João Taborda da Gama

João Taborda da Gama

Quem é que entra?

Tentando explicar o Brexit ao meu filho de 6 anos, ele não teve dúvidas, percebeu tudo, talvez porque eu explicasse bem, talvez porque ele é mais esperto do que nós, que não percebemos, talvez uma conjugação das duas, parou, olhou para mim e disse "OK, pai" (ele diz muito OK, pai), e depois perguntou: "Se a Inglaterra sai, quem é que entra?" E aí está uma bela pergunta, que ninguém anda a fazer, toda a gente preocupada com a parte subtrativa da coisa, não vendo a oportunidade de ocupar os espaços vazios. Podia ser a Turquia, mas também podia ser Israel, que assim como assim já está na Eurovisão, ou até mesmo a Google.

João Taborda da Gama

Filhos de algo

Esta não foi uma semana amiga da família, em especial das mulheres. Ouviram de tudo. Ou não ouviram, porque tinham os tímpanos rebentados pelos companheiros. Graças a Deus o juiz Neto de Moura preocupou-se e mandou tirar a pulseira eletrónica ao agressor, porque só quem nunca viu uma pulseira eletrónica é que acha que um murro nos tímpanos com pulseira eletrónica dói menos do que um murro nos tímpanos sem pulseira eletrónica. Talvez por essa razão no Brasil é tornozeleira eletrónica, que só com muitas artes de capoeira se consegue rebentar um tímpano com um tornozelo, ou então é preciso recuar a 2001 e ao pontapé do Marco à Sónia, no Big Brother, ou na casa do Big Brother. Se ficarem marcas, é pôr mais maquilhagem (não esquecer o workshop de maquilhagem organizado pela Associação Sindical dos Juízes Portugueses para assinalar o Dia da Mulher, já no dia 8 de março, true story).

João Taborda da Gama

A burocracia hipster da CP

A finitude do tempo e a infinitude dos temas fazem difícil a escolha do que ensinar aos filhos, do que lhes falar. A isto soma-se, quando é o caso, a pluralidade destes e, em qualquer caso, os programas escolares como sanguessugas do tempo e dos temas. A cultura digital ilustra bem isto com a meme "mitochondria is the powerhouse of the cell". Esta frase é usada para ilustrar a inutilidade prática da aprendizagem no sistema escolar e ressurge ciclicamente na internet - até quando continuaremos a dizer na internet, como se as coisas pudessem ressurgir noutro lado qualquer - por exemplo, na altura dos impostos?

João Taborda da Gama

Direitos humanos e liberalização da canábis

A Declaração Universal dos Direitos Humanos fez 70 anos. Aniversários de 70 anos pode dar para uma ladainha de platitudes laudatórias, e o aniversário da Declaração deu lugar a um sem-número de evocações baseadas no cliché e na banalidade do bem. Mas celebrações de 70 anos podem e devem servir para uma chamada para a ação, que não há muito tempo a perder. Uma nova política em relação às drogas é a melhor maneira de celebrar a Declaração.

João Taborda da Gama

Entre apps e plantas

A Web Summit acabou, mas volta, e volta por mais dez anos, e isto são excelentes notícias. E não é por Marcelo ter reanunciado outra vez a sua recandidatura nem pela coisa em si e pelo bem que faz à cidade e ao país. É mesmo porque assim temos mais dez anos para ouvir, durante uma semana em novembro, que é sempre um mês difícil porque é o mais normal de todos, o mês em que as pessoas já trabalham e esqueceram o verão e ainda não foram para o Natal, de termos ali logo no início o privilégio, o prazer, o deleite, de ouvirmos na rádio, televisão e jornais, no digital e no papel, as grandes pérolas de sabedoria daqueles que são contra a Web Summit. Pena que não os possamos ouvir em meses tristes e normais, como um março ou até um abril, mas não se pode ter tudo e agora temo-los mais dez anos, na primeira semana de novembro.

João Taborda da Gama

Salvadores

Isto de ser casado com uma perigosa radical católica tem alguns riscos, e não, não é só acordares um dia com seis filhos, todos maravilhosos, sem vontade de devolver ou trocar nenhum, mas seis ainda assim (olha que eles podem ler isto e não perceber a ironia, acrescenta lá mais qualquer coisa aí, dizem aqueles que não fazem ideia de que eles nunca lerão isto, mas tudo bem, acrescentado está com prejuízo para o ritmo da frase, que o ponto final só cabia ali atrás em filhos). São riscos para a saúde própria e até riscos para a própria vida num sentido mais lato e até mais vital (direito à vida tem um significado muito próprio). Lá fora do quarto ouço os passos do matulão polaco, e a porta não fecha bem, e mesmo que fechasse ele é matulão, e se lançar a manápula à maçaneta entra por aqui adentro. O quarto é do Airbnb mais barato que encontrares, um apartamento do final dos anos setenta com a ikeaização mínima, os azulejos da casa de banho num verde-claro que só havia na casa onde nasci no Lumiar, um tom abaixo do verde dos corredores e salas da Estefânia. Foi bom rever-vos.

João Taborda da Gama

Isto sou só eu a especular

Achava que no FMI de José Mário Branco se falava de especulação, e fui reouvir e reler a música à procura disso mesmo, para falar aqui sobre a especulação imobiliária. Mas não, a memória prega-nos partidas destas, temos a certeza de que sim, mas ficamos com a certeza de que não quando confrontamos certeza e realidade. Mas fiquei com uma certeza que já tinha e fiz outra: a produção intelectual em reação à crise de 2011 e o memorando da troika, todos sabíamos, era coisa de pouca densidade, mas constatei agora que também nas artes assim foi. Porque nada cultural oriundo do contexto antitroika chega aos calcanhares do FMI de 1982 do José Mário Branco.

João Taborda da Gama

Política dos transportes

Na semana passada, ao propor a descida do valor dos passes sociais em Lisboa e na Área Metropolitana de Lisboa, Fernando Medina fez política com letra grande. Política com letra grande é uma mistura de boa política pública e de boa política ideológico-partidária. E a reação negativa ao que disse é a prova disso mesmo. Caí no erro de elogiar a medida, comecei logo a apanhar, sobretudo dos meus correligionários, ouvi disparates, ouvi coisas com sentido, mas acima de tudo fiquei mesmo com a sensação de que um ou dois já teriam andado de transportes.