João Melo

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As eleições no Brasil também nos dizem respeito

É já no próximo domingo, 2 de outubro, que os brasileiros serão chamados às urnas para escolherem o presidente da República, assim como os novos senadores, deputados federais e estaduais e governadores. A escolha do primeiro é o que mais tem mobilizado a atenção da opinião pública internacional. O facto justifica-se, desde logo, pela importância do Brasil, pois, afinal, trata-se do maior país da América Latina, o maior país de língua portuguesa e uma das principais economias do mundo, fazendo parte do grupo de potências do chamado Sul Global.

João Melo

Do bicentário do Brasil e da tentativa de apagar a presença de África nas américas

O tratamento mediático mainstream tanto no Brasil como em Portugal, seu antigo colonizador, do bicentário da independência do maior país da América Latina foi, de um modo geral, uma demonstração de uma irrefutável verdade histórica: as elites ocidentalizadas (o adjetivo é político-cultural) globalmente hegemónicas são profundamente racistas e eurocêntricas. Não nos deve espantar, pois, que ajam como se a importância de África e dos africanos para a construção do mundo moderno fosse inexistente.

João Melo

Para quebrar a maldição africana

Agostinho Neto, num discurso célebre, disse uma vez que África parece um pedaço de carne onde cada um vem debicar o seu pedaço. Penso recorrentemente nessa frase. A mesma voltou a assomar-me à cabeça nos últimos dias. De facto, entre o final de julho e o início de agosto, três dirigentes mundiais visitaram o continente, tendo a guerra da Ucrânia como pano de fundo. Foram eles o presidente francês, Emmanuel Macron, o chefe da diplomacia russa, Sergei Lavrov, e o secretário de Estado norte-americano, Antony Blinken.

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Bolsonaro, o corrupto

Em 2018, o capitão que havia sido expulso do exército brasileiro e deputado que, em 27 de mandato, apenas conseguiu aprovar dois projetos de lei foi eleito presidente da República. Uma das bandeiras que conseguiu a façanha de fazer o cágado subir ao galho mais alto da árvore, para evocar um ditado africano, foi a luta contra a corrupção. Muitos liberais e até progressistas brasileiros participaram entusiasticamente nessa operação. Até hoje, os bolsonaristas mais ferrenho acreditam que Bolsonaro é o grande paladino da luta contra a corrupção, tal como alguns juram que viram Jesus sentado em cima de uma goiabeira.

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Vêm aí os russos... e os chineses também!

Costumo recordar-me muitas vezes de uma história curiosa ocorrida em Portugal em 1974, logo após o 25 de Abril, quando eu estava em Coimbra a estudar Direito (curso que abandonei, para bem da minha sanidade pessoal). Segundo um jornal da época, ligado às forças fascistas em debandada, guerrilheiros cubanos estariam na Serra da Estrela, no âmbito de uma invasão do comunismo a Portugal. O pasquim exortava os habitantes da região, por isso, a pegar em armas para caçar os invasores.

Opinião

África, China e Europa

O reputado economista bissau-guineense Carlos Lopes publicou recentemente na sua conta do Twitter um mapa do Economist que é obrigatório mostrar aos líderes e comentaristas europeus quando eles falam da suposta dependência do continente africano em relação à China. O que mostra o referido mapa? Uma realidade insofismável: em vinte anos (de 2000 a 2020), o comércio mundial com a nação mais populosa do planeta cresceu de 25% para 75%, envolvendo maioritariamente todos os continentes, exceto a América do norte (EUA e Canadá); a maior parte da Europa, inclusive, aparece no mapa tingido a cor de laranja, tal como os demais continentes (tingi-los de vermelho seria, certamente, provocatório demais).

João Melo

Brasil, entre o plebiscito e o golpe

Para os povos do antigamente chamado Terceiro Mundo, a luta entre a barbárie e a civilização, a ditadura e a democracia, o reforço do unilateralismo e a possibilidade de uma ordem mundial multilateral, não se passa na Ucrânia, mas no Brasil. A guerra da Ucrânia é uma guerra intercapitalista, uma luta pelo controlo dos recursos estratégicos do mundo e pela redefinição do equilíbrio geopolítico saído da queda do Muro do Berlim e do fim do "socialismo real". O povo ucraniano é a primeira vítima dessa guerra. Se a mesma não for parada, todos os povos e países do mundo o serão, com consequências ainda inimagináveis ou talvez não.

João Melo

Juntos, mas não misturados

A invasão da Ucrânia pela Rússia gerou uma série de "danos colaterais" que seriam curiosos, se não fossem dramáticos e reveladores da conversão da imprensa mainstream ocidental numa mera agência de propaganda até ao recurso a práticas fascistas por alguns daqueles que dizem ser contra a intervenção militar de Moscovo em nome da democracia e do mundo livre. Utilizo deliberadamente no mesmo parágrafo as expressões "invasão" e "intervenção militar", por não ver nelas nenhuma diferença de fundo; certas discussões a respeito desse falso assunto são apenas risíveis.

João Melo

Direita, esquerda, volver

Sendo percetível a existência de uma tentativa de inflexão do mundo à direita, por parte de poderosas forças ultraconservadoras aglutinadas em torno de princípios aparentemente díspares, mas que, na realidade não o são - do revivalismo racista e supremacista branco à revolução tecnocomunicacional e ao capitalismo financeiro -, a vitória claríssima do centro-esquerda em Portugal, no último domingo, é uma demonstração de que é possível enfrentar e vencer o espetro extremista e fundamentalista, erroneamente chamado "populismo", das forças ultrabilionárias que estão por detrás de bannons, trumps, bolsonaros, le pens e venturas, posando de empreendedores e inovadores.