Guilherme D'Oliveira Martins

Opinião

Bruxelas, 1976

Rue Belliard, Berlaymont, Grand Place -- na Primavera amena de 1976, tive o gosto de participar numa delegação portuguesa que visitou as instituições comunitárias. Paulo de Pitta e Cunha coordenava o grupo, com eficácia e entusiasmo. Estava em causa a preparação da adesão de Portugal às Comunidades Europeias -- com Aníbal Cavaco Silva, Marcelo Rebelo de Sousa, Jorge Miranda, Pedro Roseta... E aí nos encontrámos com o saudoso Camilo Martins de Oliveira -- incansável cicerone no labirinto comunitário. Quando tive a notícia da inesperada morte de Paulo de Pitta e Cunha veio-me à memória essa inesquecível missão. E a essa lembrança juntaram-se muitas outras, como tive oportunidade de recordar com o filho Tiago, em S. Sebastião da Pedreira.

Guilherme D'Oliveira Martins

A resistência de um povo

A história política depende dos acontecimentos e das suas circunstâncias. O momento de guerra na Europa que vivemos deve ser visto a essa luz. Longe de se saber qual o desenlace, temos de compreender a essência da situação. Ao falarmos da Ucrânia estamos perante um caso especialmente difícil, longe do que quer a narrativa de Putin, porque a história envolve, como habitualmente, um conjunto vasto de razões. Kiev está na origem da civilização russa. Segundo a tradição, no século VI, aí se reuniram 13 tribos eslavas orientais voluntariosas e determinadas, que fizeram prosperar a região do Dniepre. Se o primeiro Estado russo nasceu em Novgorod, quando o príncipe Riurik, um normando, não eslavo, foi convidado a assumir o poder, foi o seu irmão Oleg que transferiu para Kiev a capital da Rus. Iniciaram-se então as relações com Bizâncio e geraram-se as raízes dos povos russo, ucraniano e bielorrusso. Kiev tornou-se o coração da Santa Rússia, herdeira da segunda Roma (Constantinopla). Contudo, no ocidente da Ucrânia, em Lviv, cidade fundada pelo grão-duque da Ruténia, em 1256, encontramos, de certo modo, uma outra história. A cidade passou sucessivamente da soberania polaca, em 1340, para a austríaca em 1772, integrando o Império Austro-Húngaro. Depois, a cidade foi polaca, em 1919, no fim da Grande Guerra, e tornou-se ucraniana em 1939. Em 1945, nas partilhas territoriais do fim da Segunda Guerra, a região foi integrada na República Soviética da Ucrânia, que viria a ser fundadora das Nações Unidas, ao lado da URSS e da Bielorrússia. A soberania de Direito da Ucrânia é assim inequívoca e antiga. A libertação de 1991 e tudo o que se seguiu merecem especial atenção, no âmbito da aplicação da Carta das Nações Unidas. A Ucrânia é um Estado soberano, com raízes históricas complexas e claras, a partir de influências que se completam - eslava e europeia central. Kiev é uma das cidades mais antigas da Europa e uma referência matricial da rica cultura eslava. Fundada no século V é um centro da economia e da cultura. E o cristianismo ortodoxo, de bases profundas, teve Kiev como matriz. A própria língua ucraniana tem raízes próprias, próximas da língua russa, do servo-croata e do polaco. A palavra ukraina significa zona fronteiriça, onde o domínio cossaco se distinguia dos principados eslavos do norte e oeste e das hordas turcas do sul. Em 1240, a cidade foi ocupada e destruída pelo Império Tártaro-Mongol, na conquista iniciada por Gengis Khan. Kiev perdeu influência, mas manteve autonomia, no âmbito do Canato da Horda do Ouro. Em 1321, a cidade seria conquistada pelo grão-duque da Lituânia, passando ao domínio polaco-lituano até ao final do século XVII, quando Kiev passou para a esfera do Império Russo, tornando-se o mais importante centro cristão ortodoxo, antes da transição para Moscovo. Nos séculos XVIII e XIX a vida da cidade foi dominada pelas autoridades militares e eclesiásticas, em 1834 foi criada a Universidade de S. Vladimir e em 1846 constituiu-se a proibida Irmandade de S. Cirilo e S. Metódio, defensora de uma federação eslava de povos livres, animada por Nikolay Kostomarov. Kiev foi a terceira cidade do império, importante centro de comércio, beneficiando do rio Dniepre. Deste modo, as lágrimas e a vontade de um povo resistente reforçam a história, a herança e a memória de um dos fundamentos da civilização europeia, que a cegueira bárbara de um ditador será incapaz de destruir.

Guilherme D'Oliveira Martins

"Antes de começar"

A obra do pintor Manuel Amado tem uma marca muito própria. Mais do que o arquiteto, evidencia-se quem procurou incessantemente a essência das coisas, dos espaços, dos caminhos e da humanidade que com eles se relaciona. Como disse José-Augusto França, "a técnica deste pintar é (...) lisa e impessoalmente serena, de luz igual, angular, na sua bastante aparência - como se nada o pintor quisesse acrescentar à imagem em si próprio nascida, na simplicidade dos elementos cenográficos, que outros não poderiam nunca ser". E Manuel Amado costumava dizer que a pintura "é o modo mais direto que existe para representar a realidade, considerando que a realidade somos nós que a fazemos. Sem interferência de palavra ou de ficções".

Guilherme D'Oliveira Martins

Fernando de Albuquerque

Quem visita a Casa de Mateus apercebe-se de que não há cultura sem vida, sem o fervilhar das ideias e das iniciativas, sem as personalidades que animam a história. Fernando de Albuquerque, cidadão e aristocrata, foi o exemplo de quem sempre foi capaz de ligar em permanência a história longa à memória que sempre se vai reconstruindo. Conheci-o no momento em que a democracia se construía, em 1974. Era a realização da liberdade que estava em causa e, conhecendo a antiga linhagem donde provinha, senti-lhe sempre uma grande coerência, menos preocupada com o passado e mais empenhada num futuro de modernidade e de mudança. Desde cedo, tive o gosto de percorrer os salões da velha casa, nunca como um museu, mas como um lugar onde encontrava amigos e pessoas interessantes, preocupados com o futuro do Portugal democrático na relação com a Europa e o mundo, fazendo da cultura um fecundo diálogo. Os seminários Repensar Portugal, no final dos anos 1970, foram essenciais para a abertura de novos horizontes, assim como os Encontros Internacionais de Música, a instituição do Prémio D. Diniz, os Seminários de Tradução de Poesia Viva, o Instituto Internacional Casa de Mateus, a Residência de Artistas, a atividade agrícola e turística, tudo constituiu um modo ativo de ligar memória e desenvolvimento, democracia e arte. E não esquecemos a atribuição do Prémio Morgado de Mateus, apenas destinado a figuras excecionais no domínio da cultura, a Miguel Torga e a Carlos Drummond de Andrade (1980) e a Vasco Graça Moura (2013). Todos foram verdadeiros símbolos daquela casa extraordinária. Estou a ver Fernando, no seu passo miudinho, cuidando para que tudo se passasse com simplicidade e inexcedível qualidade, para que nos sentíssemos bem a fruir o natural requinte e a permitir que a cultura fluísse, em diálogo genuíno e rico entre a tradição e o futuro. E foi com especial honra e gosto que condecorei na Casa de Mateus em nome do Estado português, em representação do Presidente Jorge Sampaio, Gustav Leonhardt numa justíssima homenagem à figura marcante do panorama musical mundial, demonstração de uma cultura sem fronteiras.

Guilherme D'Oliveira Martins

Camioneta-fantasma...

Em 1945, quando muitos portugueses alimentavam a esperança de que o fim da guerra permitisse uma abertura política no sentido democrático, o padre Joaquim Alves Correia (1886-1951), missionário do Espírito Santo, que ganhara a alcunha de Padre Larguezas, em virtude do sucesso obtido com o seu livro A Largueza do Reino de Deus (1931), acreditava sinceramente numa sociedade aberta, baseada no respeito mútuo e no pluralismo. E escreveu no dia 23 de outubro de 1945 nas páginas do República um texto que deu brado, intitulado, significativamente, "O Mal e a Caramunha", sobre a chamada "Noite Sangrenta", cujo centenário passou há dias. Nesse 19 de outubro de 1921, a que Raul Brandão chamou de "noite infame", foram assassinados barbaramente por um grupo de amotinados, sem razões claras nem mandantes conhecidos, o primeiro-ministro António Granjo, o fundador da República almirante Machado Santos e o oficial que liderara a revolta da Marinha em 1910, Carlos da Maia, primo por via materna de Antero de Quental. Até hoje essa viagem da camioneta-fantasma por Lisboa a semear o terror está envolta em mistério (ajuste de contas com o sidonismo?), mas foi dos momentos que mais contribuíram para a queda da República.

Guilherme D'Oliveira Martins

Escrever o sol

No ano em que se celebram 60 anos da Poesia - 61, cadernos publicados em Faro, por Casimiro de Brito, Fiama Hasse Pais Brandão, Gastão Cruz, Luiza Neto Jorge e Maria Teresa Horta, com ilustração de Manuel Baptista, tive o gosto de invocar o facto nos Anais do Município de Faro, que acabam de sair, através da publicação de uma carta inédita de Gastão Cruz a Fiama sobre a feitura dessa preciosidade bibliográfica que reúne as cinco plaquetes da Poesia - 61, oferecidas há dias generosamente por João Nuno Cruz, filho dos dois protagonistas da carta agora vinda a lume, à Biblioteca Municipal António Ramos Rosa, no dia de um sol tímido em que lançámos os Anais. Foi um momento memorável, com a apresentação de António Branco, antigo reitor da Universidade do Algarve, no qual sentimos connosco o espírito da poesia e de uma iniciativa cultural pioneira, pela qual os jovens de há 60 anos, sem criar um movimento, puseram em comum, e por caminhos diferentes, um modo de agitar ideias à semelhança de Orpheu, porque a cultura nunca se repete, sempre se renova. O número dos Anais insere ainda uma sentida invocação de Lídia Jorge em memória de Maria Aliete Galhoz, com episódios pitorescos, uma deliciosa lembrança da cidade de Faro de antigamente, de Teresa Rita Lopes, ou um testemunho de Carminda Cavaco, ilustre geógrafa, sobre o turismo mediterrânico.

Guilherme D'Oliveira Martins

Pedro Tamen

"Um pequeno pedro a correr pelo campo / entre latadas outras, com suas ágeis mãos, / haveria, seria, teria sido, iria / correndo, correndo, correndo até um dia. / Cresceria rosado, entre tosse e sarampo, / teria pé ligeiro e apetites sãos / entre garfo e colher, entre ver e viver, / haveria, haveria, entre nada e não ser" (Rua de Nenhures, p. 69). Revisitamos o "pequeno pedro", e não esquecemos o que nos legou em palavra e sentido. E isso leva-nos a revisitá-lo, porque continua a marcar os nossos dias. Quando António Alçada Baptista transformou a Livraria Morais da Rua da Assunção num polo de renovação humana e religiosa, Pedro Tamen entrou como seu sócio, juntando-se-lhes João Bénard da Costa, Nuno Bragança, Luís de Sousa Costa, Helena e Alberto Vaz da Silva. Foi então que, vindo da revista universitária Encontro, lançou o célebre Círculo de Poesia, que ostentava o inesquecível símbolo solar de José Escada. Aí publicou O Sangue, a Água e o Vinho e animou as coleções Círculo do Humanismo Cristão e O Tempo e o Modo. À "poderosa força da inércia" havia que contrapor, com determinação, a "frágil força da mudança", e um grupo de jovens propôs-se agitar as águas no pensamento e na ação. Pedro Tamen formulou o programa - simples e claro, em palavras emblemáticas: "A ação começa na consciência. A consciência, pela ação, insere-se no tempo. Assim, a consciência atenta e virtuosa procurará o modo de influir no tempo. Por isso, se a consciência for atenta e virtuosa, assim será o tempo e o modo." A Morais afirmou-se como pioneira na reflexão dos grandes temas do Concílio Vaticano II e a revista O Tempo e o Modo concretiza-se em 1963. António Alçada Baptista é proprietário e diretor, João Bénard da Costa, chefe de redação, Pedro Tamen, editor, contando com a participação de Nuno Bragança, Alberto Vaz da Silva e Mário Murteira. Era uma revista que seguia os passos de Emmanuel Mounier, que fizera em 1932 a revista Esprit como um lugar de encontro de católicos e não católicos. Daí a entrada de Mário Soares, Francisco Salgado Zenha e do jovem dirigente estudantil Jorge Sampaio.

Guilherme D'Oliveira Martins

Uma aldeia perdida

A nossa primavera permite-nos usufruir das virtudes da natureza. É o património como dom natural que se associa à paisagem humana e ao sentir de uma cultura viva. O sol matutino espraia-se lisonjeiro, e descobrimos, deambulando numa terra de muitas cambiantes, diferenças que se enriquecem mutuamente. O conde de Ficalho, Francisco Manuel de Mello Breyner (1837-1903), par do Reino, historiador e professor de Botânica na Escola Politécnica, biógrafo de Pero da Covilhã e de Garcia de Orta, membro dos "Vencidos da Vida", demonstrou numa célebre carta a importância de ser patriota, que nada tem que ver com nacionalismos falsos e ilusórios, perigosamente destruidores da humanidade. Amar as raízes, compreender o que nos distingue e quem somos significa ter a capacidade de amar o que nos é próximo, sem tentação de ver nisso motivo de cegueira ou de indiferença relativamente aos outros.

Guilherme D'Oliveira Martins

Tirar lições da experiência

Somos levados em imaginação pelas páginas de Viagens na Minha Terra. Lembramos o testemunho inesquecível de Garrett: "Rodeámos o largo e fomos entrar em Marvila, pelo lado do norte. Estamos dentro dos muros da antiga Santarém. Tão magnífica é a entrada, tão mesquinho é agora tudo cá dentro, a maior parte destas casas velhas sem serem antigas, destas ruas moirescas sem nada de árabe, sem o menor vestígio da sua origem, mais que a estreiteza e pouco asseio." Segue a "triste e pobre Rua Direita", passa pela "curiosa Torre das Cabaças" e por São João do Alporão. "Amanhã iremos ver tudo isso de nosso vagar. Agora vamos à Alcáçova."