Joana Petiz

Joana Petiz

Um país debaixo de água

Mais de seis milhões de euros a mais por dia. É esta a dimensão do monstro do endividamento das famílias portuguesas desde que chegou a pandemia. Não é só crédito novo, boa parte deste valor global - que engorda as dívidas dos portugueses para um bolo que só há quatro anos teve dimensão semelhante - chega à boleia das moratórias, que adiam pagamentos para depois de setembro. Mas a questão é precisamente essa: quando o prazo das moratórias terminar, as prestações têm de voltar a ser pagas. As do momento, acrescidas do que ficou para trás - que em muitos casos engloba juros e capital emprestado. E cuja fatura vai chegar, em muitos casos, a famílias que perderam rendimentos ou ficaram mesmo sem o emprego.

Joana Petiz

Chega de navegar à vista

Não, ninguém inveja a posição de quem tem de tomar decisões neste momento. Quem está nessa posição, porém, e não a rejeitou, continua a ser responsável pelo que faz - e pelo que opta por não fazer. E não pode justificar-se com a dificuldade da posição em que aceitou estar e permanecer. O tempo de avaliar quem está aos comandos não é este. Mas é o de decidir e assumir responsabilidades. De dar a cara e as explicações - obrigação de quem se senta nessas cadeiras - em momentos de rutura como terça-feira à noite, quando, ignorados os avisos de quem está no terreno, o sistema de oxigénio de que depende mais de uma centena de doentes colapsou.

Joana Petiz

Washington anestesiada - ou conformada

Nada de novo no Memorial de Lincoln, business as usual na Casa Branca. As cartas que espalharam engenhos explosivos por moradas selecionadas de ponta a ponta do país (acredita-se que há ainda três por incluir no lote, segundo as últimas na América) fizeram soar os alarmes no governo e no Congresso e sobretudo na imprensa. Mas a vida por cá segue igual, como se não houvesse já possibilidade de choque ou como se os americanos tivessem perdido a capacidade de se alarmarem com terrores internos.

Opinião

Há mais pessoas a viver na Amadora do que eleitores do PAN

Uma mentira não se torna verdade por ser repetida muitas vezes, nem mesmo quando se espalha nas redes sociais. Eu até acredito que haja alguma ingenuidade a justificar as afirmações do PAN, quando os seus militantes e apoiantes dizem que a maioria dos portugueses apoiam as suas causas - as redes sociais tendem a ter esse efeito: vamos vendo o que os nossos amigos ali põem, as suas reações ao que partilhamos e convencemo-nos de que aquela pequena amostra traduz verdades absolutas. Mas não é por isso que deixam de ser construções de uma realidade, artificialidades, apenas entendidas como verdades por aquele conjunto de indivíduos que se revê nessas ideias e as tem continuamente alimentadas por esse circuito fechado.

Joana Petiz

Coisas de elementar justiça

1. Portugal parece padecer de um grave problema de proibicionite aguda. À falta de capacidade de controlo competente das regras e com excesso de agentes que cedem com demasiada rapidez ao facilitismo e ao amiguismo, proíbe-se. Com dois pesos e duas medidas, ainda por cima. O caso não é de hoje, mas tem tido nos últimos tempos avanços notáveis. Como a surpreendente revolta a que assistimos nesta semana perante o convite feito pelo criador da Web Summit a Marine Le Pen para que fosse oradora na próxima edição do evento. Sucede que a senhora é conotada com a extrema-direita e, ainda que seja coisa privada, o Estado até contribui para que a tal cimeira se realize aqui em Lisboa, em vez de zarpar para outra cidade europeia. Claro que a Web Summit rende muito mais ao país do que o que alguma vez gastaríamos com o evento - no ano passado, o impacto excedeu os 300 milhões -, mas não vem isso ao caso. O ponto é este: a senhora não pode vir, não podemos deixar que seja ouvida. De repente, era como se o próprio governo tivesse convidado Le Pen, quisesse deitar-se com o inimigo. E a revolta fez-se grande.

Opinião da direção

De volta às ruas

Entre greves, manifestações e outros protestos, março ainda não chegou ao fim e já é talvez o mês de mais forte contestação desde que o PS começou a conduzir o governo, apoiado pelos partidos à sua esquerda. E o líder da CGTP avisa que é de esperar que as coisas ainda se tornem mais intensas em abril - o primeiro sinal é a greve sem serviços mínimos que promete lançar o caos em Lisboa já na próxima segunda-feira, quando os trabalhadores dos comboios da CP, da Fertagus e até de mercadorias deixarem as carruagens paradas, em nome de um aumento salarial intercalar. Mas não estão sozinhos. Médicos e enfermeiros afirmam que as promessas que lhes foram feitas não foram cumpridas, professores continuam à espera de progressões que só chegaram a alguns e muitos outros funcionários do Estado, mas também de empresas privadas, reclamam por terem visto frustradas as suas expectativas. E a todos eles encaixa como natural voltar à luta que parecia ter deixado as ruas desde que a geringonça tomou as rédeas do país.

Opinião da direção

Não há atalhos para o que é justo

Num dia de outubro de 1975, 90% das mulheres islandesas moveram-se numa incrível onda rumo às praças das cidades onde moravam, deixando vazios os seus postos de trabalho. O objetivo: mostrar a falta que faziam nas empresas. Cinco anos depois da grande greve das mulheres, a Islândia tornava-se o primeiro país do mundo a eleger uma presidente - por mérito. Há uma década, as escolas islandesas incluíram nos currículos a disciplina obrigatória de Estudos de Género, para explicar aos adolescentes o que é a discriminação, os seus efeitos, porque existe e de que forma se combate, puxando-os para o debate e permitindo-lhes a formação de opinião e a contribuição para a reflexão que ali se faz continuamente.

Opinião da direção

O sarampo (ainda) mata

Resultado de um grande trabalho conduzido ao longo de décadas, fortemente baseado na vacinação, Portugal anunciava há um par de anos as boas notícias transmitidas pela Organização Mundial da Saúde: o país conseguira a erradicação não apenas do sarampo mas de outras doenças altamente contagiosas e perigosas como a rubéola, a malária, a varíola e a poliomielite. Longe vão os tempos em que um diagnóstico de sarampo era encarado com a preocupação que nos merecem as doenças que matam. Mas talvez já não seja bem assim. No ano passado, o sarampo voltou a aparecer e a matar em Portugal - e se tomarmos a Europa como exemplo, os casos de sarampo registados alargam-se para 2573 (o quádruplo do ano anterior), com 35 casos mortais, todos eles de crianças não vacinadas. Neste início de ano, ouvimos falar em novos casos - são pelo menos sete confirmados e mais de 30 suspeitos - e não podemos deixar de nos surpreender com o ressurgimento de uma doença que aparentemente tinha sido erradicada. Acontece que, enquanto nos países africanos, por exemplo, se multiplicam as campanhas a apelar à vacinação para conseguir reduzir os números negros da mortalidade associada a doenças que por cá temos a sorte de não conhecer, pelo menos em toda a sua força, por toda a Europa tem-se assistido ao movimento contrário. A erradicação deste tipo de doenças parece ter gerado em certas comunidades a crença de que as vacinas não eram fundamentais - alguns indo ao extremo de as considerar mesmo tóxicas. E à falta de obrigatoriedade (só há oito países europeus onde é obrigatória a inoculação contra o sarampo, por exemplo), um número crescente de pais optaram por não vacinar os filhos. O resultado deste movimento está à vista, mas os seus efeitos podem agravar-se - basta ver que o sarampo é a doença mais infecciosa que se conhece (a média de contágio é de 90% das pessoas que entrem em contacto com alguém infetado) e está no top 3 das mais mortais da história da humanidade, logo a seguir ao VIH e à malária. Era importante que todos nos lembrássemos destes números.

Opinião da direção

Padrões de exigência

Um casal de italianos entra num café de uma conhecida cadeia de pastelarias lisboetas, numa zona enxameada de turistas. Não é o início de uma anedota, mas bem poderia ser. Para decidir o pedido, os dois solicitaram ajuda ao empregado - que sem falar uma palavra de outra língua que não o português, e visivelmente enfadado, lhes fez sinal que esperassem até encontrar alguém que pudesse entender o que perguntavam. Ao fim de três ou quatro tentativas, olhares de esguelha para o casal e recusas por ignorância, acabou por conseguir que a estagiária que ali dava os primeiros passos se chegasse à frente, lhes explicasse os menus em inglês e registasse a escolha com pedidos especiais e tudo. Os dois italianos pagaram, levaram o que pediram e apesar da simpatia da moça é quase certo que durante a sua estada em Lisboa não tornaram a arriscar entrar numa casa daquele grupo.

Opinião da direção

América desarmada

Em dois meses incompletos deste novo ano, as escolas americanas já assistiram a perto de duas dezenas de tiroteios. Abrindo o foco temporal, o verdadeiro filme de terror vivido na Florida nesta quarta-feira é o mais recente e o mais mortífero deste género desde o massacre de Sandy Hook, há seis anos, no qual foram assassinados 20 miúdos da primária e seis educadores. Bastava ler ontem os relatos e os excertos da história do mais recente atacante - ex-aluno expulso e revoltado, dono de uma coleção de armas que frequentemente exibia nas redes sociais ao lado de ameaças - para ver que estavam lá todos os sinais de que um dia a coisa podia azedar. Claro que estavam. O problema é que esses pontos só podem ser conectados depois de acontecer o pior. Haverá mil vezes mais casos de potenciais suspeitos que dão sinais inequívocos mas nunca passam disso mesmo. E agir contra ameaças de que só se desconfia que existem, antecipar o que se sente no ar independentemente de haver ou não indícios fortes de que a concretização de um novo ataque está por momentos, significa ultrapassar linhas perigosas.