Guilherme d' Oliveira Martins

Opinião

Europa, memória e património cultural

O ano 2018 está à porta e o comissário europeu para a Educação e Cultura, Tibor Navracsics, ao abrir oficialmente o Ano Europeu do Património Cultural, recordou no dia 6, no decorrer do Fórum Europeu da Cultura, que não estamos apenas a falar "de literatura, arte, objetos, mas também de competências aprendidas, de histórias contadas, de alimentos que consumimos e de filmes que vemos". De facto, precisamos de preservar e apreciar o nosso património, como realidade dinâmica, para as gerações futuras. Compreender o passado, cultivá-lo, permite-nos preparar o futuro. Estamos a encetar um momento importante na vida da União Europeia. Apesar dos sinais de crise (e é significativo que contemos com muitos representantes da sociedade civil e da comunidade científica do Reino Unido, bem como com muitos jovens de todos os países da União Europeia, mas também do Conselho da Europa), há uma clara consciência de que uma cultura de paz começa pelo culto e pelo cuidado relativamente ao património cultural. Como poderemos avançar sem considerarmos as nossas raízes? Como poderemos preparar, de modo informado e conhecedor, o progresso futuro sem cuidar da continuidade e da mudança - segundo um processo de metamorfose, como Edgar Morin tem defendido? Procuramos, assim, sensibilizar a sociedade e os cidadãos para a importância social e económica da cultura - com o objetivo de atingir um público tão vasto quanto possível, não numa lógica de espetáculo ou de superficialidade, mas ligando a aprendizagem da História e o rigor no uso e na defesa das línguas, articulando educação e ciência, numa perspetiva humanista, aberta e exigente.

Opinião

Como tratar a Europa doente?

A história está sempre a reservar-nos as mais inesperadas surpresas. O bom senso aconselha, porém, a que não tenhamos reações precipitadas ou apenas emotivas. A construção europeia não é feita para a eternidade. Nada é definitivo nas organizações humanas. Nestes dias, não é bom método tentarmos olhar a bola de cristal ou fazer conjeturas sobre as saídas possíveis para um inequívoco impasse em que a União Europeia se encontra. O referendo britânico teria sempre consequências profundas - qualquer que fosse o resultado. Não nos cabe agora apontar os muitos erros e as múltiplas tentações imediatistas. A verdade é que chegámos aqui - e, é bom deixar claro, que se trata de uma questão política da maior importância, não só para a Europa mas para o mundo. Com serenidade, basta vermos o verdadeiro terramoto sentido nos vários mercados e sobretudo a incerteza máxima criada - numa "sexta-feira negra", que se junta a tantas outras ao longo dos tempos. Os mercados financeiros foram todos seriamente afetados. A confiança dos cidadãos foi posta em causa. Mas do que se trata agora é de estarmos ou não à altura deste desafio que é o mais complexo desde o fim da Segunda Guerra Mundial. E não se diga que tudo se resolve se voltarmos a partir ou se refundarmos as instituições europeias. Não. O que está em causa neste momento é a paz e a segurança no mundo, o desenvolvimento sustentável e a preservação da diversidade cultural - num mundo de polaridades difusas, no qual temos de encontrar equilíbrios e ajustamentos, que superem as nuvens negras que se acastelam no horizonte. Sem que tivéssemos saído das consequências da grave crise financeira dos últimos anos, somámos problemas aos graves problemas com que lidamos e que são responsáveis pela estagnação que vive toda a Europa, que reclama o bom senso neste momento. Precisamos de uma serena partilha de responsabilidades, que impeça novos saltos no escuro, sem prevenir perigos e riscos. E o que está a acontecer é que há demasiados jogos de curto prazo ou meros arranjos políticos, sem cuidar da essência de uma cultura de paz... A Europa está toda doente, disso não haja dúvidas. Temos de cuidar da sua saúde!