Guilherme D'Oliveira Martins

Guilherme D'Oliveira Martins

Luís Salgado de Matos

O Luís Filipe Salgado de Matos era das pessoas mais argutas e inteligentes que conheci. Investigador exímio, conversador inesgotável, era capaz de ver para além do imediato e das aparências, com quem dava gosto estar e conviver. Os temas que estudou (o Estado de Ordens e as relações institucionais das Forças Armadas e da Igreja) foram marcados pela originalidade e pelo modo próprio de analisar criticamente ideias feitas ou simplificações. Quantas vezes, em centenas de horas de convívio, ouvia placidamente os circunstantes e, aparentemente, sem discordância formal, com a sua voz inconfundível, mudava a perspetiva ou os ventos que pareciam dominar aquele ambiente.

Guilherme D'Oliveira Martins

O valor da cultura

Como tirar consequências das duas crises que o mundo viveu nos últimos anos? Como dar valor à cultura? A emergência é sanitária, mas há que tomar consciência de que o tempo pós-pandemia vai-nos obrigar a jogar em vários tabuleiros, como numa simultânea de xadrez. Como afirmaram há uma semana António Guterres, Angela Merkel, Charles Michel, Emmanuel Macron, Macky Sall e Ursula van der Leyen, "as crises mais graves pedem soluções mais ambiciosas".

Guilherme D'Oliveira Martins

Uma cultura da paz europeia?

Muitas vezes ouve-se no discurso político, na Europa de lés-a-lés, a ideia de que a resposta nacional e o fechamento das sociedades e das economias poderia ser uma resposta às dificuldades atuais. Tal lógica é a do salve-se quem puder. Se considerarmos, porém, os desafios do mundo global, depressa percebemos: que os problemas atuais se devem à incapacidade de espaços económicos médios criarem condições para o crescimento e para a coesão social; que as fragilidades dos Estados nacionais projetam-se nos espaços supranacionais (a braços com a ausência de mecanismos de defesa de interesses comuns); e que a paz e a segurança obrigam à coordenação de políticas públicas que favoreçam a inovação, a melhoria da eficiência e equidade e a busca de novas possibilidades de criação de valor. A Europa fechada manterá a economia estagnada. A falta de audácia no tocante à mundialização impedirá o avanço do desenvolvimento humano. Eis por que razão os temas do investimento reprodutivo e da cooperação para o desenvolvimento, capazes de criar capital social e de favorecer a formação sustentável de riqueza, têm de entrar na ordem do dia. E sejamos claros: apesar da importância das medidas adotadas e aplicadas pelo Banco Central Europeu, continua a faltar motivação prática dos agentes económicos para investir, correr riscos e ter condições para poder acreditar nos efeitos práticos dos recursos aplicados na qualidade do trabalho, no emprego, na aprendizagem, na experiência e no conhecimento.

Guilherme D'Oliveira Martins

Eduardo Lourenço: Portugal como ideia

A atribuição do Prémio Vasco Graça Moura, na sua primeira edição, a Eduardo Lourenço constitui um reconhecimento e uma homenagem. É reconhecimento da obra de Eduardo Lourenço como fundamental, no seu sentido crítico, para a compreensão de Portugal, como cultura e identidade aberta. É homenagem, na medida em que Vasco Graça Moura, na sua expressão multifacetada, sempre deu ao pensamento do ensaísta de Nós e a Europa ou as Duas Razões uma especial importância, como intérprete de quem somos enquanto vontade e recusa de um qualquer fatalismo desistente. Lembramo-nos do modo como Graça Moura se empenhou e conseguiu que o Prémio Europeu de Ensaio fosse atribuído ao pensador português. Daí esta ligação natural e justa. Eduardo Lourenço segue os passos da Geração de 70 demarcando-se da religiosidade tradicional, e de um sentimento universal, notados em Fradique Mendes e depois na galáxia Fernando Pessoa e no modernismo. Nesta ligação, o ensaísta assume grande originalidade ao articular (como antes ninguém fizera) as Conferências Democráticas e o Orpheu. "A história e o destino de Portugal nunca foram trágicos fora da tragédia adiada que a vida é. Também não o são agora. Pela primeira vez, o nosso país vive-se a si mesmo e começa até a ser visto pelos outros, como um povo insolentemente feliz." Lourenço falou, por isso, de "maravilhosa imperfeição", como marca indelével de Portugal. Nem contentamento nem desconcerto, do que se trata é de procura de um sentido emancipador. Perante as nuvens negras da crise, o seu tema é o da vontade, que supere uma ciclotimia antiga. O tema de Portugal como Destino está de pé. Longe dos mitos da glorificação ou do pessimismo são urgentes a liberdade e a vontade! Afinal os mitos obrigam a ter deles uma leitura exigente e crítica.