João Gobern

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Tirar a nódoa

São poucas as "fugas", poucos os desvios à honestidade intelectual que irritem mais do que a apropriação do alheio em conluio com a apresentação do mesmo com outra "assinatura". É vulgarmente referido como plágio e, em muitos casos, serve para disfarçar a preguiça, para fintar a falta de inspiração (ou "bloqueio", se preferirem), para funcionar como via rápida para um destino em que parece não importar o património alheio. No meio jornalístico, tive a sorte de me deparar com poucos casos dessa prática repulsiva - e alguns deles até apresentavam atenuantes profundas. Mas também tive o azar de me cruzar, por alguns meses, tempo ainda assim demasiado, com um diretor que tinha amealhado créditos ao publicar como sua uma tese universitária, revertido para (longo) artigo de jornal. A tese e a história "passaram", o diretor foi ficando. Até hoje, porque muitos desconhecem essa nódoa e outros preferiram olhar para o lado enquanto o promoviam.

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Primeiro prémio

Há livros que saem melhores do que a "encomenda". Aquele que entra em cena nas próximas linhas permite manter uma tradição muito lá de casa: aproveitar as escolhas que o júri do Man Booker Prize, prémio britânico que corresponde a um cheque de 50 mil libras e a um crescimento exponencial das vendas, elabora e daí eleger (pelo menos) um. O processo de selecção não podia ser mais egoísta, uma vez que parte simplesmente de uma análise das sinopses, via rápida para, em função dos interesses, partir à descoberta. Não se olha a nomes nem a currículos, ou quase - em caso de "empate" no interesse pelos sumários, privilegia-se os autores que ainda não se conhecem. Como acontece, agora, com a canadiana Esi Edugyan e com o contagiante Washington Black (ed. Serpent's Tail). O que revela, de imediato, a primeira falha: há pouco mais de meia dúzia de anos, a Porto Editora lançou por cá Um Blues Mestiço (Half Blood Blues, no original), mas terá sido um dos que se escaparam na malha da rede, empírica e desregrada, que vai servindo de padrão, à falta de melhor. Até porque a recuperação do "tempo perdido" é possível, quase sempre.

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Fake, fancaria e fantasia

Será difícil começar melhor do que com um recurso assumidamente reverencial à sábia, acutilante e provocadora Agustina Bessa-Luís: "As boas ficções fazem as realidades mais saborosas, e, se não fosse o que os outros nos fazem errar sobre eles, a vida era menos interessante. A verdade, que eu saiba, não é virtude" (do livro Eugénia e Silvina, 1989). De uma forma mais elegante e mais envolvente, assim se estende a velha máxima que recomenda que não devemos deixar que a verdade estrague uma boa história. Para subscrever esta ideia, ou estas propostas, basta pensar como seria o mundo, mais aborrecido e menos palpitante, sem as ficções de García Márquez, de Borges, de Juan Rulfo, só para nos mantermos no universo mágico da América Latina. Há, no entanto, uma ressalva que merece vir desde já à superfície: se Agustina é uma das nossas grandes estetas, arquiteta de conceitos, espeleóloga de palavras - apesar de a ter ouvido dizer, com ironia: "sei que sou das escritoras portuguesas mais conhecidas, nem por isso das mais lidas..." -, a escritora amarantina nunca foi jornalista, embora tivesse exercido funções de diretora de um jornal, do Porto, e impressione com uma imensa colaboração em publicações periódicas.

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O esplendor do trivial

De que falamos quando nos referimos a Mário de Carvalho? Mesmo que cada um dos seus leitores ("bravos", escreve o autor) e cada uma das leitoras ("pacientes", avança) tenha pleno direito a uma caracterização autónoma, acabaremos todos por fazer escala em dois pontos fulcrais, apercebidos - e desenvolvidos em nome das experiências, as da vida e as da própria escrita - desde os já distantes, mas só no tempo, Contos da Sétima Esfera e Casos do Beco das Sardinheiras: por um lado, um minucioso observador da espécie, sempre capaz de aproximar o trivial do transcendente, de desenhar miradouros inesperados sobre o mais corriqueiro quotidiano; por outro lado, um aventureiro da palavra, fadado para subverter significados imediatos e para nos enriquecer o património vocabular, sem nunca por nunca se deixar resvalar para o academismo ou para uma qualquer voluntária armadilha que faça tropeçar quem lê.

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A história mais difícil

Por uma vez, tudo o que pensamos sobre o abuso sexual de menores poderá ser posto em causa, levando por diante a decisão de ler até ao fim esta primeira obra de uma jovem escritora (nascida em Catânia, na Sicília, há menos de 30 anos). Tal não acontece porque a autora vise desculpabilizar o comportamento dos adultos, Giorgio e Silvia, pai e mãe de Maria, perante a criança - se um se lança em jogos hediondos e repulsivos com uma inocente que, ao menos de início, parece procurar apenas proteção e carinho, a outra torna-se seguramente responsável pelo pecado de fechar os olhos e de ignorar todos os sintomas de que algo de anormal se passa entre o marido e a filha. A questão que Anna Giurickovic Dato levanta, numa trama entrecortada de momentos felizes e de ocasiões dramáticas, é muito mais perturbadora - porque, recusando maniqueísmos, mundos a "preto e branco", ela acaba por conferir a Maria, que vemos passar de menina a peculiar pré-adolescente, uma personalidade que nos confunde, nos agita e, sinceramente, nos assusta. Porque, terminada em desastre a primeira experiência com o pai, misteriosamente morto, ela aparece munida de uma capacidade sedutora, de um conhecimento de práticas de tentação, de uma intuição muito avançada para a sua idade, que desconcerta e "desregula" Antonio, o novo namorado da mãe.

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Amar até à morte

Alfred Hitchcock ganhou fama de sátiro, torturador implacável, sobretudo na forma como lidava com as actrizes, quase todas atiradas para o papel (predominante) de "louras gélidas", carregadas de amarguras e contratempos. Algumas das suas "vítimas" não deixaram de contar os tormentos a que foram submetidas - aconteceu com Tippi Hedren, com Anne Baxter, com Eva Marie Saint e, claro, com Kim Novak -, sempre em nome do desempenho artístico e de um qualquer combate pela qualidade dos filmes. Sem querer assumir papel de sentenciador numa matéria em que aquilo que se sabe soa sempre "deficitário" em relação ao "plano geral", quase apetece dizer que as damas não sofreram em vão. O caso de Kim Novak é, de resto, exemplar: depois de passar pelas mãos de Hitchcock, precisamente no filme que adapta este livro da dupla francesa Boileau-Narcejac (ou, com o devido respeito por quem tanto contribuiu para um estilo de policiais e thrillers, Pierre Louis Boileau e Thomas Narcejac, ambos nascidos na primeira década do século XX), nunca mais conseguiu regressar ao nível que atingiu em Vertigo, apesar de alguns bons momentos, como Beija-me, Idiota! ou Notável Senhoria. Faltava sempre qualquer coisa, fosse o mistério, a sedução, a duplicidade ou a aflição - e era aí que Sir Alfred acrescentava sempre uns pós da sua mestria...

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Jogo sem fronteiras

Desta vez, Juan José Millás parece disponível para aderir a uma linearidade galopante, encadeando capítulos curtos (sempre menos de três páginas) num ritmo que, partindo do contágio, chega a tornar-se sufocante. Tudo - e não parece muito, esgotando-se perto da centena de páginas - para contar o percurso de uma criança que se torna jovem e depois adolescente e ainda homem, sem deixar de carregar uma imensa culpa e uma enorme frustração. A primeira nasce do ato, involuntário, que provoca um mortal acidente de viação, num momento em que o seu horizonte carregava a hipótese de suicídio. A segunda, base do que vai acontecendo, é afinal o desgosto por aquilo que interpreta como distanciamento e desprezo paternos, algo que pesa em quase todos os comportamentos do protagonista. Não se presuma, no entanto, que há aqui mais um contributo do estudo do "conflito de gerações". O autor prefere um jogo muito mais subtil, sem fronteiras nem limites, para explanar o abismo entre pai e filho. No limite, o que os afasta é isto: o mais velho só lê, chegando inclusivamente a ser desafiado para participar em programas de televisão em que debate os livros e diz de sua justiça sobre a qualidade do que vai sendo publicado. Pelo contrário, o mais novo não lê - em especial obras que presume que lhe são "dedicadas" ou "dirigidas", como O Idiota e Crime e Castigo, de Dostoievski, ou "romances policiais" (aqui, por se sentir um criminoso, sempre a fugir à sentença), como Águas Profundas ou Doce Doença, de Patricia Highsmith.

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Compasso de aventura

As reedições e as recuperações de catálogo aparentemente esquecido podem ajudar a cumprir uma função primordial: dotar-nos de um quadro mais completo e mais rigoroso do autor convocado para a ribalta. Ler mais será, quase sempre, poder ler melhor, não só aquilo que circunstancialmente nos é oferecido, mas também aquilo que nos foi ficando "atravessado" por abordagens anteriores. Nesta ocasião, em concreto, o regresso a O Senhor Ventura tem dois enormes trunfos. O primeiro é, desde logo, fazer emergir alguém que não merecia nunca estar submerso numa bruma de esquecimento - Torga é, apesar de alguns juízos superficiais e/ou malévolos, uma das maiores figuras das nossas letras durante grande parte do século XX. Pelo seu carácter multidisciplinar, que nos permite viajar, sem sobressaltos mas com uma constante inquietação, pela poesia e pelo conto, sem esquecer o enorme fresco que são os seus 16 volumes de Diários, em que não se dá uma linha por perdida, em que somos constantemente desafiados para um novo posto de observação face a episódios que vão do mais trivial e íntimo ao mais perene e coletivo. Pela saudável e robusta ética que se desprende de uma obra habitualmente descrita como "telúrica", e que só a preponderância da "sociedade do espetáculo" (expressão certeira de Umberto Eco) explica ter sido injustamente atirada para o terreno dos "fora de moda". Em segundo lugar, porque o tom, a cadência, porventura o objetivo de O Senhor Ventura - originalmente publicado em 1943, num cenário de II Guerra Mundial, e "limpo das principais impurezas", diz o autor, em 1985 -, vêm efetivamente acrescentar novas cores à paleta mais constante de Torga.

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Paralelo ou contraponto

Sempre admirei aqueles que conseguem, "através" de um quadro, a partir de uma pintura, observar e registar aquilo que não é óbvio para o comum dos mortais, por mais prolongado e atento que seja o olhar que dedicam ao objeto "em estudo". Admiro ainda mais aqueles que, mais do que explicarem-nos as técnicas, decifrarem-nos as cores, identificarem-nos as escolas, localizarem-nos uma época ou circunscreverem-nos uma geografia, chegam ao ponto de nos permitir relacionar aquilo que vemos com o mais que vamos sabendo, com tudo o que vamos sentindo, mas não conseguimos sistematizar. Se o génio está necessariamente em quem pinta, o talento também não é avaro naqueles - que desaguando na crítica, recorrendo à história, mergulhando até nas biografias - que nos vão suave mas assertivamente conduzindo (nunca empurrando, que tal é a negação do livre arbítrio que tendemos a associar à arte) para um espectro muito mais largo, e por isso mais compensador, do conhecimento. Tentá-lo diante de um filme, de uma canção (ou de um disco), de um livro, nem sempre é fácil - a partir de uma imagem pintada, é uma tarefa que me suscita muitas vezes um sentimento de gratidão, porque me sinto amparado nas minhas (enormes) limitações.