Joe Biden

João Melo

O que está em jogo na América é muito mais do que a América

Dentro de exatamente um mês, realizam-se as mais decisivas eleições presidenciais americanas, pelo menos das últimas décadas. Muito mais do que local, a repercussão das mesmas será global, não apenas porque as eleições na principal potência mundial possuem, inevitavelmente, uma óbvia importância geopolítica, mas por causa de algo mais profundo e decisivo: que visão da América acabará por prevalecer no dia 3 de novembro de 2020 e que impacto terá o desfecho da disputa Trump-Biden para o resto do mundo. É isso o que está em jogo. Começo por resumir o contexto em que as próximas eleições americanas acontecem. Desde logo, a crise económica de 2008-2009, prolongada e aprofundada em 2014, veio mostrar as debilidades e sobretudo as perversões promovidas pelo modelo neoliberal de desenvolvimento e pela globalização, pondo a nu o ressentimento dos "derrotados" por tal modelo, criando o caldo de cultura necessário ao surgimento do populismo conservador, para não chamá-lo reacionário, que, em 2016, funcionou como o elemento ideológico decisivo que permitiu a vitória de Trump. O populismo, para sobreviver, vive da divisão, da polarização e do ódio, não sendo de estranhar, portanto, que as tradicionais divisões da sociedade americana tivessem sido exacerbadas nos últimos quatro anos. A pandemia do novo coronavírus, por seu turno, veio demonstrar as enormes fragilidades da ideia democrática americana, ao ratificar as insuficiências estruturais do seu sistema de saúde pública e promover o desemprego, o que, como demonstram as estatísticas, teve um impacto negativo, quer do ponto de vista sanitário quer económico-social, maioritariamente entre os grupos sociais mais desfavorecidos. Acontece que, nos Estados Unidos, as diferenças sociais têm um claro recorte racial, pelo que negros (e hispânicos) são os mais afetados pela atual crise sanitária e económica do país. Não admira, assim, que nos últimos meses a "questão racial" americana tenha sido exposta nas ruas, uma vez mais, com toda a violência, demonstrando que, apesar dos avanços já alcançados, ainda há muito por fazer para que os negros americanos, sobretudo, desempenhem o papel que lhes cabe na sua própria sociedade. O que está em jogo, internamente, nas próximas eleições presidenciais americanas é se a visão de uma América fechada sobre si mesma, fundada na supremacia branca e com claros tiques autocráticos (mais do que conservadores) prevalecerá, como sucedeu há quatro anos, sobre a visão de uma América assente na diversidade, aberta e profundamente democrática, capaz e interessada em resolver as suas históricas divisões internas, a começar pela racial. A dúvida é se os atuais eleitores estarão dispostos a, digamos assim, concluir a grande Revolução Americana de 1776. Se o sistema eleitoral americano fosse efetivamente democrático, baseado no princípio de um homem, um voto, eu teria poucas dúvidas de que o chamado "excecionalismo americano" sairia vitorioso nas urnas no próximo dia 3 de novembro, desde logo por uma razão demográfica. Contudo, o modelo americano dificulta previsões desse tipo. Além disso, tal modelo, mesmo "atípico", está a ser posto em causa pela atual campanha de Trump, com as suas infundadas suspeições sobre uma possível fraude e os apelos aos seus eleitores para que, a pretexto de controlarem a lisura da votação, a perturbem de facto, como já está a acontecer nos estados onde a votação antecipada começou. Além disso, alguns dos governadores seus aliados estão a tomar medidas de "vote supression", como sucede no Texas, onde o número de postos para a entrega de boletins correspondentes à votação pelo correio está a ser drasticamente reduzido. Acontece que, por razões que não carecem de explicação, o exemplo americano acaba por influenciar o resto do mundo, para o bem ou para o mal. Como escreveu um analista africano, a atual batalha eleitoral americana "é a linha da frente na luta contra a ofensiva antidemocrática à escala mundial". Não à toa, Trump tem demonstrado uma simpatia explícita com líderes autoritários em todo o mundo (e vice-versa). O seu diferendo com o presidente chinês é meramente comercial e deve ser mantido por Biden, se este for eleito, pois o pós-covid obrigará a um profundo ajustamento da globalização e do livre comércio mundial.