João Pedro Marques

João Pedro Marques

Uma sátira sobre o tráfico transatlântico de escravos

Corre nas redes sociais um pequeno vídeo que mostra, sob a forma de sátira, a origem do tráfico transatlântico de escravos, segundo Bolsonaro. De facto, o candidato à Presidência do Brasil, um homem que não é conhecido pela sua sapiência, disse há tempos, numa entrevista e referindo-se ao tráfico transatlântico de escravos, que os portugueses "nem pisavam na África" e que eram "os próprios negros que entregavam os escravos".

Opinião

Negros e brancos

Há dias cem pessoas negras assinaram uma carta aberta cuja finalidade principal é dar conta da sua total oposição à criação de um Museu dos Descobrimentos. Estas pessoas estão erradamente convencidas de que esse eventual museu teria a intenção ou o efeito de hostilizar os afrodescendentes, ou a memória que certos afrodescendentes conservam de factos ocorridos em séculos passados. Nas sociedades modernas, abertas, democráticas, tendencialmente igualitárias e multiculturais, é verdadeiramente paradoxal que estas coisas aconteçam, mas a verdade é que vemos a cada passo surgirem ideias essencialmente separatistas, como esta, da parte de gente que se diz antirracista. Há negros que acham que apenas pelo facto de o serem constituem um grupo à parte.

Opinião

Aula prática de escravatura (em árabe)

Aqui há uns anos, oito princesas de uma das mais poderosas famílias dos Emirados Árabes Unidos hospedaram-se num hotel de luxo em Bruxelas. Ocuparam um andar inteiro, pois traziam consigo alguma da sua prole, vários guardas e 23 mulheres, a maioria delas africanas, para as servirem no longo tempo em que ali iriam permanecer. Um dia uma dessas serviçais arranjou forma de contar o seu quotidiano à polícia belga. A subsequente investigação revelou que as ditas 23 mulheres eram obrigadas a trabalhar em condições próximas da escravidão. As princesas árabes tinham-lhes apreendido os passaportes e quase não as remuneravam pelo trabalho, que podia ser exigido a qualquer hora do dia ou da noite; forçavam algumas a dormir no chão, à porta dos seus quartos, para que as atendessem prontamente, enquanto as restantes ficavam ao monte numa única divisão; as 23 mulheres eram por vezes espancadas, comiam apenas o pouco que sobrava das refeições das senhoras e estavam proibidas de abandonar aquele piso do hotel, ou seja, estavam aprisionadas. A justiça belga tardou a julgar o caso mas há dias chegou, por fim, o veredicto: as princesas foram consideradas culpadas de tráfico de seres humanos e de terem sujeitado pessoas a tratamento degradante. O tribunal considerou-as moralmente responsáveis por uma forma de esclavagismo moderno, e condenou cada uma a uma multa pecuniária e a 15 meses de prisão com pena suspensa, para além de indemnizações às vítimas.

Opinião

Imagine

Há quem sustente que as pessoas têm o direito de imigrar para onde lhes apeteça, mesmo que ilegalmente, usufruindo dos apoios que cada país decidiu conferir aos imigrantes legais. Os que defendem esse ponto de vista não aceitam que os governos possam limitar ou bloquear, por razões de segurança ou outras, a entrada de imigrantes comuns (não falo aqui em refugiados de guerra) nos territórios que defendem e administram. Essa opinião está muito difundida no mundo ocidental e é a manifestação pública de uma ideologia utópica com raízes muito antigas, mas que, na sua forma moderna e popular, acessível a todos, vem florescendo desde finais da década de 1960 e que pode ser enunciada assim: "Imagine que não há países - não é difícil de imaginar. Imagine que não há nada por que tenhamos de matar ou morrer e que também não há religião. Imagine toda a gente a viver a sua vida em paz. Poderá achar que eu sou um sonhador, mas há outros como eu. Espero que um dia se junte a nós e que o mundo seja uno e de todos. Sim, imagine toda a gente a partilhar o mundo inteiro."

Opinião

Cruzadas e terrorismo islâmico

Quando, num debate, alguém condena o actual terrorismo islâmico, há geralmente outro alguém que contrapõe com um qualquer crime ou suposto crime dos ocidentais. As Cruzadas costumam ser muito relembradas nesse contexto, o que se percebe não só por porem em palco, de lados opostos da barricada, o Ocidente e o islão, mas também porque a sua evocação - supõem os que as evocam - permite matar dois coelhos de uma cajadada: por um lado, mostrar que os cristãos também fizeram barbaridades; por outro, sugerir que o terrorismo actual é uma espécie de resposta com juros a uma antiga e suprema violência ocidental para com os povos islâmicos. É por essa dupla razão que muitas pessoas invocam as Cruzadas (mesmo sabendo pouco sobre elas) e as lançam no pano verde da discussão, à laia de ás de trunfo.

João Pedro Marques

Assunção Cristas e o sacrifício

Alguns dos que desejam que o Estado continue a financiar colégios particulares em zonas onde já existem escolas públicas têm-nos brindado com argumentos que oscilam entre o absurdo e o descarado. Ainda há poucos dias tentaram extrair dividendos de uma reunião no Palácio de Belém, sugerindo que o Presidente da República apoiava as suas posições, e fizeram outro tanto com um documento técnico do Tribunal de Contas. Mais recentemente, e como que a coroar esses exercícios de desfaçatez, Assunção Cristas veio defender que, uma vez que o dinheiro do Ministério da Educação não chega para tudo, algumas escolas públicas deveriam abster-se de abrir turmas destinadas à população escolar da sua zona, para que os colégios particulares dessa zona pudessem continuar a fazê-lo e a receber o maná do erário público. Ou seja, a líder do CDS quer que a escola pública seja "sacrificada" - foi a palavra que usou - para que continue a haver subsídios estatais aos privados.