João Taborda da Gama

João Taborda da Gama

Entre apps e plantas

A Web Summit acabou, mas volta, e volta por mais dez anos, e isto são excelentes notícias. E não é por Marcelo ter reanunciado outra vez a sua recandidatura nem pela coisa em si e pelo bem que faz à cidade e ao país. É mesmo porque assim temos mais dez anos para ouvir, durante uma semana em novembro, que é sempre um mês difícil porque é o mais normal de todos, o mês em que as pessoas já trabalham e esqueceram o verão e ainda não foram para o Natal, de termos ali logo no início o privilégio, o prazer, o deleite, de ouvirmos na rádio, televisão e jornais, no digital e no papel, as grandes pérolas de sabedoria daqueles que são contra a Web Summit. Pena que não os possamos ouvir em meses tristes e normais, como um março ou até um abril, mas não se pode ter tudo e agora temo-los mais dez anos, na primeira semana de novembro.

João Taborda da Gama

Que cheiro

O inferno não é chamas, nem fagulhas, nem brasas, é pessoas sem cheiro numa cidade sem cheiro a lerem livros sem cheiro na sala sem cheiro de uma casa sem cheiro. Há casas que não têm cheiro, já fui a uma ou duas, vai-se uma vez e não tem cheiro, vai-se outras e confirma-se que não, que aquilo não cheira a nada, são um rendering sonoro e visual mas sem vida, tudo clean olfativamente cheirando. Nessas casas de almofadas sem cheiro de gente nem cheiro nenhum ainda são pessoas quem lá vive?

João Taborda da Gama

Le pénis

Não gosto de fascistas e tenho pouco a dizer sobre pilas, mas abomino qualquer forma de censura de uns ou de outras. Proibir a vista dos pénis de Mapplethorpe é tão condenável como proibir a vinda de Le Pen à Web Summit. A minha geração não viveu qualquer censura, nem a de direita nem a que se lhe seguiu de esquerda. Fomos apenas confrontados com alguns relâmpagos de censura, mais caricatos do que reais, a última ceia do Herman, o Evangelho de Saramago. E as discussões mais recentes - o cancelamento de uma conferência de Jaime Nogueira Pinto na Nova, a conferência com negacionista das alterações climáticas na Universidade do Porto - demonstram o óbvio: por um lado, o ato de proibir o debate seja de quem for é a negação da liberdade sem mas ou ses, mas também a demonstração de que não há entre nós um instinto coletivo de defesa da liberdade de expressão independentemente de concordarmos com o seu conteúdo, e de este ser mais ou menos extremo.

João Taborda da Gama

Affaires de verão

Dentro de horas falarei em Frankfurt aos líderes mundiais da indústria da canábis. Ora aqui está uma frase que nunca tinha esperado poder escrever, e que se a tivesse lido a qualquer outra pessoa tinha pensado e o que é que isso me interessa. Mas como é verão espero que os leitores tenham a mente entorpecida do descanso do corpo e do regalo da vista que lhes proporcionou a praia e a piscina a que se submeteram pelo que me é dado ver pelo instagrão, esse deus do corpo depilado a laser, e que possam até nem ler este texto e passem já para o inquérito de verão onde uma qualquer celebridade vai dizer que o lugar mais exótico onde ainda não fez amor mas gostava de fazer era numa ilha secreta com o seu ou sua mais-que-tudo (havia tanto a dizer sobre isto) e que o seu maior defeito é, sinceramente, a sinceridade, como aliás se vê pela resposta anterior, pelo menos pela primeira parte. Depois, prato preferido (sushi), filme preferido (Shawshank Redemption), cidade (Barcelona, Lisboa ou Miami) e livro preferido (50 Sombras de Grey) e livro que gostava de ter escrito.

João Taborda da Gama

A casa e o caso Robles

Já tudo foi dito sobre o caso e a casa, uma caricatura absoluta, da compra barata ao Estado à venda cara na Christie's usando a lei da Cristas, tudo em Alfama, epicentro do terramoturismo, tudo pela mesma pessoa que passou meses a falar contra isso, mas que escreveu um hino ao pato-bravismo, a história de poucos milhares transformados em muitos milhões alavancados na banca. A caricatura só não é completa porque falta lá o BES e só não está lá o BES porque já não havia BES.

Dentro do Género

Tudo isto é fardo

Na vila havia uma senhora. Quando era a hora chamava-se a senhora e ela vinha a casa do doente. As pessoas saíam, ficava apenas ela e o doente. Os gemidos paravam, o serviço estava feito. Era um capitão do Exército que não dormia nem morria. Contaram esta história à mesa, era eu pequeno, e nunca mais esqueci, como nunca se esquece uma história contada à mesa em que um capitão do Exército é morto por uma almofada segurada por uma velha. Uma história distante, de como se faziam as coisas, e foi assim que me lembro de ter sabido pela primeira vez que se matavam doentes para não sofrerem mais. Abafadeira, o nome da pessoa, da função.

Dentro do Género

O lugar do homem

"Há homens que são como lugares mal situados", "homens que são como fronteiras invadidas", li num poema do Daniel Faria. E li isto enquanto estava a ler o Black Flags, do Joby Warrick, jornalista que ganhou dois prémios Pulitzer, um deles precisamente com o Black Flags que conta a história de como foi possível o Estado Islâmico. E nessa história a figura central é Ahmad Fadeel al-Nazal al-Khalayleh, que mais tarde mudou o nome para Abu Musab al-Zarqawi, por ter nascido em 1966 nos subúrbios de Zarqa, cidade industrial do noroeste jordano. Zarqawi é o tipo de Zarqa.