Leonídio Paulo Ferreira

Leonídio Paulo Ferreira

O pós-Netanyahu

Foi só por um voto que a nova coligação governamental em Israel passou no Parlamento e foi só por um voto que se confirmou o fim dos 12 anos de Benjamin Netanyahu como primeiro-ministro, uma eternidade para os padrões do Estado judaico: nomes míticos como Golda Meir, Yithzak Rabin ou Ariel Sharon não ocuparam o cargo mais de cinco/seis anos, seguidos ou intercalados. A longevidade de Netanyahu ainda é mais impressionante se tivermos em conta que entre 1996 e 1999 tinha já chefiado o governo. Os seus anos no poder, somados, batem até os de David Ben Gurion, o fundador, em 1948, do moderno Israel.

Leonídio Paulo Ferreira

Livreiro de Bissau à espera de Marcelo

Se tivesse de recomendar um lugar de Bissau para Marcelo Rebelo de Sousa visitar nos próximos dias seria a livraria que Miguel Nunes tem junto ao Hotel Coimbra, também propriedade da família, que há mais de 90 anos escolheu a Guiné para viver, apesar de as raízes estarem em Cadafaz, uma aldeia do concelho de Góis. São milhares e milhares de livros, na sua esmagadora maioria em português, que na verdade se espalham pelas próprias salas do hotel, desrespeitando eventuais fronteiras que Miguel alguma vez tivesse pensado por ali criar.

Leonídio Paulo Ferreira

O tudo ou nada do Hamas

Numa das minhas reportagens em Israel e nos territórios palestinianos, em 2003, cheguei a Telavive dias depois de um duplo atentado junto à estação de autocarros. No local das explosões, um memorial com velas e algumas fotografias lembrava os 23 mortos. Fui depois até Belém, na Cisjordânia, cidade cujo acesso estava bloqueado exceto a jornalistas e poucos outros e por isso vazia dos turistas que alimentam a economia local, e a Praça da Manjedoura, com a Igreja da Natividade, era um deserto, com restaurantes e lojas de artesanato de portas fechadas. Ao contrário de outros momentos, não se viviam combates na cidade onde Jesus nasceu, mas o presidente da câmara, um cristão, contou-me do desemprego, da falta de perspetivas dos jovens, da frustração dos palestinianos que acreditaram que os Acordos de Oslo assinados pela OLP e Israel uma década antes trariam a paz. No regresso, junto a um check-point a caminho de Jerusalém, vieram vender-me um keffiah. Não me senti confortável com a atenção dos soldados israelitas de metralhadora, os mesmos que minutos depois olharam para o passaporte e me deixaram passar.

Leonídio Paulo Ferreira

Napoleão e o português que um dia o enganou

Napoleão ganhou 77 das 86 batalhas que travou, assinala o Le Monde. Um índice de sucesso de 90% com poucos paralelos na história, ainda por cima porque o imperador nascido na Córsega conseguiu num dado momento multiplicar por três o território de França. Génio militar, tanto por méritos do estudo como por ter percorrido todos os degraus da carreira das armas, morreu, porém, no exílio na remota ilha de Santa Helena, a 5 de maio de 1821, faz nesta quarta-feira 200 anos.

Opinião

O médico sem medo

Talvez o nome de Miller Guerra não seja hoje tão conhecido como os de Sá Carneiro e de Pinto Balsemão, dois membros da "ala liberal" que em democracia chegaram a primeiro-ministro. Mas todo o seu percurso, relembrado este domingo de aniversário do 25 de Abril pela biógrafa Ana Paula Pires numa entrevista ao DN, revela um homem de princípios e de coragem, qualidades que eram a regra no pequeno grupo de personalidades que já na fase marcelista do Estado Novo acreditaram ser possível mudar o regime a partir de dentro, mas que se sentiram enganadas. A maioria bateu com a porta.

Leonídio Paulo Ferreira

Só o clima para aproximar Xi e Biden

China e Estados Unidos, os dois maiores emissores de carbono, comprometeram-se há dias a cooperar na luta contra o aquecimento global, um raro campo de entendimento entre a superpotência em ascensão e a superpotência que no último século, mas sobretudo depois do fim da Guerra Fria, tem exercido a supremacia no planeta. Tendo em conta que os dois países estão às avessas em quase todas as matérias, da guerra das tarifas à liberdade de navegação no mar da China do Sul, é uma boa notícia, já que nesta quinta-feira começa a cimeira virtual sobre o clima convocada por Joe Biden e na qual deverão participar quatro dezenas de líderes mundiais, incluindo Xi Jinping.

Leonídio Paulo Ferreira

Homenagem a Gagarine

Com a chegada da cápsula Soyuz MS-18 à Estação Espacial Internacional, conhecida também pelo acrónimo inglês ISS, são neste momento dez os cosmonautas e astronautas lá em cima a olhar para a o planeta azul. Mas se as diferentes designações dos viajantes no espaço ainda trazem as marcas da corrida espacial que coincidiu com o pico da Guerra Fria, a presença simultânea na ISS de russos e americanos (e ainda de um japonês) simboliza a cooperação científica internacional que é agora a regra. E esta cooperação entre as nações na investigação espacial é a melhor homenagem que se pode prestar a Yuri Gagarine, o cosmonauta que, faz nesta segunda-feira 60 anos, efetuou o primeiro voo ao espaço. Herói da Rússia, Gagarine é também um herói da humanidade, tal como se pode dizer do americano Neil Armstrong, que em 1969 se tornou o primeiro homem a pisar a Lua.

Leonídio Paulo Ferreira

Jihad em Moçambique e os limites do intervencionismo português

Dizia o bispo de Pemba, há um ano, que "o povo tem andado de lá para cá e de cá para lá, correndo atrás da própria vida". Entretanto regressado ao Brasil, D. Luiz Lisboa foi a voz que primeiro alertou para a violência que desde 2017 assola a província de Cabo Delgado, no norte de Moçambique. O número de mortos varia, muitos falam de quase dois mil, mas todos os relatos coincidem no terror, com gente decapitada pelos grupos jihadistas, que como é regra nas milícias deste género misturam extremismo islâmico com crime e estão infiltradas por estrangeiros.

Leonídio Paulo Ferreira

O nuclear britânico

O anúncio do reforço do arsenal nuclear britânico é um sinal das ambições do Reino Unido, com Boris Johnson a querer afirmar o poderio tecnológico do país depois da saída da UE e ao mesmo tempo mostrar que não pretende apoiar-se em demasia no aliado especial que dá pelo nome de EUA. Mais do que o efeito prático de passar de um objetivo de redução para 180 ogivas (definido em 2010) para um objetivo de incremento para 260 a partir das 195 atuais, a decisão do primeiro-ministro mostra uma determinação de o Reino Unido depender sobretudo de si, que tem raízes na experiência histórica do país e não tão longínqua assim.