Filipe Gil

1864

Lembranças de conservas

Gosto de recordar pessoas pelas suas manias. Aquelas únicas e originais de que nos lembramos quando estamos longe ou temos saudades. Seja algo físico como uma maneira peculiar de mexer no cabelo para adormecer ou a forma de atender e mexer no telefone ou até mesmo o vestir uma certa peça. Lembro-me de uma certa forma de o meu avô pentear os seus já poucos cabelos num espelho oval com a figura de um jogador dos anos 1940 do Sporting. Ou da forma como o meu pai me dizia para ter cuidado sempre que ia fazer surf: "Não te afastes muito..."

Filipe Gil

Espirrar a primavera

O despertador toca. Enquanto se estica para carregar no snooze do despertador e ficar mais uns minutos a contrariar a realidade, é invadido por espirros. Muitos, oito ou nove sem parar. Do outro lado da cama resmunga-se pelo barulho. Sem vontade e com a sensação de que acabou de levar vários estalos na cara, cambaleia para o WC. Mal dá três passos e abre a porta do quarto, mais cinco espirros tolhem-lhe o movimento. Ouve um chiiiuuu ao fundo, agora vindo do outro quarto, o dos miúdos. Estranho o tom acusatório.

Filipe Gil

Música como nos filmes

Tenho uma relação estranha com a música clássica. De tempos a tempos tenho urgência em ouvir. Seja a conduzir, a escrever ou a ler ou até mesmo nas raras vezes em que cozinho. Serve como uma espécie de "limpador" da música mais plástica que passamos o tempo o ouvir, quer na rádio ou nas listas que o algoritmo do Spotify nos impinge - como se fosse um amigo de longa data. Curiosamente, fui autodidata no que toca a colocar Mozart, Bach, e outros, nos meus ouvidos. Em pequeno, eram os Abba e músicas pop francesas que se ouvia com frequência no gira-discos lá de casa. Clássica nunca.