Guilherme d' Oliveira Martins

Guilherme d' Oliveira Martins

No coração de Portugal…

Falávamos normalmente dos mais diversos temas, mas naquele dia deu-me conta de um projeto novo que o entusiasmava, a produção de queijo da serra, seguindo por métodos modernos uma tradição antiga, nas pisadas de seu avô. E pediu-me que recolhesse elementos sobre as origens antigas desse precioso alimento, que para muitos é o melhor queijo do mundo. Conversámos longamente e verifiquei que o Jorge sabia praticamente tudo o que era relevante. Como era seu hábito, já planeara a ação até ao ínfimo pormenor. Apenas desejava reforçar o valor do património cultural - permitindo aos futuros consumidores a consciência de que beneficiavam de uma experiência única. No fundo, disse-mo tantas vezes, com a argúcia e a inteligência conhecidas, e nunca encontrei melhor definição, a cultura reúne o que recebemos das raízes, da memória e da herança dos nossos antepassados, à capacidade de fazer da vida um fator de permanente aperfeiçoamento. E, não por acaso, a etimologia da palavra cultura, que usamos, tem que ver com o campo, no qual semeamos e colhemos. Para cultura do espírito, os gregos falavam de paideia e os latinos de humanitas - e o Jorge ao lembrar Mangualde dos seus antepassados, fazia-o sentindo o mais puro património, genético e imaterial, com que se constrói a cultura moderna.

Guilherme d' Oliveira Martins

Rui Feijó

Rui Maria Malheiro de Távora de Castro Feijó nasceu há cem anos, em Viana do Castelo, a 25 de março de 1921. Era a memória viva de uma família antiga de senhores de Entre Douro e Minho. A bela Quinta de Vilar (Lousada), que foi sua e que hoje invoca história, pedagogia e cinema e produz um belo vinho verde, simboliza a apaixonante ligação aos tempos imemoriais que marcam as mais distantes raízes portuguesas. Num poema célebre, intitulado "Bifronte", Álvaro Feijó (1916-1941), irmão de Rui, morto na juventude, e conhecido graças ao empenhado labor fraternal, definia bem o carácter de ambivalência dessa estirpe antiga: "Calcorreei a estrada, encadernado / de senhor feudal (...) / Voltei ao meu caminho, revestido / do manto de farrapos dum mendigo / desiludido! (...) // Meti na estrada do monte / e, ora senhor feudal, / ou pobrezinho que andou no mundo o seu caminho / e errou, /quer guardando no leito castelãs / ou moças aldeãs. / Nem assim sou o que sou!." O empenhamento social superou e renovou, assim, a tradição senhorial.

Opinião

Europa, memória e património cultural

O ano 2018 está à porta e o comissário europeu para a Educação e Cultura, Tibor Navracsics, ao abrir oficialmente o Ano Europeu do Património Cultural, recordou no dia 6, no decorrer do Fórum Europeu da Cultura, que não estamos apenas a falar "de literatura, arte, objetos, mas também de competências aprendidas, de histórias contadas, de alimentos que consumimos e de filmes que vemos". De facto, precisamos de preservar e apreciar o nosso património, como realidade dinâmica, para as gerações futuras. Compreender o passado, cultivá-lo, permite-nos preparar o futuro. Estamos a encetar um momento importante na vida da União Europeia. Apesar dos sinais de crise (e é significativo que contemos com muitos representantes da sociedade civil e da comunidade científica do Reino Unido, bem como com muitos jovens de todos os países da União Europeia, mas também do Conselho da Europa), há uma clara consciência de que uma cultura de paz começa pelo culto e pelo cuidado relativamente ao património cultural. Como poderemos avançar sem considerarmos as nossas raízes? Como poderemos preparar, de modo informado e conhecedor, o progresso futuro sem cuidar da continuidade e da mudança - segundo um processo de metamorfose, como Edgar Morin tem defendido? Procuramos, assim, sensibilizar a sociedade e os cidadãos para a importância social e económica da cultura - com o objetivo de atingir um público tão vasto quanto possível, não numa lógica de espetáculo ou de superficialidade, mas ligando a aprendizagem da História e o rigor no uso e na defesa das línguas, articulando educação e ciência, numa perspetiva humanista, aberta e exigente.

Opinião

Contra as ilusões e os egoísmos

Não vou discutir aqui o lamentável problema de saber se houve ou não um acordo com quem quer que fosse, para tratar de modo desigual e favorável um determinado Estado membro da União Europeia, no tocante ao famigerado tema dos défices excessivos. Só a suspeição, porém, já é suficientemente grave, e sobretudo quando assumida por um político relevante. Do que se trata é de pôr sobre a mesa o tema da organização europeia e da responsabilidade dos seus membros - num momento crucial da vida internacional. Há dias, Eduardo Lourenço punha o dedo na ferida e perguntava-se como poderemos continuar a ter uma Europa anémica e irrelevante sem capacidade de responder aos desafios múltiplos perante os quais se encontra. A economia está estagnada. Saímos de uma década perdida, com crescimento insuficiente - que contrasta com um impulso do investimento nos Estados Unidos de 19 % nos últimos oito anos. Isto enquanto agora a União Europeia no seu conjunto está a produzir exatamente o mesmo que em 2008... O terrível sinal dado pelo alarme relativamente a poder haver dois pesos e duas medidas quanto ao tratamento dos diferentes Estado da União obriga-nos a dizer que se impõe romper com a situação intolerável que estamos a viver, na qual diante da incapacidade de criar riqueza se elegem como bodes expiatórios os Estados da coesão, esquecendo-se quem acumula excedentes, sem os partilhar. Numa palavra, a União Económica e Monetária está mal preparada para uma nova crise económica e financeira. Se a ação do BCE se revelou importante, o certo é que foi insuficiente, não foi aproveitada devidamente - e acaba de ser fortemente agravada pela decisão do Reino Unido de abandonar a União. Afinal, a estagnação europeia deve-se ao fechamento da economia do mercado interno, à resistência à inovação e à criatividade (continuando os europeus a ser importadores líquidos dos Estados Unidos na economia digital), à fragmentação política e à manifesta insuficiência das medidas de coesão económica e social. No fundo, apenas uma nova intervenção forte do Banco Central Europeu revelar-se-á pouco eficaz, pelo que se exige uma mudança de rumo - dando mais sentido económico às respostas necessárias.