Leonídio Paulo Ferreira

Leonídio Paulo Ferreira

As Nações Unidas foram uma grande invenção

Marcelo Rebelo de Sousa tem dado a entender nestes seus dias nos Estados Unidos que defenderá "uma visão global" no discurso perante a Assembleia Geral das Nações Unidas, reunida em Nova Iorque para a sua 76.ª sessão desde a fundação no final da Segunda Guerra Mundial. É a abordagem que se pode esperar do líder do país que fornece de momento o secretário-geral da organização, António Guterres, mas reflete também aquilo que é o posicionamento de Portugal em termos diplomáticos, um Estado defensor do diálogo entre nações e do multilateralismo nas relações internacionais.

Leonídio Paulo Ferreira

"É preciso não esmorecer"

Dois dias antes de fazer 80 anos, Jorge Sampaio fez uma palestra em Óbidos, no curso de verão ali habitualmente organizado pelo IPRI-Nova, com coordenação de Nuno Severiano Teixeira. Falou das ameaças à democracia liberal e enfatizou que "é preciso não esmorecer", frase que me tocou. O antigo presidente aceitou depois tirar uma foto de grupo, onde estão Severiano Teixeira e Carlos Gaspar (também do IPRI e que foi seu conselheiro em Belém), o autarca Humberto Marques, Ricardo Alexandre, da TSF, e restantes participantes, uma dúzia.

Leonídio Paulo Ferreira

O vizinho do sul

O seu papel duplamente político e religioso faz do rei de Marrocos una figura incontornável do país magrebino, o nosso outro vizinho além de Espanha se ignorarmos um pouco de Atlântico que há pelo meio. E apesar das tradicionais eleições, e da muita competição ideológica que costuma existir entre partidos que vão do comunista ao islamita, é unânime que o governo de Rabat agirá sempre em consonância com o monarca, jamais em oposição a este. Aliás, para garantir que nunca um partido emergirá das urnas com um mandato popular que lhe dê ideias demasiado ambiciosas de ação, o sistema eleitoral tende a fragmentar o parlamento de Rabat e a obrigar a frágeis governos de coligação, como o cessante, cujo primeiro-ministro, Saad Dine El Otmani, milita no Partido da Justiça e do Desenvolvimento (PJD), islamita.

Leonídio Paulo Ferreira

A verdadeira resistência aos talibãs

Nem o outrora poderoso exército governamental, nem a recém-ressuscitada resistência no vale do Panshir, muito menos aqueles que sobram dos senhores da guerra afegãos, de base étnica, como o usbeque Abdul Rashid Dostum. Depois da retirada dos Estados Unidos e seus aliados, negociada mas mal preparada, a verdadeira resistência ao regresso pleno dos talibãs ao poder no Afeganistão vem daqueles que lhes são próximos em termos de visão obscurantista do islão, mas adeptos de uma jihad contra o Ocidente, como se viu há dias no atentado no aeroporto de Cabul que matou quase duas centenas de pessoas, entre as quais 13 militares americanos.

Leonídio Paulo Ferreira

O nosso leitor algarvio, os talibãs e o pão para 200 refugiados afegãos

Durante anos guardei o pedaço de papel pardo em que um padeiro de Islamabad se comprometia a fornecer pão todos os dias durante um mês a um grupo de refugiados afegãos. Disse ao padeiro que o papel ficaria à guarda oficial da nossa embaixada no Paquistão, para o forçar a cumprir o acordo feito comigo e mais três jornalistas portugueses, mas o próprio líder dos afegãos desapareceu por uns momentos do sítio onde fazíamos o negócio para reaparecer minutos depois com uma fotocópia.

Leonídio Paulo Ferreira

Os países medidos pelo medalheiro 

Os Estados Unidos bateram a China, o Japão conseguiu um honroso terceiro lugar como nação organizadora (como em Tóquio 1964), a Grã-Bretanha fez melhor do que qualquer outro país europeu, os Países Baixos foram um excecional sétimo classificado tendo em conta a população, o Brasil conseguiu ficar à frente de Cuba na disputa entre latino-americanos, a Nova Zelândia merece ser um estudo de caso por obter 20 medalhas (e um 13.º lugar) apesar de só ter cinco milhões de habitantes.

Leonídio Paulo Ferreira

Solidariedade com turcos e gregos 

Hotéis de cinco estrelas evacuados em Bodrum, uma lindíssima cidade turca no Egeu que todos os anos atrai milhares de turistas, e florestas a arder em redor da antiga Olímpia, cujas ruínas na Grécia de hoje relembram a origem dos Jogos Olímpicos. Têm sido dramáticos os últimos dias tanto na Turquia como na Grécia, com uma vaga de calor a transformar vastas áreas destes dois países do Mediterrâneo Oriental em palco de vários incêndios incontroláveis. Há notícias de mortos tanto na Turquia como na Grécia e a situação é tão difícil que tanto Ancara como Atenas tiveram de pedir auxílio internacional. Neste momento, aviões russos, ucranianos, azeris e croatas lançam água sobre os fogos turcos, aviões cipriotas e suecos fazem o mesmo sobre as chamas que devastam a Grécia, e vêm franceses e britânicos a caminho.

Leonídio Paulo Ferreira

A não diplomacia do pingue-pongue 

A China lidera o medalheiro olímpico em Tóquio graças a ter mais ouros até agora do que os Estados Unidos, o que significa que poderá repetir o sucesso de 2008, quando os Jogos foram em Pequim. Para já, em termos de medalhas totais, a vantagem continua a ser americana, regra que se repete desde 1996, quando Atlanta acolheu a competição. Aliás, a última vez que os Estados Unidos não dominaram a contabilidade final das medalhas foi em Barcelona 1992, perante a seleção da Comunidade de Estados Independentes, efémera equipa conjunta de 12 das 15 antigas repúblicas da União Soviética. O grande rival dos Estados Unidos durante a Guerra Fria, incluindo no campo desportivo, desintegrara-se no final de 1991, mas ainda foi possível um esforço de unidade naqueles Jogos, tirando as três repúblicas bálticas (Estónia, Letónia e Lituânia), que competiram logo separadas.

Leonídio Paulo Ferreira

O falhado golpe de judo contra Israel

Tal como na Antiga Grécia, os modernos Jogos Olímpicos supõem uma mensagem de paz. Infelizmente, desde a sua recriação em 1896, não faltam os exemplos de fracasso nesse nobre desejo: não só os beligerantes das duas guerras mundiais não hesitaram um segundo em prosseguir as hostilidades mesmo com a aproximação dos verões de 1916, 1940 e 1944, como os Jogos foram ao longo do século XX alvo de vários boicotes, os mais célebres sendo os de Moscovo 1980 e os de Los Angeles 1984.

Leonídio Paulo Ferreira

G7 ou Gquantos contra a China?

Quando surgiu, há meio século, o G7 era assumidamente um grupo de países capitalistas, os mais ricos de entre estes: na hierarquia das economias, EUA eram o número um, Japão o número três e Alemanha Ocidental o número quatro. Depois vinham França, Reino Unido, Itália e Canadá. O segundo maior PIB naquela época pertencia à URSS, mas em tempos de Guerra Fria o G7 dava clara precedência à ideologia sobre os números. Aliás, a prova final do critério político por trás do G7 foi o seu alargamento a G8 em 1997, com a admissão da Rússia pós-comunista, entendida como parceiro mesmo já sem estar entre as maiores economias.

Leonídio Paulo Ferreira

Contra os profetas da nossa decadência

Estamos numa época em que falar de patriotismo arrisca a ser politicamente incorreto. Só nos campos de futebol (e o Europeu está agora a começar) parece ser hoje admissível o orgulho num país, o apego a uma bandeira, a emoção ao ouvir um hino. E, no entanto, os portugueses têm todo o direito de gostarem do seu país, da sua história, cheia de imperfeições como a história de qualquer país, mais até, diria, porque é uma história que transcende de tal forma a dimensão do território e do povo que é ímpar.