Henrique Burnay

Henrique Burnay

Thatcher morreu, Reagan também e o capitalismo não se sente nada bem

O pós-liberalismo da direita começou em muitos lugares ao mesmo tempo, mas foi nos Estados Unidos de Donald Trump que foi mais evidente. Apesar da preferência por reduzir impostos dos maiores contribuintes, a administração Trump nunca foi entusiasta das grandes empresas e do mercado livre, que associava à globalização e à deslocalização e, consequentemente, às desgraças da classe média-baixa americana, os left behind. Orbán acredita que entre Soros, os grandes grupos de comunicação social e as elites de Bruxelas há um conluio antinacionalista que quer acabar com a sua e com todas as soberanias, em nome de uma suposta ordem global. No Reino Unido, Boris Johnson é absolutamente diferente de Trump, mas procura em parte o mesmo eleitorado e promete-lhe mais ou menos o mesmo: protegê-lo de um mundo competitivo que torna algumas indústrias, profissões e regiões obsoletas. Essa é, aliás, a sua contradição insanável: o pressuposto do Brexit é tudo menos um Reino Unido open to the world. Ou, se for, necessitará de muita política social para compensar o que prometeu. Na Polónia, a democratização e a integração europeia, em vez de sustentar os valores tradicionais, exigem um pluralismo adversário de uma visão ultraconservadora e soberanista que vence eleições. E os exemplos podiam continuar.

Henrique Burnay

União monetária ou política nacional

A suspensão das regras orçamentais que impedem os Estados europeus de se endividarem para além de um determinado limite e de apoiar as empresas criando desequilíbrios no mercado são um mal necessário provisório ou uma política desejável que a crise veio legitimar? Esqueçam as vacinas e os confinamentos que ainda podem aí vir. À medida que a crise sanitária se alivia, mesmo que mais devagar do que esperado, este vai ser o confronto mais importante e fracturante dos próximos tempos na Europa.

Henrique Burnay

Temos dinheiro, não temos reformas

Em 1992, a criação do Mercado Único ia fazer disparar o PIB europeu entre 4,5% e 6,5%. Vários estudos dizem que melhorou 2% a 3%. A criação do euro, em 1999, visível e palpável em 2002, ia integrar e equilibrar as economias europeias. A Estratégia de Lisboa, aprovada em 2000, ia fazer da Europa a economia mais competitiva do mundo, baseada no conhecimento, até 2010. A diretiva dos serviços, em 2006, prometia aumentar as trocas comerciais no setor dos serviços em até 30% e isso, ou mais, em investimento estrangeiro.

Henrique Burnay

Os fanáticos do silêncio 

Quase ninguém gosta de Rick Santorum. O ex-senador republicano da Pensilvânia, ex-candidato nas primárias em segundo lugar atrás de Mitt Romney, e trumpista que, a comentar na CNN, reconheceu que o ex-presidente tinha perdido as eleições, já foi criticado, e apoiado, por quase tudo o que disse ou defendeu. Sobre família, aborto, casamento entre pessoas do mesmo sexo, evolucionismo, Obama e o medicare e a influência da direita liberal no partido republicano. Mas também por ter defendido o aumento do ordenado mínimo federal, ter reconhecido que a pena de morte é indesejável, ou mesmo por ter consumido canábis na juventude. E agora, pelo que disse e não disse sobre a origem das instituições americanas.

Henrique Burnay

O Ocidente não se encontra

Em resposta às sanções de União Europeia, Reino Unido, Estados Unidos e Canadá contra responsáveis menores pelas violações de direitos humanos em Xinjiang, o governo da China aplicou sanções contra funcionários, diplomatas e até deputados ao Parlamento Europeu. E, não formalmente, retaliou contra algumas empresas ocidentais. Rapidamente, antigas declarações da Nike e da H&M contra trabalho forçado misteriosamente reapareceram na internet chinesa, esse mar de liberdade, e tiveram como resposta não se encontrarem produtos da loja sueca no motor de busca Alibaba, e Wang Yibo, uma das caras da marca desportiva americana, anunciar que deixava de a representar por não tolerar ataques à sua China.

Henrique Burnay

A construção do interesse europeu

A Europa precisa de reforçar as suas capacidades de defesa e assumir maiores responsabilidades pela sua segurança, declararam os chefes de Estado e de governo da União Europeia, no final do Conselho Europeu da semana passada. Ao mesmo tempo, três antigos primeiros-ministros europeus sugeriram, num editorial publicado num daqueles jornais que só se leem em Bruxelas, que a Alemanha cancelasse o projeto Nord Stream 2 (o gasoduto que a ligará à Rússia) e que os restantes europeus indemnizassem os alemães pelos custos dessa decisão, fundamental para o que defendem dever ser a política europeia face a uma das suas maiores ameaças: a Rússia.

Henrique Burnay

Um problema à distância

Apesar de a política europeia estar frequentemente refém de eleições nacionais - coisa de que os europeístas se queixam muito -, o resultado das presidenciais portuguesas é praticamente irrelevante para o destino da Europa. Por um lado, porque o vencedor faz parte do desconhecido Grupo de Arraiolos, que de tempos a tempos junta os chefes de Estado que não têm competências em matéria de política europeia, mas que, ainda assim, gostam de se encontrar. Por outro, porque nunca houve, e continua a não haver, uma questão europeia nas eleições presidenciais portuguesas. Nem nas restantes, nos últimos anos. Mas começa a haver um problema.

Henrique Burnay

Afinal há condições

Uma das grandes dúvidas sobre o uso do dinheiro europeu do Plano de Recuperação e Resiliência era saber se a União Europeia (UE) ia deixar que cada país gastasse como quisesse, desde que cumprisse vagamente as regras de investir na recuperação verde e digital e fizesse o dinheiro chegar rapidamente à economia, ou se ia mesmo impor objetivos e o cumprimento das reformas indicadas no Semestre Europeu, o instrumento da UE pensado para transformar e coordenar as economias nacionais. Uma notícia da Lusa, que o jornal Eco publicou na semana passada, parece desfazer as dúvidas.

Opinião

Direitas diferentes

Considerar que a "democracia iliberal" de Orbán, a polarização radical da América, por Trump e as suas interpretações nacionais, não fazem parte do mesmo espaço que o centro-direita e a direita liberal e conservadora devia ser banal. A divergência, razoável, devia ser sobre como lidar com isso. Pela Europa fora experimentaram-se várias fórmulas, sendo evidente que não há só uma que seja eficaz. Mas a maioria coincide num propósito: neutralizar os radicais. Em Portugal, alguma reação, à direita, à publicação do manifesto "A clareza que defendemos", revelou que há quem não sinta o incómodo dessas companhias. É esse o problema.

Opinião

Os problemas não acabaram

Em poucos dias, parece que os problemas mais urgentes do mundo se resolveram. Vai haver vacina, não vai haver Trump, há de haver Brexit mas com amizade, houve acordo entre deputados e governos em Bruxelas e vai haver orçamento e plano de recuperação europeus, e até os mercados financeiros andam excitados. Tudo isso é potencialmente verdade, mas não se batam demasiadas palmas. Os problemas que havia antes da covid e os que a pandemia gerou não desapareceram. E vêm aí novos.