João Gobern

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Navegar é preciso. Aventuras e Piqueniques

Uma leitura cruzada, à cata de outras realidades e acontecimentos, deixa-me diante de uma data que, confesso, chega e sobra para impressionar: na próxima semana - mais exatamente a 28 de novembro - cumpre-se meio século sobre a morte de Enid Blyton (1897-1968). Acontece que a controversa escritora inglesa, um daqueles exemplos que justifica a ideia que cabe na expressão "vícios privados, públicas virtudes", foi a minha primeira grande referência na aproximação aos livros. Com a ajuda das circunstâncias, é certo - uma doença, chata e "comprida", obrigou-me a um "repouso" de vários meses, longe da escola, dos recreios e dos amigos nos idos pré-históricos de 1966. Esse "retiro" foi mitigado em duas frentes: a chegada de um televisor para servir o agregado familiar - com direito a escalas militantes e fervorosas no Mundial de Futebol jogado em Inglaterra, mas sobretudo entregue a Eusébio e aos Magriços, e os livros dos Cinco (no original The Famous Five), nada menos do que 21, todos lidos nesse "período de convalescença", de um forma febril - o que, em concreto, nada a tinha que ver com a maleita.

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O IVA contra a gripe

Com mais convicção ou maior resignação, fomo-nos habituando ao jargão que nos impôs termos como "empreendedorismo" ou, menos mal, "iniciativa". Não há, que eu conheça, tecnocrata que lhes resista, independentemente do quadrante político em que enfileire. Bem vistas as coisas, são palavras que enchem a boca e que, ditas sem mais, ainda impressionam e acabam por soar como bandeiras de suporte para outra, a da "modernização". Para algo completamente diferente, também nos foi entrando pelo catálogo das ideias incontestáveis, pela mão de cientistas, espontâneos ou "partes" comercialmente interessadas, a caracterização de Portugal (fora os outros) de um país que contacta pouco com a natureza, que não se apega ao ar livre, que assume rotinas sedentárias, sem espaço para a surpresa e para as alternativas. Tudo jóia.

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Mapplethorpe, esse desconhecido

Soará paradoxal, estou certo, mas, quando começou a desenhar-se a "polémica Mapplethorpe", que envolve Serralves e a exposição do fotógrafo norte-americano, acabei por lembrar-me de uma expressão com raízes na agricultura e na meteorologia: "Sol na eira e chuva no nabal." Significa um desejo, tantas vezes irrealizável, de juntar o melhor de dois mundos, descurando as incompatibilidades, naturais ou não, que não permitem qualquer hipótese de conciliação. Percebe-se que, dentro da sua política cultural, uma casa como Serralves precise, pelo menos de vez em quando, de momentos de notoriedade junto de um público mais alargado do que os habituais frequentadores - e Mapplethorpe vale, nesse domínio, como um ás de trunfo. A questão é que essa não é a única bagagem que a obra de Robert Mapplethorpe (1946-1989) carrega atrás de si, desde sempre. A controvérsia vem desde o tempo em que, à boa maneira norte-americana, se pôs em causa que uma abordagem fotográfica tão "explícita" (sigamos as convenções...) tivesse beneficiado de dinheiros públicos e fosse apresentada sem "véus". Em Washington, a exposição custou o posto profissional a Janet Kordan, curadora sob contrato com o Institute of Contemporary Art. Parece familiar, esta história? Por lá, foi muito mais longe: a polémica chegou ao Congresso.

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Primeiro prémio

Há livros que saem melhores do que a "encomenda". Aquele que entra em cena nas próximas linhas permite manter uma tradição muito lá de casa: aproveitar as escolhas que o júri do Man Booker Prize, prémio britânico que corresponde a um cheque de 50 mil libras e a um crescimento exponencial das vendas, elabora e daí eleger (pelo menos) um. O processo de selecção não podia ser mais egoísta, uma vez que parte simplesmente de uma análise das sinopses, via rápida para, em função dos interesses, partir à descoberta. Não se olha a nomes nem a currículos, ou quase - em caso de "empate" no interesse pelos sumários, privilegia-se os autores que ainda não se conhecem. Como acontece, agora, com a canadiana Esi Edugyan e com o contagiante Washington Black (ed. Serpent's Tail). O que revela, de imediato, a primeira falha: há pouco mais de meia dúzia de anos, a Porto Editora lançou por cá Um Blues Mestiço (Half Blood Blues, no original), mas terá sido um dos que se escaparam na malha da rede, empírica e desregrada, que vai servindo de padrão, à falta de melhor. Até porque a recuperação do "tempo perdido" é possível, quase sempre.

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Fake, fancaria e fantasia

Será difícil começar melhor do que com um recurso assumidamente reverencial à sábia, acutilante e provocadora Agustina Bessa-Luís: "As boas ficções fazem as realidades mais saborosas, e, se não fosse o que os outros nos fazem errar sobre eles, a vida era menos interessante. A verdade, que eu saiba, não é virtude" (do livro Eugénia e Silvina, 1989). De uma forma mais elegante e mais envolvente, assim se estende a velha máxima que recomenda que não devemos deixar que a verdade estrague uma boa história. Para subscrever esta ideia, ou estas propostas, basta pensar como seria o mundo, mais aborrecido e menos palpitante, sem as ficções de García Márquez, de Borges, de Juan Rulfo, só para nos mantermos no universo mágico da América Latina. Há, no entanto, uma ressalva que merece vir desde já à superfície: se Agustina é uma das nossas grandes estetas, arquiteta de conceitos, espeleóloga de palavras - apesar de a ter ouvido dizer, com ironia: "sei que sou das escritoras portuguesas mais conhecidas, nem por isso das mais lidas..." -, a escritora amarantina nunca foi jornalista, embora tivesse exercido funções de diretora de um jornal, do Porto, e impressione com uma imensa colaboração em publicações periódicas.

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O esplendor do trivial

De que falamos quando nos referimos a Mário de Carvalho? Mesmo que cada um dos seus leitores ("bravos", escreve o autor) e cada uma das leitoras ("pacientes", avança) tenha pleno direito a uma caracterização autónoma, acabaremos todos por fazer escala em dois pontos fulcrais, apercebidos - e desenvolvidos em nome das experiências, as da vida e as da própria escrita - desde os já distantes, mas só no tempo, Contos da Sétima Esfera e Casos do Beco das Sardinheiras: por um lado, um minucioso observador da espécie, sempre capaz de aproximar o trivial do transcendente, de desenhar miradouros inesperados sobre o mais corriqueiro quotidiano; por outro lado, um aventureiro da palavra, fadado para subverter significados imediatos e para nos enriquecer o património vocabular, sem nunca por nunca se deixar resvalar para o academismo ou para uma qualquer voluntária armadilha que faça tropeçar quem lê.

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A história mais difícil

Por uma vez, tudo o que pensamos sobre o abuso sexual de menores poderá ser posto em causa, levando por diante a decisão de ler até ao fim esta primeira obra de uma jovem escritora (nascida em Catânia, na Sicília, há menos de 30 anos). Tal não acontece porque a autora vise desculpabilizar o comportamento dos adultos, Giorgio e Silvia, pai e mãe de Maria, perante a criança - se um se lança em jogos hediondos e repulsivos com uma inocente que, ao menos de início, parece procurar apenas proteção e carinho, a outra torna-se seguramente responsável pelo pecado de fechar os olhos e de ignorar todos os sintomas de que algo de anormal se passa entre o marido e a filha. A questão que Anna Giurickovic Dato levanta, numa trama entrecortada de momentos felizes e de ocasiões dramáticas, é muito mais perturbadora - porque, recusando maniqueísmos, mundos a "preto e branco", ela acaba por conferir a Maria, que vemos passar de menina a peculiar pré-adolescente, uma personalidade que nos confunde, nos agita e, sinceramente, nos assusta. Porque, terminada em desastre a primeira experiência com o pai, misteriosamente morto, ela aparece munida de uma capacidade sedutora, de um conhecimento de práticas de tentação, de uma intuição muito avançada para a sua idade, que desconcerta e "desregula" Antonio, o novo namorado da mãe.

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Amar até à morte

Alfred Hitchcock ganhou fama de sátiro, torturador implacável, sobretudo na forma como lidava com as actrizes, quase todas atiradas para o papel (predominante) de "louras gélidas", carregadas de amarguras e contratempos. Algumas das suas "vítimas" não deixaram de contar os tormentos a que foram submetidas - aconteceu com Tippi Hedren, com Anne Baxter, com Eva Marie Saint e, claro, com Kim Novak -, sempre em nome do desempenho artístico e de um qualquer combate pela qualidade dos filmes. Sem querer assumir papel de sentenciador numa matéria em que aquilo que se sabe soa sempre "deficitário" em relação ao "plano geral", quase apetece dizer que as damas não sofreram em vão. O caso de Kim Novak é, de resto, exemplar: depois de passar pelas mãos de Hitchcock, precisamente no filme que adapta este livro da dupla francesa Boileau-Narcejac (ou, com o devido respeito por quem tanto contribuiu para um estilo de policiais e thrillers, Pierre Louis Boileau e Thomas Narcejac, ambos nascidos na primeira década do século XX), nunca mais conseguiu regressar ao nível que atingiu em Vertigo, apesar de alguns bons momentos, como Beija-me, Idiota! ou Notável Senhoria. Faltava sempre qualquer coisa, fosse o mistério, a sedução, a duplicidade ou a aflição - e era aí que Sir Alfred acrescentava sempre uns pós da sua mestria...