João Pedro Henriques

Automóveis. O lado B do actor e humorista Pedro Alves

Lado B

Automóveis. O lado B do actor e humorista Pedro Alves

"O meu pai esteve sempre ligado ao meio automóvel. A minha paixão pelos automóveis começou por aí, aliás, era o que queria fazer da minha vida". Mas entretanto, pelos 16 anos, a rádio meteu-se no caminho, e mais tarde os sketchs humoristicos na televisão, os espetáculos, a música, o cinema e agora as telenovelas. E com isso os motores, passaram a ter um papel secundário na vida de Pedro Alves. Atualmente, é um dos protagonistas da nova telenovela da TVI Festa é Festa onde faz o papel de presidente da junta, que também é "presidente do clube de hóquei, presidente da casa do povo e também coveiro. É um registo normal mas com grande vertente humoristica. É um produto leve".

Opinião

Pode-se perder um milhão de votos? Pode

Em 1983 o PS venceu as eleições com aquele que foi na altura o seu melhor resultado de sempre: cerca de dois milhões de votos (2 061 309, mais precisamente), ou seja, 36,1% (e 101 deputados eleitos, num total de 250). Apenas dois anos depois, deu um tombo de cerca de 800 mil votos, passando para uns ridículos 20,7%, com apenas 57 deputados eleitos. Os votos que em 1985 passaram do PS para o PRD acabaram em 1987 no PSD, dando a primeira de duas maiorias absolutas a Cavaco Silva. Do desaire de 1985, o PS demoraria dez anos a recuperar.

João Pedro Henriques

Façam a política, não a guerra

Os especialistas dizem que não há pior guerra do que uma guerra civil. Pelos efeitos de destruição que tem - como todas as guerras - mas também pelas feridas permanentes que ficam e suas consequências na reconstrução futura. Uma nação pode até tornar-se um potentado depois de uma guerra civil (é ver os EUA). Mas a verdade é que tudo o que dividiu as pessoas e as pôs a matarem-se umas às outras, indo a matança até ao microcosmos das famílias e dos vizinhos, fica sempre a borbulhar. E basta um radical populista sem escrúpulos chegar a uma posição dominante para esse fogo se atear novamente, se lhe der jeito (é ver os EUA hoje, novamente).

João Pedro Henriques

Deixem lá estar a abstenção sossegada

Se olhássemos com atenção para os resultados em Loures perceberíamos quão errados estamos sempre que achamos que a diminuição da abstenção contribui automaticamente para o enriquecimento cívico da nação. Não, não contribui. Dentro da abstenção estão votos que, na verdade, não fazem falta nenhuma à democracia. Votos que até contêm na sua intencionalidade uma rejeição absoluta dos valores humanistas associados ao princípio democrático. Não, nem todos os votos são iguais. Há votos melhores e votos piores. Um voto em alguém ou em algum partido que admite a pena de morte ou a prisão perpétua (que é uma pena de morte a prazo) é um voto que mais valia não ter existido. Porque uma coisa é votar mais à direita ou mais à esquerda, mais estatizante ou menos estatizante, mais liberal ou menos liberal - e outra coisa é votar contra valores que são colunas estruturantes do nosso regime democrático. Não estou, evidentemente, a dizer que esses votos devem ser proibidos; estou a dizer que, se ficarem na abstenção, ficam lá muito bem. Uma coisa é usar o voto para enriquecer a democracia, outra é usá-lo para a destruir. Sabemos todos um bocadinho de história e sabemos que isso já aconteceu. É suicidária a convicção de que o aumento da participação eleitoral é necessariamente uma coisa boa. Parte da convicção de que o género humano é por natureza bondoso - quando não é, sobretudo em seres humanos adultos. Em Loures, o PSD de Pedro Passos Coelho deu uma indesculpável cobertura a um candidato, André Ventura, que além de declarações xenófobas defendeu explicitamente a prisão perpétua e se mostrou confortável com a pena de morte ("não me choca", disse ele). Podemos desvalorizar e dizer que foi só num concelho. Por acaso não desvalorizo: a verdade é que discursos assim, de extrema-direita, nunca tinham tido representação num grande partido do sistema. E passaram a ter (e André Ventura percebeu-o, tanto assim que já deu sinais de que quer continuar a ter carreira no partido que lhe deu refúgio em Loures). Vistos os resultados, repara-se que face a 2013 a participação eleitoral em Loures aumentou 5300 votos e o PSD cresceu 5700 votos - valores portanto muito aproximados. Não é preciso ser um génio da sociologia eleitoral para concluir que o PSD em Loures foi buscar parte do seu crescimento (e um vereador a somar aos dois que já tinha) à abstenção. Seria assim interessante que os candidatos à liderança do partido, entre o enunciado dos respetivos programas, se comprometessem abertamente com uma jura solene: nunca no seu turno o partido voltará a dar cobertura a candidatos assim, que violam frontalmente o programa do partido. Isto não é "recentrar" o partido ou ser mais social-democrata ou mais liberal ou mais bloco central ou menos bloco central ou o diabo a quatro de que agora se fala sobre as opções táticas do partido para o futuro. É só o PSD ser o que é: o PSD.

João Pedro Henriques

Sobre Pedrógão, nada a dizer

Ou melhor: tanto, que é melhor nem dizer muito. O que não falta por aí são opiniões. Boas, más, assim-assim, "avalizadas" ou amadoras, não interessa. Milhares, milhões de palavras a circular por todo o lado, ditas, escritas, etc. E de tudo sobram dois sentimentos: horror e impotência. Há décadas que ouvimos falar da "reforma da floresta", do "desordenamento", dos proprietários pobres, velhos e isolados que não têm como manter limpo o seu pedaço de floresta. E do problema da coordenação dos bombeiros, da ausência dos aviões da Força Aérea, do escândalo nojento dos Kamov, do Exército que se calhar podia fazer mais para ajudar. Lamento dizer: mesmo que esteja politicamente algo a ser feito, demorará muitos anos a ter efeito. Sessenta e dois (ou mais) mortos e centenas de vidas devastadas não vão mudar nada. Se calhar, o melhor mesmo era entregar a floresta à indústria do papel. Toda. Garanto que haveria ordenamento; e fogos devidamente organizados; e rendimento seguro para os proprietários. No curto-prazo, sacrifique-se a ministra da Administração Interna. Não resolve nada mas alivia. Mudemos de assunto. Assalta-me a sensação de que está a agravar-se a mania dos políticos nos tratarem a todos como se fôssemos estúpidos. Estou a falar, neste caso, da decisão de candidatar Lisboa a sede da Agência Europeia de Medicamentos. Através de uma fonte próxima, o primeiro-ministro quis construir uma narrativa sobre o seu próprio papel. É assim: "Eu até queria o Porto, mas os técnicos foram a Londres em fevereiro e disseram-me que não era possível." Como o DN reconstituiu, quando esses "técnicos" (o ministro da Saúde e a secretária de Estado dos Assuntos Europeus) foram a Londres, em fevereiro, já estava mais que decidido que Lisboa seria a cidade candidata. Verdadeiramente, nem há nenhum documento governamental que prove que o Porto foi alguma vez considerado. Mas depois o Porto começou a berrar (tarde, mas alto). E estamos a meses das autárquicas. E o PS local não podia deixar Rui Moreira sozinho com essa bandeira e virou o bico ao prego em relação ao que tinha votado no Parlamento. E o Bloco foi atrás e o CDS também e ainda o PSD - enfim, todos esforçando-se para serem os melhores a dar o dito por não dito (menos o PCP e o PEV, honra lhes seja). Costa, capaz de aprender na passada, acionou o Plano B. Afinal o Porto vai ser considerado. Mas - como já tinha acontecido com a história do secretário-geral das "secretas" - fê-lo demons-trando uma notável capacidade para nunca dar a cara pelo seu próprio erro. Um artista, dirão os admiradores. No campeonato da carapauzice de corrida não há como ele.

João Pedro Henriques

Não é preciso um Bond - só alguém de confiança

Alguma coisa mudou depois da polémica em torno da indigitação (seguida de renúncia) do embaixador Pereira Gomes para secretário-geral das "secretas" portuguesas? Sim, sem sombra de dúvida. A próxima personalidade que o primeiro-ministro escolher terá todo o seu percurso profissional escrutinado detalhadamente antes de o seu nome ser publicamente anunciado. E, depois do "caso Pereira Gomes", uma parte importante nesse escrutínio - porventura até o mais importante - será a de averiguar se a personalidade escolhida tem ou não, pelo seu percurso de vida, condições para inspirar confiança aos seus futuros subordinados (e, por isso, para exercer o mandato com autoridade incontestável).

João Pedro Henriques

Com a cabeça enfiada na areia não se ouve nada

Se calhar é melhor explicar isto como quem faz um desenho. O que muda mais a sua vida? O aumento dos escalões do IRS ou a nomeação de duas pessoas para o Conselho de Finanças Públicas (CFP)? A correta remuneração dos pensionistas com carreiras contributivas de 40 e mais anos ou a escolha de dois administradores para o Banco de Portugal (BdP)? O aumento do salário mínimo nacional (SMN) ou os SMS que supostamente terão sido trocados entre o ministro Mário Centeno e o ex-administrador da CGD António Domingues?

Opinião

Quer a sua faturação telemóvel vigiada pelo Estado?

Em agosto de 2011, o jornalista Nuno Simas - meu amigo, aviso já - ficou a saber, pelos jornais, que dados de tráfego do telemóvel que usava (rede Optimus, hoje NOS, por fusão com a Zon) tinham ido parar às mãos de um senhor que na altura dirigia a nossa secreta externa, o SIED - Serviço de Informações Estratégicas de Defesa. Basicamente, o senhor irritara-se com notícias que o Nuno Simas tinha assinado no Público dando conta de problemas internos nos serviços de informações e procurara saber quem eram as suas fontes nos serviços, através do registo das chamadas do jornalista (para quem telefonara, quando, quanto tempo).

Opinião

3,9 mil milhões de razões para uma conversa de café

Gostava de perceber o quadro mental de um primeiro-ministro que acha que a discussão de "situações em concreto" da banca dentro do governo equivale a uma "conversa de café". Falo, claro, de Pedro Passos Coelho. Na semana passada, respondendo a Assunção Cristas, Passos produziu esta pérola, no contexto de uma discussão sobre o que o seu governo fez (ou não) quanto ao BES: "O Conselho de Ministros e o governo não se substituíram aos reguladores, portanto não podem discutir situações em concreto, não fazem conversa de café. Mas isso não significa que o governo e o Conselho de Ministros não tivessem prestado uma atenção particular ao sistema financeiro."