José Luís Peixoto

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Antuérpia: uma crónica de José Luís Peixoto

Caminho pelas ruas com a minha nova máquina fotográfica. São ruas de casas altas, telhados bicudos e flamengos. Passo por gente a falar outra língua. Não entendem as minhas palavras e por isso quase acredito que não entenderiam os meus pensamentos. Agrada-me imaginar que consigo ver mas que ninguém me vê a mim, pertenço a um mundo fora do mundo. Olho em volta: a rua, as sombras. Lá ao fundo, uma estátua parada; lá mais ao fundo, aproxima-se a noite e a chuva. Escolho detalhes e aponto-lhes a máquina: um cão sozinho no passeio. E, logo a seguir, no quadrado […]

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O que falta, o que temos: uma crónica de José Luís Peixoto

Quanto falta para chegarmos? Falta pouco, respondo aos meus filhos. E fazemos um jogo em que, à vez, pensamos em qualquer coisa e, fazendo perguntas de sim ou não, os outros tentam adivinhar. Ou contamos anedotas. Começamos por não recordar nenhuma mas, logo a seguir, vamo-nos lembrando. Estava um português, um francês, um inglês, um papagaio e o menino Zezinho. Cada anedota faz que nos lembremos de mais uma ou duas e, pouco depois, chegamos a um ponto em que temos de marcar vez para falar. As paisagens sucedem-se nas janelas. Avançamos no sentido contrário das árvores que passam por […]

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Uqbar: uma crónica de José Luís Peixoto

Num dos seus contos mais famosos, o escritor argentino Jorge Luis Borges escreveu sobre Uqbar, um país que o protagonista/narrador descobre no verbete de uma enciclopédia e que, depois, continua a investigar em diversas leituras. No texto, são revelados bastantes dados acerca desse país, tanto no que respeita à organização social ou à filosofia vigente como também em relação às artes, idioma e outros aspetos estruturais da sua cultura. Entre múltiplas referências bibliográficas, conclui-se que Uqbar não existe realmente. Um dos aspetos interessantes é o contraste entre o pormenor dessa descrição, a coerência do pensamento apresentado e o seu caráter […]

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Os primeiros e os últimos: uma crónica de José Luís Peixoto

Colados uns aos outros, avançam pelo corredor do avião o mais depressa que conseguem. Têm uma angústia gravada no rosto, parente do pânico, olham apenas na direção da porta. Aqueles que estavam nos bancos à janela, que não conseguiram sair antes, não podem sair agora, ninguém os deixa chegar ao corredor. Antes, assim que o número do portão foi anunciado nos ecrãs do aeroporto, fizeram fila para entrar no avião. Numa pressa que não perdoava minutos de atraso, impacientaram-se, ferveram baixinho. Assim que se sentaram, desejaram que o avião levantasse voo. Assim que o avião aterrou, as rodas a tocarem […]

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Esta viagem: uma crónica de José Luís Peixoto

Nenhuma viagem existe apenas no espaço, todas as viagens precisam de tempo. E temos tanto tempo. Resistimos a essa verdade, convencemo-nos ou deixamos que nos convençam. Mas não é preciso chegarem os meses grandes, de dias largos, para sabermos que temos tempo, basta pararmos por um instante breve, pouco tempo, e olharmos em volta. Estamos rodeados de tempo. De nada adianta levantarmos os braços, como se estivéssemos num filme ou num pesadelo, com água pelo peito, que continua a subir, a encher. Não, de nada adianta, porque nós estamos submersos pelo tempo, é tanto e está em todas as direções. […]

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Uqbar: uma crónica de José Luís Peixoto

Num dos seus contos mais famosos, o escritor argentino Jorge Luis Borges escreveu sobre Uqbar, um país que o protagonista/narrador descobre no verbete de uma enciclopédia e que, depois, continua a investigar em diversas leituras. No texto, são revelados bastantes dados acerca desse país, tanto no que respeita à organização social ou à filosofia vigente como também em relação às artes, idioma e outros aspetos estruturais da sua cultura. Entre múltiplas referências bibliográficas, conclui-se que Uqbar não existe realmente. Um dos aspetos interessantes é o contraste entre o pormenor dessa descrição, a coerência do pensamento apresentado e o seu caráter […]

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Pequim-Xangai: uma crónica de José Luís Peixoto

Talvez a própria China seja como um destes comboios bicudos de alta velocidade. A primeira vez que estive na Estação Sul de Pequim foi há menos de dez anos e, no entanto, ao regressar agora, tudo mudou. Já não existem aqueles homens e mulheres do campo, com pele queimada pelo sol ou, pelo menos, já não carregam aqueles sacos de serapilheira às costas. Continua a haver uma imensa multidão sem tréguas, milhares de pessoas, famílias de muitas gerações, gente no meio do caos a comer qualquer coisa. Depois de passar pelo controlo de metais, procuro a linha de onde sairá […]

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Sandaga: uma crónica de José Luís Peixoto

Eis o grande mercado. É como se a cidade crescesse a partir dele, como se existisse apenas para justifica-lo. As ruas de Dakar são os longos braços do mercado Sandaga. Aqui começam todos os cheiros, todos os estímulos dos sentidos. Este movimento é constante e permanente, é imparável, é uma fonte. Passam crianças a empurrar um carro de madeira carregado de bidões de água, as crianças rodeiam o carro com as suas vozes e os seus corpos. Quem irá beber desta água? A tarde começa, o sol queima as cores e, mesmo assim, levo os olhos cheios, estas cores começam […]

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Um espelho no mundo: uma crónica de José Luís Peixoto

No Brasil, chama-se pau de selfie; em inglês, chama-se selfie stick; em Portugal, como acontece tantas vezes nos últimos tempos, usamos a palavra inglesa porque o termo português só serve para atas ou artigos no Diário da República: bastão destinado a autorretratos com telefones móveis. À velocidade vertiginosa dessas «novidades», o dito objeto despertou enormes paixões e, logo a seguir, enormes antipatias. Simbolizou a superficialidade do turismo, simbolizou os objetos baratos que se fabricam na China, simbolizou o egocentrismo, simbolizou as pequenas mentiras das redes sociais. Mas chega o tempo, chega sempre, e vão sendo cada vez menos os sentimentos […]

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Lugar à janela: uma crónica de José Luís Peixoto

É uma viagem sem turbulência. Olho pela janela e, lá em baixo, vejo a Mongólia, planícies imensas de uma única cor. Este voo entre Chengdu e Amesterdão saiu à hora marcada, sem atraso, no início da manhã. Ao andarmos para trás na diferença horária, contra o tempo, resistindo-lhe com os motores gigantes deste avião gigante, faremos toda a viagem durante o dia. Somos centenas de pessoas, uma maioria de chineses a falar alto.