Henrique Burnay

Henrique Burnay

Esquerda, esquerda, volver

Renacionalizar os correios, as águas, os caminhos-de-ferro e a energia, obrigar a que um terço dos conselhos de administração das empresas sejam compostos por representantes dos trabalhadores e expropriar 10% das ações das empresas com mais de 250 trabalhadores para as entregar a fundos geridos por ou a benefício dos empregados. Todas estas ideias, que causaram algum entusiasmo ao Dr. Francisco Louçã, são o essencial do programa de grandes reformas económicas do Labour, anunciado na sua conferência da semana passada. É isto o programa de um partido que era a direita dos socialistas europeus até há poucos anos.

Henrique Burnay

Discretamente, sem ninguém ver

Enquanto nos Estados Unidos se discute se o candidato a juiz do Supremo Tribunal de Justiça americano tentou, ou não, há 36 anos abusar, ou mesmo violar, uma colega (quando tinham 17 e 15 anos), para além de tudo o que Kavanauhg pensa, pensou, já disse ou escreveu sobre o que quer que seja, em Portugal ninguém desconfia quem seja, o que pensa ou o que pretende fazer a senhora nomeada procuradora-geral da República, na noite de quinta-feira passada. Enquanto lá se esmiúça, por cá elogia-se (quem elogia) que o primeiro-ministro e o Presidente da República tenham muito discretamente combinado entre si e apanhado toda a gente de surpresa. Aliás, o apanhar toda a gente de surpresa deu, até, direito a que se recordasse como havia aqui genialidade tática. E os jornais que garantiram ter boas fontes a informar que ia ser outra coisa pedem desculpa mas não dizem se enganaram ou foram enganados. A diferença entre lá e cá é monumental.

couve de bruxelas

A Europa pós-Trump

Os europeus têm o hábito de não gostar dos presidentes americanos, sobretudo se forem republicanos, mas de depender da sua política externa e de defesa para garantir a sua segurança. A maior novidade com Trump é que, além de não gostarem do presidente - e com várias boas razões, desta vez -, agora não podem ter a certeza de contar com as armas e o dinheiro americanos para defender os seus interesses. O resultado disto tem sido uma enorme discussão sobre a política externa americana atual, que ninguém parece conseguir definir muito bem qual é. Coisa interessante, mas em vez de discutirmos a América, é melhor começarmos a discutir a Europa e o seu papel no mundo.

couve de bruxelas

As primeiras europeias a sério

As eleições europeias são sempre percebidas pelos eleitores como umas primárias, ou intercalares, das respetivas eleições nacionais. Quando não são percebidas como coisa nenhuma. A reação tem, senão razão de ser, pelo menos explicação. Ninguém sente que haja um efeito imediato dessas eleições. E, de facto, não há; nem é muito bom que haja (porque isso significa que há constância e consenso). Mas isto pode mudar. Para pior.

couve de bruxelas

Medo da Rússia ou do Ocidente?

Ainda não tinham passado 24 horas do ataque aliado à Síria quando, ao jantar, a conversa começou no tema e desaguou no papel da Rússia quando alguém disse: "Ultimamente (por razões que não interessam) tenho visto a Russia Today (uma televisão russa que emite numa quantidade de línguas mas não em russo). A versão da história que eles contam é mesmo completamente diferente. Além de criticarem o Ocidente, fazem-no usando os próprios ocidentais. É incrível o que eles conseguem fazer. Recolhem depoimentos de ativistas, políticos, ONG e passam na televisão, a mostrar como até os ocidentais estão contra o que o Ocidente diz e o que está a fazer." Deixemos a questão de fundo (a situação na Síria) de lado, por um instante.