Jogos sem fronteiras

Bernardo Pires de Lima

A hora da Europa

No passado mês de maio, chegou ao porto de Antuérpia o primeiro comboio direto de mercadorias vindo da China, mais precisamente do porto de Tangshan. Foram 16 dias de viagem, 11 mil quilómetros e 34 contentores de mercadorias para serem distribuídos pelos quatro cantos da Europa, um bom exemplo da melhoria operacional inscrita na Belt and Road Initiative e que tem no corredor eurasiático um dos braços de afirmação geopolítica da China moderna. Se lhe acrescentarmos a rota do Ártico e o corredor indo-africano ficamos com uma ideia da ambição de Pequim nas próximas décadas.

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Bernardo Pires de Lima

O início do fim?

John McCain mostrou como a dignidade de uma vida não se esfuma na morte. Como defensor das democracias, em particular as europeias e a sua ligação aos interesses permanentes americanos, escolheu Vladimir Kara-Murza, um opositor de Putin já por duas vezes envenenado, para transportar o seu caixão durante as cerimónias na Catedral de Washington. Kara-Murza é um dos principais rostos da oposição russa e lidera a fundação com o nome de Boris Nemtsov, outro dos líderes da oposição russa barbaramente assassinado, numa altura em que expunha a rede de corrupção do círculo de Putin. Com isto McCain diz-nos que a luta das democracias não pode estar reduzida a plebiscitos, mas à defesa de um regime cuja natureza resida na profunda inviolabilidade das liberdades políticas, sociais, de expressão e intervenção, e num respeito inegociável com a separação de poderes. Foi isto que levou McCain a protagonizar a defesa acérrima das transições democráticas na Europa e os alargamentos da NATO como a consolidação desse processo. Por isso nunca se esqueceu da Ucrânia nem da Geórgia e foram constantes as iniciativas que levou a cabo no Senado para que o poder legislativo americano não deixasse cair a política de "porta aberta" da Aliança Atlântica. McCain não via a Rússia como um inimigo, se assim fosse não estava ao lado dos opositores do regime: foi, isso sim, um dos primeiros políticos americanos a perceber como era perigoso confundir a Rússia com Putin, alertando para todos os anátemas que este representa e que, em último lugar, inibem a Rússia de caminhar para a saúde democrática, como aliás merece.

Bernardo Pires de Lima

Dou-te um doce, em troca de um beijo salgado

Qualquer pessoa sabe que para uma negociação ter o mínimo de sucesso é preciso confiança entre as partes. Não é indispensável que a mesma tenha o mesmo nível de início ao fim, mas é imprescindível que ela nunca se perca. O senhor Trump pode tratar as vezes que quiser o senhor Juncker por Jean-Claude e este retribuir com a habitual sessão de beijos, mas a confiança entre a UE e esta administração americana nunca acontecerá. A razão é simples: por mais deslumbrado que subitamente Trump pareça com os méritos do comércio livre, ele não deixa de ser o mesmo presidente que passa meses a desvalorizar acordos e negociações, a desprezar aliados tratando-os como inimigos, e a rejeitar princípios só porque foram alcançados pela administração Obama.

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Bernardo Pires de Lima

A todo o gás

Na ressaca de Helsínquia, bloqueámos o debate na esmagadora capacidade nuclear conjunta, na intromissão russa nas eleições americanas, na crença de Trump na palavra de Putin e no desprezo que tem sobre as instituições americanas. Tudo isto fez sentido na análise e chocou meio mundo, de tal forma que o presidente americano, quando regressou a Washington, foi obrigado à triste figura de desdizer parte do que tinha afirmado na cimeira. Não custa imaginar as garrafas de vodca que se abriram no Kremlin ao som das gargalhadas.

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A cimeira da fezada

Tem sido penoso assistir ao menu de fezadas e estados de alma do presidente Trump durante e depois da cimeira de Singapura. Sobre os quatro pontos acordados entre as partes, que em boa verdade não passam de um alinhamento de vontades superficial, Trump já veio concluir que "resolveu o problema com a Coreia do Norte", o equivalente ao célebre "missão cumprida" com que George W. Bush celebrou a vitória no Iraque a 1 de maio de 2003. Sobre Kim Jong-un, personagem que de um momento para o outro passou a estar no restrito lote de "grandes líderes" como quem tem "uma grande química" - além de ter manifestado uma admiração perversa com a forma como "o seu [de Kim] povo o ouvia com atenção" e o desejo de que "o meu [de Trump] povo fizesse o mesmo" -, Trump tratou de colocar o líder norte-coreano no pedestal dos infalíveis: "confio nele, sim", "honestamente, penso que ele vai fazer estas coisas [o acordado], mas de qualquer maneira, pelo sim pelo não, "posso ter de vos dizer daqui a seis meses que estive errado", mas isso não será problema, porque, como se diz nestas coisas das armas nucleares e noutros assuntos semelhantes, como nos erros de arbitragem futebolística, "errar é humano".

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Custos geopolíticos

Além de alienar por tempo indeterminado a geração mais nova que nas ruas de Teerão rejubilou com a assinatura do acordo em 2015, a denúncia contratual feita por Donald Trump teve o especial condão de abrir uma nova frente de cisões transatlânticas. Nesta geografia, o dado novo nestes 17 meses de Trump na Casa Branca é o à-vontade com que uma administração cria frentes de ataque à Europa permanentes e propositadas. Esse comportamento acaba por produzir uma sequência de bolsas de divergência que põem à prova a coesão europeia num momento particularmente sensível da sua história: ainda na ressaca dos programas de assistência financeira, com uma lentidão das reformas para prevenir futuras crises na zona euro, com um dos três Estados membros mais poderosos de saída, uma crise identitária profunda em muitos dos grandes partidos pró-integração, e uma negociação do próximo quadro orçamental dura, polémica e conflituosa. Neste contexto, a simples ideia já suscitada de sanções americanas às empresas europeias que operem no Irão ao abrigo de um acordo que vincula a UE traz à economia real os efeitos das decisões geopolíticas.

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Razões de Estado

Nesta semana ficámos a saber que Portugal depende em quase 60% das suas importações de petróleo da Rússia, do Azerbaijão, do Cazaquistão e da Arábia Saudita, uma nova grelha energética com que o monopólio da Galp brinda o enquadramento geopolítico português. Assim de repente, e sem olhar para o mapa, até parece que estamos mais próximos do mar Negro do que do Atlântico, mas o tempo político em Portugal não está para temas menores, como sabemos. Por estes dias, soubemos também que os EUA e a NATO vão reativar a Segunda Esquadra e criar um novo comando naval em Norfolk, na Virgínia, uma decisão estratégica com vista a dissuadir o aumento das incursões russas na região. Mas não só: é o reconhecimento formal da estupidez que foi decretar a morte do Atlântico na política internacional, como se não fosse fundamental ao desígnio hegemónico americano, permanentemente assumido administração após administração, ser simultaneamente a grande potência do Atlântico e do Pacífico para preservar esse estatuto. E aqui, por mais voltas que a vida dê, a China tem uma desvantagem competitiva. Mais: por ser muito mais fácil aos EUA continuarem a ser hegemónicos mais no Atlântico do que no Pacífico - menos atrito, melhores relações, menos ameaças - é que Portugal joga um papel de estabilizador regional e de elo transatlântico fundamental.

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Os amigos de Orbán

Tem sido penoso e profundamente inquietante assistir ao chorrilho de solidariedades que a cúpula dirigente do Partido Popular Europeu tem manifestado junto de Viktor Orbán, o primeiro-ministro húngaro e mais do que provável vencedor das legislativas de hoje. A Comissão Barroso já tinha sido branda o suficiente para envergonhar qualquer defensor do Estado de direito e da democracia liberal, mas o PPE passou de um silêncio ensurdecedor para uma sem vergonhice desbragada. Joseph Daul, o seu presidente, apoiou publicamente Orbán como "garante da estabilidade e prosperidade", fazendo tábua rasa da campanha feita pelo húngaro completamente centrada numa xenofobia sem pudor, antissemitismo e anti-imigração. Manfred Weber, o bávaro que lidera o grupo parlamentar em que estão PSD e CDS, é um fã confesso do senhor Orbán, a quem distribui apertos de mão espalhados nas redes sociais, embrulhados em frases cínicas de exacerbação identitária que fazem as delícias da extrema-direita húngara. Bem sei que há no PPE um crescente desconforto com o Fidesz, mas aparentemente, para os dois partidos portugueses, o assunto é irrelevante.

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E o vencedor é...

No mesmo dia em que 11 estados do Pacífico assinavam no Chile uma versão do TPP sem os EUA, três altos quadros da administração sul-coreana anunciavam ao mundo que Kim Jong-un e Donald Trump iriam encontrar-se no início da primavera. Aparentemente, os dois temas não têm ligação, mas, se quisermos ir um pouco mais além, encontramos um denominador comum: em ambos os casos, os EUA não lideraram nenhum dos processos. E, apesar dessa posição retraída, nenhum país deixou de prosseguir com o que julgava ser melhor para os seus interesses nacionais e regionais. Imagino como estará a administração chinesa a olhar para tudo isto.

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Macarrão à Mattarella

Em traços simples, é isto que está em jogo hoje em Itália. Em primeiro lugar, que compromissos multipartidários garantirão maiorias minimamente sólidas na Câmara dos Deputados e no Senado? As sondagens dão o 5 Estrelas (M5S) como mais votado, o que não quer dizer que tenha as melhores condições para negociar uma maioria. Para chegar a acordo com a Lega Nord (LN) precisa que a coligação de direita em que o partido de Salvini se integra estilhace, o que não é impossível, e para chegar à maioria precisaria ainda da Forza Italia (FI), o que também não é bizarro. O problema é que a disputa pelo cargo de primeiro-ministro seria brutal e a FI, não sendo o partido mais votado, teria de abdicar da posição, depois da cartada Antonio Tajani. Custa acreditar que o faça, mas estamos a falar de Itália, onde quase tudo é politicamente possível.