João Céu e Silva

João Céu e Silva

Corações estrangeiros na areia até o mar os apagar

Quando se fala em Sul no nosso país vem logo à cabeça a palavra Algarve e ninguém se lembra do Alentejo, a região que só usamos para se chegar ao mar. Se formos turistas, a situação é diferente, pois muitos dos que vão para lá passar férias aterram logo no Aeroporto de Faro. O que leva milhões de pessoas a encaminharem-se dos seus países para o Algarve, e algumas delas a ficarem por lá até ao fim das suas vidas, resultará de múltiplas razões. A principal, além das fotografias das praias, será o boca-a-boca que amigos transmitem uns aos outros. Tanto assim que os grupos formam-se e desaguam por ali por qualquer bom motivo, como o de despedidas de solteiras. São às dezenas! E de solteiros também. Aí, com a particularidade de os noivos serem na maioria gays, como se depreende das suas esfuziantes celebrações. O que os leva a todos até lá só um bom inquérito poderá esclarecer, mas assisti a uma prova viva que se me a contassem eu diria que era vinda de pessoas com uma boa imaginação e um certo toque de inventividade. O que foi? Ao caminhar pela praia vi um jovem casal de estrangeiros parado na areia da baixa-mar a fazer um desenho. Não estranhei que a arte representasse por um coração, mas foi impossível não ficar admirado quando observei que em vez dos nomes deles estava a palavra "Portugal" em letras grandes. É certo que depois acrescentaram os seus nomes - e tudo ficou bem. Certo, deveria ser um casal que estava em fim de férias algarvias e gostara muito da região, expressando deste modo o seu agradecimento durante umas horas até que a maré subisse e apagasse aquela declaração de amor. No entanto, dois dias depois voltei a ver outro casal - eram sempre casais - a imprimir na a areia um simpático "Love Portugal". Era o princípio de um padrão que me surpreendia. No dia seguinte, outro casal entretinha-se na mesma expressão de sentimentos, e lá estava a desenhar mais um coração com três palavras lá dentro: os de uma mulher e um de homem e de novo o país... As minhas férias acabaram, mas, se a moda pegou, quem foi a seguir continuou a descobrir estas mensagens inesperadas para nós, que estamos sempre a dizer mal de uma palavra que fica nos corações estrangeiros por alguma razão.

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De Olham para o mundo na língua menos comum de Ana Cristina Leonardo

O Centro do Mundo é o título do primeiro romance de Ana Cristina Leonardo, que sucede a duas outras experiências literárias em livro, e que é editado na coleção Língua Comum da editora Quetzal. Ora de língua comum pouco tem este livro, o mesmo acontecendo a poucas outras exceções desta coleção onde figura uma reedição de O Que Diz Molero, de Dinis Machado, daí que se possa considerar este primeiro romance um dos mais incomuns da listagem na sua badana direita.

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Recruta forçada para João Reis

A ficção portuguesa das novas gerações de autores tem surpreendido pela ausência de temáticas que seduzam o leitor. Por norma, colocando a narrativa num ambiente nem sempre traduzível e com personagens que podem ser pertença de todo e nenhum lado. João Reis tem tentado alterar esse eclipse físico e fixa as suas personagens em terra firme, mesmo que procure cenários e pessoas diferentes que não o nacional. Foi o que fez em A Avó e a Neve Russa, lançado há pouco mais de um ano.

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A história da Guerra Fria que não esquece Portugal por Odd Arne Westad

O historiador norueguês Odd Arne Westad tem escrito bastante sobre a Guerra Fria, a que segundo o autor possui um tom maior entre 1945 e 1989, e a edição do seu trabalho A Guerra Fria - A Criação de Um Mundo vem mesmo na hora em que tanto se fala de uma repetição daqueles tempos na atualidade. Westad caracteriza historicamente este período tão perigoso para a população da Terra e logo na introdução dá como exemplo o caso do seu país, onde uma minoria perfilhava os ideais da União Soviética e uma maioria achava que o fim do mundo pela via da guerra nuclear poderia acontecer na manhã seguinte.

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Retirar do baú textos de reflexão sobre a antiga vida cultural portuguesa

A antologia é um formato que já esteve mais na moda do que nos dias que correm. Nada que impeça o aparecimento de 250 páginas que reúnem textos que escritores, medianos e bons, do século XX publicaram. É o caso dos textos que mais de duas dezenas de escritores escreveram na revista Autores da Sociedade Portuguesa de Autores ao longo de vários números e que agora surgem reunidos num volume.

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O crime do Homem-Tigre para explicar o que é a literatura indonésia

O tom da nota introdutória de Homem-Tigre está um pouco desfasada daquele que se segue nas páginas do romance de Eka Kurniawan, não só porque revela o autor indonésio - que nasceu no dia em que este país ocupou Timor - de uma forma demasiado elogiosa, como tenta perspetivar o livro de um modo antinatural. É o problema do tom, uma questão que na prosa muito interessante de Kurniawan nunca existe. Ainda por cima, desde que não interfiram diretamente, posfácios (no caso prefácio) destes fazem muita falta em livros primeiros de autores de outras civilizações quando são traduzidos para a nossa língua.

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O romance que se tornou incontornável: Um Gentleman em Moscovo

O romance começa com uma introdução que explica ao leitor ao que vai: o regresso de um aristocrata contestatário do regime que o czar impunha na Rússia através de um poema que escrevera em 1905 e incitava intelectualmente ao levantamento político. Passados uns anos e um exílio, o conde Aleksandr Ilitch Rostov regressa à Rússia pós-Revolução 1917 e hospeda-se no Hotel Metropol, de onde vislumbra as alterações políticas que o novo regime impõe. Fá-lo durante quatro anos, momento em que é chamado às autoridades para responder a um interrogatório sobre a estranheza da sua nova vida russa. O facto de ter bons padrinhos impede que lhe aconteça algo pior do que perder o direito a um quarto de enormes dimensões e passar a ficar hospedado num esconso. Deixa de poder passear pelos seus aposentos, de admirar os painéis decorativos e os lustres de grande beleza, mas tem outra vantagem, a pequenez do lugar em que os bolcheviques o depositaram permite-lhe ouvir os próprios pensamentos. Longe da louça de Limoges herdada da avó, bem como de todos os seus livros, resta-lhe um entre os muitos que possuíra. Finalmente, iria ter tempo para uma leitura sempre adiada, a de os Ensaios, de Michel de Montaigne. Logo que inicia o contacto com o volume descobre que melhor não há do que estes 107 ensaios sobre os temas Constância, Moderação, Solidão e Sono, e considera que Montaigne os escrevera "tendo em mente as noites de inverno". A partir desse momento, a observação interior do mundo vai mudar para o conde e, num impulso, enquanto sentado na cadeira do barbeiro, decide romper com as regras que pautam a conduta de um aristocrata e ordena que lhe rapem o cabelo todo. Tal como vai conviver com crianças, fazer novos amigos, usar um martelo, fazer truques de cartas e, entre muitas outras mudanças da sociedade, deixar de ser tratado por excelência.