José Luís Peixoto

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«Viajar é um sinónimo direto de viver»: uma crónica de José Luís Peixoto

Perder e ganhar ao mesmo tempo Com boas intenções, avisam-nos que temos de ir o mais depressa possível. Tens de ir a Cuba antes que morra o Fidel, dizem-nos. Dizem-nos também: tens de ir ao Myanmar rapidamente, antes que abra; daqui a poucos anos, será apenas mais um país no Sudeste Asiático. Não faltariam outros exemplos. São muitos os países e cidades onde se tem de ir o mais depressa possível. Estão em evolução acelerada e, do ponto de vista do visitante, garantem-nos que essa mudança será seguramente para pior. Mas não é verdade que todos os lugares do mundo […]

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O que falta, o que temos: uma crónica de José Luís Peixoto

Quanto falta para chegarmos? Falta pouco, respondo aos meus filhos. E fazemos um jogo em que, à vez, pensamos em qualquer coisa e, fazendo perguntas de sim ou não, os outros tentam adivinhar. Ou contamos anedotas. Começamos por não recordar nenhuma mas, logo a seguir, vamo-nos lembrando. Estava um português, um francês, um inglês, um papagaio e o menino Zezinho. Cada anedota faz que nos lembremos de mais uma ou duas e, pouco depois, chegamos a um ponto em que temos de marcar vez para falar. As paisagens sucedem-se nas janelas. Avançamos no sentido contrário das árvores que passam por […]

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Uqbar: uma crónica de José Luís Peixoto

Num dos seus contos mais famosos, o escritor argentino Jorge Luis Borges escreveu sobre Uqbar, um país que o protagonista/narrador descobre no verbete de uma enciclopédia e que, depois, continua a investigar em diversas leituras. No texto, são revelados bastantes dados acerca desse país, tanto no que respeita à organização social ou à filosofia vigente como também em relação às artes, idioma e outros aspetos estruturais da sua cultura. Entre múltiplas referências bibliográficas, conclui-se que Uqbar não existe realmente. Um dos aspetos interessantes é o contraste entre o pormenor dessa descrição, a coerência do pensamento apresentado e o seu caráter […]

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Paloquemao: uma crónica de José Luís Peixoto

Não é comum que o mundo apresente cores tão vivas e contrastantes. Vermelhos mesmo vermelhos, amarelos que iluminam uma auréola à sua volta, laranjas inequívocas, cor e fruta. No Mercado de Paloquemao, em Bogotá, as cores são alimentadas pela fertilidade tropical desta terra. Não sei o nome de todos os frutos que vejo, da mesma maneira que não conheço todas as variedades de batatas andinas. A natureza inventa formas inesperadas. Avanço por corredores entre caixotes e sacas a transbordar de vegetais, entre cachos de bananas empilhados em bancas. Também as bananas são de muitas espécies, enormes para gigantes, ou pequenas, […]

José Luís Peixoto

Esta viagem: uma crónica de José Luís Peixoto

Nenhuma viagem existe apenas no espaço, todas as viagens precisam de tempo. E temos tanto tempo. Resistimos a essa verdade, convencemo-nos ou deixamos que nos convençam. Mas não é preciso chegarem os meses grandes, de dias largos, para sabermos que temos tempo, basta pararmos por um instante breve, pouco tempo, e olharmos em volta. Estamos rodeados de tempo. De nada adianta levantarmos os braços, como se estivéssemos num filme ou num pesadelo, com água pelo peito, que continua a subir, a encher. Não, de nada adianta, porque nós estamos submersos pelo tempo, é tanto e está em todas as direções. […]

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Uqbar: uma crónica de José Luís Peixoto

Num dos seus contos mais famosos, o escritor argentino Jorge Luis Borges escreveu sobre Uqbar, um país que o protagonista/narrador descobre no verbete de uma enciclopédia e que, depois, continua a investigar em diversas leituras. No texto, são revelados bastantes dados acerca desse país, tanto no que respeita à organização social ou à filosofia vigente como também em relação às artes, idioma e outros aspetos estruturais da sua cultura. Entre múltiplas referências bibliográficas, conclui-se que Uqbar não existe realmente. Um dos aspetos interessantes é o contraste entre o pormenor dessa descrição, a coerência do pensamento apresentado e o seu caráter […]

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Sandaga: uma crónica de José Luís Peixoto

Eis o grande mercado. É como se a cidade crescesse a partir dele, como se existisse apenas para justifica-lo. As ruas de Dakar são os longos braços do mercado Sandaga. Aqui começam todos os cheiros, todos os estímulos dos sentidos. Este movimento é constante e permanente, é imparável, é uma fonte. Passam crianças a empurrar um carro de madeira carregado de bidões de água, as crianças rodeiam o carro com as suas vozes e os seus corpos. Quem irá beber desta água? A tarde começa, o sol queima as cores e, mesmo assim, levo os olhos cheios, estas cores começam […]