João Taborda da Gama

João Taborda da Gama

Por que não votam os açorianos?

Nesta semana, os portugueses, a ciência política em geral, e até o mundo no global, foram presenteados com duas ideias revolucionárias. A primeira, da lavra de Rui Rio, foi a de que o número de deputados do Parlamento fosse móvel tendo em conta os votos brancos e nulos. Mais brancos e nulos, menos deputados, uma versão estica-encolhe do método de Hondt. É a mesma ideia dos lugares vazios para brancos e nulos, que alguns populistas defendem para a abstenção. Mas são lugares vazios na mesma, medida em que, vingando a ideia, havia menos pessoas na sala, a não ser que se fizesse no hemiciclo o que se está a fazer com as cadeiras dos comboios da ponte, ou então que nestes anos com mais brancos e nulos, portanto menos deputados, se passasse a reunir na sala do Senado, que é mais pequenina, mais maneirinha. A ideia é absurda. Mas a esquerda não quis ficar para trás neste concurso de ideias eleitorais e, pela voz do presidente do Governo Regional dos Açores, Vasco Cordeiro, chega-nos a ideia de incentivar votos com dinheiro.

João Taborda da Gama

Mindfulness e camionismo

Temos todos de agradecer aos motoristas de coisas perigosas terem-nos recentrado em coisas importantes. Dados adquiridos, cartas contadas, pássaros na mão. Uma delas é terem-nos feito ver a dependência do petróleo, a carbonização das nossas vidas. Claro que sabemos, lemos e por isso não ignoramos que uma laranja tem 70% ou assim de petróleo, no transporte, nos pesticidas, na energia que tornou aquela terra fértil, nas luzes da loja, no plástico da embalagem. Mas não vemos da melhor forma de ver que é a que magoa os olhos. E isso é muito positivo, pelos dois lados, quer porque demonstra aos que acreditam que é já hoje possível uma vida descarbonizada que não sabem do que falam, como a todos os que realmente querem fazer algo, o muito que falta por fazer, e o importante que é andar mais rapidamente na mobilidade elétrica e micromobilidade, na logística urbana não dependente de petróleo e nas formas alternativas de produção.

João Taborda da Gama

Quem é que entra?

Tentando explicar o Brexit ao meu filho de 6 anos, ele não teve dúvidas, percebeu tudo, talvez porque eu explicasse bem, talvez porque ele é mais esperto do que nós, que não percebemos, talvez uma conjugação das duas, parou, olhou para mim e disse "OK, pai" (ele diz muito OK, pai), e depois perguntou: "Se a Inglaterra sai, quem é que entra?" E aí está uma bela pergunta, que ninguém anda a fazer, toda a gente preocupada com a parte subtrativa da coisa, não vendo a oportunidade de ocupar os espaços vazios. Podia ser a Turquia, mas também podia ser Israel, que assim como assim já está na Eurovisão, ou até mesmo a Google.

João Taborda da Gama

Despacho

Robert Yildirim, presidente do grupo Yildirim, deu uma entrevista ao Expresso em que se queixava da lentidão das coisas em Portugal. Ontem, um editor do Financial Times dizia-me que a grande diferença que nota em Portugal nos últimos quarenta anos, tem cá vindo regulamente, é que está tudo mais rápido, que o ritmo antes era diferente. Ambos têm razão: o tempo acelera, mas ainda nos comportamos como se o tempo não contasse, como se estivesse todo lá à nossa frente, para sempre, sem preço, sem custo, sem valor. Ir a despacho é uma antítese. Devia haver um índice de velocidade dos países, um agregado que medisse tudo, desde a velocidade em que se anda nos passeios à velocidade com que os processos andam nas gavetas burocráticas. Uma velha amiga desespera com um recurso que não anda, um banco que demora um crédito (não percebendo o que empresas como a Revolut, a Venmo e outras significam sobre o tempo dos tempos), o meu mais novo quer que lhe leia o Senhor Despachado (do Roger Hargreaves, que morreu novo com cinquenta e poucos anos). Em inglês, o Senhor Despachado é o Mr. Busy, que é diferente. E não é.

João Taborda da Gama

Seu nome é Luca

Conheci há dias um italiano, encantador como são todos os italianos, que há quatro ou cinco anos tinha vivido em Lisboa de Erasmus, como todos os italianos. Amava Lisboa, como todos os que vieram a Lisboa, e queixava-se da turistificação. Ia apostar que vi uma lágrima, ou pelo menos a humidificação do vítreo, quando me explicava os problemas da perda de identidade, da necessidade de uma luta para protegermos a autenticidade. Não tendo tido logo de mim o reflexo pavloviano de alimentar a torrente choramentosa, o Luca, vamos chamar-lhe Luca com um cê, deu dois exemplos. Um exemplo foi o clássico "é impossível morar em Alfama", não liguei porque há muito liguei a anestesia para o "é impossível morar em Alfama". Mas o outro foi menos comum no chorrilho de banalidade antiturismo e foi mais cinematográfico. Talvez porque o Luca é do cinema, é realizador de documentários, e quando ele disse o que fazia, a russa da nossa mesa, que já tinha desligado da conversa a partir do momento em que tinha percebido que Alfama não era um enclave tomado por rebeldes onde morriam pessoas, que lá no país dela têm problemas sérios, quando ele disse que era realizador de documentários, sorriu, o gelo Leste derreteu um pouco, como derrete sempre que um italiano jovem e bem parecido tem um emprego e não vive com a mãe, ainda para mais é realizador de cinema, quem não sonhou já com um realizador de cinema, ainda para mais documentários, ele no meio de guerra a mostrar ao mundo o mal para que se faça o bem, arriscando a própria vida, cuidado Luca, seu pai morreu nesse número.

João Taborda da Gama

Tradições originais

Se o Natal foi inventado para saírem da toca os esquisitinhos do bacalhau, o fim de ano serve para os dos pinhões e das passas. Eu até gosto de contar as badaladas, mas tem de ser com uvas, ou amendoins, ou m&ms, ou amêndoas da Páscoa se já as houver, mas amêndoas de amêndoa não, que aquela pelezinha fica nos dentes, tem de ser de chocolate. Finezas francesas de quem gosta de ser tradicional mas à sua maneira.

João Taborda da Gama

Nunca é só isso

Estou meses sem ir a Coimbra e numa semana fui duas vezes a Coimbra. Até parece uma anedota que havia, muito ordinária, que acabava numa carruagem de comboio com um senhor a dizer vamos todos para Coimbra, vamos todos para Coimbra, mas também não me lembro bem e não é o melhor sítio para a contar mesmo que me lembrasse. Dizia que fui duas vezes a Coimbra numa semana, e das duas encontrei pessoas conhecidas de que não estava à espera, no comboio, no café, na rua. Duas coisas que acontecem cada vez menos, as pessoas contarem anedotas umas às outras, muito menos ordinárias, que não se pode, e encontrarem-se por acaso, que não acontece. E não se encontram por acaso, porque mais dificilmente se desencontram. Para encontrar é preciso desencontrar, e quando o contacto é constante, quando a aparência de acompanhamento da vida do outro rodeia tudo o que fazemos, é difícil sentir o desencontro.

João Taborda da Gama

Talvez nesse céu

Bárbara, com Robin pela mão, diz-lhe esperámos por ti. George, acabado de chegar num avião da Segunda Guerra, segura a outra mão de Robin, os três nas nuvens. É assim o cartoon do USA Today, de Marshall Ramsey, que assinala a chegada ao céu de George H. W. Bush, onde reencontra a sua mulher Bárbara e a filha Robin. Robin, a segunda filha do casal, o mais velho é George W., tinha quase 4 anos quando morreu, de leucemia. Já antes o jornal tinha assinalado com a mesma ideia a morte de Bárbara Bush, ela a chegar ao céu e a pequena Robin, com asas de anjo, a correr para ela.