José Mendes

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Lilibet e o mundo do avesso

Os mais próximos tratavam-na por Lilibet. A jovem de cabelos encaracolados, de nome Elizabeth Alexandra Mary Windsor, que havia celebrado aos 19 anos o fim da Segunda Grande Guerra, era a mesma que estava ali naquele dia de Junho de 1953, para ser coroada como a nova rainha do império britânico. Isabel II, entre nós. A pioneira transmissão televisiva da cerimónia de coroação, a partir da Abadia de Westminster, era o prelúdio de um novo mundo. O fim da guerra, o início do novo concerto das nações, o baby boom, o plano Marshall, o crescimento económico, a aviação que encurtou o mundo, enfim, tudo parecia entrar nos carris. Até a guerra fria se impôs como uma garantia da paz.

José Mendes

O Estado visto da janela da CCP

Passada a pandemia, reemergem em todo o seu esplendor a mediocridade e a mendicidade de uma certa geração de representantes dos empresários. Para ser franco, não me espanta. Foram segurados pelo Estado durante toda a crise sanitária, tiveram salários pagos, contribuições reduzidas, moratórias nas suas dívidas e por aí fora, mas agora voltam ao velho e gasto discurso de ódio ao Estado, ambicionando sempre a socialização dos prejuízos, por oposição à privatização dos lucros.

Opinião

Volte sempre, professor

Senhor professor Cavaco Silva, quero começar por saudar a carta aberta que escreveu ao primeiro ministro António Costa, que o Observador teve a gentileza de publicar esta semana. Aos que se queixam das insuficiências da nossa democracia, contraponho exemplos como o seu, pois é sempre saudável que um antigo presidente felicite publicamente o líder político que, em eleições legislativas, mereceu a confiança da maioria absoluta dos eleitores. Essa assertividade republicana, veio acompanhada de um inequívoco sinal de vitalidade, pois não adiou a tarefa, apresentando democraticamente os parabéns num tempo recorde de cento e vinte dias.

José Mendes

A falácia das cinco regiões - Parte I

Conhecido o programa do governo, está confirmado que o primeiro-ministro António Costa quer cumprir a promessa de referendar a regionalização em 2024. É uma boa notícia. Portugal precisa urgentemente de redesenhar o seu projeto de futuro e isso passa por um mapa de oportunidades e competências que crie concorrência interna e projeção externa. Se assim não for, os sucessos socioeconómicos que ainda vão acontecendo jamais serão suficientes para fazer mexer de forma considerável o ponteiro do desenvolvimento e da coesão. O risco de cairmos na cauda da Europa agrava-se a cada ano, não porque o país ou a governação sejam incapazes, mas porque o atual modelo de governação multinível e a sua expressão territorial jamais permitirão maximizar o potencial existente.

José Mendes

BE e PCP em vias de extinção

Esta crónica é sobre a esquerda à esquerda do PS. Mas começo por falar da direita à direita do PSD. O que aconteceu a 30 de janeiro mostrou como duas suspeitas se tornaram factos. A primeira é a de que os partidos podem ser extintos, à força das cruzes nos boletins de voto. Aconteceu com o CDS. A segunda é a de que os vazios criados no espetro partidário são necessariamente preenchidos, e nem sempre para melhor. Aconteceu com o Chega e a IL. Voltando à esquerda, a noite eleitoral do último domingo acelerou a espiral de extinção do PCP e do BE. Também do PAN, mas essas são contas de outro rosário. Perante esta tendência, a pergunta que me ocorre é se será este um caminho definitivo e quem ocupará o vazio criado.

José Mendes

A escassez de capital humano

Se os eleitores entregarem hoje aos políticos um mandato claro para os próximos quatro anos, materializado por uma solução de governo estável e responsável, estou certo de que 2022 será um grande ano para Portugal. Do balanço das qualidades e defeitos que nos caracterizam como país e como povo, emerge reiteradamente uma grande capacidade de reação à adversidade, de superação perante nuvens mais escuras. Os últimos anos testemunharam essa imensa e genuína força nacional, deixando a descoberto a diferença entre o país real, que vê o copo meio cheio e vai à luta, e o país comunicado, que frequentemente prefere o copo meio vazio e se entrega ao mister do passa-culpas.

Opinião

Maioria absoluta?

O problema que se coloca ao país nas eleições de 30 de janeiro é o de estabelecer um quadro de governação estável para enfrentar os desafios dos próximos anos. Fechar o ciclo negativo da pandemia, executar com aproveitamento o PRR, arrancar com o Portugal 2030 e acelerar nas transições gémeas - climática e digital -, modernizando a economia e atenuando as desigualdades, são empreitadas que não se compatibilizam com cenários de instabilidade política. Por isso, compreende-se que os partidos que aspiram a vencer as eleições ambicionem maiorias absolutas. As sondagens, porém, indiciam a grande dificuldade de PS ou PSD chegarem ao número mágico de 116 deputados. É pena, pelas razões que passo a explicar.