João Pedro Henriques

Timorenses festejam o resultado do referendo, antes de as milícias começarem a espalhar o pânico

Opinião

Uma ilha atravessada na garganta. Por João Pedro Henriques

Isto foi mesmo assim, juro. A avô Ermelinda avisou-me: "Se fores a Timor, bebe muito gin tónico. Tem quinino. Protege-te do paludismo." Ela sabia, tinha lá vivido com o meu avô, ainda antes da II Guerra. Foi o que fiz quando embarquei, algures em março de 1992, em Darwin, no norte da Austrália, num ferry, o "Lusitânia Expresso", sobrelotado de ativistas e jornalistas que pretendiam rumar a Díli, na "Missão Paz em Timor". O objetivo era colocar uma coroa de flores no cemitério de Santa Cruz, em homenagem às vítimas do massacre que em novembro do 1991 tinha colocado Timor nas primeiras páginas da imprensa mundial (de onde nunca mais saiu até ao referendo da independência, em 1999).

Opinião

Sim, é o fascismo (não há volta a dar)

Vale a pena continuar a bater no ceguinho? Sim, vale a pena. Primeiro do que tudo, porque o ceguinho é tudo menos ceguinho; e depois (e acima de tudo) porque aquilo que ele representa no futebol vai muito para lá do futebol. É político, só político, exclusivamente político - e não me espantaria nada se o homem não estivesse já a pensar, um dia, lançar-se para a arena política, sabe-se lá com a cobertura de quem (ou sem a cobertura de ninguém, porque não é muito difícil inventar um partido em Portugal).

João Pedro Henriques

Façam a política, não a guerra

Os especialistas dizem que não há pior guerra do que uma guerra civil. Pelos efeitos de destruição que tem - como todas as guerras - mas também pelas feridas permanentes que ficam e suas consequências na reconstrução futura. Uma nação pode até tornar-se um potentado depois de uma guerra civil (é ver os EUA). Mas a verdade é que tudo o que dividiu as pessoas e as pôs a matarem-se umas às outras, indo a matança até ao microcosmos das famílias e dos vizinhos, fica sempre a borbulhar. E basta um radical populista sem escrúpulos chegar a uma posição dominante para esse fogo se atear novamente, se lhe der jeito (é ver os EUA hoje, novamente).

Opinião

O populismo e o Dr. Pavlov

Sim, reconheço: há um certo masoquismo entre os projetos do PS para a chamada "transparência" da classe política (e dirigentes públicos em geral). Não entendo, por exemplo, porque é que o projeto sobre a "representação de interesses" (lobbying) só abrange esta atividade quando exercida sobre deputados da Assembleia da República. Posso estar muito enganado, mas palpita-me que o lobbying a sério se exerce muito mais sobre os poderes executivos (governo, administração pública, empresas públicas, autarquias, etc.) do que sobre os legislativos (Parlamento, assembleias municipais).

João Pedro Henriques

Os militares não são responsabilizáveis?

Entrei pela primeira vez num quartel para fazer a inspeção. Notoriamente, não me conheciam: fui considerado "apto". Depois, já como recruta do Serviço Militar Obrigatório, coube-me nas sortes uma unidade militar muito perto de casa. Muitos do meu pelotão não tiveram o mesmo privilégio. Um grupo de açorianos passou três meses fechado no quartel, com pequenas saídas aos fim de semana para umas passeatas pela cidade, por impossibilidade de viajarem até às ilhas. Um camarada que vivia em Chaves passava a maior parte dos fins de semana livres no comboio, ou a caminho de casa ou no regresso ao quartel.

João Pedro Henriques

Não é preciso um Bond - só alguém de confiança

Alguma coisa mudou depois da polémica em torno da indigitação (seguida de renúncia) do embaixador Pereira Gomes para secretário-geral das "secretas" portuguesas? Sim, sem sombra de dúvida. A próxima personalidade que o primeiro-ministro escolher terá todo o seu percurso profissional escrutinado detalhadamente antes de o seu nome ser publicamente anunciado. E, depois do "caso Pereira Gomes", uma parte importante nesse escrutínio - porventura até o mais importante - será a de averiguar se a personalidade escolhida tem ou não, pelo seu percurso de vida, condições para inspirar confiança aos seus futuros subordinados (e, por isso, para exercer o mandato com autoridade incontestável).

Opinião

Sim, agora até o PS também tem problemas de identidade

Dizem as narrativas habituais que o Bloco de Esquerda, o PCP e o PEV passam demasiado tempo a afirmar as respetivas "identidades", por medo de serem confundidos com o centrismo europeísta do PS. É verdade que assim é, de facto. É - e às vezes até demasiado, como se todos não conhecêssemos os dois partidos, o que representam, para quem falam, o que são e o que foram. O esforço, aliás, roça quase o patético, ocasionalmente, como se fôssemos todos estúpidos. Não há volta a dar: por mais que o BE e o PCP e o PEV se digam críticos da UE, do euro e de todos os mecanismos que impõem a Portugal fortes limites de soberania na governação económica, a verdade é que foram os três partidos à esquerda do PS que viabilizaram os Orçamentos do Estado apresentados pelo governo do PS (orçamentos construídos dentro das limitações impostas pela UE) e os dois Programas de Estabilidade apresentados pelo governo do PS (idem idem, aspas, aspas). Não vale a pena: os partidos à esquerda do PS estão dentro da governação, não estão fora. Para o bem e para o mal terão de ser corresponsabilizados pelos seus resultados, tanto no que tiverem de positivo (reposição de direitos, devolução de rendimentos) como pelo que tiverem de mau (fortes limitações na despesa pública com respetivas consequências na degradação de muitos serviços públicos). Mas enfim: sendo este procedimento mais ou menos expectável na esquerda parlamentar, já se estranha que agora o PS também mostre problemas de identidade. Quem assistiu às últimas jornadas parlamentares do partido, quinta e sexta-feira passadas, em Bragança, passou o tempo a ouvir os mais importantes dirigentes não só a afirmarem a autonomia estratégica do PS, como também - e por arrastamento - a ignorarem gloriosamente os contributos dos partidos que apoiam os socialistas no Parlamento para o sucesso da governação - e "sucesso" foi precisamente a palavra que mais se ouviu naquela reunião, "sucesso" no défice, "sucesso" no PIB, "sucesso" no emprego. Carlos César, líder parlamentar, não fez uma referência aos "primos" (é assim que alguns socialistas designam o BE, o PCP e o PEV), Ferro Rodrigues, presidente da Assembleia da República, também não, e o mesmo se passou, qual cereja no topo do bolo, no discurso final de encerramento feito pelo líder do partido, António Costa. Quer dizer: já nem se pede que o PS e o respetivo governo assumam que sem o BCE a manter a dívida barata nenhuma saída do PDE (procedimento por défice excessivo) teria sido possível (como não teria sido possível a saída do resgate, em 2014). Mas uma palavrinha de agradecimento os "primos" teriam com certeza merecido. Ainda para mais, não só os parceiros foram ignorados, como também, em cima disto, pelo menos Carlos César e Ferro Rodrigues fizeram questão de afirmar o PS como estando no centro da esquerda e, nessa medida, indisponível para frentis-mos de esquerda que o fizessem alinhar, por exemplo, em delírios antieuropeístas. Sabemos que o PS está obrigado a palavras de aviso, já tendo em conta a negociação orçamental que se aproxima - mas escusam de embrulhar isso em ideologia. É só de um orçamento que se trata. Deixem-se portanto estar sossegados: felizmente os partidos parlamentares portugueses - todos eles - têm a sua ação balizada por programas ideológicos. Essas balizas são mais ou menos flexíveis - mais no PS e à direita do PS, menos à esquerda - mas existem e sabemos quais são. E isso é bom - ou seja, não são uma coisa à brasileira, como o PMDB do "presidente" brasileiro Temer, que não tem limite ideológico nenhum e portanto funciona numa lógica de leilão permanente, admitindo tudo e o seu contrário e decidindo sempre genericamente de acordo com quem paga mais.

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3,9 mil milhões de razões para uma conversa de café

Gostava de perceber o quadro mental de um primeiro-ministro que acha que a discussão de "situações em concreto" da banca dentro do governo equivale a uma "conversa de café". Falo, claro, de Pedro Passos Coelho. Na semana passada, respondendo a Assunção Cristas, Passos produziu esta pérola, no contexto de uma discussão sobre o que o seu governo fez (ou não) quanto ao BES: "O Conselho de Ministros e o governo não se substituíram aos reguladores, portanto não podem discutir situações em concreto, não fazem conversa de café. Mas isso não significa que o governo e o Conselho de Ministros não tivessem prestado uma atenção particular ao sistema financeiro."

Opinião

Depois não se queixem, ó eleitores

Esta história ouvi-a ontem contada pela Rádio Altitude, através do respetivo site (e por indicação de fonte amiga). É simples: a estrutura distrital do PS na Guarda ameaça "retirar a confiança" ao ministro da Saúde porque a nova administração da Unidade Local de Saúde se prepara para não integrar "um único elemento" que seja "da plena confiança" das "estruturas locais e concelhias" do partido. O protesto dos camaradas já terá seguido para o ministro, Adalberto Campos Fernandes, e para a secretária-geral adjunta do partido, Ana Catarina Mendes.