Jogos sem fronteiras

Bernardo Pires de Lima

Choque sistémico colossal

Não há memória de uma derrota tão colossal de um primeiro-ministro na era moderna da política britânica. Quem mais se aproximou foi o trabalhista Ramsay MacDonald em 1924, por 166 votos, menos 64 do que Theresa May. Westminster viveu, por isso, um dia singular na sua história, o que em condições normais levaria de imediato à demissão da primeira-ministra, numa fuga humilhante pela porta dos fundos. Curiosamente, não é este o cenário mais plausível, pelo menos na forma abrupta que muitos esperavam.

Bernardo Pires de Lima

A hora da Europa

No passado mês de maio, chegou ao porto de Antuérpia o primeiro comboio direto de mercadorias vindo da China, mais precisamente do porto de Tangshan. Foram 16 dias de viagem, 11 mil quilómetros e 34 contentores de mercadorias para serem distribuídos pelos quatro cantos da Europa, um bom exemplo da melhoria operacional inscrita na Belt and Road Initiative e que tem no corredor eurasiático um dos braços de afirmação geopolítica da China moderna. Se lhe acrescentarmos a rota do Ártico e o corredor indo-africano ficamos com uma ideia da ambição de Pequim nas próximas décadas.

Premium

Bernardo Pires de Lima

O parente pobre

Foi pouco valorizado, mas não deixou de ser caricato assistir à cimeira dedicada aos Balcãs que teve lugar em Londres em meados de julho. De um lado, o anfitrião, o Reino Unido, em acelerado passo para uma saída caótica da União Europeia, ainda por cima com o ministro dos Negócios Estrangeiros demissionário na véspera. Do outro, um grupo de seis Estados em diferentes níveis de diálogo com Bruxelas para aderirem à UE. Não só foi caricato como mostrou a constrangedora situação em que mergulhou a política britânica, sem um pingo de autoridade geopolítica ou um rasgo de salvação estratégica. Mas não é de Londres que vos quero falar. É, isso sim, dos Balcãs, o parente pobre da Europa e a região mais importante ao sucesso do modelo de integração nas próximas duas décadas.

Bernardo Pires de Lima

A geopolítica do desporto

Parece que foi ontem, mas passaram dez anos. Recuemos até 2008, ano das grandes viragens estratégicas do pós-Guerra Fria. Nos EUA, a crise do subprime já tinha dado à costa, mas rapidamente evoluiu para a maior hecatombe financeira ocidental desde a grande depressão dos anos 1920. Ao mesmo tempo, a Rússia começou o verão a invadir a Geórgia, num assomo de testosterona imperial sobre o Cáucaso e um travão ao alargamento da NATO. Diga-se que resultou. E em Pequim começavam os Jogos Olímpicos apoteóticos para um regime que a partir daí se expressou ao mundo em termos muito mais ambiciosos e disruptivos. Não foi à toa: os megaeventos desportivos são cada vez mais um espelho geopolítico dos seus anfitriões. E um instrumento.