José Luís Peixoto

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Dois homens nus: uma crónica de José Luís Peixoto

Às segundas‑feiras, há pouca gente nos banhos públicos de Tbilisi. Explicaram‑me que, na secção dos homens, as maiores enchentes são nas manhãs de sábado e de domingo. Há muitos georgianos que gostam de curar as ressacas com água sulfúrica, vapor e massagens. Hello, disse‑me a mulher da receção, falando mais com o sorriso do que com essa palavra. Então, digitando números numa calculadora, explicou‑me que o banho, numa divisão individual, e a massagem completa ficaria em 85 lari. Aceitei e segui‑a por corredores a cheirarem a enxofre, passando por salas de tetos redondos, côncavos, interiores dos telhados em semiesferas que […]

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A maior herança: uma crónica de José Luís Peixoto

Discordo sempre quando ouço alguém dizer que as crianças não aproveitam as viagens. Ainda não têm idade para aproveitar, diz essa pessoa que pode ter muitos rostos diferentes. Não consigo entender esse ponto de vista. Parece-me que as crianças aproveitam as viagens de forma diferente, desfrutam de aspetos que nós, muitas vezes, já esquecemos de prestar atenção. As crianças não fingem interessar-se por aquelas histórias que os guias repetem, com mais ou menos rotina na voz, e que toda a gente esquece após algum tempo, se é que chegam a ouvi-las. Em vez disso, as crianças deixam-se invadir por cheiros […]

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Zhuhai: uma crónica de José Luís Peixoto

88888888. Na China, quando não se sabe a password do wi-fi, vale sempre a pena tentar o número 8 repetido 8 vezes. Funciona com impressionante frequência. A superstição chinesa à volta do 8 está presente em todo o território e, depois de almoçar num restaurante de Zhuhai, consegui entrar assim na internet. Essa sorte, no entanto, não foi suficiente para abrir a maioria das páginas ocidentais a que costumo aceder. Duas horas antes, no outro lado da fronteira, em Macau, estava habituado a navegar sem restrições. Esqueci que estava na China. Zhuhai não deixa esquecer a China. Basta atravessar uma […]

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Toda a Índia em Deli: uma crónica de José Luís Peixoto

É difícil encontrar uma ordem para descrever Deli porque a forma como os elementos surgem é, ela própria, desordenada e aleatória. Escolho começar pelo trânsito. Para além dos carros, camiões, autocarros, carroças, enxames de motas e bicicletas existem também os riquexós (a pedais) e os autorriquexós (motorizados). A prioridade é definida pelo tamanho do veículo e pela oportunidade. Mão e contramão são conceitos subjetivos. É muito vulgar estarmos a deslocar-nos em qualquer um destes veículos e vir outro de frente, sem perspetiva de abrandar. Até em estradas com separadores centrais há veículos fora de mão, até nos passeios. Carros, bicicletas […]

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Helsínquia interior: uma crónica de José Luís Peixoto

Passeio pelo centro de Helsínquia sem obrigação de estar a horas em qualquer lugar. Ninguém me espera, sou livre dos compromissos mais simples. Essa tranquilidade, adicionada a todos os corpos que passam sem olhar para mim, torna-me invisível. Como se me atravessassem, as pessoas não precisam de desviar-se, não dão qualquer sinal da minha presença. Com passos sucessivos, sem pressa, estendo o movimento longo da perna, sinto-me imaterial, como uma nuvem a pairar sobre os passeios do centro de Helsínquia. Sou feito sobretudo dos meus olhos. Apenas o frio repara em mim. O frio chama-me desde longe e, logo a […]

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Caminhos de Banguecoque: uma crónica de José Luís Peixoto

O tronco do passageiro deve seguir o tronco do motorista. Quando este se inclina para um lado, o tronco do passageiro deve inclinar-se para o mesmo lado, formar o mesmo ângulo. Esse é o modo de se equilibrarem. No trânsito de Banguecoque, ao avançarem por um labirinto, ao contornarem carros, autocarros e tuk-tuks, os condutores de moto-táxis e os seus passageiros fazem uma espécie de bailado sincronizado. Essa agilidade irá levá-los à primeira linha do semáforo, entre dezenas de outras motas. À sua frente, correrá um rio de trânsito, a avenida perpendicular. Quando esse fluxo se extinguir abruptamente, cortado por […]

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Zagreb: uma crónica de José Luís Peixoto

Por baixo de Zagreb está uma cidade que só eu consigo ver. Os edifícios, a paisagem, as pessoas e os objetos estão no mesmo lugar, quase sobrepostos, mas apresentam ligeiras diferenças nos contornos, no tom de algumas cores. Às vezes, é difícil explicar com exatidão os contrastes entre Zagreb e a cidade que só eu consigo ver. Não é uma cidade exata, mas existe, apresenta um certo nível de tangibilidade que, para mim, tem muita importância. Por baixo de Zagreb está a cidade que conheci quando vim aqui pela primeira vez, há quase vinte anos, e que fui ampliando em […]

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Paloquemao: uma crónica de José Luís Peixoto

Não é comum que o mundo apresente cores tão vivas e contrastantes. Vermelhos mesmo vermelhos, amarelos que iluminam uma auréola à sua volta, laranjas inequívocas, cor e fruta. No Mercado de Paloquemao, em Bogotá, as cores são alimentadas pela fertilidade tropical desta terra. Não sei o nome de todos os frutos que vejo, da mesma maneira que não conheço todas as variedades de batatas andinas. A natureza inventa formas inesperadas. Avanço por corredores entre caixotes e sacas a transbordar de vegetais, entre cachos de bananas empilhados em bancas. Também as bananas são de muitas espécies, enormes para gigantes, ou pequenas, […]

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Lições de simplicidade: uma crónica de José Luís Peixoto

No céu, com liberdade para todos os lados, está um pequeno pássaro. Tem as asas abertas, mas não as bate, apenas administra a sua subtileza, ínfimo coração, pena, penas. Às vezes, fica parado no ar, como se fosse o mundo inteiro que estivesse suspenso, como se fosse este pássaro a única porção de mundo em que se pode realmente confiar. Um pequeno pássaro, uma criatura, a entender o vento, a ver algo que me escapa. Estou deitado no mar das Caraíbas. O sal carrega-me, flutuo sem esforço e sem peso. Assento na água, como se lhe pertencesse. O tempo passa […]

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Em busca de personagens: uma crónica de José Luís Peixoto

Conheci a realidade das viagens em grupo há poucos anos. Antes, sabia vagamente que se podia viajar assim, mas não lhe associava nenhuma imagem ou ideia, faltava-me essa experiência. Há alguns anos, quando fui convidado por uma agência para acompanhar uma viagem de grupo ao destino de um dos livros que escrevi, descobri um mundo. Quando era estudante, eu não considerava essa profissão como uma possibilidade. Se tivesse conhecido essa realidade profissional, talvez me tivesse sentido tentado a segui-la. Nesse trabalho, faz-se a gestão de aspetos que influenciam bastante a experiência de viagem dos outros. Em certa medida, esse trabalho […]

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"País, cidade, praça, música", uma crónica de José Luís Peixoto no México

País, cidade, praça, música Uma crónica de José Luís Peixoto Centenas ou milhares: um número impossível de contar, como as estrelas. São um sonho surreal, um engano de espelhos, uma história exagerada. Avançamos pela praça da mesma maneira que atravessaríamos um rio, submersos. Para onde olhamos apenas vemos mariacheros. Há novos e há velhos, há altos e baixos, gordos e magros. Mesmo quando usam roupas da mesma cor, brancas ou pretas, é fácil perceber a que formação pertencem, mas são tantos que precisam de distinguir-se uns dos outros. Por isso, há grupos vestidos de todas as cores, a apelar para […]