João Taborda da Gama

João Taborda da Gama

Linhas carmim 

As linhas podem juntar, ou dividir, espaços, pessoas, desenhos, terras, cidades, vidas; umas em relação às outras podem cruzar-se, aí, no cruzamento, no X, estão destinadas a estar pouco tempo, por mais que queiram rotundizar, às voltas, como no Playtime, de Jacques Tati, ou no Que Paródia de Férias, as linhas, por mais que queiram não podem e têm de decidir se se juntam, separam ou paralelizam. Estou numa linha, vou ter de mudar para outra. O letreiro diz Nächste Halt Solothurn, devemos ainda estar na Suíça alemã. Solothurn, solo turn, uma só saída, uma só viragem, não deve querer dizer isto, que o meu alemão nunca saiu do básico, preferi não enveredar pelo caminho normal na academia jurídica de se fingir que se sabe alemão, e às vezes as coisas não querem dizer nada, são só sons e o que as pessoas ouvem na cabeça quando os sons passam dos ouvidos para cima. Mudo de linha em Morges, um nome cinzento para um dia cinzento, depois da neve branca de Davos e Klosters, o branco mais branco que já vi a seguir àquele, nuvens baixas e a neve derretida, deve ter um nome, tudo tem um nome, mesmo que nome não queira dizer nada.

João Taborda da Gama

Mais um texto sobre o que se está a passar no Irão

O conflito no Irão tem dividido os especialistas. Uns entendem que Trump fez bem em matar o general pela ameaça que representava aos interesses norte-americanos na zona; outros que fez mal, que isso só vai tornar as coisas piores. A grande defensora de Trump é uma das minhas mais velhas, mais belicista em si, justiceira, pragmática, que sabe que mais vale um drone na mão do que dois a voar. Está isolada, embora ande a trabalhar um dos mais novos para se juntar a ela, a construir a sua coligação de combatentes da liberdade, que se algum exército tem armas tipo Fortnite, é o americano.

João Taborda da Gama

Aceleras

Uma mudança de casa para uma zona rodeada de radares fez que as multas por excesso de velocidade se fossem acumulando, umas atrás das outras, umas em cima das outras; o carro sempre o mesmo, o condutor, presumivelmente eu, dado à morte das sanções estradais. Diz o código, algures, fiquei a saber, que se pode escolher a carta ou o curso. Ou se entrega a carta, quarenta e cinco dias no meu caso, ou se faz um curso sobre velocidade, dois sábados, das nove às cinco, na Prevenção Rodoviária Portuguesa.

João Taborda da Gama

A alcachofra

Uma das coisas mais estúpidas de que me convenci ultimamente é que conseguia estar num jantar em Londres na quarta e a dar uma conferência em Saragoça na quinta à hora de almoço. Mas como acontece sempre que me convenço de uma coisa, especialmente se for estúpida, lá teve de se fazer. O conseguir não é aqui relacionado com uma impossibilidade objetiva, porque há aviões e comboios de alta velocidade, mas mais com um conseguimento anímico-subjetivo, de fazer sentido, de não ser um sacrifício demasiado grande tendo em conta o benefício. Mas o pior é que nos meus processos de decisão o sacrifício entra do lado do benefício. Sim, eu sei que há pessoas com quem se pode falar sobre isso e que se costuma resolver, e também sei que a vida de hoje anda mais aberta ao lado do prazer do que da dor, mas também é verdade que não há nada mais aditivo do que fazer coisas difíceis, resolver um problema que mais ninguém consegue, estar em dois sítios ao mesmo tempo, deixar o normal e o aborrecido a quem o merece.

João Taborda da Gama

Tudo ligado

A vida adulta tem-me mostrado muitas coisas que são mais difíceis do que parecem e outras que são o contrário, são bem mais fáceis do que parecem. Das mais difíceis, uma das mais, é conseguir ter um template de PowerPoint que funcione. Claro que isto interessa pouco aos leitores, uns porque não usam PowerPoint, outros que usam mas a quem basta o que o Microsoft lhes dá, e outros que são de empresas tão grandes e tão estabelecidas que os departamentos de marketing e de aiti já lhes personalizaram os templates. Ora sendo a minha chafarica recente, é coisa com a qual ainda não conseguimos atinar. Mas está-se a fazer o caminho. A imagem já está no ponto - agora apenas falta as funcionalidades todas.

João Taborda da Gama

Vez que são vezes

Nunca mais voltei à Torre de Belém desde a única vez que lá fui. Um dia ouvi alguém na televisão, quando via televisão, ou ouvia, ou havia, dizer que um pobre crianço que por lá encalhou a cantar tinha ido duas vezes à televisão, que tinha sido aquela, mas que tinha sido a primeira e a última, portanto eram duas vezes, não sei se foi o Júlio Isidro, se não foi, não deve ter sido, mas a minha memória diz que terá sido; e eu com a Torre de Belém também foram essas duas vezes, há muitos anos, talvez numa visita da escola, a concentração toda nas parvoíces que se pudesse fazer na camioneta do regresso. Lembro o eco e, ia jurar, mas também não posso, o cheiro a xixi. Não era urina, era xixi, que são coisas diferentes uma da outra, não posso aqui desenvolver o tema, não quero que os meus queridos censores me alertem para uma tendência escatológica, em sentido não teofilosófico, apenas da linguagem mais da rua, que por vezes não contenho bem (piada urológica, caso eles não tinham pingas de humor).

João Taborda da Gama

Notas do Japão (IV)

Aquilo que mais impressiona no Japão é o silêncio. O silêncio das pessoas nas ruas, das pessoas nos metros, das pessoas nos museus, das pessoas nos prédios. O silêncio das ruas, dos carros, dos automóveis. E é aquilo que mais impressiona porque foi aquilo de que ninguém me avisou. Aliás, o Japão do vais adorar aquilo, é mesmo a tua cara, cidades gigantes, restaurantes, uma confusão brutal, milhões de pessoas. E disto, do que se lê, do que se sabe e se conhece, vai-se ouvindo barulho, o barulho, a campânula sonora ruidosa de cada imagem. Mas chega-se lá e a imagem bate certo, mas o som bate errado. As pessoas não falam, ou falam baixo, os carros deslizam (será do alcatrão, dos motores, de ambos?), pouca música ambiente (algum jazz bem escolhido).

João Taborda da Gama

Trabalhos

Às vezes são pequenas frases, coisas com pouca importância, comentários em tons diferentes, observações entre uma conversa normal. A primeira vez foi há vinte anos, estava na faculdade e aceitei um trabalho como motorista. Uma família de milionários franceses veio a Portugal, ao Douro, celebrar um aniversário. Os convidados foram metidos num avião, não sabiam para onde iam, desembarcaram no Porto, trouxeram cozinheiro, nem sabia que se podia viajar com cozinheiro. Vieram todos, até os amantes, identificados como tal, le baiseur de madame, pais, filhos, amigos. Aristocracia. Os ricos.