João César das Neves

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João César das Neves

Evitar a ruína

No passado domingo, a 7.ª maior economia do mundo caiu nas mãos de um populista. Jair Bolsonaro juntou o seu país ao grupo em que já estão as duas maiores economias mundiais, China e EUA, a 6.ª, Rússia, e da 11.ª à 13.ª, Itália, México e Turquia. Em todos estes Estados dominam líderes messiânicos que prometem prosperidade fácil, substituindo a corrupta classe política. Este clube, com quase metade (44%) do produto global, apesar de esmagador, constitui apenas parte da ameaça extremista actual, que se sente em toda a Europa, América Latina e outras zonas do globo.

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O feiticeiro de Oz

Dorothy Lusitânia vivia num lindo jardim à beira-mar plantado, com os seus tios e o cãozinho Totó. Um dia um grande ciclone, chamado Troika, arrancou a casa, com a rapariga e o cão, e levou-os até à maravilhosa Terra de Oz. Quando a casa pousou, esmagou a Bruxa Má do Oeste, chamada Crise, e todos aclamaram Dorothy como salvadora. A jovem agradeceu o acolhimento, mas disse que só queria voltar para o seu jardim e os seus tios, para ser tudo como era antes da troika.

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Exploração e materialismo

Os direitos dos trabalhadores, sobretudo mais jovens, estão em perigo com a transformação económica. Grande parte dos novos empregos, criados por apps na chamada "gig economy" da Uber, da Airbnb, da TaskRabbit, etc., são temporários, contingentes, precários, mal pagos e sem garantias. O mundo ficou chocado com a descrição das condições laborais no armazém da multinacional Amazon em Tilbury, Essex, na reportagem do Sunday Mirror de Londres, publicada a 27 de Novembro do ano passado, depois de o jornalista Alan Selby lá ter trabalhado cinco semanas. Entretanto, muitos empregos são perdidos para países pobres, onde nas sweatshops se opera em circunstâncias aviltantes. Sempre houve exploração, mas estamos a entrar numa nova realidade, revivendo no mundo digital as piores condições do século XIX.

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Corrupção sem glúten

Portugal não é um país corrupto. O Corruption Perceptions Index, indicador mais utilizado neste campo, é publicado desde 1995 pela Transparência Internacional, organização com sede em Berlim. Nos valores de 2016, Portugal está em 29.º lugar em 176 países, muito acima da Espanha (41.º), Itália (60.º) e Grécia (69.º). Mas existem 12 membros dos 28 da União Europeia melhores do que nós, o que significa que ainda há muito a fazer e, como se viu no Parlamento, nem sempre o fizemos da melhor maneira. Mas o problema da corrupção aberta e descarada não é grande obstáculo ao nosso desenvolvimento, como em vários dos nossos parceiros. Aquilo que compromete o futuro nacional é outra forma da mesma perversão, mais latente e subtil. Podemos chamar-lhe "corporativismo" mas, no essencial, segue a mesma lógica: a utilização de posição pública em proveito privado.