João Taborda da Gama

João Taborda da Gama

Faltas

E tu, o que te falta para seres feliz, perguntou ele, e para ti o que é a felicidade, respondeu ela, antes de se atravessarem na chuva de Lisboa, que parecia a de Londres, disse ele, com um quarto de Airbnb entre uma semana de turismo tecnológico e o resto da vida na terra de cada um; quarto dele ou dela, ainda não tinham decidido, e nenhum queria ser o primeiro a falar disso. As ruas estavam desertas - nas histórias de amor, as ruas não estão sempre desertas? - até ao quarto dele na Graça, que nenhum conseguia pronunciar. Acabou por ser no quarto dele, que ele lhe tinha dito que era o apartamento com a vista mais amazing de Lisboa, e ela fingiu acreditar, e disse que queria ver essa vista, fazendo um gesto com a mão de tentar cortar a neblina como se se visse alguma coisa, ou como se fossem ver a vista, e ele riu-se e disse que até lá ia resolver a neblina, que ia inventar uns óculos de VR para isso, não estavam na Web Summit?, não era ele o fundador de uma empresa tecnológica?

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João Taborda da Gama

Coisas para nós

O pior que há é termos a oportunidade de dizer uma coisa, querermos dizê-la, e de nos esquecermos de a dizer. E eu ia dizer aquilo dos carros naquela coisa da Deco. Pior quando são duas as coisas que nos esquecemos de dizer. Aquela coisa da Deco foi uma simpática conferência para onde simpaticamente me convidaram como ser orante, painelista. O nome do painel, Transportes para que Públicos, e os temas eram estes: "A centralidade do cidadão nas decisões estratégicas. Necessidades e propostas. Áreas de melhoria e orçamentos disponíveis. Dificultar a vida aos cidadãos sem alternativas claras. Capacidade financeira das famílias e mobilidade. Novos valores do passe social, reflexo no tráfego rodoviário. O que vai ser o transporte público no futuro".

João Taborda da Gama

Notas do Japão (IV)

Aquilo que mais impressiona no Japão é o silêncio. O silêncio das pessoas nas ruas, das pessoas nos metros, das pessoas nos museus, das pessoas nos prédios. O silêncio das ruas, dos carros, dos automóveis. E é aquilo que mais impressiona porque foi aquilo de que ninguém me avisou. Aliás, o Japão do vais adorar aquilo, é mesmo a tua cara, cidades gigantes, restaurantes, uma confusão brutal, milhões de pessoas. E disto, do que se lê, do que se sabe e se conhece, vai-se ouvindo barulho, o barulho, a campânula sonora ruidosa de cada imagem. Mas chega-se lá e a imagem bate certo, mas o som bate errado. As pessoas não falam, ou falam baixo, os carros deslizam (será do alcatrão, dos motores, de ambos?), pouca música ambiente (algum jazz bem escolhido).

João Taborda da Gama

Notas do Japão (III)

Últimos desejos para os últimos dias em Tóquio é visitar essas duas marcantes instituições nipónicas do período pós-Showa: a Bershka e o Starbucks. A Bershka porque já se sabe que não tem o mesmo que lá em Portugal, oh pai menos, oh pai nem venhas, oh pai o que é que tu sabes disso, nunca deves ter entrado numa Bershka. Claro que também não foram sensíveis ao argumento de estarmos em Tóquio, de o poder de compra aqui ser diferente, a valorização do iene face ao euro, tudo isto é irrelevante, não por as minhas princesas serem insensíveis às grandes dinâmicas do comércio internacional, que até são, mas porque a ida à Bershka não é para comprar, é só para ver. Claro que é só para ver, incluindo ver em braille, mas nunca é só para ver. Porque vamos lá chegar e vai haver aquelas calças - e eu não tenho calças - e aquele top - e eu já não tenho tops nenhuns -, coisas que só há nesta Bershka, do outro lado do mundo, na cidade mais cara do mundo. Mas o que é isso a comparar com a desgraça de não ter calças e as aulas estarem a começar.

João Taborda da Gama

Escassez e abundância

Isto da greve dos motoristas, que não é de todos os motoristas, nem sequer de todos os motoristas de substâncias perigosas, leva a comentarismo de vária ordem do qual não quero ficar de parte, até porque estamos no verão, um verão perfeito sem calor e com chuva, o que muito irrita toda a gente que gosta é de calor, e também, suspeito, deve estar a dar gozo aos negacionistas do aquecimento global, mas que para a semana terão de derreter as suas palavras com o calorão que vai fazer, pelo menos é o que diz o tempo.

João Taborda da Gama

Trabalhos

Às vezes são pequenas frases, coisas com pouca importância, comentários em tons diferentes, observações entre uma conversa normal. A primeira vez foi há vinte anos, estava na faculdade e aceitei um trabalho como motorista. Uma família de milionários franceses veio a Portugal, ao Douro, celebrar um aniversário. Os convidados foram metidos num avião, não sabiam para onde iam, desembarcaram no Porto, trouxeram cozinheiro, nem sabia que se podia viajar com cozinheiro. Vieram todos, até os amantes, identificados como tal, le baiseur de madame, pais, filhos, amigos. Aristocracia. Os ricos.

João Taborda da Gama

A contraintuição

Na terça-feira foi apresentado em Lisboa o relatório da Comissão Global de Políticas sobre Drogas - "Classificação de substâncias psicoativas: quando a ciência foi deixada para trás". A Comissão Global (já aqui falei dela) é um grupo de antigos líderes mundiais e cientistas que tem como principal objetivo contribuir para a discussão e a reforma das políticas de drogas mundiais. Muitos dos seus membros foram responsáveis nos seus países por políticas de drogas liberais que salvaram, e continuam a salvar, milhares de vidas (Juan Manuel Santos, na Colômbia, Jorge Sampaio, em Portugal, Ruth Dreifuss, na Suíça, para indicar apenas alguns dos nomes). Nesta coisa das drogas e da política, como ouvi dizer a uma pessoa que é uma das que mais sabem do assunto, há muito quem sofra de post retirement enlightenment syndrome, uma síndrome que aflige aqueles que durante os cargos implementaram ou não reformaram uma política proibicionista, mas que assim que abandonam os cargos são iluminados e tornam-se defensores de um modelo melhor mas pelo qual nada fizeram ou até combateram.

João Taborda da Gama

Mindfulness e camionismo

Temos todos de agradecer aos motoristas de coisas perigosas terem-nos recentrado em coisas importantes. Dados adquiridos, cartas contadas, pássaros na mão. Uma delas é terem-nos feito ver a dependência do petróleo, a carbonização das nossas vidas. Claro que sabemos, lemos e por isso não ignoramos que uma laranja tem 70% ou assim de petróleo, no transporte, nos pesticidas, na energia que tornou aquela terra fértil, nas luzes da loja, no plástico da embalagem. Mas não vemos da melhor forma de ver que é a que magoa os olhos. E isso é muito positivo, pelos dois lados, quer porque demonstra aos que acreditam que é já hoje possível uma vida descarbonizada que não sabem do que falam, como a todos os que realmente querem fazer algo, o muito que falta por fazer, e o importante que é andar mais rapidamente na mobilidade elétrica e micromobilidade, na logística urbana não dependente de petróleo e nas formas alternativas de produção.

João Taborda da Gama

Quem é que entra?

Tentando explicar o Brexit ao meu filho de 6 anos, ele não teve dúvidas, percebeu tudo, talvez porque eu explicasse bem, talvez porque ele é mais esperto do que nós, que não percebemos, talvez uma conjugação das duas, parou, olhou para mim e disse "OK, pai" (ele diz muito OK, pai), e depois perguntou: "Se a Inglaterra sai, quem é que entra?" E aí está uma bela pergunta, que ninguém anda a fazer, toda a gente preocupada com a parte subtrativa da coisa, não vendo a oportunidade de ocupar os espaços vazios. Podia ser a Turquia, mas também podia ser Israel, que assim como assim já está na Eurovisão, ou até mesmo a Google.

João Taborda da Gama

Despacho

Robert Yildirim, presidente do grupo Yildirim, deu uma entrevista ao Expresso em que se queixava da lentidão das coisas em Portugal. Ontem, um editor do Financial Times dizia-me que a grande diferença que nota em Portugal nos últimos quarenta anos, tem cá vindo regulamente, é que está tudo mais rápido, que o ritmo antes era diferente. Ambos têm razão: o tempo acelera, mas ainda nos comportamos como se o tempo não contasse, como se estivesse todo lá à nossa frente, para sempre, sem preço, sem custo, sem valor. Ir a despacho é uma antítese. Devia haver um índice de velocidade dos países, um agregado que medisse tudo, desde a velocidade em que se anda nos passeios à velocidade com que os processos andam nas gavetas burocráticas. Uma velha amiga desespera com um recurso que não anda, um banco que demora um crédito (não percebendo o que empresas como a Revolut, a Venmo e outras significam sobre o tempo dos tempos), o meu mais novo quer que lhe leia o Senhor Despachado (do Roger Hargreaves, que morreu novo com cinquenta e poucos anos). Em inglês, o Senhor Despachado é o Mr. Busy, que é diferente. E não é.

João Taborda da Gama

Seu nome é Luca

Conheci há dias um italiano, encantador como são todos os italianos, que há quatro ou cinco anos tinha vivido em Lisboa de Erasmus, como todos os italianos. Amava Lisboa, como todos os que vieram a Lisboa, e queixava-se da turistificação. Ia apostar que vi uma lágrima, ou pelo menos a humidificação do vítreo, quando me explicava os problemas da perda de identidade, da necessidade de uma luta para protegermos a autenticidade. Não tendo tido logo de mim o reflexo pavloviano de alimentar a torrente choramentosa, o Luca, vamos chamar-lhe Luca com um cê, deu dois exemplos. Um exemplo foi o clássico "é impossível morar em Alfama", não liguei porque há muito liguei a anestesia para o "é impossível morar em Alfama". Mas o outro foi menos comum no chorrilho de banalidade antiturismo e foi mais cinematográfico. Talvez porque o Luca é do cinema, é realizador de documentários, e quando ele disse o que fazia, a russa da nossa mesa, que já tinha desligado da conversa a partir do momento em que tinha percebido que Alfama não era um enclave tomado por rebeldes onde morriam pessoas, que lá no país dela têm problemas sérios, quando ele disse que era realizador de documentários, sorriu, o gelo Leste derreteu um pouco, como derrete sempre que um italiano jovem e bem parecido tem um emprego e não vive com a mãe, ainda para mais é realizador de cinema, quem não sonhou já com um realizador de cinema, ainda para mais documentários, ele no meio de guerra a mostrar ao mundo o mal para que se faça o bem, arriscando a própria vida, cuidado Luca, seu pai morreu nesse número.