Henrique Burnay

Henrique Burnay

Política de sofá

Recep Tayyip Erdogan entra na sala com Charles Michel à sua direita e Ursula von der Leyen à sua esquerda. Quando se aproximam dos lugares, Erdogan dirige-se ao seu, uma poltrona dourada, e Michel não hesita em sentar-se na outra, à direita do presidente turco. Von der Leyen fica de pé, imóvel, solta um "ah" entre o espantado e o ofendido, até que se senta no lugar que lhe tinha sido reservado, no sofá, à direita e longe de Erdogan. O que aconteceu depois, durante a reunião, tornou-se irrelevante. Para a história ficou o sofagate.

Henrique Burnay

O Ocidente não se encontra

Em resposta às sanções de União Europeia, Reino Unido, Estados Unidos e Canadá contra responsáveis menores pelas violações de direitos humanos em Xinjiang, o governo da China aplicou sanções contra funcionários, diplomatas e até deputados ao Parlamento Europeu. E, não formalmente, retaliou contra algumas empresas ocidentais. Rapidamente, antigas declarações da Nike e da H&M contra trabalho forçado misteriosamente reapareceram na internet chinesa, esse mar de liberdade, e tiveram como resposta não se encontrarem produtos da loja sueca no motor de busca Alibaba, e Wang Yibo, uma das caras da marca desportiva americana, anunciar que deixava de a representar por não tolerar ataques à sua China.

Henrique Burnay

A construção do interesse europeu

A Europa precisa de reforçar as suas capacidades de defesa e assumir maiores responsabilidades pela sua segurança, declararam os chefes de Estado e de governo da União Europeia, no final do Conselho Europeu da semana passada. Ao mesmo tempo, três antigos primeiros-ministros europeus sugeriram, num editorial publicado num daqueles jornais que só se leem em Bruxelas, que a Alemanha cancelasse o projeto Nord Stream 2 (o gasoduto que a ligará à Rússia) e que os restantes europeus indemnizassem os alemães pelos custos dessa decisão, fundamental para o que defendem dever ser a política europeia face a uma das suas maiores ameaças: a Rússia.

Henrique Burnay

O que os americanos não fazem faremos nós

Primeiro, os vizinhos, Canadá e México. Depois, o Reino Unido, o aliado privilegiado (goste ou não goste Joe Biden de Boris Johnson), e de seguida os aliados mais importantes e que também se sentam nas principais organizações internacionais, França e Alemanha. Depois, Putin, o adversário que preocupa mais do que intimida. De seguida, os aliados a parceiros do lado do mundo que agora importa: Japão, Coreia do Sul, Austrália e Índia. E, finalmente, a China, o centro das preocupações internacionais dos Estados Unidos da América. No Médio Oriente, nada (e achar que não ligar a Netanyahu é mais por causa do seu apoio a Trump do que da alteração de prioridades americanas parece ser confundir relações pessoais com preocupações políticas). Em África, também não..

Henrique Burnay

Afinal há condições

Uma das grandes dúvidas sobre o uso do dinheiro europeu do Plano de Recuperação e Resiliência era saber se a União Europeia (UE) ia deixar que cada país gastasse como quisesse, desde que cumprisse vagamente as regras de investir na recuperação verde e digital e fizesse o dinheiro chegar rapidamente à economia, ou se ia mesmo impor objetivos e o cumprimento das reformas indicadas no Semestre Europeu, o instrumento da UE pensado para transformar e coordenar as economias nacionais. Uma notícia da Lusa, que o jornal Eco publicou na semana passada, parece desfazer as dúvidas.

Opinião

A poderosa Ursula

Quem confunde poder com visibilidade pode achar que a Comissão Europeia tem pouco poder. Ou, pelo menos, menos do que de facto tem. Ursula von der Leyen é, muito provavelmente, uma figura mais reconhecida do que alguns dos seus antecessores, mas manifestamente menos do que os políticos nacionais e alguns líderes europeus. E, no entanto, as propostas que a Comissão faz, para o Parlamento Europeu e o Conselho decidirem, definem o fundamental da política europeia e nacionais. Em tempos normais já era assim, em tempos de pandemia, primeiro, crise económica, depois, ainda mais.

Opinião

Os problemas não acabaram

Em poucos dias, parece que os problemas mais urgentes do mundo se resolveram. Vai haver vacina, não vai haver Trump, há de haver Brexit mas com amizade, houve acordo entre deputados e governos em Bruxelas e vai haver orçamento e plano de recuperação europeus, e até os mercados financeiros andam excitados. Tudo isso é potencialmente verdade, mas não se batam demasiadas palmas. Os problemas que havia antes da covid e os que a pandemia gerou não desapareceram. E vêm aí novos.

Henrique Burnay

Erdogan e Macron na batalha do Mediterrâneo

Recep Tayyip Erdoğan operou três enormes transformações na Turquia com impacto externo e todas elas pondo em causa os fatores de estabilidade regional. Abandonou a laicidade pública, para dar voz e poder aos islamitas e à ideia de que é um líder e um homem religioso, o que lhe dá valor na região; domesticou as Forças Armadas, que tinham por hábito ser quem domesticava os governos, para agora as ter como aliadas na sua política expansionista; e está disposto a levar ao limite a NATO que, na sua visão da região, já lhe serve de pouco.