I Guerra Mundial

Opinião

O que mudou no combate

Na Primeira Guerra Mundial, o modo de combater caracterizava-se pela importância do fogo nas operações. A proteção blindada (os carros de combate surgiram no final da guerra) era incipiente face a esse poder do fogo e os combatentes abrigavam-se com a fortificação do terreno. Surgiram as trincheiras: eriçadas de arame farpado, minas espalhadas na "terra de ninguém", com o crepitar das metralhadoras, as barragens de artilharia por vezes com granadas químicas e o lançamento de granadas de mão, eram praticamente impenetráveis. Quando se rompiam à custa de autênticos banhos de sangue, rapidamente se recompunham. Na Grande Guerra, o movimento com motores teve algum significado, embora ainda incipiente. A batalha do Marne fixaria as frentes durante cerca de quatro anos, depois de os exércitos inimigos terem manobrado, tentando envolver--se mutuamente - "a corrida para o mar"-, obrigando à mobilização dos táxis de Paris pela França, por não haver suficientes camiões para transportar as tropas. A aviação (aviões e zepelins), usada principalmente em missões de observação, dava os primeiros passos. Os submarinos desempenharam importante papel, mas não existiam porta-aviões, satélites e naves espaciais, drones e outros robôs. As transmissões baseavam-se no telégrafo e nos telefones por fio; titubeavam as comunicações rádio. Não havia televisão, nem se pensava na possibilidade de existir a internet e seus filhotes - ciberguerra e cibercrime com computadores, tablets e equipamentos digitais - a informação não predominava nas operações militares nem era possível ligar em rede os vários escalões de combate ou era imaginável uma "guerra de perceções". Não se podiam localizar objetivos com elevada precisão e alcançá-los a distância com poderosos fogos nucleares (mísseis intercontinentais), a partir de terra, do espaço exterior ou do fundo do mar, nem existiam antimísseis. Enfim, ainda não era concebível o "Armagedão", como agora. Só o inferno.

Opinião

A metamorfose republicana

A Primeira Guerra Mundial manifestou uma das características marcantes do movimento republicano em Portugal: o entusiasmo pelo império colonial africano. A exaltação com a corrida para África tinha ficado bem patente, já em 1890, com a violenta reação da ativa minoria republicana à inevitável e sensata cedência de D. Carlos I ao Memorando da Rainha Vitória (conhecido por "Ultimato"), que nos colocava fora do Mapa Cor-de--Rosa. Muito antes de o nosso Corpo Expedicionário Português (CEP) começar a ser dizimado nos campos de batalha da Flandres, já alemães e portugueses lutavam em Angola e Moçambique. AI República pensou, contudo, que teria de pagar um imposto de sangue na Europa para que Portugal, depois de perdidas a Índia e o Brasil, pudesse manter o seu império em África.O que mudou pouco antes da Revolução de que nasceu a nossa III República, foi o colapso dentro dos republicanos, do anterior consenso sobre África. De um lado, Salazar, líder dos "velhos republicanos" conservadores e tendencialmente sidonistas, que seguiu com total intransigência as pisadas de 1890 e 1916, numa defesa incondicional do direito a manter um império colonial, como a democrática França o fez na Indochina e na Argélia, até a força das armas ter ditado a sua queda. Do outro lado, os "novos republicanos", que verberaram o colonialismoe a guerra em três frentes a que ele conduziu. Sem perceber esta rutura interna ao ideário do republicanismo português sobre o lugar de Portugal em África, não perceberemos nada, nem sobre a Primeira Guerra Mundialnem sobre o 25 de Abril de 74, e ainda menos sobre os gigantescos custos humanos e materiais da descolonização que se lhe seguiu.