Guilherme d' Oliveira Martins

Opinião

Contra as ilusões e os egoísmos

Não vou discutir aqui o lamentável problema de saber se houve ou não um acordo com quem quer que fosse, para tratar de modo desigual e favorável um determinado Estado membro da União Europeia, no tocante ao famigerado tema dos défices excessivos. Só a suspeição, porém, já é suficientemente grave, e sobretudo quando assumida por um político relevante. Do que se trata é de pôr sobre a mesa o tema da organização europeia e da responsabilidade dos seus membros - num momento crucial da vida internacional. Há dias, Eduardo Lourenço punha o dedo na ferida e perguntava-se como poderemos continuar a ter uma Europa anémica e irrelevante sem capacidade de responder aos desafios múltiplos perante os quais se encontra. A economia está estagnada. Saímos de uma década perdida, com crescimento insuficiente - que contrasta com um impulso do investimento nos Estados Unidos de 19 % nos últimos oito anos. Isto enquanto agora a União Europeia no seu conjunto está a produzir exatamente o mesmo que em 2008... O terrível sinal dado pelo alarme relativamente a poder haver dois pesos e duas medidas quanto ao tratamento dos diferentes Estado da União obriga-nos a dizer que se impõe romper com a situação intolerável que estamos a viver, na qual diante da incapacidade de criar riqueza se elegem como bodes expiatórios os Estados da coesão, esquecendo-se quem acumula excedentes, sem os partilhar. Numa palavra, a União Económica e Monetária está mal preparada para uma nova crise económica e financeira. Se a ação do BCE se revelou importante, o certo é que foi insuficiente, não foi aproveitada devidamente - e acaba de ser fortemente agravada pela decisão do Reino Unido de abandonar a União. Afinal, a estagnação europeia deve-se ao fechamento da economia do mercado interno, à resistência à inovação e à criatividade (continuando os europeus a ser importadores líquidos dos Estados Unidos na economia digital), à fragmentação política e à manifesta insuficiência das medidas de coesão económica e social. No fundo, apenas uma nova intervenção forte do Banco Central Europeu revelar-se-á pouco eficaz, pelo que se exige uma mudança de rumo - dando mais sentido económico às respostas necessárias.

Opinião

Como tratar a Europa doente?

A história está sempre a reservar-nos as mais inesperadas surpresas. O bom senso aconselha, porém, a que não tenhamos reações precipitadas ou apenas emotivas. A construção europeia não é feita para a eternidade. Nada é definitivo nas organizações humanas. Nestes dias, não é bom método tentarmos olhar a bola de cristal ou fazer conjeturas sobre as saídas possíveis para um inequívoco impasse em que a União Europeia se encontra. O referendo britânico teria sempre consequências profundas - qualquer que fosse o resultado. Não nos cabe agora apontar os muitos erros e as múltiplas tentações imediatistas. A verdade é que chegámos aqui - e, é bom deixar claro, que se trata de uma questão política da maior importância, não só para a Europa mas para o mundo. Com serenidade, basta vermos o verdadeiro terramoto sentido nos vários mercados e sobretudo a incerteza máxima criada - numa "sexta-feira negra", que se junta a tantas outras ao longo dos tempos. Os mercados financeiros foram todos seriamente afetados. A confiança dos cidadãos foi posta em causa. Mas do que se trata agora é de estarmos ou não à altura deste desafio que é o mais complexo desde o fim da Segunda Guerra Mundial. E não se diga que tudo se resolve se voltarmos a partir ou se refundarmos as instituições europeias. Não. O que está em causa neste momento é a paz e a segurança no mundo, o desenvolvimento sustentável e a preservação da diversidade cultural - num mundo de polaridades difusas, no qual temos de encontrar equilíbrios e ajustamentos, que superem as nuvens negras que se acastelam no horizonte. Sem que tivéssemos saído das consequências da grave crise financeira dos últimos anos, somámos problemas aos graves problemas com que lidamos e que são responsáveis pela estagnação que vive toda a Europa, que reclama o bom senso neste momento. Precisamos de uma serena partilha de responsabilidades, que impeça novos saltos no escuro, sem prevenir perigos e riscos. E o que está a acontecer é que há demasiados jogos de curto prazo ou meros arranjos políticos, sem cuidar da essência de uma cultura de paz... A Europa está toda doente, disso não haja dúvidas. Temos de cuidar da sua saúde!