João Gobern

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Opinião

NAVEGAR É PRECISO. Quinhentinhos

Os computadores, sobretudo os pessoais e caseiros, também nos trouxeram isto: a acessibilidade da "memória", através do armazenamento, cronológico e quantificado. O que me permite - sem esforço - concluir, e partilhar, que este é o meu texto número 500 no Diário de Notícias. Tendo trabalhado a tempo inteiro e colaborado em muitas outras publicações, "mais do que prometia a força humana", nunca tive, em quatro décadas de peças assinadas, uma oportunidade semelhante de festejar algo de semelhante, fosse pela premência do tempo útil sobre o "ato contemplativo" ou pela velocidade inusitada com que ia perdendo os trabalhinhos, nem por isso merecedores de prolongamento do tempo de "vida útil". Permitam-me, pelo ineditismo da situação, esta rápida viagem que, noutro quadro e noutras plataformas, receberia a designação (problemática, reconheça-se) de egosurfing.

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Opinião

Navegar é preciso. Geração espontânea

O seu a seu dono: o mote para esta crónica foi-me "oferecido" por Luísa Sobral, uma artista cujo crescimento, múltiplo, tenho a sorte de acompanhar a par e passo, a uma distância "prudente" (para ambos) mas com a atenção plenamente justificada pelos méritos acumulados. Falávamos, desta vez, das gerações e das mudanças de circunstância que - também - ajudam a caracterizá-las. O que me levou a mais uma viagem no tempo, direitinho à época em que, sobretudo no rock nacional (o tal que conseguiu escapar, por causa do talento e persistência dos músicos, ao destino de "galinha dos ovos de ouro", depois de um período em que passar à porta de um estúdio quase equivalia a um convite para gravar...), a rivalidade era parte integrante da roda de alimentos. Não se tratou, entenda-se, de um exclusivo nacional e basta recordar o que muitos viveram, cerrando fileiras em torno dos Beatles ou, por oposição, mergulhando na trincheira ao lado dos Rolling Stones. Ou, muitas luas mais tarde, como tantos se ocuparam a tomar partido pelos Blur contra os Oasis, ou vice-versa.

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João Gobern

Simone e outros ciclones

O mais fácil é fazer coincidir com o avanço da idade o crescimento da necessidade - também um enorme prazer, em caso de dúvida - de conversar e, mais especificamente, do desejo de ouvir quem merece. De outra forma, tornar-se-ia estranho e incoerente estar às portas de uma década consecutiva em programas de rádio (dois, sempre com parceiros que acrescentam) que se interessam por escutar histórias e fazer eco de ideias e que fazem "gala" de dar espaço e tempo a quem se desafia para vir falar. Não valorizo demasiado a idade, porque mantenho intacta a certeza de que se aprende muito com os mais novos, e não apenas com aqueles que cronologicamente nos antecederam. Há, no entanto, uma diferença substancial, quando se escuta - e tenta estimular-se aqueles que, por vias distintas, passaram pelo "olho do furacão". Viveram mais (com o devido respeito, "vivenciaram" fica para os que têm pressa de estar na moda...), experimentaram mais, enfrentaram batalhas e circunstâncias que, de alguma forma, nos podem ser úteis muito além da teoria. Acredito piamente que há pessoas, sem distinção de sexo, raça, religião ou aptidões socioprofissionais, que nos valem como memória viva, num momento em que esta parece cada vez mais ausente do nosso quotidiano, demasiado temperado pelo imediato, pelo efémero, pelo trivial.

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João Gobern

Há pessoas estranhas. E depois há David Lynch

Ganha-se balanço para o livro - Espaço para Sonhar, coassinado por David Lynch e Kristine McKenna, ed. Elsinore - em nome das melhores recordações, como Blue Velvet (Veludo Azul) ou Mulholland Drive, como essa singular série de TV, com princípio e sempre sem fim, que é Twin Peaks. Ou até em função de "objetos" estranhos e ainda à procura de descodificação definitiva, como Eraserhead ou Inland Empire, manifestos da peculiaridade do cineasta e criador biografado. Um dos primeiros elogios que ganha corpo é de que este longo percurso, dividido entre o relato clássico construído sobretudo a partir de entrevistas a terceiros próximos e envolvidos, por um lado, e as memórias do próprio David Lynch, por outro, nunca se torna pesado, fastidioso ou redundante - algo que merece ser sublinhado se pensarmos que se trata de um volume de 700 páginas, que acompanha o "visado" desde a infância até aos dias de hoje.

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João Gobern

País com poetas

Há muito para elogiar nos que, sem perspectivas de lucro imediato, de retorno garantido, de negócio fácil, sabem aproveitar - e reciclar - o património acumulado noutras eras. Ora, numa fase em que a Poesia se reergue, muitas vezes por vias "alternativas", de esquecimentos e atropelos, merece inteiro destaque a iniciativa da editora Valentim de Carvalho, que decidiu regressar, em edições "revistas e aumentadas", ao seu magnífico espólio de gravações de poetas. Originalmente, na colecção publicada entre 1959 e 1975, o desafio era grande - cabia aos autores a responsabilidade de dizerem as suas próprias criações, acabando por personalizá-las ainda mais, injectando sangue próprio às palavras que já antes tinham posto ao nosso dispor.

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Navegar é Preciso

NAVEGAR É PRECISO. Como eles pensam

Quem não pecou, na época da juventude, que atire a primeira pedra. Penso ser mais comum do que confessada uma rápida transição da idade dos "porquês?" para o tempo de todas as certezas, quando os conselhos tantas vezes são catalisadores do tédio e a paciente experiência dos mais velhos corresponde, amiúde, a um "sermão" que mal se escuta. Perde-se muito com essa fase de inflexibilidade e de indisponibilidade, "ganha-se" uma militância geracional que os anos e as vivências se encarregam de remeter para o lugar, reduzido, secundário, que efetivamente merece. Até pelas contradições que encerra. Lembro-me bem de um episódio que me deixou baralhado e que coincide com a minha primeira experiência profissional vivida em sessões (muito) contínuas: assentei arraiais na redação do jornal A Capital, onde a "escola" exigia resposta para os desafios mais variados - assuntos, estilos, dimensão dos textos e por aí fora, numa multidisciplinaridade que, no mínimo, garantia um enorme jogo de cintura e uma saudável flexibilidade. Era o mais novo da casa, com quase dez anos de diferença de quem vinha a seguir na linha etária. Provocador, mais do que arrogante, trouxe de casa um recorte, religiosamente transportado do meu quarto para a parede atrás da secretária que me foi designada - dizia isto: "É preciso arrebatar o poder aos velhos." A frase estava assinada pelo músico norte-americano Frank Zappa (1940-1993), um símbolo maior de rebeldia. Os meus chefes limitaram-se a reagir com um sorriso condescendente ou com um encolher de ombros de indiferença. Mas houve um, por acaso aquele que me foi distribuindo amavelmente mais dores de cabeça e ordens de reescrita, que me abalou. Limitou-se a dizer: "Estou safo... Sou muito mais novo do que o Zappa..." E era verdade.

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João Gobern

O regresso ao desconhecido

O descalabro económico e a rutura da paz social na Venezuela - que nos impressiona ainda mais porque o carácter quase exemplar daquele país, sobretudo no quadro sempre adiado da América Latina, não vem da era dos nossos pais ou antepassados, antes se constitui como uma memória própria - ameaçam tocar-nos mais de perto do que parecia lógico e possível. O êxodo começou há algum tempo e a comunidade portuguesa, que inclui os lusodescendentes, não pode escapar-lhe. Começamos a ouvir falar em "planos de contingência" que alguns, em nome uma oportunidade (ou oportunismo?) para angariar dividendos políticos, reclamam ver revelada publicamente, sem se darem ao trabalho de pensar que, em matérias de salvação e de resgate, vale mais ser discreto e eficaz. De qualquer forma, e embora deva sempre falar mais alto o valor da vida (e, se possível, da qualidade de vida), os números impressionam: 400 mil cidadãos nacionais, estimativa que triplica se entrarem na estatística filhos e netos daqueles que decidiram emigrar. Por aquelas paragens, depois do Brasil, foi precisamente na Venezuela, com quase 32 milhões de habitantes até há dois anos, que mais portugueses se fiaram.

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João Gobern

Navegar É Preciso - Sequestrados de verão

A fazer fé nos meteorologistas, a onda de calor que, durante dias, nos fez sentir como se andássemos de viagem por Marraquexe ou por Tunis, chegará - por agora - a um momento de "rebentação". Ou de recessão, como preferirem. Tal não invalida que continuemos a suar, a aceitar como uma bênção a necessidade de hidratação, a procurar refúgio nas brisas (quando se manifestem...), nas ventoinhas e nos leques, mais do que nos ares condicionados, tantas vezes traiçoeiros. Para muitos, o "consumo" de cultura não tem relação direta com a sazonalidade. Confesso o pecado de não pensar exatamente assim e, prova corriqueira disso mesmo, está o facto de, durante anos, ter cumprido um ritual de descompressão e de pura alegria no dia preciso em que começavam as férias: escutar e cantarolar o clássico Tarde em Itapoã, entregue pelas vozes de Vinicius de Moraes e de Toquinho. Valia como um hino de abertura a tudo o que escapava ao longo dos meses de trabalho ou de aulas. Inspiradamente: "Um velho calção de banho / O dia pra vadiar / Um mar que não tem tamanho / Um arco-íris no ar." Perfeito. Nem sequer o contacto real com a praia próxima de Salvador, Baía, Brasil, suja e descuidada, conseguiu esbater a via rápida que a cantiga proporciona em direção ao cenário ideal. Talvez por isso, a bossa-nova - de Nara Leão a Stan Getz, mas sempre com Tom Jobim e João Gilberto - se transformasse no género eleito para o verão. Ou até para uma qualquer e convicta "aspiração estival".

bolso de valores

Sempre letras grandes

Se esta coisa de escrever sobre livros não obedecesse a algumas regras - ainda assim, menos do que as aplicadas noutras áreas -, pode o leitor ficar certo de que o espaço ocupado por esta crónica estaria hoje confinado a um rol contínuo de citações, pescadas à linha nestes trabalhos jornalísticos que Herberto Helder (1930-2015) publicou durante a sua passagem por Angola no Notícia - Semanário Ilustrado, nos anos já distantes de 1971 e 1972. Para quem lê aqui, seria só lucro e, seguramente, esse recurso assumiria o papel de uma via rápida para chegar a este livro memorável. Em sentido duplo, pelo menos: desde logo, porque é notável a forma empática, mas sem cedências "populistas", que o homem que conhecemos como poeta maior utiliza para chegar aos seus destinatários de primeira instância; depois, porque este jornalismo parece, todos os dias, afastar-se de nós mais um pouco, sujeito a códigos e interesses, a espartilhos e "normas de conduta" que só contribuem para eclipsar qualquer surpresa e quaisquer hipóteses de boa (e personalizada) escrita e de exposição de ideias fortes.