João Lopes

"A Sobremesa" (1921): na intimidade da pintura de Pierre Bonnard.

Opinião

Há um artista a viver dentro do seu smartphone

No menu dos smartphones proliferam aplicações que nos convidam a fazer fotografias com os mais variados recursos técnicos. Incluindo as que evocam certas memórias mais ou menos distantes, algumas permitindo até a recuperação nostálgica de películas que, como dizem os tecnocratas, foram "descontinuadas". Exemplo insólito: uma aplicação que oferece a possibilidade de refazer o look de uma determinada película da Fuji, que, pela densidade dos seus verdes e castanhos, ficou associada ao visual da década de 90 - a "atualização" vai ao ponto de inscrever nas imagens agora obtidas uma data de um ano daquela década.

João Lopes

Ler ou não ler, eis a questão

Saber ler é fundamental nas sociedades modernas. Mas a leitura, ao contrário da linguagem, não emerge naturalmente. Requer um ensino sistemático e coerente com o sistema de escrita. A aprendizagem do código alfabético é a primeira tarefa com que se confronta o aprendiz da leitura, constituindo, juntamente com a fluência, a base da compreensão da leitura. Da solidez desta base dependem todas as aprendizagens posteriores. Aprender o código alfabético significa conhecer as correspondências letras-sons, quer no contexto de letras isoladas, quer no contexto de cadeias de letras (palavras). O papel do ensino é particularmente relevante nesta aprendizagem, possivelmente mais do que em qualquer aprendizagem escolar posterior.

João Lopes

Os filmes a preto e branco já não são o que eram

Paradoxos da vida cinéfila... Ao longo dos anos, deparei com uma reação frequente aos filmes com imagens a preto e branco. Seriam sintoma de uma pobreza expressiva, e até técnica, que as cores vieram "corrigir". O preto e branco não passaria de um sinal de pretensiosismo estético e vaidade filosófica, apenas celebrado por um público minoritário de intelectuais... Sem esquecer que há toda uma cultura do insulto que aplica a palavra "intelectual" como um gesto automático de ostracismo e subsequente purificação.

João Lopes

A sociedade das cabeças falantes

Esta imagem de Greta Garbo é muito anterior ao nosso tempo de circuitos virtuais. Pertence a um dos clássicos absolutos do romantismo cinematográfico: Margarida Gauthier (título original: Camille), uma variante de A Dama das Camélias realizada por George Cukor em 1936. E porque a pulsão romântica alimenta o seu próprio assombramento, lembremos que, poucos anos depois, em 1941, A Mulher de Duas Caras, também sob a direção de Cukor, seria o filme com que, aos 35 anos, de modo brusco e irreversível, Garbo encerrou a sua carreira.

João Lopes

Torre Bela, aqui e agora

A imagem possui aquele grão, irregular e frágil, de uma memória de várias décadas. O fotograma pertence a Torre Bela, documentário realizado pelo alemão Thomas Harlan, entre março e dezembro de 1975, testemunhando a ocupação da herdade ribatejana da Torre Bela pelos seus trabalhadores. Os protagonistas são um camponês que não aceita que o seu instrumento pessoal de trabalho possa ser encarado como sendo "da cooperativa" e Wilson Filipe, de alcunha Sabu, tentando demonstrar-lhe que estão todos a viver um "processo" capaz de pôr fim à "tua vida de escravo".