Filipe Gil

Filipe Gil

Começou a Era da distância?

Eram 07.43. A persiana automática abriu-se na hora e na medida certa para que o sol daquela manhã de primavera batesse na cara e o despertasse. Não custou a levantar, o cheiro do café acabado de fazer vinha do balcão da cozinha. Tinha chegado o dia, pensou. Ao mesmo tempo perguntou à assistente pessoal - uma coluna de som carregada de inteligência artificial com a voz da atriz Scarlett Johansson quando era nova - para confirmar a agenda para esse dia. Interrompeu-a quando esta começou a debitar as principais notícias do dia. Não quis saber, naquele dia não.

1864

Lembranças de conservas

Gosto de recordar pessoas pelas suas manias. Aquelas únicas e originais de que nos lembramos quando estamos longe ou temos saudades. Seja algo físico como uma maneira peculiar de mexer no cabelo para adormecer ou a forma de atender e mexer no telefone ou até mesmo o vestir uma certa peça. Lembro-me de uma certa forma de o meu avô pentear os seus já poucos cabelos num espelho oval com a figura de um jogador dos anos 1940 do Sporting. Ou da forma como o meu pai me dizia para ter cuidado sempre que ia fazer surf: "Não te afastes muito..."

Opinião

Portugal visto pelos olhos dos outros

Estava em plena mata atlântica perto de Ilhéus, em Salvador da Bahia. Depois de dias a ler e a espreguiçar num resort, decidi explorar as zonas em redor com um grupo de turistas. Às tantas comecei uma conversa com um casal de argentinos. Ele médico, ela professora. Conversa agradável, que passou pelo deus Maradona, o tango, o fado e o vinho. Falei do Porto e aí a conversa sofreu uma reviravolta. O homem argentino afirmou, sublinhou e teimou a pés juntos que o vinho do porto era chileno e não português. Fiquei incrédulo. Retorqui e discuti e mesmo assim ele ficou na dúvida. E admito, a conversa ficou por ali.