Joel Neto

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Em defesa das histórias

No Outono em que publiquei o meu primeiro livro, faz não tarda vinte anos, um escritor não muito mais velho do que eu, acabado de receber um prémio importante, deu uma entrevista em que dizia: "Se quisesse contar histórias, ia escrever telenovelas." Eu lia com frequência entrevistas de escritores, mas só naquela altura começava a lê-las com o escrutínio de um autor, ainda que na altura bastante jovem e totalmente imberbe. E, para dizer a verdade, não percebi logo que se tinha convencionado existirem dois caminhos e, um dia, eu próprio daria por mim sob o desafio de escolher um deles. Sobretudo, assaltou-me uma perplexidade: porque haveria um tão antigo e respeitável impulso como o de contar histórias de ser alvo, agora, de uma tal condescendência - de um tal ataque?

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"No Pico ainda sou o rapaz que emigrou"

Quando lhe perguntamos, admirativos, o que trouxe do Pico, nos anos 70, para conseguir chegar tão longe em tão pouco tempo, Ângelo Garcia responde-nos com uma frase apenas: "a habilidade de não ter medo." Ficamos à espera que elabore, mas não o faz. O laconismo amável combina bem com o sorriso cândido que lhe muda o rosto sempre que nos fala da sua ilha, e com o olhar distante, de homem de negócios, que não cessa de avaliar o seu interlocutor.

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Manual de sobrevivência para a meia idade

Ao fim de menos de um minuto de viagem, o serviço de dados do meu telemóvel desliga-se por razão nenhuma e ficamos sem GPS. Andamos nisto há dez dias, porque quando saímos da Califórnia eu decidi que haveria de convencer a rent-a-car de Boston a dar-nos um SUV pelo preço de um utilitário, mas esqueci-me de exigir sistema de navegação também. Deixado às cegas, ando desde esse dia a enfiar o SUV em becos sem saída e parques de estacionamento. Às vezes o GPS do telemóvel funciona, outras não - e também não é por o fornecedor ter adquirido nome brasileiro que o call center passou a ter gente em vez de scripts.