Guilherme d' Oliveira Martins

Guilherme d' Oliveira Martins

A paixão de educar

Tive o raro privilégio de contar com o extraordinário conselho de Ana Maria Vieira de Almeida na reflexão sobre as políticas educativas, graças à amizade de Maria Barroso, em especial no tocante à concretização da educação pré-escolar e de infância. Fui testemunha da sua generosidade e da sua capacidade de olhar longe e largo, pondo uma escola para as pessoas no primeiro lugar do seu pensamento. Os textos que constituem o belíssimo livro Humanista, Cidadã, Pedagoga, antecedidos pela comovente e justa invocação de Vasco Vieira de Almeida, demonstram bem o exemplo essencial que Ana Maria nos deixou ("guia indiscutível, a força que nos une, o exemplo que nos inspira"). Lembro, como marca indelével, o texto publicado no DN em 7 de fevereiro de 1988, no qual dizia textualmente: "Os últimos anos têm visto nascer muitos programas que propõem o desenvolvimento das capacidades cognitivas básicas na esperança de se obter maior eficácia no processo de aprendizagem." A sua experiência e a sua sensibilidade obrigavam, porém, a um sobreaviso contra qualquer simplificação. "Essas tentativas esquecem ou ignoram que desde o início daquilo que chamamos "civilização ocidental" existe um lugar próprio para o fazer. Não nos enganemos, pois, procurando soluções tecnicistas para problemas que ultrapassam em muito o âmbito da técnica." Esta era a marca do seu humanismo - e por isso recordava a afirmação do pedagogo João dos Santos: "Desligar a educação da tradição conduzirá o homem para necessidades cada vez mais violentas e destruidoras." De facto, a aprendizagem deve encontrar a sua essência na exigência de pensar. E daí a filosofia não poder ausentar-se da escola, desde os mais precoces momentos da educação básica. Não se trataria de qualquer pretensiosismo, mas de compreender as pessoas, as coisas, a vida e o mundo, ler diretamente os textos e os autores, cabendo ao educador escolher os exemplos adequados a cada idade, encarando a criança como cidadão na medida das suas capacidades. Por isso, precisamos de "professores preparados e disponíveis para desempenhar o papel de moderadores", no ambiente de uma comunidade de reflexão. Urge estimular "o pensar por si próprio, o saber ouvir e respeitar as opiniões dos outros, a dar as razões para as suas opiniões, a analisar conceitos, utilizar critérios, desenvolver o rigor do raciocínio e a capacidade de reflexão, a conhecer-se a si próprio e ao mundo, a ter o prazer de pensar".

Guilherme d' Oliveira Martins

Comunidade de cidadãos...

A Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP), ao celebrar 25 anos de vida, está confrontada com a exigência de corresponder à necessidade de assumir uma maior relevância na cena internacional, em linha com as profundas alterações que ocorrem no mundo. Não bastam as boas intenções. É necessário considerar as dificuldades e os ventos adversos com que a organização se tem debatido. E importa ter presente que falamos de uma comunidade que reúne países com uma língua comum, mas com culturas diferentes. A língua portuguesa tem presença em todos os continentes, mas não é uma realidade uniforme, abrangendo várias línguas e tradições. Os crioulos do português são exemplos de uma extraordinária riqueza.

Guilherme d' Oliveira Martins

"… É espaço, e nada mais"

Ao percorrer as salas da Gulbenkian, onde se encontra a exposição Tudo o Que Eu Quero, fica a ideia da grande qualidade artística de uma plêiade de mulheres que se afirmaram, ao longo de mais de cem anos, como figuras maiores da arte e da cultura. É verdade que encontramos muitos exemplos de mulheres talentosas que ficaram na sombra. Daí a importância da valorização de uma sociedade de iguais. Helena de Freitas e Bruno Marchand definiram um percurso no qual encontramos caminho no sentido da maturidade e do progresso, do reconhecimento exigente da qualidade. O pioneirismo de Aurélia de Sousa, desde o autorretrato de 1900, é lembrado ao longo da exposição como um exemplo anunciador do que vai acontecer. A sombra vai-se iluminando. E quando encontramos o olhar penetrante de Maria Helena Vieira da Silva (1930) ou a extraordinária Partida de Xadrez (1943), percebemos que a mudança está a acontecer, como demonstra a emblemática obra Moi, réflechissant sur la peinture (1936-37). Chegamos, assim, à galáxia dos melhores entre os melhores. Mas há um caminho árduo, de exigência máxima do talento. São artistas portuguesas que ombreiam com os melhores e que até os superam no tempo em que se afirmam. Mas não é fruto do acaso. Há reconhecimento, pela persistência e pela luta. As Mulheres do Meu País (1948-50) de Maria Lamas representa um retrato severo de drama e de combate. E seria bom podermos ter uma reedição desse belo livro.

Guilherme d' Oliveira Martins

D. Maria da Glória

Começo por pegar ainda no tema da última crónica - os jacarandás em flor. Numa noite destas, o meu amigo Miguel Sousa Tavares assinalou-me com inteira justiça o seguinte: "Esqueceu-se da Avenida da Torre de Belém, que só tem jacarandás e que, além disso, é a mais bonita rua de Lisboa." Sendo verdade que apenas dera exemplos, só tenho de concordar, sem mais justificativos - com um forte abraço de estima antiga. E esta primavera tem conseguido que usufruamos uma das mais belas florações dos últimos anos, e estamos felizes por isso!

Guilherme d' Oliveira Martins

Imperfeita e preciosa

Ao considerar a democracia portuguesa como "imperfeita e preciosa", a propósito do oportuníssimo discurso do Presidente da República na sessão parlamentar comemorativa do 25 de Abril de 1974, Clara Ferreira Alves usou duas palavras apropriadas ao valor insubstituível da liberdade. Mais do que um discurso de circunstância, o Presidente preferiu uma reflexão séria e aprofundada sobre o presente, que não esquece as raízes e se projeta como responsabilidade no futuro. "Olhar (a história) com olhos de hoje e tentar olhar com os olhos do passado que as mais das vezes não é fácil de entender, sabendo que outros nos olharão no futuro de forma diversa dos nossos olhos de hoje" - eis o que está em causa. A missão é ingrata, bem o sabemos, já que julgar o passado com olhos de agora seria exigir aos que viveram esse tempo que "pudessem antecipar valores ou o seu entendimento para nós agora tidos por evidentes, intemporais e universais, sobretudo se não adotados nas sociedades mais avançadas de então"... De facto, revisitar a história obriga a muitas precauções - para que não se caia na fácil tentação de "passarmos de um culto acrítico triunfalista exclusivamente glorioso da nossa história para uma demolição global e igualmente acrítica de toda ela". Importa aprender a olhar, em especial pondo-nos no lugar dos outros. Por exemplo, usar os olhos "que não são os nossos, os do antigo colonizador, mas os olhos dos antigos colonizados, tentando descobrir e compreender, tanto quanto seja possível, como eles nos foram vendo e julgando, e sofrendo, nomeadamente onde e quando as relações se tornaram mais intensas e duradouras e delas pode haver o correspondente e impressivo testemunho". De facto, não há diálogo se não for possível ir além das atitudes e dos preconceitos de cada um. Importa trocar experiências e usar o sentido crítico como método biunívoco. E há a precaução, porventura mais sensível de todas - a consideração dos vários tempos nas nossas vidas. "aqueles de nós portugueses que têm menos de 50 anos não conheceram o império colonial nem nas lonjuras nem na vivência aqui no centro. O seu juízo é naturalmente menos emocional, menos apaixonado". Mas devemos distinguir, como salientou o Presidente da República, a posição de "muitos jovens das sociedades que alcançaram a independência contra o império português e viveram depois décadas conturbadas pelos reflexos de vária natureza da anterior situação colonial". De facto, a história nunca pode ser vista de um só lado. Falamos de fenómenos complexos e diversos, de existências diferenciadas, de interpretações que têm de recusar a simplificação.

Guilherme d' Oliveira Martins

Duzentos anos...

Numa semana plena de preocupações, Eduardo Ferro Rodrigues lembrou, oportunamente, no plenário da Assembleia da República, os 200 anos da sessão inaugural das Cortes Constituintes de 1821. E recordou que as eleições gerais de 1820, quatro meses apenas depois da Revolução Liberal do Porto, foram um momento fundamental da nossa história. Assim nasceu o primeiro parlamento português. E é essencial que essa memória não seja esquecida. Para alguns é apenas história ou passado - diremos, porém, que é sinal claro e inequívoco de uma noção essencial em democracia: o primado constitucional.

Guilherme d' Oliveira Martins

Lembrar um conto popular…

Importa sensibilizar os portugueses para a tomada de consciência da necessidade de uma proteção solidária. Como disse o Presidente da República, muito bem, a primeira prioridade é o combate da pandemia. Importa cerrar fileiras para enfrentar o perigo real com que o mundo se defronta. Não está em causa a liberdade e o direito, mas o respeito mútuo de uma cidadania livre e responsável. Daí a necessidade de uma maior coordenação nacional, europeia e internacional e de medidas excecionais que correspondam ao que o direito designa como estado de necessidade, em nome da preservação da vida de muitas pessoas.

Opinião

Como tratar a Europa doente?

A história está sempre a reservar-nos as mais inesperadas surpresas. O bom senso aconselha, porém, a que não tenhamos reações precipitadas ou apenas emotivas. A construção europeia não é feita para a eternidade. Nada é definitivo nas organizações humanas. Nestes dias, não é bom método tentarmos olhar a bola de cristal ou fazer conjeturas sobre as saídas possíveis para um inequívoco impasse em que a União Europeia se encontra. O referendo britânico teria sempre consequências profundas - qualquer que fosse o resultado. Não nos cabe agora apontar os muitos erros e as múltiplas tentações imediatistas. A verdade é que chegámos aqui - e, é bom deixar claro, que se trata de uma questão política da maior importância, não só para a Europa mas para o mundo. Com serenidade, basta vermos o verdadeiro terramoto sentido nos vários mercados e sobretudo a incerteza máxima criada - numa "sexta-feira negra", que se junta a tantas outras ao longo dos tempos. Os mercados financeiros foram todos seriamente afetados. A confiança dos cidadãos foi posta em causa. Mas do que se trata agora é de estarmos ou não à altura deste desafio que é o mais complexo desde o fim da Segunda Guerra Mundial. E não se diga que tudo se resolve se voltarmos a partir ou se refundarmos as instituições europeias. Não. O que está em causa neste momento é a paz e a segurança no mundo, o desenvolvimento sustentável e a preservação da diversidade cultural - num mundo de polaridades difusas, no qual temos de encontrar equilíbrios e ajustamentos, que superem as nuvens negras que se acastelam no horizonte. Sem que tivéssemos saído das consequências da grave crise financeira dos últimos anos, somámos problemas aos graves problemas com que lidamos e que são responsáveis pela estagnação que vive toda a Europa, que reclama o bom senso neste momento. Precisamos de uma serena partilha de responsabilidades, que impeça novos saltos no escuro, sem prevenir perigos e riscos. E o que está a acontecer é que há demasiados jogos de curto prazo ou meros arranjos políticos, sem cuidar da essência de uma cultura de paz... A Europa está toda doente, disso não haja dúvidas. Temos de cuidar da sua saúde!