João Melo

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Ato falho ou cinco equívocos de António Costa

A entrevista do primeiro-ministro português, António Costa, ao jornal Público, no passado dia 4 de março, é uma contundente demonstração das dificuldades da sociedade portuguesa em lidar com o seu passado colonial e as respetivas sequelas, das quais a principal é, sem sombra de dúvida, o racismo (antinegro, sobretudo). Da sua leitura, uma ilação se impõe, inquestionável: a superação da mentalidade colonial da sociedade portuguesa ainda tem um longo caminho a percorrer.

João Melo

África e o islão: que futuro?

No início deste mês, o islamismo africano voltou a ser notícia, mais uma vez por más razões: o sequestro de mais de 300 jovens estudantes nigerianos na cidade de Kankara, estado de Katsina. O sequestro foi reivindicado pelo Boko Haram, organização ligada ao Estado Islâmico. Os estudantes foram libertados dias depois, mediante, segundo uma fonte da France Press, o pagamento de um resgate pelas autoridades nigerianas, mas o episódio mantém na ordem do dia as inquietações sobre o futuro do islamismo em África.

João Melo

O "voto étnico" na América

Como é que funcionou o "voto étnico" nas últimas eleições norte-americanas? De acordo com uma projeção provisória da cadeia de televisão CNN, o candidato democrata e vencedor das referidas eleições, Joe Biden, teve 42% dos votos dos eleitores brancos, contra 57% de Donald Trump; 87% dos votos negros, contra 12% do seu adversário; 66% dos votos latinos, contra 32% do republicano; 63% dos votos dos asiáticos, contra 31% do ainda presidente; e, por fim, 58% dos "outros" (seja lá o que isso for), contra 40% do atual ocupante da Casa Branca.

Exclusivo

João Melo

Entre o silêncio e o gueto

Em texto anterior, lembrei que a presença africana em Portugal, incluindo quer os berberes e os árabes do norte de África quer os indivíduos originários da região subsariana do referido continente, remonta ao século VII. Talvez devido ao atual aspeto cromático dos árabes e berberes do norte, em particular as suas elites, que passaram por um processo de embranquecimento histórico, a sua condição de indivíduos africanos tende a ser omitida, o que serve ao mesmo tempo para silenciar a contribuição africana em geral para a formação portuguesa e para alimentar o preconceito racial contra os africanos negros, na sua maioria oriundos do sul do Sara.

João Melo

Pandemia, violência e democracia

Os governos amam pandemias da mesma forma que amam as guerras; porque lhes dá poder; dá-lhes o controlo e dá-lhes a capacidade de impor obediência aos seres humanos." Esta frase, que começou a circular nas últimas semanas em várias redes sociais é atribuída ao advogado Robert F. Kennedy Jr., filho do antigo congressista americano Robert Kennedy e sobrinho do antigo presidente John F. Kennedy, assassinado em Dallas em 22 de novembro de 1963. A mesma teria sido proferida em Berlim, no dia 29 do passado mês de agosto, durante uma palestra sobre o novo coronavírus.

João Melo

"Em nome de Deus"

O título tem aspas por profundo e sincero respeito aos religiosos de boa-fé. Esclareço-o sem quaisquer trocadilhos ou ironia, pois a verdade é que muitos crentes, de todas as religiões, usam a sua fé para objetivos escusos e condenáveis. Como o fazem também, aliás, muitos defensores de outras formas de ideologia. Dizer que ninguém, absolutamente, é santo ou puro seria, como é óbvio, um nítido exagero, mas a história dos seres humanos demonstra que muitos não praticam o que dizem defender e aconselham ou exigem que os outros o façam. Os "santos" e "puros" que existem talvez sirvam apenas, infelizmente, para confirmar essa provável regra.

Opinião

Os novos desafios africanos

No início deste ano, o Fundo Monetário Internacional (FMI) previu um crescimento económico entre cinco e seis por cento em 21 países africanos. Contudo, e como lembra o economista bissau-guineense Carlos Lopes, a narrativa global dominante acerca de África, de matriz ocidental, mas alimentada igualmente pelos próprios africanos, não fala desses "campeões", mas apenas dos países com problemas e deficiências. As economias mais ricas possuem um rácio da dívida pública relativamente ao respetivo produto interno bruto (PIB) superior ao da generalidade das economias africanas, mas as agências de rating focalizam-se unicamente nestas últimas, tendendo a dramatizar irreversivelmente o problema. Como consequência, as primeiras continuam a ter acesso facilitado aos créditos concessionais, a juros entre zero e um por cento (por vezes, inclusive, negativos), enquanto os países africanos são forçados a ir aos mercados, onde, para conseguir empréstimos, têm de pagar juros que podem chegar aos sete por cento. O curioso, segundo nota igualmente Carlos Lopes, é que emprestar às economias africanas é dois por cento mais rentável do que à região mais próxima, a Ásia do sudeste, o que torna ainda mais difícil de entender as dificuldades que tem África de aceder aos referidos empréstimos. O que se passa, portanto? E o que fazer para alterar esse cenário? Duas razões, quanto a mim, explicam a narrativa dominante sobre a situação em África, que, como vimos, está ao arrepio dos números. A primeira é a persistência da ideologia e da estratégia neocolonial por parte do chamado Ocidente (Europa e EUA) em relação ao continente africano, que continua a ser visto, preferencialmente, como um mero fornecedor de matérias-primas. A segunda é a incapacidade das elites africanas, em especial os políticos e os quadros técnicos, de formularem um pensamento próprio e de desenharem um modelo de desenvolvimento que não seja uma mera cópia dos modelos globais hegemónicos. A atual pandemia da covid-19 veio, entretanto, pôr em xeque algumas verdades incontestáveis estabelecidas nas últimas quatro décadas, desde a relação entre crescimento económico e respeito pela natureza até ao papel dos Estados, sobretudo em áreas como a saúde e a pesquisa científica, apontando para a necessidade de mudanças estratégicas globais, como o reforço da digitalização e a redução das energias fósseis. Isso abre certas oportunidades ao continente africano, que poderá queimar algumas etapas. Dois exemplos: por um lado, a juventude da população africana é comprovadamente um fator de potenciação do processo de digitalização do continente; por outro lado, África tem recursos - água, sol, vento, minerais estratégicos - que lhe permitem transitar diretamente, em muitos casos, para as energias renováveis. Temos, para isso, dois grandes desafios pela frente. O primeiro é livrarmo-nos da armadilha do pensamento global único, imposto pelo Ocidente, pelo que as nossas elites, formadas em grande parte, precisamente, nas escolas ocidentais, têm de ser capazes, como as asiáticas, de usar os conhecimentos adquiridos para formularem estratégias próprias. O segundo é agir como um bloco, condição fundamental para negociar com os outros blocos e as principais potências mundiais em condições mais vantajosas do que ainda acontece. Jornalista e escritor angolano. Diretor da revista África 21

João Melo

Antirracismo ou identitarismo?

O atual debate global sobre o racismo e as formas de superá-lo tem levantado questões que, se a humanidade estiver realmente disposta a eliminar todas as formas de divisão com base na "raça", tem de discutir e resolver. Uma delas é a relação entre o combate antirracista e as lutas identitárias. Antecipando o meu posicionamento sobre o assunto, começo por afirmar que, na minha opinião, o objetivo final da luta antirracista deve ser o fim de todas as diferenças com base na cor da pele e não apenas a afirmação das várias identidades cromáticas existentes, embora também me pareça não só inevitável, mas igualmente necessário que passe por esse estágio.