Germano Almeida

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Germano Almeida

Democracia no feminino

Do conjunto da CPLP, Cabo Verde pode orgulhar-se de ter sido o primeiro país a ter um magistrado fêmea (após a independência a lei portuguesa que proibia mulheres na magistratura ainda continuou em vigor, porém o art.º 22.º da LOPE - Lei da Organização Política do Estado - prescrevia que só quando não contrariasse os princípios e objetivos do PAIGC); e também um deputado fêmea, que aliás chegou a ser eleita vice-presidente da Assembleia Nacional Popular, motivo na época do nosso grande embandeiramento na lista dos mais progressistas.

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Germano Almeida

O jardim de D. João VI

Foi na véspera do nosso último dia no Rio de Janeiro que o casal Rocha nos levou a visitar o Jardim Botânico. No dia anterior o cônsul de Cabo Verde tinha-nos acompanhado ao Pão d'Açúcar, parece que se aceita mal que quem quer que passe pelo Rio deixe sem visita lugar tão emblemático. De modo que o nosso cônsul no Rio nem nos perguntou onde queríamos ir, apanhou-nos no hotel com a intenção confessa de darmos uma volta pela cidade, visitar os seus locais de interesse histórico ou turístico, tipo Praça Tiradentes ou Largo da Misericórdia, e também o Maracanã ou o Sambódromo, mas na realidade fomos diretos ao intrincado sistema de escadas, elevadores e teleférico que nos conduziu até ao cimo daquela deslumbrante paisagem. O lugar é tão aprazível que nos detivemos horas e horas frente a uma caipirinha acompanhada de pãezinhos de queijo, e esquecemos que o Corcovado era também visita obrigatória, tanto mais que depois de um lauto almoço num rodízio repleto só restaram forças para regressarmos ao hotel. Há mais marés que marinheiros, decidimos, pode ser que amanhã... Mas "amanhã" tivemos de optar entre o centro histórico, o famoso estádio e o Jardim Botânico, glória de D. João VI e escolha dos nossos anfitriões por causa da filha de 4 anos, e aí concluímos que uma próxima visita ao Rio devia desde logo ficar agendada para um dia num futuro ainda desconhecido.

Germano Almeida

Sequelas do Prémio Camões

Aos domingos, lá pelo meio da manhã, gosto de parar na porta da Nim para dois dedos de conversa, que termina sempre na discussão das qualidades das papaias que ela me convence a comprar. A Nim tem um posto de venda no mercado da Praça Estrela onde, durante a semana, comerceia as verduras que o marido vai buscar em Santiago e no Fogo. Como aos domingos o espaço fica fechado, ela alinha os balaios com a sua mercadoria no passeio em frente da casa, e vestida de um longo avental e um rasgado sorriso, senta-se num banquinho e espera pachorrenta pelos eventuais fregueses. Mas tu nunca descansas, pergunto-lhe. Para quê, responde encolhendo os ombros, este trabalho não cansa, estou aqui sentada, vejo passar pessoas, trocamos mantenhas e novidades, e sempre vou vendendo alguma coisa, tenho três filhos no chão para criar e o planeta não está de brincadeira. Num dia de semana entrei no mercado e não a encontrei. Que é feita da Nim, perguntei a uma vendedeira vizinha. A Nim foi ao cabeleireiro, respondeu. O quê, exclamei espantado, que lhe deu para ir ao cabeleireiro, ainda por cima num dia como hoje? Ela tem um casamento amanhã, hoje podes comprar em mim. É que a Nim tomou-me como sua propriedade: Ele é meu homem, grita para as colegas, ele só compra em mim. E para garantir isso, quando não tem papaia, ela mesma sai a procurar junto das outras para mim.

Germano Almeida

À descoberta da cachupa

Nem toda a gente sabe a importância que teve para os cabo-verdianos a descoberta do Brasil. E não foi pelo samba ou pelas folias do Carnaval trazidas a nós pelos marinheiros que passavam pelo Porto Grande onde deixaram a sua arte de tocar violão, o hábito da cachaça e alguns descendentes. Nem foi também pelas duas tentativas que fizemos ao longo da história de nos juntarmos a ele, a primeira aquando da sua independência, altura em que nos oferecemos para ser uma das suas províncias, a segunda anos mais tarde, quando, para fugirmos à fome, inventámos a ideia de uma confederação Angola-Brasil-Cabo Verde-Moçambique. Não é por nada disso, não senhor. Devemos homenagem ao Brasil porque foi de lá que recebemos o milho, o pequeno grãozinho que ainda nos vem garantindo a sobrevivência nestas ilhas.

Opinião

SOFA

Um vizinho meu, que acabou emigrante nos Estados Unidos da América, garantia-me convicto que aquele país é grande e poderoso porque tinha tido a sabedoria de aceitar cabo-verdianos no seu seio. Os cabo-verdianos é que fizeram a América, dizia-me ele seguro, sem nós eles não seriam nada, não teriam os seus grandes edifícios porque não teriam quem trepar nos andaimes, não teriam esgotos porque não teriam quem os escavar, e olha que isso vem desde os tempos da pesca da baleia!

Germano Almeida

Dilemas do meu povo

Tenho de resistir à tentação de escrever sobre o Mundial de futebol nesta crónica primeira, ainda que seja verdade que existiram muitas situações a merecer comentário, para além daquele terceiro golo do Ronaldo contra Espanha que está ainda a emocionar. Não é que fosse despropositado meter um ou outro palpite sobre o que está-se passando na Rússia, afinal das contas todas as conversas, desde as matinais nas caminhadas na Lajinha, até às brabas discussões no botequim Boca de Tubarão na Rua da Praia, passando pelas mais civilizadas, ainda que gritadas, à hora do almoço na Rua de Lisboa, estão girando à volta desse magno assunto, e não poucas provisões de cerveja estão-se alegremente esgotando neste festivo mês do desporto supremo.