João César das Neves

João César das Neves

Ex-donos de Portugal

Portugal anda anestesiado. Com crescimento na economia e paz social, graças à dinâmica externa e à instalação no poder das forças contestatárias, tudo parece ir pelo melhor. Mesmo factos escandalosos passam despercebidos. A entrevista do Expresso de 28 de Julho ao empresário Pedro Soares dos Santos, uma das referências da economia portuguesa, inclui afirmações contundentes, quase explosivas, que ficaram esquecidas. Já passou tempo suficiente para se dizer que o país está mesmo anestesiado.

João César das Neves

Donos de Portugal

A recente polémica dos salários dos professores revela muito do nosso carácter político e cultural. A OCDE, no habitual "Education at a Glance", apresenta comparações de indicadores escolares, incluindo a remuneração dos docentes. O estudo é reservado, mas a sua base de dados é pública e inclui dados espantosos, que o professor Daniel Bessa resumiu no Expresso de dia 15: "Com um salário que é cerca de 40% do finlandês, 45% do francês, 50% do italiano e 60% do espanhol, o português médio paga de impostos tanto como os cidadãos destes países (a taxas de tributação que, portanto, se aproximam do dobro) para que os salários dos seus professores sejam iguais aos praticados nestes países."

João César das Neves

Negócio e direito

Qual a finalidade do Sistema Nacional de Saúde? Para alguns ingénuos a resposta tem que ver com as doenças dos portugueses. Mas basta ouvir as discussões à volta do SNS para notar que, de facto, essa é preocupação menor de responsáveis e profissionais. Aquilo que interessa e ocupa todas as análises são os direitos dos trabalhadores da área da saúde. Fala-se muito mais de carreiras do que de remédios, de aumentos do que de vírus, de horários do que de curas. Se amanhã, por milagre, todos os cidadãos nacionais ficassem saudáveis, a despesa do Estado em saúde ficaria exactamente igual, para assegurar o valor supremo dos direitos dos profissionais de saúde.

Não Há Almoços Grátis

Uma era de vingadores

Para compreender esta época, há lições valiosas no filme Vingadores: Guerra do Infinito (Avengers: Infinity War; aviso: este texto revela enredo). Ignorado pelos intelectuais e desprezado pelos críticos como palhaçada de super-heróis, o filme teve a maior receita de sempre no fim-de-semana inicial (ver www.boxofficemojo.com) e, apesar de ter estreado só a 27 de Abril, já é o quinto filme mais bem pago da história. Isto mostra não ser escolha de jovens, mas geral. Esta é uma era de vingadores.