Guilherme d' Oliveira Martins

Guilherme d' Oliveira Martins

Viva o teatro!

Hesitei ao dar o título à crónica de hoje. Deveria talvez pôr o nome de quem desejo homenagear - o homem do teatro e da cultura, que é João Mota. Mas sei que o próprio é o primeiro a concordar comigo, uma vez que o título que escolhi corresponde à extraordinária causa que ao longo de toda a sua vida abraçou. Quando se celebram os 50 anos do Teatro de Pesquisa "A Comuna", João Mota regressou à representação, em A Casa de Bernarda Alba e todos quantos assistimos a essa estreia memorável, sob a direção de Hugo Franco, sentimos que foi a essência do teatro que aí se viveu. A minha amizade e admiração por João Mota vem de há muito e foi reforçada na Fundação Gulbenkian e na colaboração antiga com o Centro Nacional de Cultura, cuja história tem tudo a ver com o teatro, graças ao encontro mágico entre Fernando Amado e Almada Negreiros, que culminaria na criação do Grupo Fernando Pessoa e no desenvolvimento da Casa da Comédia. É uma história longa e apaixonante que tem a ver com o reconhecimento do teatro e das artes como expressão sublime da cultura e do humanismo.

Guilherme d' Oliveira Martins

Singular nostalgia

Queira-se ou não, é uma época que termina. É o retrato de um tempo que passa para os arquivos da memória. E invocamos uma fotografia de 1953, de Winston Churchill junto da jovem Rainha Isabel, num cumprimento respeitoso, mas familiar. Apercebemo-nos da dignidade de um sentido paternal, símbolo de uma tradição que encontra a atualidade. Com a morte da Rainha Isabel II ficam-nos muitas lembranças, muitos acontecimentos, numa zona de penumbra e de perigoso risco de esquecimento. A memória que tenho mais forte e mais antiga da Rainha é a da Avenida da Liberdade e do imponente cortejo na visita oficial de fevereiro de 1957.

Guilherme d' Oliveira Martins

Europa e cultura

A Comissão Europeia e a Europa Nostra anunciaram os prémios do património cultural 2022, entre os quais se encontram o Convento dos Capuchos em Sintra, na categoria de Conservação e adaptação a novos usos e o projeto Museu na Aldeia, que envolve 13 museus e 13 aldeias em Leiria, na categoria Envolvimento e sensibilização dos cidadãos. Do Convento dos Capuchos falei aqui na crónica de 15 de fevereiro, e devo dizer que se trata de um prémio justíssimo. Entre os galardoados, encontra-se ainda a Igreja de Santo André em Kyiv, na Ucrânia, mercê de uma ação de conservação que devolveu aos ucranianos e à humanidade um monumento de grande valor comum, funcionando o monumento como um museu que acolhe serviços religiosos, eventos científicos e educacionais e concertos de música de câmara.

Opinião

Árvores companheiras

O meu Avô Mateus ensinou-me o nome das árvores, como fizera consigo o velho professor José Jorge Rodrigues, de Boliqueime, freguesia que dedica ao velho mestre-escola uma rua junto à praça principal, invocando o pedagogo, para quem não seria possível compreender o mundo e a liberdade sem amar a natureza, conhecendo-a nos seus mais insondáveis segredos. E a minha Avó Ana tinha as melhores mãos do mundo para plantar, enxertar, cuidar do seu jardim e das suas figueiras, que produziam os melhores figos, desde junho até ao Outono. Foi assim possível entender, desde que me conheço, que, antes de tudo a Cultura começa por ser a dos campos, a agricultura, do semear, do colher, do plantar e do cuidar.

Guilherme d' Oliveira Martins

"Um adeus Português"

Era bom conversar com ele. Ele era um precursor de leituras. Foi ele que me indicou o Borges, o Guimarães Rosa, os Cem Anos de Solidão, sei lá mais o quê. Não falávamos de mulheres, nem de futebol, mas divertíamo-nos muito mesmo calados. Sei alguma coisa do caso de Nora Mitrani, que deu origem a um dos melhores poemas da língua portuguesa..." António Alçada Baptista, a cuja lembrança regresso com prazer, gostava muito de Alexandre O"Neill. E lembrou-me tantas vezes o carácter único de "Um Adeus Português", com pano de fundo no episódio de Nora Mitrani, que viria a terminar em desencontro forçado e tragédia. Havia nele o confronto permanente entre a lírica e o drama. Mas nesse caso houve ainda o choque entre a sociedade fechada e doente e os ventos que vinham de fora. Mas como o António tinha o sentido do mistério e da transcendência, estava certo de que só a um espírito muito especial, como o de Alexandre, seria permitido escrever: "Nos teus olhos altamente perigosos / vigora ainda o mais rigoroso amor / a luz de ombros puros e a sombra / de uma angústia já purificada". Afinal, não poderia ficar pela "cadeira / onde passo o dia burocrático / o dia-a-dia da miséria / que sobe aos olhos vem às mãos / aos sorrisos / ao amor mal soletrado / à estupidez do desespero sem boca / ao medo perfilado / à alegria sonâmbula à vírgula maníaca / do modo funcionário de viver". E o António dizia ainda, com lucidez crítica, que o Alexandre conseguira, como ninguém, "captar com mais subtileza o halo poético do quotidiano, o estofo lírico-épico-dramático que está por debaixo da banalidade dos dias". E vinha à memória, na distância, o exemplo de Nicolau Tolentino, que O"Neill tão bem conhecia. E a verdade é que também o seu "Portugal" é e será único em toda a nossa literatura. "Ó Portugal, se fosses só três sílabas, / linda vista para o mar..."

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Alberto Regueira

A cidadania é um compromisso permanente e o serviço público é muito mais do que a ação do Estado, exigindo a participação no espaço público como afirmação da sociedade civil. E todos ansiamos por ter instituições mais ativas e intervenientes. Essa a marca de democracia, como sistema de valores e como demonstração da participação cidadã ativa e responsável, assente na liberdade igual e na igualdade livre. E se falo de cidadania, refiro a mobilização necessária de quem tem longa experiência no exercício do melhor serviço público.

Guilherme d' Oliveira Martins

As raízes que unem...

A abertura da exposição "Tudo o que eu quero - Artistas Portuguesas de 1900 a 2020" no Centre de Création Contemporaine Olivier Debré em Tours trouxe belas surpresas. Antes de tudo, o espaço criado pelos Arquitetos Aires Mateus permitiu que a exposição da Gulbenkian tenha ganho uma nova vida, sem perder a grande riqueza já demonstrada. A ideia lançada pela então ministra da Cultura Graça Fonseca revelou-se plena de oportunidade e de sentido de justiça para um conjunto extraordinário de artistas que no tempo em que viveram, todas elas, não tiveram o merecido reconhecimento. É verdade que houve sempre a relevância das estrelas de primeira grandeza, mas perante o conjunto, entendemos melhor a sua importância. E emblematicamente, a mostra, começa com o precioso apontamento de Maria Helena Vieira da Silva: Moi reflechissant sur la peinture (1936-37). Dir-se-ia que é uma síntese eloquente, a que temos de juntar o percurso que começa com Aurélia de Sousa na inconfundível expressão mimética do seu olhar. Helena de Freitas e Bruno Marchand, encenaram com emoção, com a equipa de Tours, dirigida por Isabelle Reher, o tema proposto, pondo a tónica na geometria variável. E a presença de Lourdes Castro, com as suas mágicas sombras, a fazer do seu jardim a sua tela, comove-nos.

Guilherme d' Oliveira Martins

Viagem com livros

O Guia de Portugal constitui uma obra fundamental, escrita sob o impulso de Raul Proença, a partir de 1924, reeditada e completada na sua versão original pela Fundação Gulbenkian, graças a Santana Dionísio. O país descrito é muito diferente do atual, mas a colaboração de personalidades marcantes da cultura portuguesa faz dos seis volumes, divididos em oito tomos, um precioso instrumento para a compreensão das raízes portuguesas. Jaime Cortesão, Miguel Torga, Jorge Dias, Aquilino Ribeiro, Reinaldo dos Santos, Teixeira de Pascoaes, Vitorino Nemésio, Ferreira de Castro, Egas Moniz, Rodrigues Miguéis, Afonso Lopes Vieira e António Sérgio são os autores de textos essenciais que mantêm atualidade. E Proença cita Unamuno: "Estas excursões não são só um consolo, um descanso e um ensinamento; são, além disso e porventura sobretudo, um dos melhores meios para encontrar apego e amor à pátria."

Guilherme d' Oliveira Martins

Uma âncora, um farol

Há uma carta de António Sérgio para Mário Soares datada de 30 de dezembro de 1950, a agradecer "As Ideias Políticas de Teófilo Braga", onde o ensaísta esclarece não haver relação entre a sua condenação da "mentalidade teofilesca" e a "discordância da orientação abstrata, meramente política e não económico-social, da propaganda republicana. Nesta colaboraram homens como Raul Proença e Basílio Teles, de quem fui amigo e que muito amei e admirei". Mais esclarecia que a "pausa ou desvio" a que se referia aludia ao facto de "desde que começou a propaganda republicana nunca mais se fundaram instituições populares no género das grandes cooperativas e da Voz do Operário". O teor desta carta, escrita em papel timbrado da Editorial Enciclopédia, é demonstração do pensamento desassombrado de Sérgio e da importância da relação entre Mário Soares e o autor dos Ensaios - exemplo de "devotamento cívico", para quem "o gosto da cultura" era uma "aventura livre do espírito, o hábito de pensar criticamente as coisas portuguesas numa perspetiva europeia e moderna".

Guilherme d' Oliveira Martins

O tempo todo inteiro

Na proximidade da Estação Fluvial de Belém, deparamo-nos com o belo memorial que homenageia Sophia de Mello Breyner e Menez - Espaço entre a Palavra e a Cor, Sophia / Menez. Perante a obra de azulejos, compreendemos que se trata de um encontro singular em que a sensibilidade artística de dois nomes maiores da cultura contemporânea se completam naturalmente. Como lembra Maria Andresen, citando Arte Poética I: "Talvez a arte deste tempo tenha sido uma arte de ascese que serviu para limpar o olhar". E assim se cruzam cidade, rio e mar, na praia donde partiram as "Navegações". Se a pandemia impediu a justa cerimónia de inauguração do memorial no centenário de Sophia, a verdade é que ficámos com uma bela referência da poesia e da pintura, na luminosidade dos azulejos, que projetam o "luzir de azul e rio", na cidade "oscilando como uma grande barca". A leveza do monumento no traço e na cor é um apelo à leitura e à releitura de uma obra que sempre se renova.

Guilherme d' Oliveira Martins

A paixão de educar

Tive o raro privilégio de contar com o extraordinário conselho de Ana Maria Vieira de Almeida na reflexão sobre as políticas educativas, graças à amizade de Maria Barroso, em especial no tocante à concretização da educação pré-escolar e de infância. Fui testemunha da sua generosidade e da sua capacidade de olhar longe e largo, pondo uma escola para as pessoas no primeiro lugar do seu pensamento. Os textos que constituem o belíssimo livro Humanista, Cidadã, Pedagoga, antecedidos pela comovente e justa invocação de Vasco Vieira de Almeida, demonstram bem o exemplo essencial que Ana Maria nos deixou ("guia indiscutível, a força que nos une, o exemplo que nos inspira"). Lembro, como marca indelével, o texto publicado no DN em 7 de fevereiro de 1988, no qual dizia textualmente: "Os últimos anos têm visto nascer muitos programas que propõem o desenvolvimento das capacidades cognitivas básicas na esperança de se obter maior eficácia no processo de aprendizagem." A sua experiência e a sua sensibilidade obrigavam, porém, a um sobreaviso contra qualquer simplificação. "Essas tentativas esquecem ou ignoram que desde o início daquilo que chamamos "civilização ocidental" existe um lugar próprio para o fazer. Não nos enganemos, pois, procurando soluções tecnicistas para problemas que ultrapassam em muito o âmbito da técnica." Esta era a marca do seu humanismo - e por isso recordava a afirmação do pedagogo João dos Santos: "Desligar a educação da tradição conduzirá o homem para necessidades cada vez mais violentas e destruidoras." De facto, a aprendizagem deve encontrar a sua essência na exigência de pensar. E daí a filosofia não poder ausentar-se da escola, desde os mais precoces momentos da educação básica. Não se trataria de qualquer pretensiosismo, mas de compreender as pessoas, as coisas, a vida e o mundo, ler diretamente os textos e os autores, cabendo ao educador escolher os exemplos adequados a cada idade, encarando a criança como cidadão na medida das suas capacidades. Por isso, precisamos de "professores preparados e disponíveis para desempenhar o papel de moderadores", no ambiente de uma comunidade de reflexão. Urge estimular "o pensar por si próprio, o saber ouvir e respeitar as opiniões dos outros, a dar as razões para as suas opiniões, a analisar conceitos, utilizar critérios, desenvolver o rigor do raciocínio e a capacidade de reflexão, a conhecer-se a si próprio e ao mundo, a ter o prazer de pensar".

Guilherme d' Oliveira Martins

Encontros no Marais

Era Paris, e encontrei-o no Marais, perto de sua casa. Senti-o assoberbado com a organização da Europália-91, mas o entusiasmo era, como sempre, transbordante. Havia a extraordinária alegria de viver, de pôr uma máquina em movimento, e de lidar com novas coisas e ideias. Acompanhei-o no sentido do Quartier Latin. Falou-me da equipa, de amigos comuns e da surpresa para muitos da riqueza da moderna cultura portuguesa, a somar ao peso da herança histórica. O tempo era um constante vaivém, em que o presente se enriquecia pela lembrança dos acontecimentos e das pessoas, que inesperadamente surgiam, vindos de diversos horizontes, sem o risco de anacronismo. Numa avidez saudável, ele sabia tudo o que se passava e o que iria passar-se, assinalando religiosamente no Pariscope o que valia a pena ver, ouvir e sentir.

Guilherme d' Oliveira Martins

Gonçalo, em nome da terra

O parque da nova Praça de Espanha homenageia, com inteira justiça, a memória de Gonçalo Ribeiro Telles. Foi com emoção que os seus velhos amigos puderam ver concretizada uma das suas mais antigas aspirações - o Plano Verde de Lisboa. Tenho na memória um dos últimos almoços de aniversário num pequeno restaurante na muito sua Rua de São José - que em tempos idos se chamou Estrada de Benfica, a partir das Portas de Santo Antão, quando os antepassados de Gonçalo para ali vieram, construindo suas casas. Estive a seu lado e em todo o tempo falou da necessidade premente de levar a cabo a salvaguarda da cidade e das suas raízes. O tema das hortas era uma antiga preocupação sua. Havia que deixar respirar as terras onde a urbe se implantava, designadamente ali junto da ribeira de Valverde. E invocava os seus combates na Avenida da Liberdade, para preservar o Parque Eduardo VII e a saída para Monsanto. Conhecedor profundo da história e da geografia, não esquecia os almocreves saloios que demandavam Lisboa e chamavam alfacinhas aos seus habitantes, num misto de ironia e inveja, por estes cultivarem as suas leiras... E se falava com preocupação do solo urbano, depressa passava para dois temas sempre presentes no seu entusiasmo: a paisagem global e o jardim do paraíso.