João Céu e Silva

João Céu e Silva

O estigma sobre o suspeito não infetado

O primeiro sintoma de quem é suspeito de estar infetado com o coronavírus é o estigma social. E se a tosse não surge nem a temperatura aumenta, ainda custa mais ao alegado suspeito esse sentimento por parte daqueles com quem convive. Senti isso na pele desde domingo, quando se soube que o escritor Luis Sepúlveda e mulher estavam hospitalizados e que tinham todos os sintomas desta praga, através das mensagens que começavam assim: "Estás de quarentena, não é?" A pergunta não era "estás bem?" ou "sentes alguma coisa?"; não, a palavra-chave era "quarentena". Ou seja, desaparece da nossa vista.

João Céu e Silva

As epidemias preguiçosas da modernidade

Num país atrasado como era Portugal no tempo do anterior regime era normal que as novidades fossem um sinal da modernidade a que os portugueses não tinham acesso e, portanto, estivessem muito disponíveis para abraçar. Fazer bandas como as dos Beatles mesmo que os discos deles só chegassem meses depois, por exemplo. Após a Revolução de Abril, ao olharem para as fotografias dos revolucionários, todos os homens deixaram crescer os cabelos e as barbas desordenadamente como as de Che Guevara e Fidel, por exemplo. Quando chegaram os CD, 99% abandonarem o vinil em pouco tempo, depois o MP3 e os downloads, por exemplo...

João Céu e Silva

Como ser famoso por investigar a história do bacalhau

Havia um tempo em que as livrarias tinham uma boa secção de literatura de viagens e, para quem gostava do género, era um prazer percorrer as estantes com esses livros. Era o caso de uma livraria em Londres, a Waterstones, que teria cem metros de comprimento de lombadas atraentes sobre locais que mereciam uma viagem. No entanto, pelo meio dos milhares de volumes existiam "coisas" mal catalogadas que não eram destinos mas boas viagens a certos temas. Foi o caso de um livro que nunca pensara comprar, Bacalhau: Uma Biografia do Peixe que Mudou o Mundo.

1864

"Não estou a fazer nada"

As oito letras da palavra "governar" correspondem, segundo o dicionário, a "exercer o governo de, administrar, gerir, dominar ou imperar", entre outras possibilidades. É verdade que estes significados não são desconhecidos da maioria dos portugueses, no entanto, as recentes eleições explicaram melhor que, ao verem surgir os resultados eleitorais, "exercer o governo" não era a primeira preocupação dos eleitores (e comentadores), preferindo antes conjugar os dois últimos significados: dominar ou imperar. Era só disso que se falava face aos números que o governo precisava para ser o dono do país durante quatro anos enquanto se faziam apostas sobre os partidos que teriam de se deixar "dominar" para que houvesse um futuro a quatro anos.

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Relato cinquentenário da contrarrevolução do Maio de 68 por Debray

O autor Régis Debray é claro na sua evocação publicada pela primeira vez dez anos passados sobre o Maio de 68 ao colocar na mais recente o subtítulo Uma Contrarrevolução Conseguida. Se esta versão tem como título Maio de 68, já a primeira versão do volume tinha como título Modesto contributo para os discursos e cerimónias oficiais do décimo aniversário, pois era publicado ainda muito a quente e após uma das maiores tempestades sociais do século XX francês.

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A história da Guerra Fria que não esquece Portugal por Odd Arne Westad

O historiador norueguês Odd Arne Westad tem escrito bastante sobre a Guerra Fria, a que segundo o autor possui um tom maior entre 1945 e 1989, e a edição do seu trabalho A Guerra Fria - A Criação de Um Mundo vem mesmo na hora em que tanto se fala de uma repetição daqueles tempos na atualidade. Westad caracteriza historicamente este período tão perigoso para a população da Terra e logo na introdução dá como exemplo o caso do seu país, onde uma minoria perfilhava os ideais da União Soviética e uma maioria achava que o fim do mundo pela via da guerra nuclear poderia acontecer na manhã seguinte.

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Entrevista a dois diabos da literatura por José Carlos de Vasconcelos

A história de uma entrevista pode ser um relato muito interessante, principalmente se os entrevistados forem pessoas com a estatura de António José Saraiva e Óscar Lopes. Foi essa "recordação" que o jornalista José Carlos de Vasconcelos foi buscar e que publicou agora na coleção Gradiva Breve, num volume que além da entrevista a ambos os intelectuais acrescenta a preparação do encontro e outros documentos importantes para se compreender os entrevistados e o cenário das suas vidas.

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A difícil arte de enganar o leitor através do conto por Marina Perezagua

A arte do conto não é para qualquer escritor, nem a publicação de livros de contos é para qualquer editora. Por isso, quando sai uma novidade o leitor fica curioso sobre o poder do escritor, mesmo que as editoras achem que não é um género importante a dar corda. Felizmente, a escritora espanhola Marina Perezagua não foi vítima do descaso, nem a Elsinore a deixou pelo sucesso em Portugal do seu único romance já traduzido para a língua portuguesa: Yoro.

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O romance que se tornou incontornável: Um Gentleman em Moscovo

O romance começa com uma introdução que explica ao leitor ao que vai: o regresso de um aristocrata contestatário do regime que o czar impunha na Rússia através de um poema que escrevera em 1905 e incitava intelectualmente ao levantamento político. Passados uns anos e um exílio, o conde Aleksandr Ilitch Rostov regressa à Rússia pós-Revolução 1917 e hospeda-se no Hotel Metropol, de onde vislumbra as alterações políticas que o novo regime impõe. Fá-lo durante quatro anos, momento em que é chamado às autoridades para responder a um interrogatório sobre a estranheza da sua nova vida russa. O facto de ter bons padrinhos impede que lhe aconteça algo pior do que perder o direito a um quarto de enormes dimensões e passar a ficar hospedado num esconso. Deixa de poder passear pelos seus aposentos, de admirar os painéis decorativos e os lustres de grande beleza, mas tem outra vantagem, a pequenez do lugar em que os bolcheviques o depositaram permite-lhe ouvir os próprios pensamentos. Longe da louça de Limoges herdada da avó, bem como de todos os seus livros, resta-lhe um entre os muitos que possuíra. Finalmente, iria ter tempo para uma leitura sempre adiada, a de os Ensaios, de Michel de Montaigne. Logo que inicia o contacto com o volume descobre que melhor não há do que estes 107 ensaios sobre os temas Constância, Moderação, Solidão e Sono, e considera que Montaigne os escrevera "tendo em mente as noites de inverno". A partir desse momento, a observação interior do mundo vai mudar para o conde e, num impulso, enquanto sentado na cadeira do barbeiro, decide romper com as regras que pautam a conduta de um aristocrata e ordena que lhe rapem o cabelo todo. Tal como vai conviver com crianças, fazer novos amigos, usar um martelo, fazer truques de cartas e, entre muitas outras mudanças da sociedade, deixar de ser tratado por excelência.