João Taborda da Gama

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João Taborda da Gama

Notas do Japão (III)

Últimos desejos para os últimos dias em Tóquio é visitar essas duas marcantes instituições nipónicas do período pós-Showa: a Bershka e o Starbucks. A Bershka porque já se sabe que que não tem o mesmo que lá em Portugal, oh pai menos, oh pai nem venhas, oh pai o que é que tu sabes disso, nunca deves ter entrado numa Bershka. Claro que também não foram sensíveis ao argumento de estarmos em Tóquio, o poder de compra aqui ser diferente, a valorização do iene face ao euro, tudo isto é irrelevante, não por as minhas princesas serem insensíveis às grandes dinâmicas do comércio internacional, que até são, mas porque a ida à Bershka não é para comprar, é só para ver. Claro que é só para ver, incluindo ver em braille, mas nunca é só para ver. Porque vamos lá chegar e vai haver aquelas calças - e eu não tenho calças - e aquele top - e eu já não tenho tops nenhuns -, coisas que só há nesta Bershka, do outro lado do mundo, na cidade mais cara do mundo. Mas o que é isso a comparar com a desgraça de não ter calças e as aulas estarem a começar.

João Taborda da Gama

Notas do Japão (I)

Os próximos três textos não são textos, são notas, curtas notas de viagem. E notas de viagem verdadeiras, não com o pretensiosismo de quem discorre sobre os seus périplos de fim de dia em tom de romance, mas chama notas ou cadernos para parecer mais aventureiro. Estas vão ser notas até porque, e desde logo porque, são escritas na aplicação de notas do iPhone. Vim com três adolescentes para o Japão, numa intersecção cada vez mais curta de interesses mútuos, se excluirmos a América e funk brasileiro. Quatro já nadas e criadas, sobretudo uma delas, no mundo dessa coisa que invadiu o nosso quotidiano que é a manga. E não a manga fruta e a mousse de manga que são hoje mais portuguesas do que o pero e o leite-creme. A manga bonecada esbugalhada, anime que se diz animê.

João Taborda da Gama

Papelinhos e papelada

Passei a última semana em Itália, com italianos, como o nome indica, brasileiros, alguns americanos. E passam os dias a falar, e a ter de falar, dos seus presidentes. Muitas vezes desculpam-nos, noutras defendem-nos, poucas, a maior parte das vezes riem. Mas não devem rir, rir por dentro, porque por dentro ninguém gosta de ter uma presidente de quem se ri. Claro que mais vale rir do que chorar e claro também que os presidentes são apenas isso, presidentes. Mas mesmo assim.

João Taborda da Gama

Por que não votam os açorianos?

Nesta semana, os portugueses, a ciência política em geral, e até o mundo no global, foram presenteados com duas ideias revolucionárias. A primeira, da lavra de Rui Rio, foi a de que o número de deputados do Parlamento fosse móvel tendo em conta os votos brancos e nulos. Mais brancos e nulos, menos deputados, uma versão estica-encolhe do método de Hondt. É a mesma ideia dos lugares vazios para brancos e nulos, que alguns populistas defendem para a abstenção. Mas são lugares vazios na mesma, medida em que, vingando a ideia, havia menos pessoas na sala, a não ser que se fizesse no hemiciclo o que se está a fazer com as cadeiras dos comboios da ponte, ou então que nestes anos com mais brancos e nulos, portanto menos deputados, se passasse a reunir na sala do Senado, que é mais pequenina, mais maneirinha. A ideia é absurda. Mas a esquerda não quis ficar para trás neste concurso de ideias eleitorais e, pela voz do presidente do Governo Regional dos Açores, Vasco Cordeiro, chega-nos a ideia de incentivar votos com dinheiro.

João Taborda da Gama

Nada contra

A limitação do tempo, a finitude e a incompatibilidade das escolhas, a necessidade das próprias escolhas, tudo isso se torna mais claro quando temos de ir onde pensamos já não ter de ir. Foi assim que a semana passada acabei por dar por mim em Copenhaga, onde já tinha estado duas vezes e pensei que não estaria três. Nada contra os senhores, que deram ao mundo a Helena Christensen e o Peter Schmeichel, que guardava redes e marcava golos, e os ós com tracinho ou bolinhas amorosas em cima, e os vikings ou parte deles e os contos do H. C. Andersen. Por falar nisso, lá fomos ver o senhor no cemitério. No Cemitério Assistens, belo nome, onde está também o Kierkegaard e em frente dele uma estudante de Filosofia, muito compenetrada no banco de madeira a olhar para a campa do mestre, em crise existencial. Kirkegård é como se diz cemitério - o Kirkegård do Kierkegaard, como na primária, o marco do Marco, raio de língua. A culpa não é deles, mas há tanto sítio.

João Taborda da Gama

Trata-se

No sábado passado, na Feira da Ladra, tentei ensinar dois dos meus filhos a regatear, mas a coisa não correu bem. Um deles sai mais à mãe e acredita nas coisas que as pessoas lhe dizem, e por isso comeu tudo o que o vendedor quis, que o brinquedo estava em muito bom estado, que tinha extras que eram de outros brinquedos, e que já não havia mais daquilo nas lojas e, qualidade suprema, vinha com caixa. Porque toda a gente sabe que os brinquedos, depois de se brincar com eles regressam à sua respeitosa caixa, guardados sempre na prateleira dos brinquedos, ludo-cemitério de caixas organizadas por tamanho, tipo e idade. Mas ele dizia pai, tem a caixa, e lá largou os dez euros que tinha e trouxe a arena dos Pokémons, com extras e caixa, para casa. E nunca mais ninguém se lembrou da caixa, talvez o mais novo para fazer uma casa (acho que gosta da similitude fonética casa caixa), e ainda por lá está a arena.

João Taborda da Gama

Filhos de algo

Esta não foi uma semana amiga da família, em especial das mulheres. Ouviram de tudo. Ou não ouviram, porque tinham os tímpanos rebentados pelos companheiros. Graças a Deus o juiz Neto de Moura preocupou-se e mandou tirar a pulseira eletrónica ao agressor, porque só quem nunca viu uma pulseira eletrónica é que acha que um murro nos tímpanos com pulseira eletrónica dói menos do que um murro nos tímpanos sem pulseira eletrónica. Talvez por essa razão no Brasil é tornozeleira eletrónica, que só com muitas artes de capoeira se consegue rebentar um tímpano com um tornozelo, ou então é preciso recuar a 2001 e ao pontapé do Marco à Sónia, no Big Brother, ou na casa do Big Brother. Se ficarem marcas, é pôr mais maquilhagem (não esquecer o workshop de maquilhagem organizado pela Associação Sindical dos Juízes Portugueses para assinalar o Dia da Mulher, já no dia 8 de março, true story).

João Taborda da Gama

13-0221 TCX

Há dois verdes em Lisboa que só conseguem esquecer os daltónicos de alma, o verde-Estefânia e o verde-Pinóquio. São, à sua maneira, dois verdes de cura, dois verdes que curam. Mas até quando? Na Estefânia um verde-after-eightcobre paredes e aquecedores, corredores. De memória até diria que são dois verdes, mas como confiar na memória construída nas esperas num hospital, aumentada nuns pontos, apagada noutros. Quem terá escolhido estes verdes? Alguma consultoria sobre espaços hospitalares, uma equipa de cromos (do grego khroma, cor) diretamente de São Paulo, ou de Miami, uma paleta de cores e alguém disse, entre pistácio (código Pantone13-0221 TCX) e esmeralda fica aquele, e apontou para uma parede ao fundo do corredor onde um trabalhador - os homens das obras são sempre trabalhadores e o contrário - pintou quatro retângulos das quatro latas que os senhores da consultoria pediram para comprar, uma homenagem ao retângulo inspirada em Josef Albers. Mas depois acabou-se um dos verdes e o outro espaço levou com outro verde (mais abacate?), não sei o que Albers diria desta interação de cores.

João Taborda da Gama

A burocracia hipster da CP

A finitude do tempo e a infinitude dos temas fazem difícil a escolha do que ensinar aos filhos, do que lhes falar. A isto soma-se, quando é o caso, a pluralidade destes e, em qualquer caso, os programas escolares como sanguessugas do tempo e dos temas. A cultura digital ilustra bem isto com a meme "mitochondria is the powerhouse of the cell". Esta frase é usada para ilustrar a inutilidade prática da aprendizagem no sistema escolar e ressurge ciclicamente na internet - até quando continuaremos a dizer na internet, como se as coisas pudessem ressurgir noutro lado qualquer - por exemplo, na altura dos impostos?

João Taborda da Gama

Direitos humanos e liberalização da canábis

A Declaração Universal dos Direitos Humanos fez 70 anos. Aniversários de 70 anos pode dar para uma ladainha de platitudes laudatórias, e o aniversário da Declaração deu lugar a um sem-número de evocações baseadas no cliché e na banalidade do bem. Mas celebrações de 70 anos podem e devem servir para uma chamada para a ação, que não há muito tempo a perder. Uma nova política em relação às drogas é a melhor maneira de celebrar a Declaração.

João Taborda da Gama

Amor elétrico

Há uma enorme fungibilidade na cama entre o homem e o saco de água quente. Tenho pensado muito nisto neste inverno que tardava, mas que mal chegou me desaconchegou. A existência de um objeto que satisfaz uma necessidade torna o antigo provedor dessa função desnecessário. E sem função, mais solto, o ludismo apodera-se do espaço deixado, qual Quim Júlio que percebe que o que atraía nele era quilojoule, e não ele em si, a sua perna, o seu cheiro, e coloca parte da sua masculinidade em casa em causa. Parte da sua masculinidade numa versão reconstruída, moderna, antropocêntrica, romântica, porque se ele pensasse na sua masculinidade enquanto tal percebia depressa que lá no âmago sempre esteve o calor. A infidelidade térmica é das mais frias que se pode cometer, precisamente porque no início o que juntou foi o quentinho. Contra este problema há estratégias várias, ignorar, atacar, argumentar. Na argumentação a melhor é a da segurança, que os sacos de água quente, dildos térmico-emocionais, são responsáveis por milhares de acidentes terríveis no mundo inteiro, pernas queimadas, famílias dilaceradas. Basta uma pesquisa rápida e não há tabloide sem sexagenária escaldada, a perna diabética, adormecida, apenas a dar o alerta quando a água do saco já tinha cozido a carne toda. Um dia acontece-me a mim, se o tsunami chegar ao meu lugar da cama. Não há lugares cativos. Aquilo que pode ser substituído deve ser substituído, há um problema de transição, um dever de apoiar e ajudar na transição, mas uma sociedade não pode manter por manter funções em que alguém pode ser substituído por uma máquina. Penso nisso sempre que passo numa portagem e entrego um cartão a uma pessoa que mo devolve com um talão. Receber dinheiro, fazer trocos, dar talões é uma função que ninguém devia ter de desempenhar, e o objetivo devia ser que ninguém tivesse de o fazer num curto espaço de tempo, ajudando na transição aqueles que isso fizeram e fazem. Mas no inverno que chega tarde mas abrupto ninguém se preocupa com transições. Uma das coisas mais fascinantes é a importância e tempo que as nossas cabeças dedicam às coisas. Por exemplo, passei mais de meia hora agora mesmo a procurar informação sobre o papel que a temperatura corporal joga na atração sexual, encontrei informação fascinante. Mas o mais fascinante de tudo foi um livro sobre a cama conjugal, conjugal leia-se partilhada - Two in a Bed: The Social System of Couple Bed, do Paul C. Rosenblatt, psicólogo americano, de 2006. Estudar, pensar, escrever sobre isto, há quem tenha vidas interessantes, mais interessantes do que a minha. Mas enquanto li sobre isso, que pouco me ajudará a mim e ao mundo, não li sobre coisas mais importantes do que isso tudo. E é essa a dúvida, por que não conseguimos estar sempre e apenas focados naquilo que interessa? Porque não somos máquinas, dirão uns. Enquanto escrevo há uma máquina a trabalhar por mim. O novo aspirador automático Roomba, no quarto lá de dentro, a limpar (não escrevas o esterco) as marcas normais de uma família com numerosas crianças, inteligente com sensores a calcular o percurso, a voltar atrás onde há mais marcas, e tudo acompanhado pela app no telemóvel, a sensação (ilusão) de controlo. Chama-se Rodolfo o aspirador, foi a Laura que escolheu o nome, nome de homem que limpa a casa, um puxa trenós do pó do chão. Quando a Laura nasceu, na primeira vez que saiu de casa fomos todos andar de elétrico com ela. Uma espécie de batismo de cidade, batismo de rua, de gente, de gentes da gente. Enquanto aquilo sacolejava pensámos que talvez quem dizia que éramos irresponsáveis tivesse razão, podia a bebé (as pessoas que alertam dizem sempre a bebé no feminino) morrer esmagada entre um o varão e um turista calmeirão, americano do Colorado, very typical the baby. Foi há 11 anos, no 28. Ontem foram 28 os feridos do 25, elétrico que descarrilou na Lapa, talvez farto de uma vida toda nos eixos.