Henrique Burnay

Henrique Burnay

Quando Portugal mandar

Segundo um mito urbano, a terceira segunda-feira de janeiro (o próximo dia 21, neste caso) é o dia mais triste do ano porque, além do clima (no hemisfério norte), é quando a maior parte de nós descobre que afinal não deixou de fumar, não passou a ir ao ginásio quatro vezes por semana, a fazer dieta e tudo o mais que são resoluções de Ano Novo. Esta historieta, criada há uns anos por um agente de viagens, embora seja falsa, tem qualquer coisa de verdade: ao fim de pouco tempo de resoluções de última hora descobrimos que nenhuma se cumpre. Ou seja, e é este o pretexto desta conversa, o melhor é tomar resoluções de Ano Novo com boa antecedência. No caso que aqui interessa, esta é uma boa altura para estarmos a preparar a presidência portuguesa da União Europeia, que vai acontecer no primeiro semestre de 2021. Coisa que, reconheça-se, o governo já começou a fazer. Mas esta preparação, apesar de ser uma responsabilidade do executivo, merece ser um tema nacional.

Henrique Burnay

Quem manda?

Uma das poucas coisas óbvias sobre o que o Presidente Macron prometeu ao povo para acalmar - sem grande sucesso - os gilets jaunes é que aquilo tem um custo que não é compatível com as regras orçamentais a que França está obrigada por força de fazer parte da União Europeia e, sobretudo, da zona Euro. Um problema parecido com o que Itália tinha. Só que Itália é uma economia irreformável em pré-colapso há vários anos, governada por populistas com vontade de esbanjar dinheiro para agradar ao povo.

Henrique Burnay

Falem do futuro

O euro, o Erasmus, a paz. De cada vez que alguém quer defender a importância da Europa, aparece esta trilogia. Poder atravessar a fronteira sem trocar de moeda, ter a oportunidade de passar seis meses a estudar no estrangeiro (há muito que já não é só na União Europeia) e - para os que ainda se lembram de que houve guerras - a memória de que vivemos o mais longo período sem conflitos no continente europeu. Normalmente dizem isto e esperam que seja suficiente para que a plateia reconheça a maravilha da construção europeia e, caso não esteja já convertida, se renda ao projeto europeu. Se estes argumentos não chegam, conforme o país, invocam os fundos europeus e as autoestradas, a expansão do mercado interno ou a democracia. E pronto, já está.

Henrique Burnay

A Europa, entre Putins e Tiagos

Enquanto em alguns países da Europa de Leste há milícias populares armadas que perseguem migrantes e refugiados junto à fronteira e pelas ruas de vilas e aldeias, pela Europa fora há gente como o Tiago Cardoso, entrevistado na edição de terça-feira passada do Expresso Diário, que se voluntaria para dar um mínimo de decência às condições em que esses migrantes e refugiados vivem quando chegam cá. Entre uns e outros há uma enorme diferença moral e uma preocupante coincidência: a ausência do Estado. A diferença tem difícil solução, a coincidência é o maior problema das eleições europeias e é um exagero que está a crescer.

Henrique Burnay

Tratar do nosso brexit

Aconteça o que acontecer, o Reino Unido vai mesmo sair da União Europeia. E não é completamente certo que seja a bem. Para lá da conversa sobre como é que foi possível, como é horrível e um triste sinal dos tempos, convinha adotar alguma dose de realismo e tratar, finalmente, de ver quais são e como se defendem os nossos interesses no fim deste processo. É tempo de ser pragmático como os britânicos, e de pensar em nós, como eles. Em Bruxelas tem-se feito isso. Em Lisboa, também tem de se fazer.

Henrique Burnay

Os adjetivos não ganham guerras

"Eles querem substituir a população europeia por muçulmanos e africanos." Um terço da sala aplaude, um terço fica calado e o outro terço contorce-se nas cadeiras com se tivessem todos sido acometidos por cólicas renais. Ele é Alexander Tomsky, um intelectual e comentador político checo; "eles" é a elite política europeia. E a cena passa-se em Krynica-Zdroj, uma vila termal nos confins da Polónia com o aspeto bucólico de Sintra na década de 1980, onde se organiza um fórum económico que reúne mais de duas mil pessoas em três dias, há já 28 anos.