João Céu e Silva

1864

"Não estou a fazer nada"

As oito letras da palavra "governar" correspondem, segundo o dicionário, a "exercer o governo de, administrar, gerir, dominar ou imperar", entre outras possibilidades. É verdade que estes significados não são desconhecidos da maioria dos portugueses, no entanto, as recentes eleições explicaram melhor que, ao verem surgir os resultados eleitorais, "exercer o governo" não era a primeira preocupação dos eleitores (e comentadores), preferindo antes conjugar os dois últimos significados: dominar ou imperar. Era só disso que se falava face aos números que o governo precisava para ser o dono do país durante quatro anos enquanto se faziam apostas sobre os partidos que teriam de se deixar "dominar" para que houvesse um futuro a quatro anos.

João Céu e Silva

Comprar um bilhete para a ficção real

Há uma comédia de Arnold Schwarzenegger em que um jovem que adora filmes recebe do projetista do cinema aonde vai frequentemente um bilhete especial, que tem o dom de o transportar para dentro da ação do que está a passar na tela. Em Last Action Hero, Schwarzenegger faz o seu habitual papel, o de um polícia que luta contra o mal, afinal o objetivo de quase todos os filmes do género, mesmo que pelo meio mate dezenas de bandidos, dispare centenas de balas e destrua cenários e carros sucessivos. O jovem participa do que vai acontecer no filme e diz algumas das deixas habituais do ator, como se fizesse parte da aventura cinematográfica e conhecesse os seus tiques habituais: "I'll be back", por exemplo.

João Céu e Silva

Saramago e Lobo Antunes na inquisição

Quanto tempo é necessário para se conhecer o escritor António Lobo Antunes e escrever sobre ele e a sua obra? No meu caso, levou dois anos de entrevistas quase semanais, de que resultaram 500 páginas - após muito desbaste e autocensura - num volume intitulado Uma Longa Viagem com António Lobo Antunes. Diga-se que falar com um escritor desta dimensão não é coisa fácil e, para se chegar a um resultado biográfico/literário aceitável, é necessário conversar muito. Conseguir aprofundar a vida, a escrita, a publicação e ao que se negou. Sem deixar de voltar aos temas tempos depois para ver se era mesmo verdade o que tinha sido dito, tanto assim que entre encontros acabou um livro, publicou um segundo e começou o terceiro.

Novas Edições

Do princípio ao fim da "Fleet Street portuguesa" nas ruas do Bairro Alto

A surpresa está logo no início do livro, quando este O Bairro dos Jornais refere que o Bairro Alto "foi berço e morada de centenas de jornais". Tantos? Sim, é verdade, e contar as suas histórias foi o objetivo desta investigação de Paulo Martins, que o prefácio de Appio Sottomayor descreve em poucas páginas e de um modo que abre o apetite para a leitura imediata de 400 páginas em que é retratada a "Fleet Street portuguesa". O prefaciador elogia o volume e define-o como "uma espécie de Bíblia da Imprensa na sua pátria do Bairro Alto", ou seja, volta a abrir o apetite para a sua leitura.

Opinião

Até que ponto a história cabe num século de cinema por João Lopes

A página de apresentação do livro Cinema e história - aventuras narrativas do crítico de cinema João Lopes explica imediatamente ao que se vai nas restantes páginas, repletas de episódios exemplares sobre esta arte. Nada que os leitores do Diário de Notícias não pressintam ao pegar em mais um volume da coleção de ensaios da Fundação Francisco Manuel dos Santos, pois a sua presença nas páginas deste jornal enquanto crítico de cinema certifica que conhece bem a matéria-prima que trabalha. Mesmo que nessa página inicial o autor avise que o "cinema não deve ser encarado como máquina de "reprodução" ou "ilustração" de um saber já garantido pelos livros de história". Muito pelo contrário, afirma, "o cinema foi uma via de reconversão e recriação dos próprios modos de fazer história".

Novas Edições

Textos a propósito de tudo e de nada escritos por Galeano, Kraus e Mexia

A literatura tem destas coisas, o texto curto e incisivo. Por norma, surge a coberto do género conto, com princípio, meio e fim, bem balanceados, e o resultado, quando é bem feito, é devastador. No caso dos livros aqui referidos, um de Eduardo Galeano, outro de Karl Kraus e o novo de Pedro Mexia, o género não é o conto mas faz lembrar essa arte. O primeiro contempla o estilo da micronarrativa em O Livro dos Abraços. O segundo subintitula-se Sátiras Escolhidas. O terceiro, reúne crónicas publicadas. Pode-se juntar este trio sob o mesmo chapéu?

Novas Edições

O melhor argumento para o policial e que Agatha Christie nunca utilizou

O livro tem um aviso no início que informa: "Talento para Matar não é uma obra autorizada por Agatha Christie Lda", o que pode ser visto como um bom sinal, pois não faz parte daquelas sequelas que escritores menos talentosos do que a Dama do Crime se têm encarregado de escrever, prolongando desse modo a vida literária da autora com balões de oxigénio frustrantes. Não, Talento para Matar é uma narrativa ao estilo do género policial mas com os condimentos próprios de quem sabe agarrar o leitor pelo colarinho e emocioná-lo na leitura, e o seu ator, Andrew Wilson, já publicou trabalhos suficientes para se conhecer a sua capacidade e arte - como é o caso de uma biografia da poeta Sylvia Plath e da escritora de policiais Patricia Highsmith.

Novas Edições

Uma nova vaga de escritoras recria episódios da nossa história

O título do mais recente romance de Isabel Rio Novo é tão trágico como a história que conta em A Febre das Almas Sensíveis. Melhor nome para o livro seria difícil de encontrar e melhor argumento também. Finalista de dois Prémio Leya, já tinha surpreendido com Rio do Esquecimento, e agora em duzentas páginas leva o leitor num deslizar constante pela sua prosa sedutora. Que, como revela o texto na contracapa, passa-se num Portugal da primeira metade do século XX e retrata um dos "males que assolam o país isolado e retrógrado". Não é um mal político, económico ou social, antes todos reunidos sob o chapéu temático da tuberculose.

Novas Edições

A extinção da raça humana ao jeito da onda da Nazaré

A ficção científica gostava de tratar do tema da extinção da raça humana, por norma devido a uma invasão extraterrestre. Ora, parece que estavam enganados esses profetas de um género literário que alertava para os perigos do futuro pois o que agora mais se aponta como o grande dizimador da melhor criação pós-Big Bang é o próprio homem e os frutos da sua inteligência. Isto no caso de ser capaz de criar e implantar no planeta a inteligência artificial.

Opinião

Violência sobre mulheres portuguesas desde 1970 por Maria Antónia Palla

É sintomático que um livro reeditado várias décadas depois ainda tenha atualidade, principalmente que o “tema” esteja na ordem do dia: a violência sobre as mulheres. O título é muito certo, Só Acontece aos Outros, e o subtítulo leva o leitor logo ao cerne do assunto: Histórias de Violência. O pior, repita-se, é a sua contemporaneidade, pois se fosse lançado pela primeira vez em 2017 ninguém estranharia que este conjunto de investigações/reporta- gens de Maria Antónia Palla chegasse às livrarias.

Novas Edições

Duzentas páginas para ajudar a biografar o senhor Fixe

É raro em Portugal que os amigos falem dos protagonistas da nossa história, principalmente que se esforcem por dar um retrato biográfico daqueles com quem conviviam. Por norma, os depoimentos feitos em vida de outro são cautelosos e à boleia do jornalismo e nunca atingem uma reflexão aprofundada sobre a pessoa em causa. Não é bem o que se passa com um testemunho em forma de livro que Vítor Ramalho escreveu sobre Mário Soares, uma das figuras políticas mais importantes do século XX português, conforme faz questão de ir provando ao longo de duzentas páginas.