Joana Petiz

Joana Petiz

Tudo isto que já nos cansa

A serenidade de Marcelo Rebelo de Sousa tem-lhe rendido pontos de refúgio nos últimos tempos, mas mesmo isso não chegou para evitar o cansaço que os portugueses demonstram sentir em relação aos seus líderes políticos. E se é verdade que o Presidente da República continua a ser querido pela maioria, o barómetro que se publica aqui é bem revelador do limite a que os portugueses estão a chegar. E que se traduz num claríssimo cartão vermelho a António Costa e ao seu governo - com destaque para um ministro da Administração Interna que, dia sim dia não, é notícia pelos mais inacreditáveis motivos, e para uma ministra da Saúde semidesaparecida em ano e meio de pandemia, que de quando em vez aparece em programas de entretenimento a anunciar as suas resoluções para a pasta. Mas há também um alerta bem presente à oposição, com Rui Rio à cabeça do infeliz cortejo, graças à surpreendente capacidade do líder social-democrata de sempre cavar mais fundo o buraco em que meteu o PSD.

Joana Petiz

Dom Rodrigues e pouca sabedoria

Quase 70 pessoas multadas e mais de mil mandadas para trás é o saldo da operação das forças de segurança que fiscalizaram neste fim de semana entradas e saídas da Área Metropolitana de Lisboa. Nenhuma delas, nem multa nem ordem de recuo, foi para Ferro Rodrigues, o presidente da Assembleia da República, que depois de ver o Presidente cortar-lhe as vasas de abalar para Sevilha para ver o Portugal-Bélgica ao vivo, decidiu fazer as malas e ir de fim de semana para o Algarve. É certo que governo e DGS recomendam cautela e pouco movimento, mas Ferro já está vacinado, já não há covid que lhe chegue. Também não há multas ou reprimendas em nome de Graça Freitas, a diretora-geral da Saúde que nos tem alertado a cada oportunidade para a importância de "ainda não podermos levantar o pé" ou "abrandar a pressão", porque o vírus anda aí e continua feroz. E que parece ter escolhido o mesmo destino de Ferro Rodrigues para descansar uns dias.

Joana Petiz

Aprender e antecipar

Desta vez, não levou 24 horas a desfazer-se o "erro". Perante a inesperada decisão de fechar fronteiras a quem não exibisse teste negativo ou certificado de vacinação - agora declarada precipitação voluntarista da Direção-Geral de Saúde espanhola -, o governo português ameaçou retaliar com mão pesada. Arrependidos da resignação que mostraram face aos desígnios britânicos, os nossos governantes foram agora inflexíveis: "Se Madrid insistir, faremos o mesmo aos deles", ameaçaram.

Joana Petiz

Desconfinar pela medida pequena

O nome de António Costa ficará para sempre associado a compromissos. Mas agradar a gregos e a troianos tem o efeito secundário de deixar amargos de boca generalizados. Ontem, no anúncio das novas fases de desconfinamento, o primeiro-ministro voltou a pautar-se pelo seu jeito único de dar uma no cravo e outra na ferradura. Deixa os restaurantes servirem até à 01h00, mas limita os espetáculos a 50% da lotação e mantém fechadas a cadeado as portas de bares e discotecas. Nos transportes públicos já se pode voltar a andar como sardinhas (é época delas), mas em eventos desportivos só se admite um terço dos lugares ocupados. Começa-se a acabar com o teletrabalho... mas continua a fazer-se depender o regresso ao escritório das taxas de incidência de contágios covid e de outras condições para impedir que se concretize sem o proibir.

Joana Petiz

A crise começa hoje

Veremos hoje que dimensão tomam, mas o simples aviso do regresso de uma grande greve na função pública, com o PS num governo apoiado pelos partidos à sua esquerda, é bem sintomático dos tempos que aí vêm. Para a última semana deste mês, são os transportes que prometem parar, com CP, Metro de Lisboa e Transtejo a entregar pré-avisos de greve. Mas o primeiro teste acontece já hoje, quando professores, trabalhadores de administrações locais e outros serviços do Estado saem à rua naquele que será o maior protesto desde que a pandemia nos obrigou a confinar pela primeira vez. Leia-se, desde que o governo obrigou o país a fechar portas, impôs o trabalho à distância para quem tinha autorização para continuar a funcionar - recomendando às empresas que assumissem as despesas dos serviços utilizados mas escusando-se, ele próprio, de seguir essa regra - e abriu a bolsa dos subsídios com regras quinzenais e pedidos de despacho rápido despejados no colo dos seus funcionários.

Joana Petiz

Um país debaixo de água

Mais de seis milhões de euros a mais por dia. É esta a dimensão do monstro do endividamento das famílias portuguesas desde que chegou a pandemia. Não é só crédito novo, boa parte deste valor global - que engorda as dívidas dos portugueses para um bolo que só há quatro anos teve dimensão semelhante - chega à boleia das moratórias, que adiam pagamentos para depois de setembro. Mas a questão é precisamente essa: quando o prazo das moratórias terminar, as prestações têm de voltar a ser pagas. As do momento, acrescidas do que ficou para trás - que em muitos casos engloba juros e capital emprestado. E cuja fatura vai chegar, em muitos casos, a famílias que perderam rendimentos ou ficaram mesmo sem o emprego.

Joana Petiz

Chega de navegar à vista

Não, ninguém inveja a posição de quem tem de tomar decisões neste momento. Quem está nessa posição, porém, e não a rejeitou, continua a ser responsável pelo que faz - e pelo que opta por não fazer. E não pode justificar-se com a dificuldade da posição em que aceitou estar e permanecer. O tempo de avaliar quem está aos comandos não é este. Mas é o de decidir e assumir responsabilidades. De dar a cara e as explicações - obrigação de quem se senta nessas cadeiras - em momentos de rutura como terça-feira à noite, quando, ignorados os avisos de quem está no terreno, o sistema de oxigénio de que depende mais de uma centena de doentes colapsou.