Inês Teotónio Pereira

Inês Teotónio Pereira

Filhos, sou doutora

Depois de ter passado pelo jornalismo, pela política e pelos livros, regressei à faculdade para acabar o curso de Direito, que interrompi quando mergulhei de cabeça n" O Independente nos longínquos anos 90. Tenho um amigo advogado que sempre que me via perguntava quando é que eu acaba o curso, "Então futura colega? Para quando esse curso?". Foram décadas nisto. Ele nunca desistiu. Já eu, sim. Durante estes anos todos não havia gato-pingado que não me tratasse por "doutora", não fosse este um país de tios e de doutores. No Parlamento, por exemplo, ou se é doutor ou operário, e eu ali, no limbo. Era "mãe, beata ou fascista", mas doutora nada. Então, porque resolvi pôr a minha vida em stand by e porque não se deixa nada a meio (digo eu aos meus filhos), regressei à Universidade Lusíada onde tinha deixado o curso a meio do segundo ano. "Mãe, arranjei um estágio num semanário". E pronto, tudo estragado: entre estudar Direito Administrativo ou andar atrás do próximo ministro que anda a fugir aos impostos, vence o ministro, claro. O objetivo era sair de lá no ano em que o meu filho mais velho entrasse na universidade, a minha autoestima e a dele não aguentariam sermos colegas. Tinha, portanto, três anos para concluir a empreitada. Mas não fazia ideia daquilo em que me estava a meter: aulas todos os dias, faltas, testes, trabalhos, participação nas aulas, avaliações, exames e orais. E Fiscal, nunca pensei saber o que quer que seja de Direito Fiscal. Não morri por acaso. Os meus colegas eram pouco mais velhos que os meus filhos e grande parte dos professores tinha a minha idade e havia alguns mais novos. Tinha tudo para correr mal. "Vá, Inês, silêncio, a aula já começou...". Eu corava, "desculpe professor", e virava-me para a frente. Mas não correu mal e acabaram por ser os anos mais divertidos da minha vida depois daqueles em que passei n"O Independente. Sem a memória que tinha, mas com a curiosidade que não tinha, cada disciplina era um desafio e para o transpor era obrigatório gostar. Nesta idade, em que os fins de semana servem para dormir e não para estudar, só se decora o que se percebe pois não se decoram palavras mas sim raciocínios. Percebemos, finalmente, que quando não se entende à primeira o que se está a ler é porque o livro está mal escrito, o que é uma realidade em 99% dos casos. Acreditem. É fundamental não pormos em causa a nossa destreza e muito menos a inteligência - mais do que uma questão de honra é uma questão de sobrevivência.

A um metro do chão

A elite das desigualdades

Em Portugal fecham-se escolas com contrato de associação. Escolas com contrato de associação são escolas privadas que têm contrato com o Estado para servirem localidades com oferta estadual insuficiente. O contrato é feito assim: contabiliza-se um preço por turma - que na maioria dos casos é inferior ao custo que os contribuintes suportam pelas turmas das escolas estaduais e nunca é superior - e paga-se a colégios privados para desempenharem esta função do Estado. Na maioria dos casos estes colégios privados estão em zonas desfavorecidas, no interior desertificado, e têm décadas de existência. Têm oferta educativa diversificada, boas condições e, na generalidade, melhor desempenho em comparação com as escolas estaduais. Têm também a particularidade de integrarem professores que não fazem parte da carreira docente do Ministério da Educação. São escolas de qualidade (o financiamento depende disso), têm um papel fundamental em muitas áreas onde a igualdade de oportunidade é uma anedota e têm professores que não dançam ao som dos tambores dos sindicatos. Pois isto está mal. Escolas assim, competentes, fiscalizadas, que cumprem a função do Estado e dão o melhor aos alunos gratuitamente, é inaceitável e são uma pedra na engrenagem das nossas elites pensantes. As nossas "elites" reinantes não toleram que existam soluções além das protagonizadas por modelos esgotados em que o ensino gratuito só pode ser prestado por escolas estaduais, funcionários públicos e onde tudo funciona de forma centralizada e condicionado pelos sindicatos. Não se tolera uma escola onde Mário Nogueira é irrelevante. E é por isto, só por isto, que os colégios com contrato de associação estão a fechar: porque se dedicam a ensinar, a formar e a prestar um serviço público de educação em vez de servirem para jogos de poder entre esquerda e direita, sindicatos e ministério, professores e carreiras. Uma escola centrada nos alunos é intolerável à nossa "elite". Uma "elite" que só fala de igualdade até conseguir marcar mesa no novo restaurante do Avillez. Ora, há poucas coisas que façam tanto pela igualdade, pela justiça social quanto os colégios com contrato de associação. Mas quem nos governa só aceita como projeto educativo as escolas da Parque Escolar e afere a sua qualidade pelos candeeiros do Siza Vieira e pelas estruturas para guardar esquis. Quem tem "elites" destas só pode ser masoquista.

Opinião

Quando eu pedir a morte, abracem-me

Daqui a uns anos, se viver até lá, espero que os meus filhos tomem conta de mim. Não quero ir para um lar, ficam já a saber: quero morrer perto, com a minha família por perto. Farei tudo por isso e rezo para que também o façam. Espero que tenham paciência para me aturar sempre que eu fizer dez vezes a mesma pergunta, quando eu perder o juízo, entornar a sopa e levantar-me a meio da noite para fazer a cama. E também espero que me mintam sobre os resultados das análises. Quero que poupem o meu sofrimento e não me levantem a voz. Se tiverem de me lavar, alimentar, transportar, tratar, que o façam com jeito e com amor. Sem impaciência, sem rispidez. No fundo, espero que tenham piedade de mim e que me mimem como os meus pais me mimaram. Vocês são seis, podem dividir o sacrifício por todos e compensar a ausência dos que têm mais que fazer. São seis também por causa disso: para poderem partilhar as coisas más com menos sacrifício e as boas com muito mais alegria, até os pais.

A um metro do chão

Mimar e ser mimado

Quem é mimado sabe mimar, disse-me a Teresa educadora dos meus filhos. A frase não me sai da cabeça. Nunca dei assim tanta importância ao mimo, como se fosse condição para mimar ser mimado, mas pensando bem, ou apenas pensando sobre o assunto, é isso mesmo. É como quem ama: só sabe amar quem foi amado; ou dar: só sabe dar quem recebe. E por aí fora. Com o mimo é a mesma coisa. A minha mãe embrulhava-me na toalha quando me tirava do banho e apertava-me com força no abraço mais maravilhoso que alguma vez senti. Não sei que idade tinha, mas tinha idade para caber no colo da minha mãe como se tivesse nascido só para caber ali. Também tenho uma irmã que me fazia cócegas às escondidas da minha mãe quando eu estava na cama quase a dormir. Ela ia ao meu quarto só para me fazer rir. "Não excitem a criança que ela não dorme", mandava a minha mãe, e eu ficava com dores de barriga de tanto rir e não dormia. Os meus irmãos diziam que eu era a cola Bostick (lembram-se?) e a minha irmã era a cola UHU porque vivíamos agarradas à minha mãe, uma de cada lado e a minha mãe a fazer tricô. Tenho a sorte milionária de ter tido mimo em grande quantidade e qualidade apesar de ser uma de nove irmãos. Ainda hoje pergunto como é que perceberam que eu andava por ali, mas perceberam.

A um metro do chão

Um negócio de Deus

Descobri que os filhos são um negócio de Deus e não um assunto dos homens. Não encontro outra explicação. A um dos meus filhos digo-lhe que ele é um presente que Deus me deu e conto-lhe como foi: "Deus disse-me assim: toma lá este para te ajudar com os outros, é um brinde." Se não foi parecia: ele nasceu com caracóis louros e rechonchudo e nos livros que eu tenho de anjos, os anjos têm todos caracóis louros. Se vissem o sorriso dele cada vez que lhe digo isto. "O pior é que foste o quinto, já está tudo feito." Ele ri-se e às vezes cora. Ao mais novo dizemos que nos veio desarrumar a sala: "Foi um vendaval que Deus nos mandou para se divertir." E ele também se ri mas sem vergonha nenhuma. Uma vez escondeu-se num centro comercial e a Terra parou de girar, foram 15 minutos no inferno. "Estava a brincar", explicou ele quando um senhor o puxou debaixo de umas roupas, e estava mesmo. A quantidade de vezes que me aperta a alma quando eles sofrem, sorriem, dormem não é de mim. Ou não é só. É por isso que os filhos são um negócio que Deus faz connosco: toma lá e aprende a amar. Só pode. Eles a nós e nós a eles. É que não faz sentido. Não há nada de justo no amor dos pais pelos filhos e dos filhos pelos pais: não se dá para se receber, dá-se e pronto. Por isso é que são tantas as vezes que nos apetece atirar os nossos filhos pela janela: quando já não temos forças para dar mais. Conheço pessoas, várias, que adotaram crianças portadoras de deficiência e o que me ocorre sempre que penso nelas é a coragem. Quando e como surgiu a decisão, o que os motivou, como é que souberam que conseguiriam, quem lhes disse que iriam conseguir amar? Depois oiço-me a queixar do trabalho que os meus me dão. Coisa mais parva. Mas não, descobri que não é a coragem que conta, é o amor. É a decisão de amar. Aquela coragem vem de um amor qualquer e aquelas crianças são mais um enorme presente de Deus: fazem parte de um negócio valiosíssimo que Deus só faz com santos. Já nós, os comuns mortais, preocupamo-nos com coisas parvas e não em ser santos. Não temos tempo, nem paciência, nem coragem. Eu, pelo menos.

A um metro do chão

O padre Dâmaso

O padre Dâmaso era amigo do meu pai. Amigo a sério. Sempre que alguém fala do padre Dâmaso digo isto com orgulho, assim como uma criança que se gaba de o pai ser amigo do Ronaldo. É o padre Dâmaso quem todos os anos celebrava a missa do aniversário da sua morte e dizia sempre a mesma coisa: "O vosso pai está no Céu, é um santo. Vocês não precisam de rezar por ele, não vale a pena, rezem por vocês." Nós sorríamos, mas ele não. Ele olhava com ternura para a minha mãe como se lhe estivesse a contar um segredo. "Minha gente, Jesus é fantástico." Um dia contou uma história que o fez chorar. Um homem que quase matou a mulher por esta lhe gastar o dinheiro todo foi preso e na prisão conheceu o padre Dâmaso. "Meu rapaz, porque é que não pedes perdão à tua mulher?", insistia o padre. Ele nada. "Tinha vergonha." E se ela não perdoasse? Durante anos o padre insistiu. "E sabem, minha gente, no dia em que ele saiu da cadeia a mulher foi buscá-lo e eu vi-os a descer a rua abraçados. Jesus é fantástico, minha gente. Comovi-me, sabem." Os meus filhos esbugalhavam os olhos a ouvi-lo. "Estas homilias deviam ser filmadas", dizia alguém a sair da missa. Ele abria os braços e abanava a cabeça incrédulo por existir quem duvidasse de que Jesus é fantástico. Um dia contou que o seu irmão mais velho disse ao pai que não queria mais ir à missa. E o pai não insistiu. "Até que o meu pai perguntou-lhe: então, descobriste alguma coisa? E ele voltou para Jesus." Quando contou isto olhou para nós, pais. "Não obriguem os vossos filhos: eles são livres. A fé verdadeira é livre." Sempre que falava de Nossa Senhora o padre Dâmaso reclamava que Maria apontava para Jesus: "Não olhem para o dedo, olhem para quem ela aponta, sigam o exemplo de Nossa Senhora, é isso que Ela quer." Para ele era simples. Um dia foi apresentado a um padre americano protestante, alto como ele, à porta da igreja. Apertou-lhe a mão e disse-lhe sem delongas: "Não é fantástico servir Jesus? Somos uns sortudos." O americano sorriu e acenou. O padre Dâmaso vivia para os presos, para os excluídos, para "os meus rapazes", dizia ele. Antes da missa de domingo, ao meio-dia, já tinha passado pela cadeia onde celebrava também missa. "São poucos os que assistem à missa, mas são pessoas que nunca conheceram Jesus. Estão agora a descobrir." Já nós, que vamos ali todos os domingos, baixávamos a cabeça e sentíamo-nos pequeninos ao pé dos rapazes da cadeia do padre Dâmaso. "Sabes, rapariga, Jesus ama toda a gente, toda a gente. É fantástico." Era feliz o padre Dâmaso.

A um metro do chão

O calvário dos artistas

O meu filho mais novo tem desenhos pendurados por toda a casa, que prende com fita-cola aos quadros, e como é o mais novo ninguém se atreve a tirá-los. São obras de arte, os desenhos, diz ele. Dizem-me que até muito tarde todos os miúdos querem ser artistas: atores, pintores, cantores, qualquer coisa que remeta para as artes. E nós pais acreditamos. Até muito tarde acreditamos neles. O meu filho mais novo, se fosse o mais velho, já me tinha enganado e já o imaginava artista. Mas artista a sério. Daqueles que perseguem sonhos, que preferem a pobreza a abandonarem a sua arte. Porque nós, pais, somos uns românticos com a vida dos outros. Do mais velho disseram que ele tinha uma motricidade fina excecional. Nunca mais me esqueci, foi a primeira vez que ouvi falar em motricidade fina (ainda não sei qual é a grossa). Os desenhos que fazia eram com perspetiva e desenhava os joelhos da figura humana quando ainda era pequenino. Não sabia, mas as educadoras e depois as professoras diziam que tinha "capacidades excecionais". Tinha cabeça de artista também. Agarrava-se aos livros do Harry Potter, desenhava banda desenhada nas paredes do quarto, tinha talento para o teatro e não jogava à bola. Qualquer rapaz que não joga à bola vai para artista, diz o mito. Uma vez, na aula, foi apanhar o lápis que tinha caído para debaixo da mesa e ficou lá a brincar com o lápis, ao qual deu vida e fala. A meio ano de entrar para a faculdade está na dúvida entre Direito e Economia. Lembro-me que o primeiro embate que teve sobre as suas capacidades artísticas foi com a primeira professora de Educação Visual. Afinal, as notas não correspondiam ao que sempre lhe tinham dito. Afinal era trapalhão, pintava fora dos riscos, as retas eram tortas e borrava. Por isso gostava mais de lápis. Três, dois, três. Não saía destas notas. Nunca mais desenhou em casa e nunca mais ouvi falar da motricidade fina. Foi nessa altura que me disseram que os miúdos deixam de desenhar quando começam a ter aulas de Educação Visual. É quando avaliam se são certinhos e não artistas. O nome diz tudo: educação visual. É também nessa altura que comparam os seus desenhos com a realidade. Olham para o elefante e olham para o desenho que fizeram do elefante e ficam de rastos. Mas está lá tudo, dizemos. Mas não está o elefante, reparam eles. Este mais novo não me engana. Faz obras de arte, mas não me engana. Primeiro tem de atravessar o calvário da avaliação sobre a sua capacidade visual. Há algum artista de educação visual? É que ela já matou vários artistas cá em casa.

A um metro do chão

Educar rapazes

Tenho cinco rapazes, o que não me dá autoridade nenhuma para falar sobre a educação dos rapazes - é a primeira vez que me confronto com o problema. Tenho uma rapariga, o que me deixa aterrada e na expectativa da primeira saída à noite, do primeiro namorado, eu sei lá. Não sei porquê mas sinto algum nervosismo quando a imagino daqui a uns aninhos, livre e senhora do seu nariz, do seu sim e não, dos seus amores e desamores. "Ah, mas tens de ter confiança que ela vai saber tomar conta de si. As miúdas de hoje são diferentes." Pois. Talvez. Aliás, claro que sim. É conhecê-la, de queixo empinado, de sorriso fácil e aberto (inclina a cabeça para a esquerda quando está envergonhada) e vai à luta, sempre. Não cede a modas, não cede, ponto. Não fizesse ela esgrima. Mas o meu nervosismo não desaparece. Devo ser eu. Depois olho para eles. Nervosismo nenhum. Nadinha. Só tenho medo dos carros, dos carros e dos copos, das drogas. É confiar, dizem-me. Claro, isso e estado polícia. Mas confesso que o tema dos amores e desamores dos meus rapazes não me tiram um minuto de sono. Preconceito meu, só pode. Porque é que o desgosto amoroso da minha filha me parte o coração e os deles nem tanto? Já lhes disse, ainda mal sabiam falar, que o respeito pelas raparigas é tema sensível. Cá em casa não se levanta a mão à irmã. Mas isso é injusto, dizia um deles: "Lá por ela ser rapariga pode irritar toda a gente e não apanhar?" Isso. Isso mesmo. E ela abusa, claro, não é parva. Sabe gritar como poucas e é perita do clichê de puxar cabelos.

A um metro do chão

A bolha do Natal

Chega o Natal e chega a altura de idolatrar as criancinhas. Eu, inclusive. É uma estupidez sem limites. Ando há semanas a comprar presentes para o meu filho mais novo, não comprei um presente e pronto, comprei uma série de porcarias e sorri quando paguei cada uma delas só de imaginar o sorriso e a felicidade da criança ao abrir os embrulhos. Os meus outros filhos olham para mim com alguma comiseração e abanam a cabeça cada vez que apareço com mais um dos membros da Guarda do Leão ou mais um cão da Patrulha Pata. Mas é assim, hoje em dia o Natal serve quase exclusivamente para acabar de estragar as criancinhas que ainda não estragadas. Torná-las verdadeiramente insuportáveis e mimadas, caprichosas e irritantes. É o que se espera de alguém que começa uma carta com "quero" - nem a Autoridade Tributária se atreve a tanto. Mas as criancinhas podem. E no Natal podem tudo. A verdade é que alguém, algures e há não sei quanto tempo fez crer ao mundo que o Natal é das crianças. Com que fundamento meu Deus? Jesus nasceu para todos e não apenas para quem não sabe apertar o cinto de segurança e é viciado no canal Panda. Não faz sentido. E não é das crianças desfavorecidas, pobres, órfãs e que precisam de ajuda e caridade. Não, é das crianças que começam cartas com "quero". E nós, obedecemos. Ou seja, alguém inventou que o Natal é das crianças e mandou a conta para os pais. E nós pagamos a sorrir.

A um metro do chão

A solidão do Natal

Percebo que não se goste do Natal. Conheço pessoas, muitas mesmo, que me dizem detestar o Natal. Assim, com mágoa. E são várias as razões: porque adivinham ou têm memória do inferno que é andarem de um lado para o outro entre a casa da mãe, a casa do pai, dos vários avós e das discussões sobre as horas de entrega; porque não têm dinheiro e têm presentes para comprar; porque estão zangadas com mais de metade da família e o Natal abre essas feridas; porque não aguentam a pressão de ter de sorrir quando só lhes apetece chorar; porque é quando nos dói mais a saudade de quem já partiu. O Natal assim é um suplício. É triste. Sobram poucas razões para se gostar do Natal desta festa de presentes e comida. A mim, por exemplo, angustia-me pensar nos presentes que tenho de comprar, nos preparativos que devo fazer, na pressão de conseguir estar à altura das expectativas dos meus filhos, que dificilmente aceitam que estes não sejam dos dias mais felizes do ano - como lhes criar memórias à medida de Charles Dickens com o agravante de não nevar onde vivo? Enervam-me as filas, as lojas, o bombardeamento de ofertas de programas, de espetáculos, donativos, bazares, vendas, feiras. Nada se faz sem comprar. É tenso e é caro. Tenho um amigo que todos os natais pega nos filhos e vai passar 15 dias fora. Longe. Ele foge, e com razão, deste Natal. Um Natal que pode ser uma época triste e confusa porque, quando sustentada em alicerces tão frágeis como sejam a conta bancária ou a estabilidade familiar, basta um estremecer para se transformar numa ruína.

Opinião

A esquerda que queremos ser

Nós na direita estamos numa crise profunda. A verdade é que ninguém nos liga: ninguém quer saber de liberais e conservadores, de mercado e livre iniciativa, de doutrina cristã, judaica ou seja lá o que for. Está-se tudo nas tintas para o alívio da carga fiscal, aumento da dívida, falência dos serviços públicos ou excesso de regulamentação; para valores morais ou para a defesa da família. Ninguém quer saber da direita para nada. A direita cheira a bafio, a coisas certinhas e consistentes, tipo filme dos anos cinquenta. Cheira ao irritante "eu bem avisei..." - como se alguém quisesse ser avisado. Não fosse Assunção Cristas e o seu resultado em Lisboa e já teria acontecido o suicídio coletivo das 127 pessoas de direita que existem em Portugal. No fundo são aqueles 20 e tal por cento e a reconquista de uma câmara em Aveiro que nos seguram da vertigem da ponte. Nem Marcelo nos dá cavaco: somos o filho ignorado de Marcelo. Somos aquele irmão que ficou em casa a servir o pai mas não tem direito a um banquete em sua honra. Não, o carneiro mais gordo é para ser servido ao delinquente de esquerda que só faz asneiras, que é irresponsável, manipulador, arrogante e que nem sabe pedir desculpa. E nós, que sempre nos portámos bem, que nunca gastámos mais dos que podíamos, que cumprimos as regras todas, que nem uma escutazinha mais atrevida temos para dar ao CM, meu Deus, não recebemos sequer um apertãozinho na bochecha, uma festinha na cabeça, vá. A verdade é que está na hora de repensar estratégias. Parece-me urgente uns estados gerais da direita subordinado ao tema "A esquerda que queremos ser". É que queremos. Nós queremos poder ter líderes do tipo Sócrates e ganhar eleições umas atrás das outras. Por que não? Não me parece justo que só a esquerda tenha direito ao exercício da política por psicopatas. Este papel de irmão do filho pródigo é ingrato. É ingrato porque ficamos com má fama e nem nos divertimos: limpamos a porcaria dos outros e ainda vamos de castigo para o quarto. É incrível. Também queremos gastar o que nos custou tanto a poupar e, acima de tudo, exigimos a tolerância que é dispensada à esquerda: qualquer governo de direita, depois da série de palhaçadas e tragédias que aconteceram do verão para cá, já teria sido demitido dez vezes. Por tudo isto chegou o momento de atuar: queremos uma Web Summit só para nós e queremos sair de lá com respostas e novas aplicações. Ou isso ou um carregamento de antidepressivos.

A um metro do chão

Não haveria Sócrates sem o PS

Desconfortável? Desconfortável, meus amigos, é ter um mosquito no quarto ou adormecer numa cadeira de pau. Um ex-PM acusado de 31 crimes, de ser um maníaco do poder e ainda ter ganho duas eleições seguidas, é uma tragédia. É mesmo. Diz Carlos César, a sair de fininho, que é desconfortável para o PS a acusação do MP. Diz Jorge Coelho, que já saiu de fininho, que está chocado com tudo isto e que as 31 acusações não "colam" com o José Sócrates que ele sempre conheceu. E foram 35 anos de conhecimento - a maioria dos casamentos dura metade. Não cola. Então vamos lá ver. O que o PS sempre reconheceu em Sócrates foi a sua habilidade em ganhar eleições e isso chegou. Não interessa como, a que custo e para quê. Interessa apenas ganhar. Qualquer socialista acha que o poder é naturalmente seu porque só ele, sentadinho no secretariado nacional, sabe interpretar o bem comum. Os meios, por isso, justificam moralmente os fins. Os impostos, a dívida, os temas fraturantes, são o resultado das interpretações que os indivíduos do Largo do Rato fazem das necessidades do povo. Se é Sócrates, Ferro Rodrigues, Galamba ou Carlos César, quem lidera não interessa: interessa o talento que se tem para falar aos portugueses e convencê-los de que a água é vinho. Sócrates foi um meio do PS para dominar, a Parque Escolar outro, o TGV idem, o PCP e o BE a mesma coisa e até Costa é um bonequinho. E isto porque no dia em que não servir, no dia em que deixe de ser um instrumento que ajude o PS a confundir-se com o poder, é arrumado na mesma caixa do sótão onde está Seguro. É que antes de Sócrates esteve sempre o PS: foi o partido quem o lançou, acolheu, recomendou, protegeu e foi através do partido que centenas chegaram ao governo, à administração pública, às empresas públicas, ao comentário político. Foi através do PS que se fizeram negócios e se levou o país à bancarrota deixando por largas e dolorosas décadas o seu cunho. O controlo da comunicação social, o que se passou na PT, não foi um capricho de Sócrates, serviu em primeiro lugar o PS. Ah, mas os portugueses votaram nele, dizem. Mas não, os portugueses votaram no PS e no líder que o PS lhes recomendou. É assim que funciona a democracia: há sempre um certificado partidário, sempre. Sócrates sem o PS nunca teria descido da Covilhã, assim como sozinho não teria conseguido fazer um milésimo daquilo que o acusam. Desconfortável, como diz Carlos César? Não. É, isso sim, uma tragédia para a nossa democracia. E não foi por engano. Sócrates não está sozinho no banco dos réus: chegou lá ao colo do PS.

A um metro do chão

O que depende de nós

Ao fim de anos e anos de escolaridade obrigatória, tendo repetido vários anos, esbarrado com vários ministros, estudado vários programas, experimentado inúmeros métodos, conhecido dezenas de professores, preparado mais de uma dúzia de exames, quase uma dezena de provas de aferição e tendo ainda passado meses, quem sabe anos, a fazer trabalhos de casa, posso dizer com a tarimba alicerçada nesta vasta e diferenciada experiência, e com uma mínima margem de erro, que quase tudo no ensino depende exclusivamente dos professores e da vontade dos miúdos. Tudo o resto é poeira. Pais, esqueçam o material escolar de última geração, os colégios caros, as explicações, as decisões dramáticas de abandonar empregos para acompanhar os filhos na escola, os testes psicotécnicos, a despreocupação angustiante com as notas em cada período escolar: vão viajar. A vida escolar dos nossos filhos depende muito menos de nós do que pensamos: ela depende sobretudo dos professores, porque um mau professor pode atrasar seriamente a vida dos alunos (nem é tanto a diferença que fazem os bons, mas sim a desgraça que provocam os maus), e depende dos miúdos porque nada se faz contra eles. Seria como tentar enfiar um prato de sopa pela boca abaixo de um bebé: no fim vomitam-nos em cima. Caros, há um dia, numa altura em que a escolaridade obrigatória está quase a chegar ao fim, as médias a rapar o tacho e a esperança num futuro universitário médio/bom a dar o seu último e cansado suspiro, em que o miúdo acorda, qual Bela Adormecida, e diz: "Já sei o que quero fazer", debitando de seguida um discurso coerente, realista e racional. E começa então a dedicar-se àquilo que nós sempre sonhámos que ele um dia fizesse: estudar. É assim, uma magia. Durante anos, nós, pais, achamos que o nosso filho de 10 anos tem 18, achamos que sem matemática resta-lhe um futuro do tipo Catarina Martins e achamos que ele tem de ter maturidade suficiente para estudar com gosto e por responsabilidade. Somos parvos, portanto. A verdade é que eles estudam se quiserem, ou por medo das consequências imediatas de não o fazerem, e para isso precisam de professores que saibam o que estão a fazer. As notas, caros pais, reparam-se no final do 11.º e analisam-se com detalhe e preocupação do final do 12.º. Até lá, é deixá-los ser jogadores de futebol, atores, realizadores, cozinheiros e bailarinas. Até lá, descontraiam e protejam os miúdos dos maus professores.