Guilherme d' Oliveira Martins

Guilherme d' Oliveira Martins

Gonçalo, em nome da terra

O parque da nova Praça de Espanha homenageia, com inteira justiça, a memória de Gonçalo Ribeiro Telles. Foi com emoção que os seus velhos amigos puderam ver concretizada uma das suas mais antigas aspirações - o Plano Verde de Lisboa. Tenho na memória um dos últimos almoços de aniversário num pequeno restaurante na muito sua Rua de São José - que em tempos idos se chamou Estrada de Benfica, a partir das Portas de Santo Antão, quando os antepassados de Gonçalo para ali vieram, construindo suas casas. Estive a seu lado e em todo o tempo falou da necessidade premente de levar a cabo a salvaguarda da cidade e das suas raízes. O tema das hortas era uma antiga preocupação sua. Havia que deixar respirar as terras onde a urbe se implantava, designadamente ali junto da ribeira de Valverde. E invocava os seus combates na Avenida da Liberdade, para preservar o Parque Eduardo VII e a saída para Monsanto. Conhecedor profundo da história e da geografia, não esquecia os almocreves saloios que demandavam Lisboa e chamavam alfacinhas aos seus habitantes, num misto de ironia e inveja, por estes cultivarem as suas leiras... E se falava com preocupação do solo urbano, depressa passava para dois temas sempre presentes no seu entusiasmo: a paisagem global e o jardim do paraíso.

Guilherme d' Oliveira Martins

D. Maria da Glória

Começo por pegar ainda no tema da última crónica - os jacarandás em flor. Numa noite destas, o meu amigo Miguel Sousa Tavares assinalou-me com inteira justiça o seguinte: "Esqueceu-se da Avenida da Torre de Belém, que só tem jacarandás e que, além disso, é a mais bonita rua de Lisboa." Sendo verdade que apenas dera exemplos, só tenho de concordar, sem mais justificativos - com um forte abraço de estima antiga. E esta primavera tem conseguido que usufruamos uma das mais belas florações dos últimos anos, e estamos felizes por isso!

Guilherme d' Oliveira Martins

Imperfeita e preciosa

Ao considerar a democracia portuguesa como "imperfeita e preciosa", a propósito do oportuníssimo discurso do Presidente da República na sessão parlamentar comemorativa do 25 de Abril de 1974, Clara Ferreira Alves usou duas palavras apropriadas ao valor insubstituível da liberdade. Mais do que um discurso de circunstância, o Presidente preferiu uma reflexão séria e aprofundada sobre o presente, que não esquece as raízes e se projeta como responsabilidade no futuro. "Olhar (a história) com olhos de hoje e tentar olhar com os olhos do passado que as mais das vezes não é fácil de entender, sabendo que outros nos olharão no futuro de forma diversa dos nossos olhos de hoje" - eis o que está em causa. A missão é ingrata, bem o sabemos, já que julgar o passado com olhos de agora seria exigir aos que viveram esse tempo que "pudessem antecipar valores ou o seu entendimento para nós agora tidos por evidentes, intemporais e universais, sobretudo se não adotados nas sociedades mais avançadas de então"... De facto, revisitar a história obriga a muitas precauções - para que não se caia na fácil tentação de "passarmos de um culto acrítico triunfalista exclusivamente glorioso da nossa história para uma demolição global e igualmente acrítica de toda ela". Importa aprender a olhar, em especial pondo-nos no lugar dos outros. Por exemplo, usar os olhos "que não são os nossos, os do antigo colonizador, mas os olhos dos antigos colonizados, tentando descobrir e compreender, tanto quanto seja possível, como eles nos foram vendo e julgando, e sofrendo, nomeadamente onde e quando as relações se tornaram mais intensas e duradouras e delas pode haver o correspondente e impressivo testemunho". De facto, não há diálogo se não for possível ir além das atitudes e dos preconceitos de cada um. Importa trocar experiências e usar o sentido crítico como método biunívoco. E há a precaução, porventura mais sensível de todas - a consideração dos vários tempos nas nossas vidas. "aqueles de nós portugueses que têm menos de 50 anos não conheceram o império colonial nem nas lonjuras nem na vivência aqui no centro. O seu juízo é naturalmente menos emocional, menos apaixonado". Mas devemos distinguir, como salientou o Presidente da República, a posição de "muitos jovens das sociedades que alcançaram a independência contra o império português e viveram depois décadas conturbadas pelos reflexos de vária natureza da anterior situação colonial". De facto, a história nunca pode ser vista de um só lado. Falamos de fenómenos complexos e diversos, de existências diferenciadas, de interpretações que têm de recusar a simplificação.

Guilherme d' Oliveira Martins

No coração de Portugal…

Falávamos normalmente dos mais diversos temas, mas naquele dia deu-me conta de um projeto novo que o entusiasmava, a produção de queijo da serra, seguindo por métodos modernos uma tradição antiga, nas pisadas de seu avô. E pediu-me que recolhesse elementos sobre as origens antigas desse precioso alimento, que para muitos é o melhor queijo do mundo. Conversámos longamente e verifiquei que o Jorge sabia praticamente tudo o que era relevante. Como era seu hábito, já planeara a ação até ao ínfimo pormenor. Apenas desejava reforçar o valor do património cultural - permitindo aos futuros consumidores a consciência de que beneficiavam de uma experiência única. No fundo, disse-mo tantas vezes, com a argúcia e a inteligência conhecidas, e nunca encontrei melhor definição, a cultura reúne o que recebemos das raízes, da memória e da herança dos nossos antepassados, à capacidade de fazer da vida um fator de permanente aperfeiçoamento. E, não por acaso, a etimologia da palavra cultura, que usamos, tem que ver com o campo, no qual semeamos e colhemos. Para cultura do espírito, os gregos falavam de paideia e os latinos de humanitas - e o Jorge ao lembrar Mangualde dos seus antepassados, fazia-o sentindo o mais puro património, genético e imaterial, com que se constrói a cultura moderna.

Guilherme d' Oliveira Martins

Lembrar um conto popular…

Importa sensibilizar os portugueses para a tomada de consciência da necessidade de uma proteção solidária. Como disse o Presidente da República, muito bem, a primeira prioridade é o combate da pandemia. Importa cerrar fileiras para enfrentar o perigo real com que o mundo se defronta. Não está em causa a liberdade e o direito, mas o respeito mútuo de uma cidadania livre e responsável. Daí a necessidade de uma maior coordenação nacional, europeia e internacional e de medidas excecionais que correspondam ao que o direito designa como estado de necessidade, em nome da preservação da vida de muitas pessoas.

entrevista

Marcelo "tem agido dentro dos limites constitucionais"

Guilherme d'Oliveira Martins aceitou o convite do presidente da Assembleia da República, Eduardo Ferro Rodrigues, para coordenar as comemorações do bicentenário do constitucionalismo português, tendo como ponto de partida a revolução liberal que teve lugar no Porto em 1820 e a aprovação da "nossa primeira Constituição" em 1822. Em entrevista ao DN, o administrador da fundação foi à História de Portugal para melhor explicar o presente. E é nesta interação que também quer que aconteçam as comemorações, como explica logo a abrir, a partir de Jaime Cortesão, médico, escritor, político e historiador.