Inês N. Lourenço

Opinião

Uma história de mulheres

Nos tempos que correm, de uma certa consciencialização mediática das causas feministas, ainda há quem faça o pleno elogio à mulher sem cair no, muitas vezes, efémero discurso panfletário. Também serve para o cinema. Contam-se pelos dedos os filmes que contemplaram abertamente a resistência e mágoa daquelas que viram os seus homens partir para a guerra - um dos exemplos emblemáticos é a primeira película a cores de John Ford, Ouvem-se Tambores ao Longe (1939). Por isso saudemos o magnífico gesto de Xavier Beauvois, que chega agora às nossas salas: As Guardiãs. Saudemo-lo, desde logo, pela sua enorme cumplicidade com a história das mulheres. Particularmente as que, durante o primeiro conflito mundial, lavraram a terra e asseguraram a produção, enquanto os filhos e os maridos estavam no campo de batalha. O realizador desse admirável Dos Homens e dos Deuses traz-nos mais um sereno e impressivo olhar sobre aquilo que, dito de forma simples, une a humanidade: o amor, a morte e o trabalho. Este é um filme que nos põe diante de silhuetas femininas a laborar nas searas e terra de cultivo. Imagens que, além de evidenciarem a extrema força das mulheres, também se deixam atravessar pela angústia ancestral que lhes habita o corpo. Elas são o centro e abismo de uma visão seca e profundamente dramática da realidade. Os seus rostos símbolos de uma discreta honra que se manifesta nos muitos silêncios do filme. Aqui, a palavra serve quase só para expressar os sentimentos que, apesar de tudo, têm oportunidade de nascer, ou para anunciar uma morte... Beauvois filma tudo isto com um recatado louvor pictórico, que se torna eloquente na harmonia dos semblantes com a paisagem. Não poucas vezes, a beleza e a dor estão lado a lado. De ambas se faz o majestoso retrato de As Guardiãs.

crítica

Ninguém escreve a Don Diego

O regresso da argentina Lucrecia Martel, nove anos depois de A Mulher sem Cabeça, assinala-se com um filme que fala sobretudo disso: o tempo que passa. Mais precisamente, o modo como os corpos habitam o tempo na inconsciência do presente, e numa solidão em estado bruto. Don Diego de Zama, o oficial espanhol cujo apelido dá título ao filme (este adaptado de uma das obras mais importantes da literatura argentina, do escritor Antonio Di Benedetto), é um homem preso no ermo civilizacional das colónias americanas de Espanha, à espera de ser promovido, e de voltar a ver a família - essa esperança quimérica do "regresso a casa". E Zama capta a infinda espera com verdadeira grandiloquência cinematográfica, num labor de encantamento subtil. Digamos que Martel chega ao interior do personagem, à sua solidão pantanosa, através de um olhar quase onírico sobre a realidade que o envolve e submete à introspeção. A saber, uma realidade mais assente na vida dos corpos do que na paisagem: o físico humano como sensualidade que concentra a matéria temporal. Aí reside a dimensão imersiva do filme, uma viagem estranha, que impregna o espectador dessa estranheza. Uma visão sem futuro nas entrelinhas, que nos vincula à escrita seca do real.

Opinião

Diário de um luto

A linha que separa a dor pessoal da crise de uma sociedade pode ser muito ténue. Vivemos tempos em que a representação da primeira está muitas vezes ligada à segunda. E essa proximidade não escapa ao cinema que se propõe olhar o coletivo a partir dos traumas individuais. Vejamos, o que resta a uma mulher quando lhe matam o marido (de origem turca) e a sua única criança? Mais especificamente: quando neonazis colocam uma bomba à porta da loja da sua família por razões xenófobas? É a partir desta mágoa dilacerante que se ergue o filme de Fatih Akin Uma Mulher não Chora, um retrato íntimo mas também social de uma Alemanha com feridas ainda muito abertas No epicentro dramático está Diane Kruger (premiada em Cannes), atriz de origem alemã que tem aqui, pela primeira vez, um papel num filme alemão. Ela é, para além do rosto da tragédia, a mulher que procura assegurar a única coisa que, não diminuindo a dor, lhe pode dar alguma esperança de vida: justiça. Observando essa batalha com a frieza necessária, Fatih Akin vai focar-se sobretudo no modo como a protagonista experiencia a ausência dos que mais amava. Esse dia-a-dia impossível e miserável. Por outras palavras - roubadas a um livro de Roland Barthes -, Akin dedica o filme a avaliar "o grau de intensidade de um luto". Aí reside a força do retrato psicológico assegurado por uma atriz que assume para si toda a verdade daquela situação, e que a câmara segue com empatia e um discreto amor. O desespero que se reflete nos olhos amargamente azuis de Kruger é o vigor da mais profunda solidão. Como também escreve Barthes nesse Diário de Luto, um sentimento de "não ter ninguém em casa a quem se possa dizer: volto a tais horas ou a quem poder telefonar (dizer): cá estou, já voltei". Quando esta mulher voltou, a família já não estava.

Opinião

Retrato do falhado feliz

Começar o ano com o novo filme de James Franco? Em circunstâncias normais, e sem menosprezar inteiramente a sua diligência como realizador, não seria um bom augúrio. Mas por uma vez, rejubilemos, pois é caso para dizer que este californiano apaixonado por Faulkner finalmente acertou no material cinematográfico! Em todo o caso, não é nada que se relacione com grande literatura Digamos que a maior nobreza de Um Desastre de Artista nasce do mais intrépido desejo de celebrar o cinema. O amor ao cinema. Mesmo, ou sobretudo, se esse enaltecimento não corresponde a uma obra distinguida pelas suas virtudes. Trata-se afinal de uma crónica da rodagem de The Room (2003) - o cult movie colocado no pedestal como o "melhor pior filme de sempre" - sob o signo do mistério do seu realizador, produtor e ator, Tommy Wiseau. Franco também realiza, produz e protagoniza o seu filme, encontrando nas estranhíssimas imperfeições de Wiseau uma porta aberta para o terno retrato de um feliz falhado. A verdade é que, aproveitando a comicidade singular que envolve a personagem real, Franco não pegou nesta história de uma amizade improvável (entre Wiseau e o ator Greg Sestero), que resultou num filme, para sacar dela a caricatura. O que se vê aqui é o genuíno apreço pela resiliência de um homem que estava confiante na qualidade da sua obra, iludido com a ideia de ser talentoso E para todos os efeitos, outras formas de talento se revelaram pelo caminho.

Opinião

Uma canção de despedida

Quando se soube da morte de Harry Dean Stanton (1926-2017), o seu amigo David Lynch foi dos primeiros a reagir à notícia com uma genuína manifestação de amor, recordando-nos que Stanton era um grande ator, para além de um grande ser humano. Este juízo leva-nos instantaneamente ao famoso episódio em que Stanton declinou o convite para ser Frank - a personagem atroz de Blue Velvet (1986), que acabou por ser um grande papel de Dennis Hopper -, porque não se sentia capaz de fazer um filme tão violento… Ele era assim. E as suas duas grandezas, de ator e de ser humano, estão bem patentes em Lucky, o filme que lhe canta uma terna canção de despedida, embrulhando os seus dados biográficos em ficção. Aqui seguimos um homem chamado Lucky, mas não deixamos nunca de adivinhar naquele rosto franzino as estradas que nos levam a Stanton. Por isso, John Carroll Lynch, o realizador, tem tanta razão quando diz que esta personagem é a essência Stanton, mesmo não sendo ele. O homem que seguimos está a debater-se pela primeira vez com a ideia da morte, e o realismo é a única forma que tem de lidar com ela. Mas há também uma dimensão espiritual que atravessa esta jornada com invulgar subtileza. Veja-se, por exemplo, a cena em que David Lynch, aqui no papel comovente de um homem desorientado com o desaparecimento do seu animal de estimação, expõe magnificamente aos outros a solidão que o consome, com a frase: “Há coisas neste universo, senhoras e senhores, que são maiores do que nós. E um cágado é uma delas.”

Opinião

Uma romântica aventura marítima

O que levou Jacques-Yves Cousteau à sua romântica aventura marítima? O que é que o fez trocar a farda da marinha francesa pelo icónico barrete vermelho de comandante? Segundo A Odisseia, de Jérôme Salle, foi como que um atalante, um desejo súbito de descobrir e possuir os oceanos, com um globo terrestre na mão. O Atalante? Filme sublime de Jean Vigo, com um barco assim batizado, que deveria ser o lar para os recém-casados Jean e Juliette. Algo semelhante aconteceu com Cousteau e a mulher, Simone, que vendeu as joias para recuperar o navio Calypso, e fazer dele a sua morada. Uma vida no alto-mar que os foi distanciando, mesmo no espaço abreviado dessa casa flutuante. Lembrei-me de O Atalante não apenas pelas coincidências de sentido e conjuntura, mas pelo lirismo que encontramos nesse título francês de 1934, e que muito dificilmente podemos encontrar no filme de Salle. Cheio de imagens subaquáticas - as que deram sentido à viagem fantástica de Cousteau pelo manto azul da terra - A Odisseia pouco deslumbra nessa captação de um ecossistema. É como se víssemos panfletos turísticos, daqueles que atraem a atenção em expositores de agências de viagem. Aliás, todo este biopic tem essa estrutura de "episódios-postais", uma sucessão de momentos mais ou menos relevantes que nunca chegam a adquirir profundidade. Jacques Cousteau que, com espírito conquistador (tanto em relação ao mar como em relação às mulheres), acreditou ser possível ao homem viver debaixo de água num futuro não muito longínquo, é retratado num filme incapaz de recuperar um décimo da magia que quis levar às pessoas através dos seus documentários... Por mim, trocava este pobre A Odisseia pela magnífica e única cena subaquática de O Atalante, em que Jean procura uma visão da sua Juliette por entre a neblina líquida. Crítica de cinema