João Taborda da Gama

João Taborda da Gama

São rosas

Num mundo ideal ninguém tinha de limpar casas de banho, aspirar o pó, lavar a roupa, nem suas nem dos outros. Mas o mundo não é o mundo ideal e por isso alguém tem de limpar casas de banho, aspirar o pó, lavar a roupa, que não se limpam sozinhos. No melhor dos mundos não ideais ninguém teria de tratar apenas disso, só limpar casas de banho, só aspirar o pó, só lavar a roupa. Mas este mundo também não existe plenamente, e ainda há muita gente cuja principal ocupação é esta, e muita gente é figura de estilo, porque esta muita gente são sobretudo mulheres, pobres e de outras raças. Mulheres que se dedicam a tarefas domésticas num contexto familiar ou profissional, as donas de casa e as mulheres a dias usando terminologia de outro tempo.

João Taborda da Gama

Talvez nesse céu

Bárbara, com Robin pela mão, diz-lhe esperámos por ti. George, acabado de chegar num avião da Segunda Guerra, segura a outra mão de Robin, os três nas nuvens. É assim o cartoon do USA Today, de Marshall Ramsey, que assinala a chegada ao céu de George H. W. Bush, onde reencontra a sua mulher Bárbara e a filha Robin. Robin, a segunda filha do casal, o mais velho é George W., tinha quase 4 anos quando morreu, de leucemia. Já antes o jornal tinha assinalado com a mesma ideia a morte de Bárbara Bush, ela a chegar ao céu e a pequena Robin, com asas de anjo, a correr para ela.

João Taborda da Gama

Ora dá cá um

Depois do grande holocausto do beijinho, iniciado na década de oitenta pelo jet seis lisboeta, e depois copiado por todos aqueles que almejavam lá chegar, aterrando de copo na mão e pernas entrelaçadas nas páginas da Olá Semanário, quiçá numa festa em tafetá no T-Clube, ou bronzeados no Ancão, temos agora o professor poliamor do Prós e Contras a querer cortar no grande maná de beijinhos que é repenico entre avós e netos. Mas, antes dos netos, vamos aos betos, porque foram eles que começaram com isto tudo de acabar com o beijo.

João Taborda da Gama

Le pénis

Não gosto de fascistas e tenho pouco a dizer sobre pilas, mas abomino qualquer forma de censura de uns ou de outras. Proibir a vista dos pénis de Mapplethorpe é tão condenável como proibir a vinda de Le Pen à Web Summit. A minha geração não viveu qualquer censura, nem a de direita nem a que se lhe seguiu de esquerda. Fomos apenas confrontados com alguns relâmpagos de censura, mais caricatos do que reais, a última ceia do Herman, o Evangelho de Saramago. E as discussões mais recentes - o cancelamento de uma conferência de Jaime Nogueira Pinto na Nova, a conferência com negacionista das alterações climáticas na Universidade do Porto - demonstram o óbvio: por um lado, o ato de proibir o debate seja de quem for é a negação da liberdade sem mas ou ses, mas também a demonstração de que não há entre nós um instinto coletivo de defesa da liberdade de expressão independentemente de concordarmos com o seu conteúdo, e de este ser mais ou menos extremo.

João Taborda da Gama

Isto sou só eu a especular

Achava que no FMI de José Mário Branco se falava de especulação, e fui reouvir e reler a música à procura disso mesmo, para falar aqui sobre a especulação imobiliária. Mas não, a memória prega-nos partidas destas, temos a certeza de que sim, mas ficamos com a certeza de que não quando confrontamos certeza e realidade. Mas fiquei com uma certeza que já tinha e fiz outra: a produção intelectual em reação à crise de 2011 e o memorando da troika, todos sabíamos, era coisa de pouca densidade, mas constatei agora que também nas artes assim foi. Porque nada cultural oriundo do contexto antitroika chega aos calcanhares do FMI de 1982 do José Mário Branco.

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João Taborda da Gama

Temos tempo

Achamos que temos tempo mas tempo é a única coisa que não temos. E o tempo muda a relação que temos com o tempo. Começamos por não querer dormir, passamos a só querer dormir, e por fim a não conseguir dormir ou simplesmente a não dormir, antes de passarmos o resto do tempo a dormir, a dormir com os peixes. A última fase pode conjugar noites claras e tardes escuras, longas sestas de dia com um dormitar de noite. Disse-me um dia o meu barbeiro que os velhotes passam a noite acordados para não morrerem de noite, e se ele disse é porque é.

João Taborda da Gama

A casa e o caso Robles

Já tudo foi dito sobre o caso e a casa, uma caricatura absoluta, da compra barata ao Estado à venda cara na Christie's usando a lei da Cristas, tudo em Alfama, epicentro do terramoturismo, tudo pela mesma pessoa que passou meses a falar contra isso, mas que escreveu um hino ao pato-bravismo, a história de poucos milhares transformados em muitos milhões alavancados na banca. A caricatura só não é completa porque falta lá o BES e só não está lá o BES porque já não havia BES.

João Taborda da Gama

E se um liberal numa tarde de verão num balcão 

Nesta semana levei o meu liberalismo à inspeção. Cheguei à loja, que é um balcão mas chamam loja, e esperei. Esperei. Um casal de brasileiros queria internet para a segunda casa, trataram a menina muito bem, perguntaram tudo três vezes e ela explicou tudo três vezes, derretida. Um casal português queria devolver o telemóvel, que ficava tudo preto, quando devia dar, e não dava, ou dava um bocado e depois voltava tudo à mesma, à mesma que presumi ser o ecrã preto, queriam o dinheiro de volta mas faltava um código, falta sempre um código. Ela tinha uma tatuagem fina no longo pé direito, uma planta que saía e enrolava pelo calcanhar com a subtileza possível de uma hera massacrada pelo V de chanata. E mesmo antes de mim uma mãe com uma filha, melancolicamente apocalípticas, a internet tinha acabado e queriam mais internet no telemóvel para as férias, iam para a terra (a internet no telemóvel como forma de prevenção do suicídio adolescente). Todos resolveram os seus problemas, com aquela satisfação que dá resolver um problema num balcão numa tarde de verão sem ter de voltar.