José Luís Peixoto

José Luís Peixoto

«Viajar é um sinónimo direto de viver»: uma crónica de José Luís Peixoto

Perder e ganhar ao mesmo tempo Com boas intenções, avisam-nos que temos de ir o mais depressa possível. Tens de ir a Cuba antes que morra o Fidel, dizem-nos. Dizem-nos também: tens de ir ao Myanmar rapidamente, antes que abra; daqui a poucos anos, será apenas mais um país no Sudeste Asiático. Não faltariam outros exemplos. São muitos os países e cidades onde se tem de ir o mais depressa possível. Estão em evolução acelerada e, do ponto de vista do visitante, garantem-nos que essa mudança será seguramente para pior. Mas não é verdade que todos os lugares do mundo […]

José Luís Peixoto

Zhuhai: uma crónica de José Luís Peixoto

88888888. Na China, quando não se sabe a password do wi-fi, vale sempre a pena tentar o número 8 repetido 8 vezes. Funciona com impressionante frequência. A superstição chinesa à volta do 8 está presente em todo o território e, depois de almoçar num restaurante de Zhuhai, consegui entrar assim na internet. Essa sorte, no entanto, não foi suficiente para abrir a maioria das páginas ocidentais a que costumo aceder. Duas horas antes, no outro lado da fronteira, em Macau, estava habituado a navegar sem restrições. Esqueci que estava na China. Zhuhai não deixa esquecer a China. Basta atravessar uma […]

José Luís Peixoto

Rivera: uma crónica de José Luís Peixoto

Na entrada da cidade, as bermas da estrada estão cheias de grupos de pessoas sentadas em cadeiras de campismo. Tomam mate, seguram termos debaixo do braço ou entornam alguma dessa água quente sobre o chimarrão, falam uns com os outros e veem os carros que passam. O meu olhar, dentro do carro, cruza-se com o olhar deles em diversos momentos. É domingo, fim de tarde, primavera, a luz vem de longe, quase rente à terra. Em Montevideo, quando as pessoas falam de Rivera, contorcem o rosto para exprimir a distância. Depois, se juntam palavras, falam de quilómetros sem fim e […]

José Luís Peixoto

Zagreb: uma crónica de José Luís Peixoto

Por baixo de Zagreb está uma cidade que só eu consigo ver. Os edifícios, a paisagem, as pessoas e os objetos estão no mesmo lugar, quase sobrepostos, mas apresentam ligeiras diferenças nos contornos, no tom de algumas cores. Às vezes, é difícil explicar com exatidão os contrastes entre Zagreb e a cidade que só eu consigo ver. Não é uma cidade exata, mas existe, apresenta um certo nível de tangibilidade que, para mim, tem muita importância. Por baixo de Zagreb está a cidade que conheci quando vim aqui pela primeira vez, há quase vinte anos, e que fui ampliando em […]

Volta ao Mundo

Caminhos de Banguecoque: uma crónica de José Luís Peixoto

O tronco do passageiro deve seguir o tronco do motorista. Quando este se inclina para um lado, o tronco do passageiro deve inclinar-se para o mesmo lado, formar o mesmo ângulo. Esse é o modo de se equilibrarem. No trânsito de Banguecoque, ao avançarem por um labirinto, ao contornarem carros, autocarros e tuk-tuks, os condutores de moto-táxis e os seus passageiros fazem uma espécie de bailado sincronizado. Essa agilidade irá levá-los à primeira linha do semáforo, entre dezenas de outras motas. À sua frente, correrá um rio de trânsito, a avenida perpendicular. Quando esse fluxo se extinguir abruptamente, cortado por […]

Volta ao Mundo

Jacarta: uma crónica de José Luís Peixoto

Caminhei durante cerca de meia hora a partir do monumento Selamat Datang, algumas centenas de metros por passeios de cimento, ao lado de uma enorme estrada, Jalan Thamrin, fluxo permanente de trânsito, carros, camionetas, bandos de motas a preencher os intervalos. O trânsito era um rio que, em vez de água, levava toda aquela chapa, fumo de canos de escape, homens com capacete, mulheres sentadas de lado no banco das motas. Selamat Datang significa bem-vindo em bahasa; pelo menos, assim me tinham dito, com um sorriso transbordante, esse mesmo sorriso a fazer-me sentir bem-vindo. O sol existia na sua máxima […]

Volta ao Mundo

A imensa fronteira: uma crónica de José Luís Peixoto

Há três passagens possíveis: Futian, Huanggang e Luohu - correspondem a estações de metropolitano com os mesmos nomes. Em Shenzhen, como em várias cidades da China, o bilhete de metropolitano é uma pequena moeda de plástico que se compra nas máquinas. A partir do hotel em que estava hospedado, Futian era a passagem que mais me convinha, bastaram-me quatro estações para chegar lá. Nessa manhã, chovia bastante. O céu sustentava aquele cinzento absoluto, constante. Apesar do calor escaldante, as gotas grossas não paravam. Fiz um caminho breve debaixo dessa chuva, a arrastar a mala com a mão direita e a […]

Volta ao Mundo

Lições de simplicidade: uma crónica de José Luís Peixoto

No céu, com liberdade para todos os lados, está um pequeno pássaro. Tem as asas abertas, mas não as bate, apenas administra a sua subtileza, ínfimo coração, pena, penas. Às vezes, fica parado no ar, como se fosse o mundo inteiro que estivesse suspenso, como se fosse este pássaro a única porção de mundo em que se pode realmente confiar. Um pequeno pássaro, uma criatura, a entender o vento, a ver algo que me escapa. Estou deitado no mar das Caraíbas. O sal carrega-me, flutuo sem esforço e sem peso. Assento na água, como se lhe pertencesse. O tempo passa […]

Volta ao Mundo

O mundo à volta de um lago: uma crónica de José Luís Peixoto

Tem um pano dobrado sobre a cabeça, é um dos panos tecidos à mão por mulheres como as que encontrei no caminho até aqui, diante de teares. Não sei interpretar a expressão desta mulher, talvez a sua seriedade seja uma forma de timidez, ou talvez seja um sinal de incómodo. Três fiadas de pérolas cobrem-lhe a testa. A pele do rosto é escura, queimada pelo sol, crestada pelos elementos, por este oxigénio grosso. Sobre os ombros e as costas, leva uma pele de borrego, presa à frente por um cordão de lã. O casaco chinês é de vermelho desbotado, gasto […]

Volta ao Mundo

Helsínquia interior: uma crónica de José Luís Peixoto

Passeio pelo centro de Helsínquia sem obrigação de estar a horas em qualquer lugar. Ninguém me espera, sou livre dos compromissos mais simples. Essa tranquilidade, adicionada a todos os corpos que passam sem olhar para mim, torna-me invisível. Como se me atravessassem, as pessoas não precisam de desviar-se, não dão qualquer sinal da minha presença. Com passos sucessivos, sem pressa, estendo o movimento longo da perna, sinto-me imaterial, como uma nuvem a pairar sobre os passeios do centro de Helsínquia. Sou feito sobretudo dos meus olhos. Apenas o frio repara em mim. O frio chama-me desde longe e, logo a […]

Volta ao Mundo

Crónica de viagens: José Luís Peixoto em Tbilisi

Na Catedral Sioni, a todas as horas, há um silêncio grave e há mulheres vestidas de negro a acenderem velas muito finas. A seriedade dessas orações e dessas pequenas chamas ajuda a iluminar as riquezas da igreja. As sombras dissipam-se um pouco sobre os frescos das paredes. Os ícones, de influência bizantina, sabem ouvir quem se aproxima a sussurrar preces. A devoção na Igreja Ortodoxa Georgiana é solene e intensa. De regresso às ruas, tudo é novo. Há um instante de surpresa. A claridade ou os movimentos livres das pessoas fazem renascer o mundo. A capital da Geórgia tem hoje [...]