Ferreira Fernandes

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Marcelo foi lá visitar pastores

Há uma estrada que aconselharia se eu escrevesse um livro do tipo "Uma Coisa a Fazer antes de Morrer". Já que não sou poeta como Ruy Duarte de Carvalho para escrever prosas do tipo Vou Lá Visitar Pastores. O que fazer: descer a serra da Chela, da província da Huíla para o deserto de Moçâmedes, no extremo sul angolano. Miúdo tive a sorte de os meus pais terem escolhido a nossa terra para passearmos. Por razões ínvias que o Império tecia, as grandes férias escolares, para coincidirem com Portugal, aconteciam quando em Luanda não se fazia praia - era cacimbo, inverno tropical. E a norte, nos cafezais do Uíge, acontecia a guerra colonial. Tudo nos empurrava para sul.

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Tudo sobre o escândalo do momento em Matosinhos!

Para o desfile de Carnaval, uma escola de Matosinhos pediu aos alunos (ensino básico) para irem fantasiados de "africanos". Gosto da ideia. As crianças de uma escola de Portugal (ver Wikipédia, "Matosinhos, cidade portuguesa do distrito do Porto"), fantasiando, podem ficar a conhecer gente de outro continente, de onde a maioria das suas crianças, presumo, não é. Conhecer é sempre bom. Ah, África! De onde veio a arte secular que permitiu Picasso pintar Les Demoiselles D'Avignon, modernizando a arte universal! Ah, África! Que recebeu a farinha de bombó, intragável na comida sul-americana (de onde veio), transformando-a num prato magnífico, como é em Brazzaville e Luanda! É tão bom ver os miúdos da terra das sardinhas enlatadas conhecerem também outras coisas boas pelo mundo fora...

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A doença endémica que as mata

Um homem esfaqueou a sogra, estrangulou a filha e suicidou-se. Uma tragédia: dois mortos. Com todo o respeito pelas vidas humanas, duas mortes. Duas. Um inominável coiso não se conta, não se soma, não se junta às suas vítimas. Que, aliás, são três: a ex-mulher do coiso, filha e mãe das vítimas, vai carregar as mortes delas numa longa e insuportável dor. Aparentemente, foi por ela, a sobrevivente, que o coiso matou. Para ela se lembrar e afligir-se longamente. Pelo tipo da brutalidade, chamei inicialmente homem ao coiso. Porque, apesar de ele ser um coiso, foi levado para o seu ato por ser um homem. Comecei por lhe chamar "um homem" para sublinhar, no caso, a importância dessa condição. Ser homem não é, evidentemente, condição suficiente para um homem punir a sua mulher com violência e morte, mas ser homem, aqui e hoje, tem alguma influência para que se chegue a essa situação bruta e indigna. O aqui não desculpa mas explica: afinal, no nosso país, ser igual para as mulheres é uma conquista recente e em construção. O hoje não tem explicações nem desculpa: é tão, tão anacrónico esse comportamento... Em Portugal, habitualmente e com incidência significativa, homens batem e matam as suas mulheres. Servi-me, de propósito, da definição científica de doença endémica porque é disso que se trata. Numa dada população (casais), e numa região (Portugal), há uma doença habitual que se propaga por contágio: um vírus com pilinha, por tradição familiar, conversa de bar e de trabalho, afirmações de poderosos irresponsáveis, enfim, ignorância antiga, contamina e mata. E regularmente. Para isto ganhar estatuto de estudo científico - e concluirmos de vez que a violência doméstica nos é endémica - faltava conhecer a quantidade das ocorrências e se a sua incidência é habitual e significativa. Eis o que ficou provado nesta semana. Nesta semana, um juiz foi julgado e condenado levemente - e quando coisas destas acontecem, o "levemente" esquece-se, o que importa é a novidade de um juiz ter sido "advertido". No ano passado, ele inoculara de forma virulenta entre a população portuguesa o tal germe patogénico da pilinha. Infetou produzindo numa sentença, isto: "O adultério da mulher é um gravíssimo atentado à honra e dignidade do homem." E: "Sociedades existem em que a mulher adúltera é alvo de lapidação até à morte." E: "Na Bíblia, podemos ler que a mulher adúltera deve ser punida com a morte." Doses fortes, pois. Na minha infância, havia uma banda desenhada americana que tinha um herói chamado Brucutu. Era um simpático troglodita que andava sempre com a sua moca de pedra, arrastando da caverna a sua mulher, puxada pelos cabelos. Por falar nisso, o homem que tinha ido a tribunal, no julgamento que levou ao douto parecer do juiz agora julgado e advertido, agredira a mulher com uma moca de pregos, tentando arrastá-la para casa. Ao não dar o exemplo de Brucutu, talvez o juiz tenha livrado gente como eu a não ficar tentado pelo surto epidémico que por cá grassa. Mas o que dizer dos outros exemplos que o juiz deu? Que influência tiveram? Um dos elementos da definição de doença endémica, já vimos, é a recorrência com que ela aparece. Nesta semana em que o juiz foi julgado aconteceu mais um homem a matar (literalmente) a sogra e a filha e a matar (metaforicamente) a mulher. Ora, por cá, as semanas que leva o ano são o número de mulheres já mortas pelos homens. O que juntou no mesmo espaço de tempo as palavras impensadas do juiz e o ato bruto do coiso. Destino, acaso, mera coincidência? Nada disso, inevitabilidade matemática: qualquer coisa, rara como um juiz julgado ou habitual como um jogo de futebol, tem fortes chances de acontecer com morte de mulher por homem.

Ferreira Fernandes

O assessor parlamentar Mamadou Ba

Ao contrário da frase batida ("Ah, eu não recebo lições de ninguém!"), sobre racismo eu recebo lições de muita gente. Mas não, obviamente, de toda a gente. O carregador negro que trabalhava num camião e ouviu de mim, eu miúdo, a palavra "preto" deu-me a lição certa, daquelas boas de receber ainda antes de saber juntar as letras. Ele fez sangue num dedo e mostrou-mo: "Preto é carvão, branco é papel mas o sangue é igual, vês?" Tive a minha primeira lição sobre racismo. E, mais importante, aprendi.

Opinião

"Orrrderrr!", começou a campanha europeia

Através do YouTube, faz grande sucesso entre nós um florilégio de gritos de John Bercow - vocês sabem, o speaker do Parlamento britânico. O grito dele é só um, em crescendo, "order, orrderr, ORRRDERRR!", e essa palavra quer dizer o que parece. Aquele "ordem!" proclamada pelo presidente da Câmara dos Comuns demonstra a falta de autoridade de toda a gente vulgar que hoje se senta no Parlamento que iniciou a democracia na velha Europa. Ora, se o grito de Bercow diz muito mais do que parece, o nosso interesse por ele, através do YouTube, diz mais de nós do que de Bercow. E, acreditem, tudo isto tem que ver com a nossa vida, até com a vidinha, e com o mundo em que vivemos.

Ferreira Fernandes

E você com que idade gosta dos políticos?

Nesta semana, Tintin fez 90 anos. A série Os Sopranos, 20. Um escritor francês disse não apreciar mulheres de 50 anos, preferindo as de 25. Como o tempo passa... Ah, e antes que seja tarde, Luís Montenegro disse: "O estado do PSD é mau, preocupante e é irreversível." Por isso o jornalismo é fascinante e útil. Todos os assuntos aludidos merecem um bocejo por mil razões, e por outras tantas permitem uma boa conversa. É só saber escolher os ângulos.