João Taborda da Gama

João Taborda da Gama

A grande sesta

Este isolamento, quarentena, distanciamento, contenção, chata da curva, todos dentro ninguém sai, só para ir à rua, passeio higiénico, papel higiénico, não se pode tocar só olhar, mas olhar sem tossir, que o bicho viaja em cada espirro, não vá a ejaculação viral simultanear com um bocejo do outro lado da rua e pumba, golo, mais uma carga dos trabalhos viral. Mais vale em casa, com os trabalhos de casa, que já não são para, são de, que só há casa, mas sem possibilidade de TPE, trabalhos para a escola, que os trabalhos para casa antes eram os deveres, agora são trabalhos, mas sempre foram uma forma de passar a batata quente da escola para casa, uma vingança dos professores aos pais por terem de lhes tomar conta dos selvagens mais do que eles, agora era justo ser ao contrário, toma lá Manel, isto é para resolveres lá na escola com a professora, quando acabar o covid, ou este isolamento, autoisolamento, auto porque somos todos democracias, isolamentos forçados é lá na China, cá é uma mera recomendação, mas o português cumpre, adora cumprir, sente no cumprimento o único eugenismo a que pode dar-se ao luxo, respeitinho pelo covid, quietinho, dois metros de distância, e para a cama cedo, tudo a fazer covid, covid sem conchinha, ou conchinha com os parceiros de isolamento, que conchinha não está proibido, nem desrecomendado, a não ser que alguém que ande na vadiagem traga covid para casa, e depois é o cargo dos trabalhos - lá estão os trabalhos mais uma vez - porque tem de se ficar em isolamento sem conchinha, a ver tudo da janela, tudo mesmo, da janela da casa e da do telefone, mas mesmo deste convém algum distanciamento, refrear as coisas, não pode ser à vontadinha como dantes, não vá o covid tecê-las agora por cinco gê, os especialistas já disseram que não sabem como vai o bicho comportar-se, que o português é diferente do chinês, o chinês é diferente do italiano e o italiano do espanhol, e o espanhol infelizmente é todo igual dentro das fronteiras, tanto morre o catalão como o andaluz, mas é malta que não se fica, que em Espanha dá sempre com mais força, li ontem que por lá abundam os polícias de varandas, até já há a expressão, e que em La Línea, linha estreita, a mais estreita de todas, quem chega a Gibraltar, tentaram agredir uns velhotes que chegavam com o covid, e até houve bombas e outros desacatos, tudo à conta do covid, que a juventude é irrequieta e já está quieta por determinação superior há mais dias do que a conta, já deve ter visto a Netflix toda duas vezes e concertos grátis pela net também já não se aguenta, agora é vir para a rua malhar, nos ancianos, melhor do que estar a aturar a família, quem sabe bem disso é a vice da Saúde britânica, que disse que os casais que vivem separados, não os casais separados - isso é outra coisa -, podem aproveitar o covid para testar a força da sua relação (sic) e fazer a experiência de viver um com o outro na mesma casa, vai correr bem Dra. Jenny, vai correr bem, vamos ficar todos bem, não é?, tudo a fazer contas de cabeça entre os engulhos do quotidiano, a abstinência forçada e o risco de cada escapadela a furar a quarentena, não a quarentona como escapou em direto a um insigne catedrático no outro dia na televisão, quadrado renascido convertido em boletim clínico declamado por pivôs evangélicos, famílias fechadas em frente à televisão, isso mais os riscos do sexo dentro do casamento, dos serões em família, em cada português dois epidemiologistas e três estatísticos, imaginem todos na mesma casa, por quanto tempo mais, a pergunta que todos fazem, sem saber o que os espera lá fora, tudo a fingir que não leu que foram mais de três milhões e meio de americanos a pedir o desemprego só numa semana, mas nesta semana a Assembleia da República aprovou finalmente o que dela se esperava, uma recomendação ao governo sobre a importância da sesta e que se faça um estudo que deve "incluir ponderáveis como a transversalidade da aplicação da sesta" mas sempre, parece, na garantia do "princípio da não obrigatoriedade da sesta", e reconfortado por o Parlamento mostrar que há vida para além do covid, o melhor é terminar o texto, que estamos é todos metidos numa grande sesta, numa granda cesta, uma cesta de arames, que não é obrigatória, mas é, e é mas é melhor voltar para o covid e aproveitar o resto desta sexta, ou cesta, ou sesta, ou lá o que é.

João Taborda da Gama

Mas, e se?

O mês de novembro não tinha sido fácil nem para ela nem para ele. Os dias da Web Summit a desaparecerem assim que cada um entrou na sua casa, primeiro ela, dois dias depois ele, milhares de quilómetros de distância de Lisboa e um do outro. Continuaram a ver-se nas músicas que ouviam um do outro no Spotify, sempre a dúvida pouco espessa sobre a intenção deste ou daquele título. Mas cada um à sua maneira se viu esmagado dentro da realidade que a luz de Lisboa apagara naqueles dois dias.

João Taborda da Gama

Por um fio

No Iowa houve primárias, mas ainda não se sabe bem quem ganhou, o que não espanta dado o primarismo das primárias. Ganhou o mayor Pete, mas ninguém tem mesmo a certezinha se foi foi por um fio. O sistema do caucus é menos sofisticado do que uma eleição numa escola secundária. Em vários recintos espalhados pelo Estado, reúnem-se os apoiantes dos vários candidatos, cada um com o seu canto, e têm um tempo determinado para convencer os outros de que o seu candidato é o melhor, depois vê-se quem muda de grupo, penso que o procedimento repete-se e no fim um júri tenta dizer quem teve mais pessoas; juntam-se os votos dos milhares de recintos e tenta-se extrapolar um número de votos e uma correspondência com os delegados. Pois.

João Taborda da Gama

Mais um texto sobre o que se está a passar no Irão

O conflito no Irão tem dividido os especialistas. Uns entendem que Trump fez bem em matar o general pela ameaça que representava aos interesses norte-americanos na zona; outros que fez mal, que isso só vai tornar as coisas piores. A grande defensora de Trump é uma das minhas mais velhas, mais belicista em si, justiceira, pragmática, que sabe que mais vale um drone na mão do que dois a voar. Está isolada, embora ande a trabalhar um dos mais novos para se juntar a ela, a construir a sua coligação de combatentes da liberdade, que se algum exército tem armas tipo Fortnite, é o americano.

João Taborda da Gama

Aceleras

Uma mudança de casa para uma zona rodeada de radares fez que as multas por excesso de velocidade se fossem acumulando, umas atrás das outras, umas em cima das outras; o carro sempre o mesmo, o condutor, presumivelmente eu, dado à morte das sanções estradais. Diz o código, algures, fiquei a saber, que se pode escolher a carta ou o curso. Ou se entrega a carta, quarenta e cinco dias no meu caso, ou se faz um curso sobre velocidade, dois sábados, das nove às cinco, na Prevenção Rodoviária Portuguesa.

João Taborda da Gama

A alcachofra

Uma das coisas mais estúpidas de que me convenci ultimamente é que conseguia estar num jantar em Londres na quarta e a dar uma conferência em Saragoça na quinta à hora de almoço. Mas como acontece sempre que me convenço de uma coisa, especialmente se for estúpida, lá teve de se fazer. O conseguir não é aqui relacionado com uma impossibilidade objetiva, porque há aviões e comboios de alta velocidade, mas mais com um conseguimento anímico-subjetivo, de fazer sentido, de não ser um sacrifício demasiado grande tendo em conta o benefício. Mas o pior é que nos meus processos de decisão o sacrifício entra do lado do benefício. Sim, eu sei que há pessoas com quem se pode falar sobre isso e que se costuma resolver, e também sei que a vida de hoje anda mais aberta ao lado do prazer do que da dor, mas também é verdade que não há nada mais aditivo do que fazer coisas difíceis, resolver um problema que mais ninguém consegue, estar em dois sítios ao mesmo tempo, deixar o normal e o aborrecido a quem o merece.

João Taborda da Gama

Tudo ligado

A vida adulta tem-me mostrado muitas coisas que são mais difíceis do que parecem e outras que são o contrário, são bem mais fáceis do que parecem. Das mais difíceis, uma das mais, é conseguir ter um template de PowerPoint que funcione. Claro que isto interessa pouco aos leitores, uns porque não usam PowerPoint, outros que usam mas a quem basta o que o Microsoft lhes dá, e outros que são de empresas tão grandes e tão estabelecidas que os departamentos de marketing e de aiti já lhes personalizaram os templates. Ora sendo a minha chafarica recente, é coisa com a qual ainda não conseguimos atinar. Mas está-se a fazer o caminho. A imagem já está no ponto - agora apenas falta as funcionalidades todas.

João Taborda da Gama

Vez que são vezes

Nunca mais voltei à Torre de Belém desde a única vez que lá fui. Um dia ouvi alguém na televisão, quando via televisão, ou ouvia, ou havia, dizer que um pobre crianço que por lá encalhou a cantar tinha ido duas vezes à televisão, que tinha sido aquela, mas que tinha sido a primeira e a última, portanto eram duas vezes, não sei se foi o Júlio Isidro, se não foi, não deve ter sido, mas a minha memória diz que terá sido; e eu com a Torre de Belém também foram essas duas vezes, há muitos anos, talvez numa visita da escola, a concentração toda nas parvoíces que se pudesse fazer na camioneta do regresso. Lembro o eco e, ia jurar, mas também não posso, o cheiro a xixi. Não era urina, era xixi, que são coisas diferentes uma da outra, não posso aqui desenvolver o tema, não quero que os meus queridos censores me alertem para uma tendência escatológica, em sentido não teofilosófico, apenas da linguagem mais da rua, que por vezes não contenho bem (piada urológica, caso eles não tinham pingas de humor).

João Taborda da Gama

Notas do Japão (IV)

Aquilo que mais impressiona no Japão é o silêncio. O silêncio das pessoas nas ruas, das pessoas nos metros, das pessoas nos museus, das pessoas nos prédios. O silêncio das ruas, dos carros, dos automóveis. E é aquilo que mais impressiona porque foi aquilo de que ninguém me avisou. Aliás, o Japão do vais adorar aquilo, é mesmo a tua cara, cidades gigantes, restaurantes, uma confusão brutal, milhões de pessoas. E disto, do que se lê, do que se sabe e se conhece, vai-se ouvindo barulho, o barulho, a campânula sonora ruidosa de cada imagem. Mas chega-se lá e a imagem bate certo, mas o som bate errado. As pessoas não falam, ou falam baixo, os carros deslizam (será do alcatrão, dos motores, de ambos?), pouca música ambiente (algum jazz bem escolhido).

João Taborda da Gama

Trabalhos

Às vezes são pequenas frases, coisas com pouca importância, comentários em tons diferentes, observações entre uma conversa normal. A primeira vez foi há vinte anos, estava na faculdade e aceitei um trabalho como motorista. Uma família de milionários franceses veio a Portugal, ao Douro, celebrar um aniversário. Os convidados foram metidos num avião, não sabiam para onde iam, desembarcaram no Porto, trouxeram cozinheiro, nem sabia que se podia viajar com cozinheiro. Vieram todos, até os amantes, identificados como tal, le baiseur de madame, pais, filhos, amigos. Aristocracia. Os ricos.