Inês N. Lourenço

The Gray Man - O Agente Oculto, de Anthony Russo e Joe Russo estreia a 14 de julho.
Exclusivo

Cultura

Cinema para os meses de verão

A temporada de verão talvez já não tenha a dimensão e o fulgor de outros tempos, mas é um facto que continua a ser um período tradicionalmente significativo da atividade cinematográfica: para os espetadores, muitos a gozar férias, e também, claro, para as empresas de distribuição e exibição, apostadas em recuperar público depois das dificuldades dos últimos anos. Os críticos do DN fazem o inventário de alguns dos títulos mais importantes que irão marcar os próximos meses.

Opinião

Mulheres de pulso firme 

Tirando o grande prémio da noite, cujas apostas se dividiam, a teoria das probabilidades dominou esta edição dos Óscares. Num ano em que o rol de atrizes nomeadas satisfazia quase plenamente o princípio da variedade - desde a histeria de Margot Robbie, no papel da controversa patinadora artística Tonya Harding, à doçura de Sally Hawkins, apaixonada por uma criatura aquática -, a escolha da Academia de Hollywood veio apenas confirmar o resultado dos cálculos feitos ao longo da temporada de prémios. E pedindo desde já desculpas, posiciono-me contra esta matemática. Tenho alguma dificuldade em lidar com a vitória "pré-anunciada" de Frances McDormand. Em primeiro lugar porque não consigo deixar de inferir que a verdadeira vencedora do Óscar de melhor interpretação feminina não é a atriz mas a sua personagem... Nestes tempos dominados por hashtags e movimentos feministas (que devem ser aplaudidos no essencial), era extremamente apropriado dar a estatueta à personagem que toca nas feridas da atualidade. Por acaso, essa personagem é conduzida por McDormand, uma grande atriz que conhece todos os códigos da dureza. Mas não deixo de acreditar que, por exemplo, uma Margot Robbie, com um pouco mais de rugas, também conseguisse o feito neste papel. Não é a qualidade da performance de McDormand que se põe aqui em causa, mas até que ponto a sua postura rija e masculina aguenta não se converter em caricatura. Acima de tudo, vale a pena refletir sobre a natureza da atribuição deste prémio, inclusivamente se pusermos na equação ausências como a de Annette Bening, que na pele de Gloria Grahame (1923-1981), em As Estrelas não Morrem em Liverpool, deu uma das mais subtis e comoventes interpretações recentes. Ou então, pense-se na garra juvenil de Saoirse Ronan, um enorme talento que chega pela terceira vez às nomeações sem colher frutos. Mas, contas feitas, McDormand era o rosto destinado a marcar uma noite que estava sob o signo do espírito feminista.

Inês N. Lourenço

Women in black

Fixemo-nos na imagem: uma plateia quase integralmente vestida de negro. Um protesto que entrava pelos olhos antes de se ouvir os discursos. Um símbolo de união que, como disse a Wonder Woman Gal Gadot na passadeira vermelha, se traduziu em elegância. Ontem à noite, na 75.ª cerimónia dos Globos de Ouro, as mulheres estavam mais fortes do que nunca, contra o assédio sexual. A exceção ao dress code fez-se notar na figura da própria presidente da Hollywood Foreign Press Association, Meher Tatna, que se apresentou no palco com uma indumentária vermelha. Quem não reparasse que, apesar disso, ela estava a usar um pin do movimento Time"s Up poderia ficar baralhado Calma. A razão da escolha teve simplesmente que ver com os rituais da sua cultura indiana, segundo a qual, tratando-se de uma celebração, deveria usar uma cor festiva.

Opinião

Sob o signo de Henri Langlois

Nestes tempos de grandes e incessantes proezas da imagem digital, é um refúgio para o olhar descobrir cinema ainda capaz de nos aproximar da verdade das coisas. Quer dizer, não no sentido básico da rugosidade física, mas de uma pura essência e beleza cinematográficas. O cineasta francês Philippe Garrel, de quem nos chega agora O Amante de Um Dia, não será a única figura de resistência no panorama, a praticar um cinema de tato e alma. Mas é especialmente através dele que a crença e vontade de Henri Langlois (1914-1977) se mantém viva e bem expressa em cada imagem de película a preto e branco dos seus filmes. Cinéfilo de primeira apanha, o lendário fundador da Cinemateca Francesa não admitia a hipótese da extinção dessa marca de nascimento da sétima arte. Dizia que era impossível o preto e branco desaparecer, porque era assim que o cinema tinha sido apresentado ao mundo pelos irmãos Lumière - a propósito, vale a pena lembrar o recente e fascinante documentário de Thierry Frémaux (agora em DVD), com uma boa amostra dos seus pequenos filmes, que nos coloca diante da suprema vitalidade dessas imagens inaugurais.

Opinião

A máquina do tempo

Quis o destino que os inventores do cinematógrafo trouxessem no apelido o simbolismo da sua própria invenção. Fez-se lumière, ou luz, no mecanismo, mas também se fez luz no modo como este se acercou da realidade e iniciou com ela uma relação artística. O documentário Lumière!, de Thierry Frémaux, não traz propriamente uma novidade na sua tese de que os irmãos que patentearam o aparelho revolucionário eram já os primeiros cineastas da história, com toda uma gramática visual aplicada à matéria da realidade. Em 1968, Éric Rohmer filmou uma conversa com Henri Langlois, o fundador da Cinemateca Francesa, e o mestre Jean Renoir, onde se discorria sobre a minúcia do trabalho desses pioneiros, que invalidava qualquer hipótese de mero acaso na qualidade das suas tomadas de vista. Nesse pequeno documentário, intitulado Louis Lumière, Langlois e Renoir, dois pesos-pesados (literalmente) da história do cinema francês, debruçam-se com erudição sobre a consciência fundamental de que cada um dos filmes dos irmãos Lumière resulta de um rigoroso estudo do ângulo, da luz e mesmo de uma inspiração pictórica. Alguns dos filmes analisados então encontramos agora nas escolhas de Frémaux, à luz dos seus comentários, que embora mais breves, são suficientemente aliciantes para nos ajudar a perceber a natureza dramatúrgica em emergência nas imagens.

Óscares 2017

O luar sobrepôs-se à cidade das estrelas

La La Land não foi o ponto final da noite, mas sim a vírgula para um desfecho inesperado e feliz. Uma troca de envelopes, depois justificada por Warren Beatty, que entregou a estatueta, esteve na origem do impasse que antecedeu a legítima vitória: Moonlight. E que bom que foi, no segundo ano consecutivo, percebermos que afinal o guião não estava fechado. Damien Chazelle teve o reconhecimento como realizador - o mais jovem a ganhar nesta categoria -, mas parece que a sua recriação do musical não cegou o intelecto e os sentidos perante outro filme de grande envergadura humana. Este é um triunfo merecido para Moonlight, numa celebração do cinema feita de pluralidade, estendida a todas as categorias.

Inês N. Lourenço

Comédia do desassossego

Dizer que os alemães não têm humor é uma ideia feita. Mas não é daqueles estereótipos completamente infundados, que provoca aguerridas defesas do contrário. Marlene Dietrich, mítica atriz germânica, admitiu-o na sua autobiografia: "O humor não é um traço típico alemão. Por natureza, somos mais propensos à solenidade." Claro que, depois de confirmar a noção geral, Dietrich fala das exceções. Do mesmo modo, Toni Erdmann, da alemã Maren Ade, que se estreou em Portugal na quinta-feira bafejado pela crítica internacional, e nomeado para o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro, trabalha a exceção. Para sermos precisos, trata-se de um tal desvio à regra que o próprio protagonista é olhado pelas outras personagens com enorme estranheza. Winfried (Peter Simonischek) é um professor de música reformado e divorciado - por isso, solitário - com reduzida audiência para as suas brincadeiras espontâneas, que incluem a criação de bizarros alter ego. Após a morte do seu mais fiel espectador, o cão, decide usar o humor para reaver algo que ficou no passado: a relação com a filha, Ines (Sandra Hüller), que agora é uma mulher executiva, solteira e endurecida pelo estatuto empresarial. Toni Erdmann surge então como o alter ego que a perseguirá em Bucareste, onde decorre um complexo negócio, infiltrando-se nos contextos públicos: é a verdadeira comédia de embaraços. E é, de facto, com desconforto que também nós assistimos às performances daquele homem. Isto porque as melhores são necessariamente as mais tristes. O humor veicula o melodrama, assinalando uma camada profunda, a que acedemos pelo incómodo... Será a transfiguração das emoções uma definição possível do humor alemão? Anunciado o remake com Jack Nicholson, e apesar dele, o certo é que não terá o efeito dramático genuíno desta produção germânica.