Henrique Burnay

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Henrique Burnay

Discretamente, sem ninguém ver

Enquanto nos Estados Unidos se discute se o candidato a juiz do Supremo Tribunal de Justiça americano tentou, ou não, há 36 anos abusar, ou mesmo violar, uma colega (quando tinham 17 e 15 anos), para além de tudo o que Kavanauhg pensa, pensou, já disse ou escreveu sobre o que quer que seja, em Portugal ninguém desconfia quem seja, o que pensa ou o que pretende fazer a senhora nomeada procuradora-geral da República, na noite de quinta-feira passada. Enquanto lá se esmiúça, por cá elogia-se (quem elogia) que o primeiro-ministro e o Presidente da República tenham muito discretamente combinado entre si e apanhado toda a gente de surpresa. Aliás, o apanhar toda a gente de surpresa deu, até, direito a que se recordasse como havia aqui genialidade tática. E os jornais que garantiram ter boas fontes a informar que ia ser outra coisa pedem desculpa mas não dizem se enganaram ou foram enganados. A diferença entre lá e cá é monumental.

Henrique Burnay

Os adjetivos não ganham guerras

"Eles querem substituir a população europeia por muçulmanos e africanos." Um terço da sala aplaude, um terço fica calado e o outro terço contorce-se nas cadeiras com se tivessem todos sido acometidos por cólicas renais. Ele é Alexander Tomsky, um intelectual e comentador político checo; "eles" é a elite política europeia. E a cena passa-se em Krynica-Zdroj, uma vila termal nos confins da Polónia com o aspeto bucólico de Sintra na década de 1980, onde se organiza um fórum económico que reúne mais de duas mil pessoas em três dias, há já 28 anos.

Henrique Burnay

A falta que o Reino Unido fará

Para quem quer uma Europa mais integrada (federalista, dir-se-ia há uns anos), o Reino Unido não faz, nem nunca fez, grande falta e, no fundo do seu coração, ainda bem que os britânicos se vão embora. Agora é que vai ser, acham. O problema desta visão é isso tudo. E é que ela não é única na Europa, embora com frequência ache que é a única genuína e legitimamente europeia. E sem os britânicos pode não ter oposição. Ou só ter a dos radicais, à esquerda e à direita.

couve de bruxelas

Fundodependentes

Passados 33 anos da adesão à então CEE, Portugal continua a olhar para o orçamento europeu exatamente da mesma maneira que fazíamos então: precisamos desesperadamente deste dinheiro. E precisamos tanto quanto e do mesmo modo que precisávamos quando aderimos. A diferença é, ou deveria ser, que em 1986 tínhamos saído da Revolução havia 12 anos, de um resgate do FMI havia três, tínhamos um país em reconstrução e éramos pobres. 33 anos depois não somos muito diferentes. Ou, mais seriamente, não somos suficientemente diferentes. Claro que estamos e somos muito diferentes do que éramos. Até a nossa pobreza mudou. Mas não somos tão diferentes quanto era expectável e exigível que fôssemos. E, sobretudo, não mudámos estruturalmente o suficiente. Isso, e não quanto vamos receber a menos dos fundos de coesão, é o nosso verdadeiro problema.

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Faltam políticos

Cavaco Silva pôde dizer a António Costa que a NATO, a Europa e o euro não podiam ser postos em causa pela geringonça porque, independentemente do que se pense da solução governativa e do então Presidente da República, podia invocar que nem a Aliança Atlântica nem a União Europeia tinham feito parte da discussão eleitoral em Portugal. E se o governo PS poderá ter sido de previsibilidade duvidosa mas constitucionalidade inquestionável, já essas ruturas seriam à revelia da posição maioritária em Portugal. Cavaco tinha a legitimidade política do seu lado. Tal como Sergio Mattarella, quando terá explicado a Luigi Di Maio, o líder do populista 5 Estrelas, que um ministro das Finanças antieuro não fazia parte do cardápio discutido até às eleições. Assim como em Espanha é legítimo considerar que um governo que apresente uma agenda semelhante será ilegítimo, independentemente da legitimidade constitucional. Porque nas várias últimas eleições nunca essas possibilidades foram admitidas.

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Para que serve a Europa?

Há dias, numa conferência em Bruxelas, um dos comissários europeus mais interessantes e com maior orçamento (detalhe não irrelevante nesta conversa) comentava que a comissária europeia mais reconhecida publicamente seria Margrethe Vestager, a dinamarquesa que dirige a pasta da Concorrência, na Comissão Europeia. A razão de ser, explicava este comissário rico em orçamento, é que a sua colega tem poder. Vestager já multou a Google, a Apple, o Facebook... you name it. Ao longo dos últimos anos, a comissária da Concorrência tem sido o rosto de uma espécie de política fiscal comum alternativa que impõe limites à competitividade fiscal agressiva de vários Estados membros, de que muitas grandes empresas beneficiaram, e obriga-as a pagar os impostos devidos. Isso tem tornado a comissária conhecida e, acreditam no Berlaymont (a sede da comissão), popular entre os europeus.

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Dez anos é muito pouco tempo

A reunião era sobre a importância, ou não, de preparar a empresa para a legislação que estava a ser discutida em Bruxelas. De um lado, os que achavam que não valia a pena pensar nisso. Os desafios imediatos eram mais que muitos, o país estava sob a gestão da troika, as regras que contavam eram essas e iam continuar a ser durante os próximos anos; do outro lado, argumentava-se que as coisas iam mudar, que a troika havia de se ir embora e as regras voltariam a ser as mesmas que se aplicassem a todos os outros Estados membros. E que, por isso, valia a pena discutir então o que ia ser lei daí a uns tempos. Estava-se num impasse, até que um dos diretores trovejou: "Olhe, senhor doutor, faz agora dez anos, estávamos há dez anos atrás."