Germano Almeida

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Germano Almeida

Tanto mar, tanta história junto

António de Barros Bezerra d"Oliveira, 38 anos de idade, cavaleiro da Ordem de Cristo, ex-coronel de Infantaria, ex-juiz da Câmara de Ribeira Grande, ex-ouvidor-geral interino, ex-síndico dos religiosos do Convento de São Francisco da Ribeira Grande, ex-provedor dos defuntos e ausentes, reverenciado como príncipe de Cabo Verde e rei da ilha de Santiago - está a caminho da forca da praça do Rossio. Traz já ao pescoço o baraço e vai tropeçando amarrado à cauda do cavalo por um pedaço de couro que lhe ata as duas mãos juntas e esticadas à frente do corpo. Um pouco adiantado da pequena força militar que o conduz, o pregão vai anunciando aos gritos e por entre o suave rufar dos tambores que naquele lugar ele será enforcado e morrerá de "morte natural para sempre", após o que lhe será cortada a cabeça que será enviada para a vila da Praia de Cabo Verde, para que "seja posta em um posto alto, aonde ficará exposta até que o tempo a consuma"... Isso aconteceu em 1764 e no passado dia 18 de dezembro completaram-se 254 anos sobre a exemplar sentença proferida na Casa da Supplicação na devassa que S. Majestade fidelíssima mandou tirar pela morte do ouvidor João Vieira de Andrade, e que proporcionaria ao Marquês de Pombal ótimo pretexto para decapitar de vez a poderosa, irrequieta e mui ilustrada oligarquia cabo-verdiana. Nesse tempo, Cabo Verde vivia ainda numa espécie de confortável regime de autogestão, exclusivamente dirigida pelos filhos da terra, desde sempre muito exigentes junto da coroa por consi derarem que viver em Cabo Verde era já militância que bastava. E tudo continuaria bem se o marquês não tivesse tido a daninha ideia de criar a Companhia de Grão-Pará e Maranhão, com o objetivo confesso de competir com as companhias francesa e inglesa que exploravam a costa africana. Colocou-lhe a sede em Santiago e atribuiu-lhe poderes secretos e de tal modo excessivos, que Cabo Verde passou a ter o estatuto de uma ínfima colónia onde praticamente era necessária autorização da companhia até para respirar. A oligarquia não gostou e reagiu. Pri meiro com alguns protestos junto da corte, depois, da forma que já era quase um hábito: mandando matar quem se intrometia nos seus negócios! De modo que o ouvidor João Vieira de Andrade, que era o rosto visível da companhia, foi mandado assassinar a golpes de paus, facas e machado. Como era igualmente hábito, logo se abriu um inquérito, conduzido por Be zerra d"Oliveira, que concluiu que o ouvidor tinha sido morto por desco nhecidos pretos arruaceiros. E assim de facto ficaria arrumada a questão, não tivesse a criada do ouvidor, ainda que ferida, escapado com vida. Tendo de seguida enviado uma carta detalhada aos poderes em Lisboa. E foi convincente a ponto de merecer total crédito. Face à denúncia, passou a ser urgente punir os de Cabo Verde que estavam a ultrapassar todas as marcas. Assim, no maior secretismo, foram mandados aparelhar dois grandes navios onde se construíram um número de celas individuais suficientes para albergar todos os poderosos da terra. A operação foi preparada com tanto engenho, que a entrada dos dois navios no porto da Praia logo pela manhã apanhou a todos de surpresa. Mas depressa os de terra se tranquilizaram quando souberam que a bordo estavam o novo governador e o novo ouvidor, que aliás os convidava para a cerimónia de posse na tarde daquele mesmo dia. Encheram o paço e de seguida foram todos presos e conduzidos às celas nos navios. Exceto Bezerra d"Oliveira, que apenas viria a ser encontrado dois dias depois, numa sua propriedade no in terior da ilha. A sentença foi brutal. Admite que Bezerra d"Oliveira foi condenado com base em presunções. Porém, disse, essas presunções se fazem atendíveis, "por ser o mesmo réu tido e havido por muito soberbo, e vingativo", capaz de proferir a blasfémia de "Deos no Ceu, e elle em Cabo Verde", como afirmaram muitas testemunhas. As cabeças dele e mais uns tantos foram trazidas para Cabo Verde e espetadas em paus altos. E durante muitos anos não houve outro homem igual em Santiago.Escritor cabo-verdiano, prémio Camões 2018

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Germano Almeida

Em tempo de excomunhão

A saga dos deputados brigões continua a render, fazendo correr muita tinta e consumindo ainda muitos minutos de noticiário, quer da rádio quer da televisão, pelo que tudo indica que não será para breve que irá acalmar-se. Pelo menos é o que se intui do exagerado pronunciamento na comunicação social do líder parlamentar do MpD, partido do deputado que diz ter sido vítima de "sanha ignóbil". Num tom e numa linguagem que muito fez lembrar Trump a ameaçar Kim Jong-Un com as fúrias do inferno, disse que o seu partido, dado que tem maioria, vai fazer tudo que estiver no seu poder para destituir o agressor de todas as funções que desempenha enquanto deputado: presidente da Rede parlamentar do Ambiente, vice-presidência de uma comissão especializada... E só não lhe cassa o mandato porque infelizmente lhe escasseiam os votos. Mas é assim o MpD, sempre exagerado.

Germano Almeida

Parlamentares

A notícia segundo a qual dois deputados nacionais ultrapassaram a fase dos insultos verbais e entraram em desforço físico junto ou dentro do edifício do Parlamento correu as ilhas e também pelo menos a parte da diáspora onde chegam as nossas emissões, porque não só a Rádio Nacional proporcionou ao facto abundante cobertura, como também a televisão lhe dedicou largos 22 minutos de tempo de antena, ouvindo não só os contendores como também as eventuais testemunhas da lide, e por fim um jurista, que, de código em punho, esmiuçou a diferença entre uma briga e uma agressão pura e simples, para concluir que no caso em apreço mais parecia ter havido uma agressão de um deputado a outro, na medida em que tudo levava a crer ter havido um único murro. Porém, tão bem aplicado e com tanta ciência, que não houve mais nada a fazer senão conduzir o espancado ao hospital para os devidos curativos. E para comprovar a veracidade do incidente mostrou, junto a uma parede, uma mancha de sangue que por sinal mais fazia lembrar o local onde uma galinha poderia ter sido decapitada.

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Germano Almeida

Um Estado educativo clandestino

A propósito da abertura do ano escolar, o grupo parlamentar do PAICV concebeu uma verdadeira catilinária contra o governo que, no mínimo, acusa de estar a mal gerir as escolas do país, e no máximo o país em geral. Não terá sido certamente por acaso que, para exercer essa função de Cícero das ilhas, escolheu uma sua deputada antiga ministra de Educação, pessoa que durante largos anos nesse cargo não terá merecido desdouro ou reparos da sociedade, e a quem, portanto, os da situação não podiam apontar rabo-de-palha.

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Sequelas do Prémio Camões

Aos domingos, lá pelo meio da manhã, gosto de parar na porta da Nim para dois dedos de conversa, que termina sempre na discussão das qualidades das papaias que ela me convence a comprar. A Nim tem um posto de venda no mercado da Praça Estrela onde, durante a semana, comerceia as verduras que o marido vai buscar em Santiago e no Fogo. Como aos domingos o espaço fica fechado, ela alinha os balaios com a sua mercadoria no passeio em frente da casa, e vestida de um longo avental e um rasgado sorriso, senta-se num banquinho e espera pachorrenta pelos eventuais fregueses. Mas tu nunca descansas, pergunto-lhe. Para quê, responde encolhendo os ombros, este trabalho não cansa, estou aqui sentada, vejo passar pessoas, trocamos mantenhas e novidades, e sempre vou vendendo alguma coisa, tenho três filhos no chão para criar e o planeta não está de brincadeira. Num dia de semana entrei no mercado e não a encontrei. Que é feita da Nim, perguntei a uma vendedeira vizinha. A Nim foi ao cabeleireiro, respondeu. O quê, exclamei espantado, que lhe deu para ir ao cabeleireiro, ainda por cima num dia como hoje? Ela tem um casamento amanhã, hoje podes comprar em mim. É que a Nim tomou-me como sua propriedade: Ele é meu homem, grita para as colegas, ele só compra em mim. E para garantir isso, quando não tem papaia, ela mesma sai a procurar junto das outras para mim.

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Germano Almeida

As viagens do nosso desconforto

Os cabo-verdianos, particularmente os que viajam São Vicente-Lisboa, acabaram ficando gravemente penalizados com a concessão em exclusividade dessa carreira aérea à TAP. Essa companhia começou a entrar no país com pezinhos de lã, aliciando-nos com passagens quase ao custo da chuva. Porém, mal se viu única senhora dos nossos céus, não só carregou nos preços de forma indecente, como também inventou diversos outros métodos de descaradamente meter a mão nos bolsos dos seus passageiros, primeiro, através da venda de seats, que alega que são assentos de espaço mais alargado, mas que na realidade são comuns e iguais a qualquer outro que poderia ocupar-se sem acréscimo de qualquer pagamento; segundo, cortando na refeição a bordo. Dou dois exemplos: paguei a mais à volta de 120 euros para ter o direito de ocupar uma cadeira onde pudesse estender as pernas numa viagem São Vicente-Lisboa-Rio de Janeiro. Embolsaram a quantia e atribuíram-me um lugar exatissimamente igual a qualquer outro.

Germano Almeida

A ilha e os forasteiros – é praga mesmo

Ao longo do ano os nossos dias são não só tranquilos como previsíveis. Desde manhã cedo até à noite a gente sabe que pessoas vai encontrar durante o dia e em que lugares, a que horas pode dirigir-se à mercearia tal para adquirir queijo fresco, se está interessado em comer torresmos sabe que é ao meio-dia de cada terça-feira que o Brandão os recebe, no que se refere às verduras a Verónica do mercado da rua de Lisboa garante-as às segundas, quartas e sextas...

Opinião

SOFA

Um vizinho meu, que acabou emigrante nos Estados Unidos da América, garantia-me convicto que aquele país é grande e poderoso porque tinha tido a sabedoria de aceitar cabo-verdianos no seu seio. Os cabo-verdianos é que fizeram a América, dizia-me ele seguro, sem nós eles não seriam nada, não teriam os seus grandes edifícios porque não teriam quem trepar nos andaimes, não teriam esgotos porque não teriam quem os escavar, e olha que isso vem desde os tempos da pesca da baleia!