João Taborda da Gama

João Taborda da Gama

Le pénis

Não gosto de fascistas e tenho pouco a dizer sobre pilas, mas abomino qualquer forma de censura de uns ou de outras. Proibir a vista dos pénis de Mapplethorpe é tão condenável como proibir a vinda de Le Pen à Web Summit. A minha geração não viveu qualquer censura, nem a de direita nem a que se lhe seguiu de esquerda. Fomos apenas confrontados com alguns relâmpagos de censura, mais caricatos do que reais, a última ceia do Herman, o Evangelho de Saramago. E as discussões mais recentes - o cancelamento de uma conferência de Jaime Nogueira Pinto na Nova, a conferência com negacionista das alterações climáticas na Universidade do Porto - demonstram o óbvio: por um lado, o ato de proibir o debate seja de quem for é a negação da liberdade sem mas ou ses, mas também a demonstração de que não há entre nós um instinto coletivo de defesa da liberdade de expressão independentemente de concordarmos com o seu conteúdo, e de este ser mais ou menos extremo.

João Taborda da Gama

Política dos transportes

Na semana passada, ao propor a descida do valor dos passes sociais em Lisboa e na Área Metropolitana de Lisboa, Fernando Medina fez política com letra grande. Política com letra grande é uma mistura de boa política pública e de boa política ideológico-partidária. E a reação negativa ao que disse é a prova disso mesmo. Caí no erro de elogiar a medida, comecei logo a apanhar, sobretudo dos meus correligionários, ouvi disparates, ouvi coisas com sentido, mas acima de tudo fiquei mesmo com a sensação de que um ou dois já teriam andado de transportes.

João Taborda da Gama

Temos tempo

Achamos que temos tempo mas tempo é a única coisa que não temos. E o tempo muda a relação que temos com o tempo. Começamos por não querer dormir, passamos a só querer dormir, e por fim a não conseguir dormir ou simplesmente a não dormir, antes de passarmos o resto do tempo a dormir, a dormir com os peixes. A última fase pode conjugar noites claras e tardes escuras, longas sestas de dia com um dormitar de noite. Disse-me um dia o meu barbeiro que os velhotes passam a noite acordados para não morrerem de noite, e se ele disse é porque é.

João Taborda da Gama

Boas da bola

Li há dias que há feministas que defendem não se poder dizer campeonato do mundo de futebol porque esse campeonato do mundo de futebol é o campeonato do mundo de futebol masculino e também há o feminino e portanto há que ser rigoroso, não tomando a parte pelo todo, e chamar masculino ao que é masculino e feminino ao que é feminino. Não estão boas da bola. Li também que a FIFA sugeriu que os realizadores mostrassem menos planos de mulheres giras nas transmissões (a imprensa diz hot, mas hot é tão difícil de traduzir). Ao contrário da querela sobre a denominação do campeonato, esta, a das boas da bola, é uma sugestão em que vale a pena pensar. O problema nestas coisas de género é ousarmos alguma ponderação para distinguir a parvoíce do necessário, sem medo da crítica que vem sempre de cada um dos extremos.

Dentro do Género

Ripa na cambalhota

O Mundial de futebol, e as vitórias que a seleção vai ter, a nossa barriguinha substituída pelos abdominais de Cristiano Ronaldo, não podem fazer esquecer o grande escândalo desportivo que vivemos. Não falo nem do lodo em que está o Sporting, com finalmente a justiça a ter juízo e a começar a pôr aquilo em ordem, nem da corrupção no Benfica, nem no Andebol leonino, nem a FIFA a fingir que está tudo bem, não. O grande escândalo da cambalhota.

Dentro do Género

Estado limite

Esqueci-me de dizer uma coisa e não gosto de me esquecer de dizer coisas, mesmo que já não venham a propósito. Vou dizer na mesma porque tem que ver com limites de intervenção do Estado, e é tema que muito me fascina. Era sobre a eutanásia, e o que me esqueci é isto: se viera a ser aprovada uma lei que permita a eutanásia, só o Serviço Nacional de Saúde deve poder praticá-la. Aliás, assim devia ser com a interrupção voluntária de gravidez. Se admitimos intervenções limite sobre a vida humana, e todos de ambos os lados da barricada admitem que estas são decisões complexas e limite, então aí apenas deve estar o Estado. A garantia de estar o Estado suplanta qualquer outro argumento, desde logo o do dinheiro dos meus impostos usados para isso, porque se há coisa para a qual serve o dinheiro dos nossos impostos é precisamente para executar as decisões-limite, garantir o cumprimento dos procedimentos definidos, e fazer que a comunidade reparta o custo moral da decisão difícil que decidiu tomar.

Dentro do Género

Saudades da porcaria

Sempre que uma coisa fica melhor dão-me as saudades de quando era uma porcaria. Não estou a falar de Alfama, nem da RTP, nem da dicção do meu mais novo. Estou a falar do Campo Grande. O Campo Grande era uma coisa tenebrosa, chegar de uma ponta à outra vivo e inteiro uma questão de sorte. E inteiro de vários pontos de vista, não só da garganta, mas também da inteireza moral, serpenteando entre tarados sexuais de um lado, e namorados experimentando o nunca escrito Kama Sutra do mobiliário urbano no outro, para chegar à natação.

Dentro do Género

Deriva

Há uma ideia, uma realidade, que é ao mesmo tempo das melhores e piores coisas do mundo, que é a ideia de haver ruas de Lisboa onde nunca fui, nunca estive, que não conheço. É mau porque uma pessoa não conhecer a sua cidade, as cidades da sua cidade, é uma das formas mais cruéis de não se conhecer a si e aos outros, sobretudo aos outros que é onde o conhecimento tem de ser mais instigado e onde está a mais doce recompensa. Mas é também, e ao mesmo tempo (pode haver um também que não é ao mesmo tempo, ou um ao mesmo tempo que não é também?), uma das coisas melhores a de saber que a cidade não acaba, que há sempre mais uma rua, mais uma escada, que se se virar por ali em vez de por ali (as mãos apontam ora para a esquerda ora para a direita) é um sítio novo, e as vidas que lá vivem, um buraco no espaço e no tempo, um portal para esse lugar que é outro lugar. Essas ruas, cujo nome nunca ouvimos, existem mesmo? E as que ouvimos o nome mas nunca vimos? A Calçada dos Barbadinhos, antes de a ter subido era mais pequena, menos íngreme, mais feia. Tinha pombos e pombais como a vizinha encosta. "A cidade não pode ser confundida com as palavras que a descrevem, mas entre uma coisa e outra há uma ligação", numa tradução livre (a tradução nunca é livre, mas isso é outra coisa) de As Cidades Invisíveis, do Italo Calvino. Sim, se fosse da geografia era da psicogeografia, ou do movimento dérive.

Dentro do Género

Tempos modernos

Há a velha história de saber se o machado que eu dou ao meu filho é o machado que era do meu avô, depois de o meu pai lhe ter mudado a lâmina e eu o cabo. No fundo é saber quando uma coisa passa a ser outra coisa. Refleti muito brevemente sobre isto nesta semana num pequeno-almoço-debate organizado pela Zeev (empresa da mobilidade elétrica) sobre os problemas jurídicos da transformação de carros com motores de combustão em carros elétricos. A questão da transformação automóvel levanta um importante conjunto de problemas jurídicos e operacionais (que transformações admitir, quem as pode fazer, quem deve responsabilizar-se pela segurança da transformação, quem certifica e homologa) - tantos anos a estudar para acabares no Direito do Tuning, ouço a voz dos mestres. A possibilidade de tirar um motor a gasolina de um carro e de lá instalar um motor elétrico, tendência que começa a surgir com a expansão da mobilidade elétrica, leva-nos de volta aos problemas das conversões GPL, as leis que tardaram, mas pior do que isso a falta de certificação de técnicos instaladores que tudo bloqueou. Para as coisas correrem melhor desta vez é preciso antecipar o fenómeno, resolver as pontas abertas nas leis (um carro que passa a ter um motor elétrico deve ser tratado como elétrico, desde logo no plano fiscal), o green tuning nunca será um desporto de massas, mas terá a sua expressão na economia circular, aproveitando com motores novos sucatas velhas.