Ferreira Fernandes

Ferreira Fernandes

Premium Sobre o amor na melhor revista de economia

Quando a revista The Economist faz capa sobre o amor moderno talvez seja altura de reconhecer que se está irremediavelmente em agosto. Fui ao calendário: sim, vamos a meados do mês. Mas reparo, de seguida, que o calendário era o do telemóvel. Tudo a ver: os encontros amorosos em The Economist são também os da era digital, engates dedilhando. Eu dedilho para saber a data, a revista escreve sobre como se chega ao dating (namoro) dedilhando data (dados e informação processada).

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A não ver as gentes e o seu chão

Parece que é um país onde se discute se as polícias devem, ou não, salvar - sem mas nem meio mas - as pessoas aflitas, cercadas pelo fogo e avessas a deixar para trás a sua casa. Mas quem abandona em jeito de ir tomar chá a sua casa ("o meu chão", como diz uma velha camponesa noutra página deste jornal), quem? A meio da semana, ouvi um jornalista a perguntar ao ministro, em Monchique: "Não se passou aqui uma desmesurada preocupação com as vidas humanas, deixando tudo arder?" Na altura, cataloguei "desmesurada preocupação com as vidas humanas" na categoria de frases infelizes, tolice de que ninguém pode garantir estar livre. E estava-se em Monchique no calor de incêndios que ainda ardiam.

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A notícia da minha morte, pela TVI, é manifestamente exagerada

Não sou fã de programas da manhã, mas aconteceu estar a ver o programa de Manuel Luís Goucha, na quinta-feira. Goucha é um tipo que está bem com ele próprio e é capaz de não haver maior elogio a fazer a um apresentador televisivo. O programa chamava-se Você na TVI (ou na TV). Logo que não se troque a marca da cadeia televisiva que transmite, "Você em..." é sempre um bom nome para programa televisivo - mete o telespectador lá dentro. Os programas da manhã costumam saber fazer isso bem. A mim meteu-me de chofre. E até de pés para frente.

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"Elogio" na boca de Bolsonaro é insulto

Jair Bolsonaro é defensor da ditadura militar e da tortura, é racista e homofóbico. Tem um mérito, porém: tropeça na língua portuguesa frequentemente mas quando lhe dá, e dá-lhe muito, para dizer enormidades, faz-se entender. "Pinochet devia ter matado mais gente" é um exemplo do seu florilégio. Outro: "Seria incapaz de amar um filho homossexual, prefiro que um filho meu morra num acidente do que apareça com um bigodudo por aí". Como já começa a ser um padrão com brutos notórios, há muitos que gostam: Bolsonaro é candidato presidencial nas eleições brasileiras de outubro, e as sondagens põem-no à cabeça.

Um ponto é tudo

Não há urgência maior do que esta pergunta simples

Ouso meter-me nisto pela urgência e gravidade do espantoso caso. Este assunto tem meses e meses. Um antigo ministro, enquanto ministro, recebeu 500 mil euros de uma empresa privada, ou não. Digo "ou não" porque a Justiça, que vazou a informação para o público, ainda não conseguiu constituir arguido o referido ministro (ou melhor, conseguiu e, depois, desconseguiu), quanto mais levá-lo a tribunal, julgá-lo, inocentá-lo ou condená-lo. Primeiro lamento, a Justiça não conseguiu.

Um ponto é tudo

A malícia do vendedor de cautelas premiadas

É um velho, 71 anos, e é idolatrado pelos seus rapazes que são ídolos mundiais, como Cavani e Suárez; anda de muletas e comanda homens que correm e artistas que bailam. Óscar Tabárez, amado e respeitado. Treinador do Uruguai, já o era em 1990, no Mundial de Itália, e depois de saídas e retornos dirigiu a seleção do seu país que eliminou Portugal, há dias, na Rússia. Tabárez, El Maestro, pela mais legítima das razões, não por dirigir uma orquestra sinfónica, muito mais do que isso: por ter sido professor primário.

Um ponto é tudo

Desta vez Trump não chega para desculpa

Ignore-se a figura encimada por amarelo torrado (hoje já mais encanecido), esse Donald Trump que desvirtua qualquer discussão, e os factos são: na cimeira de 2014, os membros da NATO garantiram que iriam consagrar 2% do seu PIB à Defesa até 2024. Porém, quase três em quatro dos 29 signatários do acordo - entre eles, a Alemanha, o país que deve a sua sobrevivência e unidade ao que a NATO fez por ela durante décadas - estão abaixo daquela meta e dificilmente a podem vir a atingir no prazo prometido.