Guilherme D'Oliveira Martins

Guilherme D'Oliveira Martins

O dia triunfal de uma vida

Parece que sim. Álvaro de Campos nasceu mesmo em Tavira a 15 de outubro de 1890, à 01h30 da tarde, seria engenheiro naval por Glasgow, medindo 1,75 metros de altura, mais dois centímetros do que Pessoa. Viajou muito pelo Oriente e pela Europa, vivendo principalmente na Escócia. Em dado momento, Fernando Pessoa adiantou em dois dias o nascimento e mudou a naturalidade de Campos, por misteriosas razões. Mas Eduardo Lourenço deixou claro, quase romanescamente, que, enquanto mito, foi Caeiro o verdadeiro centro do universo de Pessoa. Daí a necessidade de compreender melhor. Ou seja, importaria ter em consideração a importância do poeta prometido a Mário de Sá-Carneiro, que o tempo agigantou - Alberto Caeiro. Foi em 8 de março de 1914. Quando já desistira da descoberta procurada, Pessoa acercou-se da cómoda alta e, tomando um papel, começou a escrever, de pé, como fazia sempre que podia. Escreveu trinta e tantos poemas a fio, numa espécie de êxtase de natureza indefinível. E afirmou: "Foi o dia triunfal da minha vida, e nunca poderei ter outro assim."

Guilherme D'Oliveira Martins

5 de Outubro

Os 111 anos da proclamação da República Portuguesa levam-nos à consideração de três momentos da nossa história que nos conduzem ao entendimento atual de democracia - em nome do constitucionalismo liberal consagrador dos direitos fundamentais, da separação de poderes e da soberania popular. Falamos de 1820, 1910 e 1974. E assim, a Revolução do Porto de 24 de agosto de 1820 constituiu, para nós, a consagração do moderno Estado de direito. Esse acontecimento, apesar de todas a vicissitudes, desde a fugaz tentativa de regresso do poder absoluto até à Regeneração de 1851, que viria a tornar a Carta Constitucional de 1826 uma lei fundamental legitimada por um poder constituinte, deu início à democracia atual. E as datas de 5 de outubro de 1910 e de 25 de abril de 1974 constituem os dois outros vértices que continuam e afirmam o que Jaime Cortesão designou como fatores democráticos na formação e na afirmação de Portugal, desde as mais longínquas raízes históricas, abrangendo a fundação, as Cortes, o municipalismo, a influência dos povos das cidades e dos mesteres, a causa do Mestre de Avis em 1383 ou a Restauração da Independência de 1640.

Guilherme D'Oliveira Martins

Economia e cultura

Nunca choraremos bastante nem com pranto / Assaz amargo e forte / Aquele que fundou glória e grandeza / E recebeu em paga insulto e morte." Sophia de Mello Breyner disse-o no Livro Sexto, em homenagem sentida ao duque de Coimbra, o infante D. Pedro das Sete Partidas (1392-1449), filho de D. João I e D. Filipa de Lencastre, defensor determinado da necessidade de reflexão e ação planeada para responder aos desafios da pátria. Na célebre Carta enviada de Bruges em 1425 ou 1426 a seu irmão D. Duarte, que hoje merece ser relida com atenção, de tão atual, delineou o método da vontade de um povo, bem orientada pela persistência do trabalho, contra a tentação do improviso, que não é qualidade, mas doença terrível. O caso português é bem ilustrativo. Avançámos quando soubemos ligar a audácia dos objetivos ao cuidado da ação. Por isso, dizia o infante: "Bem creio, Senhor, que seis que tivessem vontade de desembargar e fossem diligentes em seu ofício fariam mais que cinquenta que tal vontade não têm." Morto tragicamente em Alfarrobeira, contou com a determinação de seu neto, o Príncipe Perfeito, num sério caso de fidelidade, para que não fosse esquecida a sua lição.

Guilherme D'Oliveira Martins

Com Tóssan, no Algarve

Se o faro de cão / está mesmo no cão / o cão tem faro. // Se o faro é do cão / o cão é de Faro / o faro é do cão. // Mas se fareja e cheira / é de Albufeira. // E se tem olho o cão / e ladra a ladrão / o cão é de Olhão. // Se curva e vira / é de Espinhaço de Cão / ou de Tavira / ou até de Portimão. // Mas se ferra o cão... / não é algarvio, não!" Em boa hora escolhi como leitura de um fim de semana algarvio bem passado O Homem Que só Queria Ser Tóssan, editado por João Paulo Cotrim, na Arranha-Céus, com o apoio do município de Loulé, que me foi oferecido pelo meu amigo Vítor Aleixo. São três volume imperdíveis, um sobre a obra gráfica e dois sobre a produção escrita - Lógica Zoológica. Frutos e Desfrutos. Animalia. Contos e Descontos e Versos Côncavos e com Versos.

Guilherme D'Oliveira Martins

A tertúlia de moinho de vento

O debate de ideias não pode ser desvalorizado. O intelectual não pode ser substituído pelos comentadores das ideias gerais. Concordo com o meu amigo Luís Castro Mendes sobre a importância de sermos mais exigentes neste domínio. A democracia só progride através da ligação entre a capacidade de ver o futuro e de encontrar catalisadores de energias no sentido de responder à necessidade de tornar a sociedade melhor. Não há ação coerente e eficaz sem pensamento, e não há reflexão séria sem capacidade de ouvir. Não há projetos relevantes se não os basearmos na experiência e nos bons exemplos. Infelizmente, prevalece a tentação de limitar o debate político ao imediatismo e aos efeitos teatrais. Se olharmos atentamente a história política percebemos que só pode haver resultados práticos positivos se houver planeamento de médio e longo prazos e capacidade de mobilizar duradouramente as vontades da sociedade. As reformas estruturais não se confundem com o método do café instantâneo, é fundamental tempo e é ilusório julgar que se muda a sociedade contando apenas com opiniões superficiais ou modas passageiras. Eis por que razão urge refletir, dialogar, debater e encontrar soluções duráveis que possam antecipar, prevenir e mobilizar.

Guilherme D'Oliveira Martins

Amava sobretudo a liberdade

António Alçada Baptista era um contador de histórias inesgotável. E a amizade era fecunda fonte de contentamento. Era absolutamente extraordinário ouvi-lo, fruto de uma memória prodigiosa, que manteve pela vida fora e que lhe permitia fixar pormenores, sinais e sentidos. Era a lembrança viva de quem amava sobretudo a liberdade. Recordo o entusiasmo com que partilhava episódios como o do padre Anchieta sobre uma viagem no sertão brasileiro. Com urgência em regressar a uma aldeia recôndita, o jesuíta pediu aos carregadores rapidez na caminhada. Contudo a andança era muito longa e, na terceira jornada, os índios pararam inesperadamente. O padre indagou sobre o motivo da interrupção e a explicação não se fez esperar: "Temos vindo depressa de mais e a nossa alma ficou lá para trás. Temos de esperar que ela regresse, pois sem ela não podemos continuar."

Guilherme D'Oliveira Martins

O soviete dos Caetanos

As casas têm alma, bem o sabemos. E voltando aos bons fantasmas que habitam uma urbe antiga como Lisboa, refiro hoje a casa mais intensamente povoada de bons espíritos da cidade. E vou até à Calçada dos Caetanos (hoje Rua João Pereira da Rosa), no Bairro Alto, entre o Conservatório e a Rua do Século, a antiga Rua Formosa. Aí moraram Ramalho Ortigão, Oliveira Martins, António Ferro e Fernanda de Castro. E estes chamaram-lhe "o soviete dos Caetanos", onde tudo se partilhava, desde o sal e o pão até ao teatro, à poesia e à arte. Vejamos como e porquê.

Opinião

Que democracia europeia?

A democracia europeia não satisfaz os anseios dos cidadãos. A tentativa de avançar mais rapidamente na construção das instituições europeias deparou-se com profundas resistências - não só pelos efeitos do rápido alargamento a Leste, com as fragilidades inerentes, em especial no tocante à coesão, mas também com as consequências da grave crise financeira. Os dois resultados conjugados somaram-se ao agravamento dos conflitos desregulados no Mediterrâneo Oriental e Médio Oriente, à pressão demográfica e ao medo instalado entre os europeus pelo receio das consequências da chegada dos refugiados - numa conjuntura de incerteza e de instabilidade, ditada pelos atos violentos de intimidação relativamente às sociedades ocidentais. Um círculo ameaçador manifesta-se na Europa, gerando a reação do "salve-se quem puder", com esquecimento de que a fragmentação e a tribalização apenas terão como consequência a multiplicação da instabilidade e a escalada do medo e da violência, numa espécie de instinto de defesa inconsequente, com resultados claramente contrários aos que se poderia desejar. E assim chegamos a uma situação paradoxal - havendo, mais do que nunca, necessidade de Europa, de coordenação de políticas, de gestão de espaços e territórios e de partilha de responsabilidades, presenciamos a multiplicação de uma atitude puramente defensiva, baseada no temor da imigração e da presença das diferenças. Como aconteceu nos anos trinta do século XX, em lugar da cooperação surge a reação nacionalista e a ilusão do protecionismo.

Guilherme D'Oliveira Martins

Mário Soares, a democracia e Portugal

Na passagem dos quarenta anos da Constituição da República, da eleição do primeiro presidente da República da democracia e da formação do I Governo Constitucional, importa, num tempo de tantas incertezas e dúvidas, recordar o esforço sério, o empenhamento patriótico, o trabalho de compromisso, a determinação e a vontade do povo português em prol da liberdade. Invoco hoje, até pela relação antiga que me liga a Mário Soares, a importância que o seu exemplo representa para os dias de hoje e de sempre. Estamos perante um percurso político fundamental que colheu frutos no tocante à institucionalização do regime democrático. Profundo conhecedor da história portuguesa, filho de uma personalidade marcante da I República e do mundo pedagógico, pôde, ainda antes da Revolução democrática de 1974, preparar o terreno para uma «República moderna» em que todos pudessem ter lugar, para lá das oposições tradicionais. Quando, ao lado de Salgado Zenha, Jorge Sampaio e António Alçada Baptista participou na criação de O Tempo e o Modo, era a prefiguração de um regime aberto e de liberdade e pluralismo que estava em causa. Prevenindo os erros da I República, em especial nas questões religiosa e social, preservando a matriz democrática, Mário Soares congregou os republicanos históricos, o Diretório Democrato-Social de António Sérgio, os jovens dos movimentos estudantis, os católicos inconformistas, os defensores do socialismo democrático e da social-democracia (na linha de Willy Brandt a Helmut Schmidt, passando por Mendès-France e Olof Palme), a esquerda não dogmática e compreendeu os movimentos de emancipação das jovens nações de língua portuguesa. Assim pôde lançar as bases de um compromisso heterogéneo e rico, baseado no respeito mútuo e na consolidação de uma cidadania ativa e de uma democracia inclusiva. Há dias recordei o papel fundamental desempenhado por Maria de Jesus Barroso Soares nesse caminho - como resistente serena, determinada e inteligente, capaz de preservar o prestigiado colégio que dirigia e de abrir horizontes novos para uma democracia para todos. E simbolicamente a amizade do casal Soares com Sophia de Mello Breyner e Francisco Sousa Tavares foi um excelente símbolo desse espírito autenticamente democrático, de diferença e complementaridade. Lembramo-nos simbolicamente do que Sophia disse na Assembleia Constituinte: "A cultura não existe para enfeitar a vida, mas sim para a transformar - para que o homem possa construir e construir-se em consciência, em verdade e liberdade e em justiça. E, se o homem é capaz de criar a revolução é exatamente porque é capaz de criar a cultura" (2.9.1975). Hoje, temos de compreender que era por isto mesmo que Sophia tinha a maior confiança política e pessoal no seu amigo Mário Soares. Afinal, a democracia - e esse é o grande desafio do presente - precisa de estar apta a responder aos anseios dos cidadãos, como sistema sempre incompleto, mas suscetível de se aperfeiçoar. Não há democracia sem partidos, não há liberdade sem o voto livre dos cidadãos, mas é preciso ir ao encontro da legitimidade do exercício, garantir as responsabilidades. E é essa lição que temos de tirar a partir de quem contribuiu para o reforço da democracia portuguesa - com a coragem de evitar o anarcopopulismo, de contrariar a demagogia e de propor passos serenos e seguros, tornando o possível necessário, sempre com salvaguarda da diversidade e de um fecundo diálogo construtivo. Quando Mário Soares levantou a bandeira «Europa connosco», entendeu que a democracia obrigaria a termos uma voz respeitada internacionalmente. José Medeiros Ferreira compreendeu-o muito bem. Só seríamos respeitados no mundo e, em especial, no hemisfério sul se tivéssemos lugar e voz entre os países desenvolvidos. Nesse sentido, a recordação e a homenagem a Mário Soares (e a todos quantos contribuíram para a afirmação da democracia, sem exceção - o povo português, Ramalho Eanes, Cavaco Silva) é um alerta severo e inequívoco. O projeto europeu precisa de dar sinais positivos de força cidadã em lugar de perigosos sinais de cegueira burocrática! Precisamos de incentivos e não de reprimendas... Precisamos de aprender com quem foi capaz de ver longe e largo.

Guilherme D'Oliveira Martins

Uma cultura da paz europeia?

Muitas vezes ouve-se no discurso político, na Europa de lés-a-lés, a ideia de que a resposta nacional e o fechamento das sociedades e das economias poderia ser uma resposta às dificuldades atuais. Tal lógica é a do salve-se quem puder. Se considerarmos, porém, os desafios do mundo global, depressa percebemos: que os problemas atuais se devem à incapacidade de espaços económicos médios criarem condições para o crescimento e para a coesão social; que as fragilidades dos Estados nacionais projetam-se nos espaços supranacionais (a braços com a ausência de mecanismos de defesa de interesses comuns); e que a paz e a segurança obrigam à coordenação de políticas públicas que favoreçam a inovação, a melhoria da eficiência e equidade e a busca de novas possibilidades de criação de valor. A Europa fechada manterá a economia estagnada. A falta de audácia no tocante à mundialização impedirá o avanço do desenvolvimento humano. Eis por que razão os temas do investimento reprodutivo e da cooperação para o desenvolvimento, capazes de criar capital social e de favorecer a formação sustentável de riqueza, têm de entrar na ordem do dia. E sejamos claros: apesar da importância das medidas adotadas e aplicadas pelo Banco Central Europeu, continua a faltar motivação prática dos agentes económicos para investir, correr riscos e ter condições para poder acreditar nos efeitos práticos dos recursos aplicados na qualidade do trabalho, no emprego, na aprendizagem, na experiência e no conhecimento.