Henrique Burnay

Henrique Burnay

O Brexit não é só como eles quiserem

Ao longo das últimas semanas, o Brexit tem ocupado os jornais e televisões com a intensidade, o drama e a paixão de um reality show. As perdas de voz de May, a hesitações de Corbyn, os trânsfugas, tudo é visto e comentado. Até as gravatas do Speaker of the House conhecemos (ainda não repetiu nenhuma). É a democracia, dizem-nos. Será. Mas como em todos os divórcios há (pelo menos) duas partes. E se é certo que não podemos, não queremos, nem temos interesse em pôr-lhes as malas à porta, também é verdade que não podem continuar a precisar de tempo para pensar todas semanas.

Opinião

São Estados, senhores, são Estados

Italianos e franceses estão em guerra por causa dos imigrantes, e muito mais do que isso; holandeses e franceses estão à bulha por causa do domínio da companhia aérea Air France - KLM; e 17 Estados membros da União (quase todos os pequenos e médios) estão a queixar-se dos grandes. Mas, mesmo assim, continua a haver quem acredite que a União Europeia é a superação dos Estados. Não é. Mas essa ilusão não tem constrangido os fiéis da causa. O problema é que, sendo irreal, prejudica a análise dos factos e, sobretudo, a política.

Henrique Burnay

A cooperação internacional é uma competição

No tempo em que havia guerra fria e duas potências, o resto do mundo ou estava de um lado, ou estava do outro. Ou dizia que não era alinhado, o que normalmente queria dizer que dependia. Em contrapartida, "os nossos" de cada lado recebiam dinheiro, protecção e a garantia de que os seus governos raramente seriam molestados. As excepções, e eram excepções, aconteciam quando o que estava em causa era demasiado escandaloso, quando as opiniões públicas (ocidentais, obviamente) se mobilizavam, quando os movimentos internos pró-democracia, direitos humanos ou liberdade (tradicionalmente pró-ocidentais) eram esmagados. Isto significava - e é este o ponto - que até ao fim da guerra fria a ajuda ao desenvolvimento (depois passou a chamar-se cooperação) era um misto de obrigação moral, interesse próprio (promover economias desenvolvidas, capitalistas e liberais que, por definição, eram novos mercados e tendiam a aproximar-se do Ocidente) e prémio de lealdade.

Henrique Burnay

Quando Portugal mandar

Segundo um mito urbano, a terceira segunda-feira de janeiro (o próximo dia 21, neste caso) é o dia mais triste do ano porque, além do clima (no hemisfério norte), é quando a maior parte de nós descobre que afinal não deixou de fumar, não passou a ir ao ginásio quatro vezes por semana, a fazer dieta e tudo o mais que são resoluções de Ano Novo. Esta historieta, criada há uns anos por um agente de viagens, embora seja falsa, tem qualquer coisa de verdade: ao fim de pouco tempo de resoluções de última hora descobrimos que nenhuma se cumpre. Ou seja, e é este o pretexto desta conversa, o melhor é tomar resoluções de Ano Novo com boa antecedência. No caso que aqui interessa, esta é uma boa altura para estarmos a preparar a presidência portuguesa da União Europeia, que vai acontecer no primeiro semestre de 2021. Coisa que, reconheça-se, o governo já começou a fazer. Mas esta preparação, apesar de ser uma responsabilidade do executivo, merece ser um tema nacional.

Henrique Burnay

Quem manda?

Uma das poucas coisas óbvias sobre o que o Presidente Macron prometeu ao povo para acalmar - sem grande sucesso - os gilets jaunes é que aquilo tem um custo que não é compatível com as regras orçamentais a que França está obrigada por força de fazer parte da União Europeia e, sobretudo, da zona Euro. Um problema parecido com o que Itália tinha. Só que Itália é uma economia irreformável em pré-colapso há vários anos, governada por populistas com vontade de esbanjar dinheiro para agradar ao povo.

Henrique Burnay

Falem do futuro

O euro, o Erasmus, a paz. De cada vez que alguém quer defender a importância da Europa, aparece esta trilogia. Poder atravessar a fronteira sem trocar de moeda, ter a oportunidade de passar seis meses a estudar no estrangeiro (há muito que já não é só na União Europeia) e - para os que ainda se lembram de que houve guerras - a memória de que vivemos o mais longo período sem conflitos no continente europeu. Normalmente dizem isto e esperam que seja suficiente para que a plateia reconheça a maravilha da construção europeia e, caso não esteja já convertida, se renda ao projeto europeu. Se estes argumentos não chegam, conforme o país, invocam os fundos europeus e as autoestradas, a expansão do mercado interno ou a democracia. E pronto, já está.

Henrique Burnay

A Europa, entre Putins e Tiagos

Enquanto em alguns países da Europa de Leste há milícias populares armadas que perseguem migrantes e refugiados junto à fronteira e pelas ruas de vilas e aldeias, pela Europa fora há gente como o Tiago Cardoso, entrevistado na edição de terça-feira passada do Expresso Diário, que se voluntaria para dar um mínimo de decência às condições em que esses migrantes e refugiados vivem quando chegam cá. Entre uns e outros há uma enorme diferença moral e uma preocupante coincidência: a ausência do Estado. A diferença tem difícil solução, a coincidência é o maior problema das eleições europeias e é um exagero que está a crescer.

Henrique Burnay

Tratar do nosso brexit

Aconteça o que acontecer, o Reino Unido vai mesmo sair da União Europeia. E não é completamente certo que seja a bem. Para lá da conversa sobre como é que foi possível, como é horrível e um triste sinal dos tempos, convinha adotar alguma dose de realismo e tratar, finalmente, de ver quais são e como se defendem os nossos interesses no fim deste processo. É tempo de ser pragmático como os britânicos, e de pensar em nós, como eles. Em Bruxelas tem-se feito isso. Em Lisboa, também tem de se fazer.