados Unidos) e um mundo árabe cada vez menos solidário com Gaza e Cisjordânia (e uns Estados Unidos também menos imparciais).

Leonídio Paulo Ferreira

Roleta espanhola agora com mais balas Vox

Nos últimos cinco anos, os espanhóis já tiveram o Podemos (agora Unidas Podemos) como terceiro maior partido, depois deram em abril esse estatuto ao Ciudadanos, agora é o Vox que emerge como a maior força depois dos tradicionais PSOE e PP. Não haverá maior prova de que o sistema partidário espanhol se tornou uma roleta russa e que, perante eleitores que cada vez mais saltitam de sigla em sigla, os líderes partidários se mostram incapazes de compromissos mínimos para bem do país. Preferiram até agora, tudo indica, fazer cálculos de poder ou ceder a implicações pessoais.

Leonídio Paulo Ferreira

Finalmente o Nobel para quem fez a paz

Abiy Ahmed venceu o Nobel da Paz e, no entanto, o seu rosto era o mais difícil de reconhecer entre os quatro que muitos jornais, incluindo o DN, publicaram nos dias como fazendo parte dos favoritos ao prémio da Academia norueguesa. Tanto Greta Thunberg como Jacinda Arden e Donald Trump têm tido mais destaque mediático do que o primeiro-ministro da Etiópia, e sobretudo a jovem ecologista sueca parecia bem lançada para bater a paquistanesa Malala Yousafzai como a mais jovem galardoada de sempre.