João Céu e Silva

João Céu e Silva

O mundo seria maior sem pontes

Falar de pontes pode parecer um debate estéril, mas sem elas o mundo seria maior e hoje em dia queremos tudo à distância de um dedo. O que diriam os milhares de pessoas que vão passar o fim de semana ao Algarve se não tivessem a Ponte 25 de Abril para os pôr em casa em poucos minutos e fossem obrigados a ir até Cacilhas e atravessar o rio num ferry, com filas pelo meio ou ir por Vila Franca de Xira e fazer o único bocado de autoestrada que então existia em Portugal?

João Céu e Silva

As epidemias preguiçosas da modernidade

Num país atrasado como era Portugal no tempo do anterior regime era normal que as novidades fossem um sinal da modernidade a que os portugueses não tinham acesso e, portanto, estivessem muito disponíveis para abraçar. Fazer bandas como as dos Beatles mesmo que os discos deles só chegassem meses depois, por exemplo. Após a Revolução de Abril, ao olharem para as fotografias dos revolucionários, todos os homens deixaram crescer os cabelos e as barbas desordenadamente como as de Che Guevara e Fidel, por exemplo. Quando chegaram os CD, 99% abandonarem o vinil em pouco tempo, depois o MP3 e os downloads, por exemplo...

João Céu e Silva

Como ser famoso por investigar a história do bacalhau

Havia um tempo em que as livrarias tinham uma boa secção de literatura de viagens e, para quem gostava do género, era um prazer percorrer as estantes com esses livros. Era o caso de uma livraria em Londres, a Waterstones, que teria cem metros de comprimento de lombadas atraentes sobre locais que mereciam uma viagem. No entanto, pelo meio dos milhares de volumes existiam "coisas" mal catalogadas que não eram destinos mas boas viagens a certos temas. Foi o caso de um livro que nunca pensara comprar, Bacalhau: Uma Biografia do Peixe que Mudou o Mundo.

João Céu e Silva

Corações estrangeiros na areia até o mar os apagar

Quando se fala em Sul no nosso país vem logo à cabeça a palavra Algarve e ninguém se lembra do Alentejo, a região que só usamos para se chegar ao mar. Se formos turistas, a situação é diferente, pois muitos dos que vão para lá passar férias aterram logo no Aeroporto de Faro. O que leva milhões de pessoas a encaminharem-se dos seus países para o Algarve, e algumas delas a ficarem por lá até ao fim das suas vidas, resultará de múltiplas razões. A principal, além das fotografias das praias, será o boca-a-boca que amigos transmitem uns aos outros. Tanto assim que os grupos formam-se e desaguam por ali por qualquer bom motivo, como o de despedidas de solteiras. São às dezenas! E de solteiros também. Aí, com a particularidade de os noivos serem na maioria gays, como se depreende das suas esfuziantes celebrações. O que os leva a todos até lá só um bom inquérito poderá esclarecer, mas assisti a uma prova viva que se me a contassem eu diria que era vinda de pessoas com uma boa imaginação e um certo toque de inventividade. O que foi? Ao caminhar pela praia vi um jovem casal de estrangeiros parado na areia da baixa-mar a fazer um desenho. Não estranhei que a arte representasse por um coração, mas foi impossível não ficar admirado quando observei que em vez dos nomes deles estava a palavra "Portugal" em letras grandes. É certo que depois acrescentaram os seus nomes - e tudo ficou bem. Certo, deveria ser um casal que estava em fim de férias algarvias e gostara muito da região, expressando deste modo o seu agradecimento durante umas horas até que a maré subisse e apagasse aquela declaração de amor. No entanto, dois dias depois voltei a ver outro casal - eram sempre casais - a imprimir na a areia um simpático "Love Portugal". Era o princípio de um padrão que me surpreendia. No dia seguinte, outro casal entretinha-se na mesma expressão de sentimentos, e lá estava a desenhar mais um coração com três palavras lá dentro: os de uma mulher e um de homem e de novo o país... As minhas férias acabaram, mas, se a moda pegou, quem foi a seguir continuou a descobrir estas mensagens inesperadas para nós, que estamos sempre a dizer mal de uma palavra que fica nos corações estrangeiros por alguma razão.