Henrique Burnay

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O que de facto nos divide

Sobre a Guerra na Ucrânia, como nas eleições francesas, está à mostra o grande equívoco dos últimos anos: o verdadeiro antagonismo não é entre radicais de esquerda e de direita, é entre moderados e radicais, entre pró-ocidentais e iliberais. Entre os que defendem inequivocamente o direito da Ucrânia escolher o seu destino junto das democracias ocidentais e os que detestam a NATO, a América ou a globalização tanto ou mais do que a Rússia de Putin; entre os que são contra o sistema, como Le Pen, Zemmour e Mélenchon, e os que o representam, no caso, essencialmente Macron.

Henrique Burnay

Campeões da desigualdade

Um dos principais efeitos do regresso assumido da competição à política internacional é que a União Europeia está a tentar encontrar o seu lugar, e o seu papel, neste novo mundo. E, para isso, está a transformar profundamente algumas das suas características fundamentais. Mas mal se nota, e menos se discute. Até porque tudo isto acontece em políticas que parecem obscuras ou distantes para a maioria dos europeus, como o fascinante mundo dos microprocessadores.

Henrique Burnay

Somos feitos de quem gostamos

Quando vim para Bruxelas "por dois anos e meio de certeza absoluta", há dezassete anos, enchi o carro de coisas que não faziam sentido para quem ia ficar tão pouco tempo. Além de livros escusados, como se não houvesse livrarias e muito mais para ler, trouxe umas trinta fotografias soltas. Umas férias, um baile, uma noitada, uma despedida, a entrega de um presente. Coisas antigas, algumas muito, que me lembravam alguma história. Se calhar por mal haver internet, não existir Facebook, voar ser caro, precisava de trazer raízes, que é o que as memórias são.

Henrique Burnay

O necessário regresso do realismo

A derrocada da União Soviética e o fim do internacionalismo comunista foram os factores fundamentais da onda democrática que varreu o mundo no pós 1989. Para além da derrota dos regimes comunistas e aparentados, que deixaram de ter o apoio soviético sem o qual a sua subsistência era inviável, também houve uma alteração da política americana e ocidental. O fim, ou pelo menos a diminuição, da competição internacional e uma maior atenção das opiniões públicas levou o Ocidente a ir-se afastando dos regimes não democráticos que lhe tinham sido úteis. Na América Latina, África e Ásia. Uma excpeção relevante terão sido os países árabes do Médio Oriente, onde se acreditava, com justificado razão, que a competição, sendo diferente, subsistia. Coisa que o 11 de Setembro e os ataques terroristas na Europa vieram sustentar, e a Primavera Árabe não desmentiu.

Henrique Burnay

As virtudes da falta de excitação

Perguntada, há vários anos, por um apresentador de televisão sobre qual seria a maior virtude alemã, Angela Merkel respondeu "janelas bem vedadas". Esta foi uma das muitas histórias da chanceler recordadas nas últimas semanas, e talvez seja uma das melhores. Merkel foi como uma janela alemã bem vedada. Nada inspiradora, muito eficiente. Essencial para conter crises e repor a normalidade, sem nunca entusiasmar. Poucos políticos de longa duração terão sido, ao mesmo tempo, tanto e tão pouco.