Guilherme D'Oliveira Martins

Guilherme D'Oliveira Martins

Tirar lições da experiência

Somos levados em imaginação pelas páginas de Viagens na Minha Terra. Lembramos o testemunho inesquecível de Garrett: "Rodeámos o largo e fomos entrar em Marvila, pelo lado do norte. Estamos dentro dos muros da antiga Santarém. Tão magnífica é a entrada, tão mesquinho é agora tudo cá dentro, a maior parte destas casas velhas sem serem antigas, destas ruas moirescas sem nada de árabe, sem o menor vestígio da sua origem, mais que a estreiteza e pouco asseio." Segue a "triste e pobre Rua Direita", passa pela "curiosa Torre das Cabaças" e por São João do Alporão. "Amanhã iremos ver tudo isso de nosso vagar. Agora vamos à Alcáçova."

Guilherme D'Oliveira Martins

Amava sobretudo a liberdade

António Alçada Baptista era um contador de histórias inesgotável. E a amizade era fecunda fonte de contentamento. Era absolutamente extraordinário ouvi-lo, fruto de uma memória prodigiosa, que manteve pela vida fora e que lhe permitia fixar pormenores, sinais e sentidos. Era a lembrança viva de quem amava sobretudo a liberdade. Recordo o entusiasmo com que partilhava episódios como o do padre Anchieta sobre uma viagem no sertão brasileiro. Com urgência em regressar a uma aldeia recôndita, o jesuíta pediu aos carregadores rapidez na caminhada. Contudo a andança era muito longa e, na terceira jornada, os índios pararam inesperadamente. O padre indagou sobre o motivo da interrupção e a explicação não se fez esperar: "Temos vindo depressa de mais e a nossa alma ficou lá para trás. Temos de esperar que ela regresse, pois sem ela não podemos continuar."

Guilherme D'Oliveira Martins

Luís Salgado de Matos

O Luís Filipe Salgado de Matos era das pessoas mais argutas e inteligentes que conheci. Investigador exímio, conversador inesgotável, era capaz de ver para além do imediato e das aparências, com quem dava gosto estar e conviver. Os temas que estudou (o Estado de Ordens e as relações institucionais das Forças Armadas e da Igreja) foram marcados pela originalidade e pelo modo próprio de analisar criticamente ideias feitas ou simplificações. Quantas vezes, em centenas de horas de convívio, ouvia placidamente os circunstantes e, aparentemente, sem discordância formal, com a sua voz inconfundível, mudava a perspetiva ou os ventos que pareciam dominar aquele ambiente.

Guilherme D'Oliveira Martins

O tecido cultural da Europa

Quando falamos de património cultural, há a tentação de pensar que falamos de antigualhas, de coisas do passado, irremediavelmente perdidas num canto recôndito da nossa memória. Puro engano! Referimo-nos à memória viva, seja ela referida a monumentos, sítios, tradições, seja constituída por acervos de museus, bibliotecas e arquivos. Mas fundamentalmente tratamos de conhecimentos ou de expressões da criatividade humana... Ter memória é, assim, respeitarmo-nos. Cuidar do que recebemos é dar atenção, é não deixar ao abandono. Por isso, o património cultural que devemos proteger é sinal para que o que tem valor hoje e sempre não seja deixado ao desbarato. Como poderemos preservar o que é novo se não cuidarmos do que é de sempre?

Opinião

Que democracia europeia?

A democracia europeia não satisfaz os anseios dos cidadãos. A tentativa de avançar mais rapidamente na construção das instituições europeias deparou-se com profundas resistências - não só pelos efeitos do rápido alargamento a Leste, com as fragilidades inerentes, em especial no tocante à coesão, mas também com as consequências da grave crise financeira. Os dois resultados conjugados somaram-se ao agravamento dos conflitos desregulados no Mediterrâneo Oriental e Médio Oriente, à pressão demográfica e ao medo instalado entre os europeus pelo receio das consequências da chegada dos refugiados - numa conjuntura de incerteza e de instabilidade, ditada pelos atos violentos de intimidação relativamente às sociedades ocidentais. Um círculo ameaçador manifesta-se na Europa, gerando a reação do "salve-se quem puder", com esquecimento de que a fragmentação e a tribalização apenas terão como consequência a multiplicação da instabilidade e a escalada do medo e da violência, numa espécie de instinto de defesa inconsequente, com resultados claramente contrários aos que se poderia desejar. E assim chegamos a uma situação paradoxal - havendo, mais do que nunca, necessidade de Europa, de coordenação de políticas, de gestão de espaços e territórios e de partilha de responsabilidades, presenciamos a multiplicação de uma atitude puramente defensiva, baseada no temor da imigração e da presença das diferenças. Como aconteceu nos anos trinta do século XX, em lugar da cooperação surge a reação nacionalista e a ilusão do protecionismo.

Guilherme D'Oliveira Martins

Mário Soares, a democracia e Portugal

Na passagem dos quarenta anos da Constituição da República, da eleição do primeiro presidente da República da democracia e da formação do I Governo Constitucional, importa, num tempo de tantas incertezas e dúvidas, recordar o esforço sério, o empenhamento patriótico, o trabalho de compromisso, a determinação e a vontade do povo português em prol da liberdade. Invoco hoje, até pela relação antiga que me liga a Mário Soares, a importância que o seu exemplo representa para os dias de hoje e de sempre. Estamos perante um percurso político fundamental que colheu frutos no tocante à institucionalização do regime democrático. Profundo conhecedor da história portuguesa, filho de uma personalidade marcante da I República e do mundo pedagógico, pôde, ainda antes da Revolução democrática de 1974, preparar o terreno para uma «República moderna» em que todos pudessem ter lugar, para lá das oposições tradicionais. Quando, ao lado de Salgado Zenha, Jorge Sampaio e António Alçada Baptista participou na criação de O Tempo e o Modo, era a prefiguração de um regime aberto e de liberdade e pluralismo que estava em causa. Prevenindo os erros da I República, em especial nas questões religiosa e social, preservando a matriz democrática, Mário Soares congregou os republicanos históricos, o Diretório Democrato-Social de António Sérgio, os jovens dos movimentos estudantis, os católicos inconformistas, os defensores do socialismo democrático e da social-democracia (na linha de Willy Brandt a Helmut Schmidt, passando por Mendès-France e Olof Palme), a esquerda não dogmática e compreendeu os movimentos de emancipação das jovens nações de língua portuguesa. Assim pôde lançar as bases de um compromisso heterogéneo e rico, baseado no respeito mútuo e na consolidação de uma cidadania ativa e de uma democracia inclusiva. Há dias recordei o papel fundamental desempenhado por Maria de Jesus Barroso Soares nesse caminho - como resistente serena, determinada e inteligente, capaz de preservar o prestigiado colégio que dirigia e de abrir horizontes novos para uma democracia para todos. E simbolicamente a amizade do casal Soares com Sophia de Mello Breyner e Francisco Sousa Tavares foi um excelente símbolo desse espírito autenticamente democrático, de diferença e complementaridade. Lembramo-nos simbolicamente do que Sophia disse na Assembleia Constituinte: "A cultura não existe para enfeitar a vida, mas sim para a transformar - para que o homem possa construir e construir-se em consciência, em verdade e liberdade e em justiça. E, se o homem é capaz de criar a revolução é exatamente porque é capaz de criar a cultura" (2.9.1975). Hoje, temos de compreender que era por isto mesmo que Sophia tinha a maior confiança política e pessoal no seu amigo Mário Soares. Afinal, a democracia - e esse é o grande desafio do presente - precisa de estar apta a responder aos anseios dos cidadãos, como sistema sempre incompleto, mas suscetível de se aperfeiçoar. Não há democracia sem partidos, não há liberdade sem o voto livre dos cidadãos, mas é preciso ir ao encontro da legitimidade do exercício, garantir as responsabilidades. E é essa lição que temos de tirar a partir de quem contribuiu para o reforço da democracia portuguesa - com a coragem de evitar o anarcopopulismo, de contrariar a demagogia e de propor passos serenos e seguros, tornando o possível necessário, sempre com salvaguarda da diversidade e de um fecundo diálogo construtivo. Quando Mário Soares levantou a bandeira «Europa connosco», entendeu que a democracia obrigaria a termos uma voz respeitada internacionalmente. José Medeiros Ferreira compreendeu-o muito bem. Só seríamos respeitados no mundo e, em especial, no hemisfério sul se tivéssemos lugar e voz entre os países desenvolvidos. Nesse sentido, a recordação e a homenagem a Mário Soares (e a todos quantos contribuíram para a afirmação da democracia, sem exceção - o povo português, Ramalho Eanes, Cavaco Silva) é um alerta severo e inequívoco. O projeto europeu precisa de dar sinais positivos de força cidadã em lugar de perigosos sinais de cegueira burocrática! Precisamos de incentivos e não de reprimendas... Precisamos de aprender com quem foi capaz de ver longe e largo.

Guilherme d'Oliveira Martins diz

"O ajustamento vai demorar vinte anos"

O Tribunal de Contas - não vire já a página. É por aqui que passam as contas públicas, dos ministérios às autarquias. É aqui que são fiscalizados os contratos públicos e são levantadas bandeiras vermelhas. Podia fazer mais? Devia fazer mais? Guilherme d"Oliveira Martins, presidente do Tribunal de Contas desde 2005, não é dado a polémicas e a frases bombásticas, prefere responder com alguma profundidade. Não diaboliza nem PPP nem concessões públicas.