Leonídio Paulo Ferreira

Leonídio Paulo Ferreira

Marcelo e a selfie com o descobridor da Califórnia

Reconheci Donald Valadao entre os luso-americanos que fizeram questão de tirar uma foto com o presidente português, durante um dos encontros de Marcelo Rebelo de Sousa com a comunidade que vive na Califórnia. Para mim, Valadao (sim, sem o til) é o homem que vi em setembro de 2016 vestir uma armadura do século XVI e encarnar a chegada, à Baía de San Diego, de João Rodrigues Cabrilho, navegador português ao serviço da Coroa Espanhola. A barba foi uma das razões para ter recebido aquela honra, e há muito que lhe cabia dar vida durante o Festival Cabrilho ao primeiro europeu a pisar a Costa Oeste dos Estados Unidos, mais de dois séculos antes de estes nascerem como país em 1776, três séculos antes de a Califórnia se tornar o 31.º estado da União. Hoje, a origem portuguesa do navegador já não é consensual entre os historiadores, mas a estátua em Point Loma mantém o escudo com as quinas e continua a olhar para o Pacífico, oceano batizado por Fernão de Magalhães, indiscutivelmente português, tal como português era Estêvão Gomes, que cartografou a Costa Leste dos atuais Estados Unidos.

Leonídio Paulo Ferreira

Competição a três

Ouça-se com atenção os discursos de Vladimir Putin, as palavras de Joe Biden ou as intervenções de Xi Jinping e não ficarão dúvidas de que o mundo entrou numa era de redefinição de influências, com a antiga superpotência derrotada a querer mostrar força, a superpotência vencedora da Guerra Fria a defender com unhas e dentes a supremacia atual e a futura superpotência a afirmar a sua nova relevância, mantendo ainda certas cautelas sob a capa da responsabilidade.

Opinião

Quando a Ásia Central prova a sua centralidade

Foi cruzando a Ásia Central e o Tibete, vindo da Índia, que o jesuíta português Bento de Góis chegou à parte mais ocidental da China e daí enviou correspondência para Pequim, para outro jesuíta, o italiano Matteo Ricci, a confirmar aquilo que ambos já há muito suspeitavam: a China a que os portugueses chegaram por mar no início do século XVI correspondia ao Cataio descrito por Marco Pólo no livro que escreveu no século XIII. Ora, a esta Ásia Central, que alguns limitam ao espaço das cinco repúblicas ex-soviéticas, outros acrescentam o Afeganistão (talvez o mais mediático país da região pelas piores razões, e hoje até se assinala o 21.º aniversário do 11 de Setembro) e o Xinjiang, uma província chinesa de maioria islâmica. Ao todo, pouco mais de 100 milhões de habitantes para um território imenso - basta pensar que o Cazaquistão é o nono maior país do mundo ou que o Xinjiang representa um sétimo do território da China.

Editorial

A Rainha

Entre os milhares de fotografias do arquivo do DN, há uma de 1957 que se destaca pela elegância das personagens, também pelo simbolismo de mostrar a monarca britânica a desembarcar em Lisboa, capital de um Portugal aliado do seu país desde o século XIV. Isabel II tinha então 30 anos e a recebê-la no Cais das Colunas está o Presidente Craveiro Lopes, um marechal, de chapéu bicórneo. O príncipe Filipe, no seu uniforme de oficial da Marinha, também consta, e o Tejo surge pejado de embarcações, incluindo o iate real Britannia. Desde que em 1992 comecei aqui a trabalhar, e a ouvir todo o tipo de histórias sobre um jornal fundado no século XIX, essa fotografia foi tema de conversa constante, e republicada sempre que a ocasião justificava. Mas curioso mesmo é que para a referirmos basta dizer a foto da Rainha em Lisboa. Sim, simplesmente da Rainha, não da rainha de Inglaterra ou da rainha Isabel II.

Leonídio Paulo Ferreira

O discurso do rei e Portugal

Portugal tem todo o interesse em acompanhar de perto a evolução das relações entre os seus dois vizinhos. Sim, dois vizinhos: o óbvio, que é a Espanha, e aquele que por vezes esquecemos dada a ausência de fronteira terrestre, e que é Marrocos. Ora, as relações entre Madrid e Rabat têm registado importantes mudanças nos recentes meses, com o reconhecimento por parte do governo de Madrid da chamada Iniciativa de Autonomia marroquina para a antiga colónia espanhola do Sara Ocidental como a solução mais realista para o território, dado o impasse no recenseamento eleitoral que permitiria o referendo de autodeterminação que ainda é oficialmente o objetivo da ONU.

Leonídio Paulo Ferreira

Lições de Xangai

Considerado já uma das classificações mais prestigiadas do ensino superior a nível internacional, o chamado Ranking de Xangai, agora novamente divulgado, permite tirar pelo menos quatro lições muito interessantes, a começar logo pela que é a liderança incontestada das universidades dos Estados Unidos, e de certo modo das anglo-saxónicas. O pódio é 100% americano, ocupado por Harvard, Stanford e MIT, e no Top-10 estão mais cinco americanas, com as exceções a serem Cambridge e Oxford, há vários séculos as mais valorizadas das universidades britânicas. A primeira universidade não-baseada num país de língua inglesa é a francesa Paris-Saclay, em 16.ª, e nas primeiras 20, a fechar, surge outra não-anglo-saxónica, a suíça ETH de Zurique.

Leonídio Paulo Ferreira

Os Filhos da Meia-Noite

O sânscrito é para os indianos aquilo que o latim é para os europeus: uma língua que está na origem da sua civilização, uma língua que, mesmo classificada como morta, está na base do idioma do dia a dia (seja o bengali, o hindi ou outros) e é usada por várias religiões. Ora, Amartya Sen, que muitos conhecerão por causa do Nobel da Economia que recebeu em 1998 e pelos livros em que denuncia as desigualdades sociais no mundo, foi uma criança tão excecional que aos seis anos já aprendia essa língua, usada há três mil anos para escrever os Vedas, textos-base do hinduísmo, a religião cujo nome se confunde com o do país.

Leonídio Paulo Ferreira

Oriente, Oriente

África, Brasil e Oriente. Sem dúvida que da era das Descobertas herdámos uma relação muito especial com estas partes do mundo, e certamente haverá portugueses que se identificam mais com uma do que com as outras. Pessoalmente, devo confessar que quando se trata da história de Portugal o meu fascínio é sobretudo pelos nossos contactos com o Oriente, no sentido não de Próximo ou de Médio, mas sim quase de Extremo, indo até ao Japão e começando na Índia ou até, se pensarmos bem, no golfo Pérsico, como ainda hoje testemunham as fortalezas no Irão, em Omã ou no Bahrein.

Leonídio Paulo Ferreira

Biden em alerta

Se seguissem a metodologia europeia, os Estados Unidos estariam agora em recessão técnica, depois de dois trimestres consecutivos com crescimento negativo. Não estão, porém, por seguirem regras estatísticas diferentes, mas fica evidente que a ideia mil vezes repetida de que a economia americana será a única ganhadora da tensão mundial em torno da guerra na Ucrânia não é assim tão certa, mesmo que alguns setores do outro lado do Atlântico beneficiem do impacto das sanções à Rússia, sobretudo o do gás.

Leonídio Paulo Ferreira

Leituras luso-brasileiras

Inicio este editorial com uma citação de uma crónica que publicou também aqui no DN, há poucas semanas, o diplomata e escritor Luís Castro Mendes: "É admirável que a mais bela e a mais rica das instituições culturais portuguesas no Brasil tenha sido obra das nossas comunidades migrantes, que desde 1837, quinze anos apenas depois da independência, decidiram promover na então capital do Brasil um "gabinete de leitura", centro de empréstimo de livros e ao mesmo tempo lugar de encontro e de debates, a fim de promover a cultura portuguesa neste novo país independente que connosco partilhava e recriava a língua comum".

Leonídio Paulo Ferreira

Relação Portugal-Índia cheia de boas ondas

Voltou a passar por Lisboa, com três dias ancorado no Tejo, o navio-escola indiano Tarangini. O veleiro de três mastros, cujo nome em hindi pode ser traduzido para português como "cheio de ondas", tornou-se famoso em 2003-2004 ao ser o primeiro navio indiano a fazer a circumnavegação do planeta. Ora, não deixa de ser curioso este representante da Índia ter sido construído num estaleiro em Goa, que foi capital do império marítimo português na Ásia e só em 1961 passou a estar sob soberania indiana, na sequência de um breve conflito militar.

Leonídio Paulo Ferreira

A Coreia do Sul à conquista (da simpatia) do mundo

Finlândia, mas também África do Sul e Arábia Saudita, entre as novidades. A Coreia do Sul acaba de anunciar a abertura de novas delegações do Instituto Rei Sejong em 19 países, em sete deles de forma pioneira, o que significa que a fundação cultural que homenageia o grande monarca do século XV está agora em 84 países. Quanto a delegações, no total passam a ser 244, pois em alguns Estados são várias as cidades com aulas de língua e cultura coreanas.