Governo PS

Sebastião Bugalho

Os seis meses mais importantes da vida de António Costa

Ministros que mentem ao Parlamento e são sucessivamente apanhados a fazê-lo, indemnizações milionárias decididas em grupos de WhatsApp, remodelações que promovem o gabinete de quem se demitiu, governantes que tomam "não saber" como remédio salvífico dos erros - e até das ilegalidades - que ocorrem sob a sua alçada, gente que sacrifica os seus e prossegue como se nada fosse, verdades que afinal eram falsas e falsidades que serão verdadeiras, um primeiro-ministro com a popularidade nos 30 pontos negativos (segundo o barómetro mais recente da Aximage para este jornal).

Rosália Amorim

Escrutínio. A montanha não pode parir um rato

Escrutinar é um verbo bem conhecido dos jornais, da Justiça e que deveria também ser dominado pelo governo na escolha dos elementos que o compõem. O primeiro-ministro, António Costa, já enviou carta ao Presidente da República a propor um mecanismo de escrutínio e verificação no processo de indicação de governantes, mas (até à hora de fecho desta edição) ainda não revelou detalhes acerca do mesmo. Costa remeteu todas as explicações para hoje, no Parlamento.

Sebastião Bugalho

A crise de coragem

Na sua história económica do Reino Unido, Duncan Weldon introduz o livro com uma "conhecida, e muito antiga, piada irlandesa". Um turista pede direções a um local para encontrar o seu caminho e este responde-lhe: "Eu se fosse a si não começava por aqui". Weldon, um dos mais originais e argutos jornalistas na Grã-Bretanha, conta a saga de 200 anos de economia sem esquecer o ensinamento da graça: quando vivemos um tempo, não somos nós que escolhemos o peso que o passado exerce sobre ele. Dito de outro modo: quando escolhemos um destino, raramente temos o luxo de decidir o nosso ponto de partida - mesmo que o cómico irlandês tivesse razão e, realmente, não fosse grande ideia começar por ali.

Sebastião Bugalho

A nossa Truss

Devo um agradecimento a António Costa. Esta semana, graças à sua bem-disposta prestação parlamentar, a minha hesitação sobre a escrita deste artigo esfumou-se. Desde a ascensão de Liz Truss a primeira-ministra que ponderava dedicar esta coluna à comparação entre a circunstância dos governos português e britânico e dos seus respetivos partidos. Ambos, afinal, estão no poder há muito tempo; talvez demasiado, para o seu próprio bem. À primeira vista, ensaiar um paralelo entre eles - os socialistas portugueses e os conservadores ingleses - poderia parecer descabido. À segunda, nem por isso. E o sr. primeiro-ministro fez por prová-lo no debate de quinta-feira.

Sebastião Bugalho

Até 2023, então

Não deixa de ser um tanto extraordinário que António Costa, com provavelmente o início de mandato mais atribulado de que há memória, tenha ido ao debate do Estado da Nação passar incólume a uma oposição renovada, uma esquerda distanciada e um país a arder. Com o Orçamento finalmente em vigor há três semanas, o seu terceiro governo começou com uma crise antes sequer de tomar posse (a do voto dos emigrantes), sofreu a humilhação internacional do acolhimento de refugiados em Setúbal (e não só), entregou um Serviço Nacional de Saúde incapaz de responder à imprevisibilidade de um feriado, viveu um tumulto interno novelesco com o ministro das Infraestruturas, orçamentou menos despesa para o combate aos incêndios do que no ano anterior e confirmou o seu próprio fracasso ao concluir, depois de sete anos de governação, que o SNS, a floresta e, quiçá, o planeta precisam de ser "geridos" de outra maneira. O problema "é estrutural" dizem eles, que estão a cargo da "estrutura" - o Estado - há quase uma década.