Ferreira Fernandes

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Eu, a juíza do interrogatório e o Mendes das claques

Num final de campeonato, o FC Porto ia a Alvalade com a possibilidade de ser campeão. O autocarro do clube parou no estádio e uma chusma de claque sportinguista correu ao varandim para insultar os jogadores portistas. Lembro-me de um dos insultados ser o Rui Barros, um jovem gentil que eu conhecera em Turim quando ele jogava na Juventus. Entretanto, a manada atropelou-se no varandim e o que era provável acontecer aconteceu mesmo. O gradeamento cedeu, dois rapazes caíram e morreram. Aconteceu em 1995 e eu escrevi, aqui no DN, uma crónica sobre o essencial do assunto: estupidez das manadas.

Opinião

O que digo aos brasileiros de cá

Tenho um livrinho que se chama "Lembro-me que...", sobre os dias de 1974 que precederam o 25 de Abril. Escrevi-os em flashes, numerados, cada um começado sempre pela mesma ladainha ("Lembro-me que..."), contando em breves linhas uma memória pessoal ou compulsado em jornais da época. Diz o flash 273: "Lembro-me que, no último dia de março, domingo, o estádio José Alvalade encheu-se para jogo contra o grade rival. Dez minutos antes de o árbitro apitar, a multidão virou-se para a tribuna de honra, onde um homem se destacou e abriu os braços: ovação. Marcelo Caetano sorriu. Não sabia que era a sua última apoteose."

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Cavaco sai muito bem do livro que escreveu sobre si

A partir de cinquentão, qualquer pessoa sabe que as memórias recentes são menos fiáveis do que as antigas. Como os computadores, apagamos mais depressa a memória RAM, a de agorinha, do que a memória ROM, de longa duração. Infelizmente, Cavaco Silva preferiu escrever sobre seus recentíssimos tempos de Presidente e não os de acionista privilegiado do BPN. No segundo tomo de Quinta-Feira e Outros Dias, de Cavaco Silva, livro apresentado esta quarta-feira ao público, alguns episódios só têm três anos.

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Que a pequena demissão não esconda as culpas em Tancos

O ministro Azeredo Lopes demitiu-se. Eis o que tem, em si, importância bem relativa: a demissão pode estar relacionada com aquela circunstância de um ministro, além de ser, ter de parecer. Admite-se que o ministro Azeredo Lopes parecia demais. 1) Parecia que o ministro não fora claro sobre a escuridão do roubo de Tancos, e era de esperar que um ministro não parecesse tão vago sobre assunto tão sério. 2) O ministro parecia ter podido saber de um memorando, onde gente sob a sua alçada confessava uma ação criminosa.

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Lição de um falso anúncio de morte

Um jornal, que não este, anunciou ontem a morte de José-Augusto França. Logo, outros jornais portugueses, incluindo este, publicaram a citada morte. Ora, José-Augusto França, de 95 anos, está vivo. O primeiro dos jornais a publicar-lhe a morte será talvez o único a ter uma razão plausível para o erro cometido - talvez um seu jornalista tenha recebido notícias que julgou fidedignas. Talvez tenha sido vítima de uma brincadeira de mau gosto. Talvez, não sei... Porém, todos os outros jornais, incluindo o DN, não têm desculpa nenhuma.

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O país onde as cidadãs empurram os senadores

Um dia, André Carrilho, que semanalmente expõe na mesma página desta crónica, desenhou uma cabeça, de bizarra cabeleira alourada, ocupada por um intestino grosso. Mas não é essa famigerada cabeça o único cometa maléfico a atravessar a América. Houve-os sempre; como também sempre gente para a redimir. Por cada senador McCarthy a tentar agrilhoar a opinião, houve um Dalton Trumbo, lançado para a lista negra e proibido de escrever mas sempre a inventar cenários para dar a volta ao liberticida. A vitória inevitável dos bons nunca nos tranquiliza, porque a América também já nos ensinou que outro mau cometa fatalmente iria, irá, surgir. Hoje, porém, não quero deter-me no que nos amesquinha - apesar de tanto nos ter surpreendido o ainda contínuo avistamento do cometa de cabeça com intestino por dentro e melena loura por fora. Quero falar da força que a América sempre encontra em si para se salvar. Resposta que é sempre dada por um homem, tipo comum ou grande líder. Dalton Trumbo, lembro, foi o cenarista de Spartacus, em 1960, e também de Fuga sem Rumo. Ambos interpretados por Kirk Douglas, o primeiro na pele de um líder histórico e mítico, o segundo de um pobre diabo que é preso para libertar o amigo, que fora preso ao ajudar imigrantes ilegais (este filme é de 1962, o que confirma que a América é a história em moto-contínuo, em perpétua repetição). Esta semana, na sexta, o senador republicano Jeff Flake entrou no elevador do Congresso, em Washington. Duas mulheres, vindas do corredor, pararam a porta do elevador e interpelaram o senador. Eleito pelo estado do Arizona, Flake tinha acabado de anunciar a sua intenção de apoiar a candidatura de Brett Kavanaugh, o juiz proposto por Donald Trump para uma vaga no Supremo Tribunal americano. Câmaras de televisão filmaram o assalto de palavras e convicções de que o senador Flake foi alvo. No dia anterior, quinta, a senhora Christine Ford tinha sido ouvida numa comissão do Congresso. Ela divulgara um ataque sexual do juiz Kavanaugh, há 36 anos. Então, ela tinha 15 anos e ele, 17. Quando se soube que ele poderia ocupar um lugar no Supremo Tribunal, cargo vitalício e fundamental para a vida social e política, Ford achou-se obrigada a falar publicamente do tão antigo assunto. O testemunho da pretensa agredida - ouvido em direto pelas televisões - foi comovente e forte. E insistiu na acusação: ele, sem margem para dúvidas, agrediu-a, tentou despi-la e apalpou-a - repetiu ela. Pouco depois, depôs o juiz, também com palavras sentidas. E Kavanaugh foi categórico: negou tudo. As palavras de ambos os depoimentos tiveram o mérito do falar americano. Lembro, o assunto daquelas audiências tinha como objetivo um cargo para alguém com o poder de mudar e manter leis na América. Só de pensar no linguajar constitucionalista em que cairia uma discussão destas em Portugal, pôs-me logo a desembarcar em Coimbra B, de toga e capelo. Porém, ouvi frases claras, sobre uma ação ou falta dela, sobre factos ou a negação deles. Percebi, como nunca entendo inteiramente um acórdão nacional sobre violações. E, tendo entendido, entendi que a senhora Ford tinha o direito de ser ouvida e o juiz Kavanaugh tinha o direito de ser ouvido. Ora, ouvindo-os, soube duas coisas. Primeiro, ao contrário do que eu inicialmente concluí quando soube da acusação sobre um facto ocorrido há 36 anos, entre adolescentes, pensei agora que era importante este confronto público. Sim, um cargo tão importante exige um escrutínio tão minucioso. E, segundo, entendi que este confronto, importante de ser sabido, levava à necessidade de ser investigado para além das palavras de um e de outro lado. Era isso que estavam a explicar, na sexta, as duas mulheres, obrigando o senador Jeff Flake a ouvi-las. A porta do elevador ficou aberta. "Não olhe à volta, olhe para mim!", dizia uma delas. E o republicano Jeff Flake, confrontado com olhos exigentes, saiu dali e foi exigir ao Senado que dê dez dias para que o FBI tente saber o que a América quer saber. Reparem como este assunto, tão fácil de ter caído na trica política - afinal sempre é um caso que divide a América em dois, caso polarizado -, se transformou em discussão de cidadãos. Os dois protagonistas falaram para se fazer entender, isto é, saudaram a democracia, minta ou diga a verdade cada um deles. Falaram claro porque querem ser ouvidos. E a democracia em andamento pôs um eleito e duas desconhecidas a interagir. Não sei o que vai dar isto. Christine Ford ou Brett Kavanaugh, um deles, a ser desmascarado? O juiz a safar-se e a chegar ao Supremo, não o merecendo? Ou a acusadora consegue afastá-lo injustamente do Supremo?... Não sei. Sei é que voltei a ver a América salvar-se. Ah, e nem sempre são exclusivamente homens a salvá-la.

Ferreira Fernandes

Hoje apetece-me fazer de ardina

Nos anos 1940, os ardinas apregoavam em certos dias, ao vender o jornal República: "Fala o Rocha! Hoje fala o Rocha!" Era a homenagem de garotos quase analfabetos, armados, e bem, em fazedores de manchete. O homenageado era Rocha Martins, jornalista de pena afiada e o gosto pela liberdade que levava-o, sendo monárquico, a escrever num jornal titulado República. Rocha Martins escrevia com o que se chama de estilo e pertence àqueles raros que têm voz única.

Ferreira Fernandes

Lena, a cidadã 

Morreu a Lena, a nossa Lena. Desculpem-me os leitores o tom pessoal desta crónica, mas ela não é tão pessoal assim. Somos a soma de muitos alguns. E entre esses alguns há o meu grupo - falo dos fronteiras perdidas, como o angolano Agualusa batizou. A Lena, que até é cabo-verdiana, é (deixem-me prolongar o tempo presente) a melhor das nossas representantes. Um dia, um dos partidos portugueses, o PSR, pai (a Lena diria mãe) do BE, apresentou-a na lista para eleições europeias, cabeça-de-lista. Uma cabeça de carapinha, tudo que ver com eleições para uma ideia moderna, a Europa. De outra vez, o presidente cabo-verdiano Jorge Carlos Fonseca, companheiro de clandestinidades, fez dela conselheira de Estado.

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Os porta-vozes sub-reptícios ficam gulosos 

O jornal satírico francês Le Canard Enchaîné tem uma célebre segunda página em que conta o que se diz nas reuniões semanais do governo. E publica entre aspas o que se diz. Por exemplo, o ministro das Finanças disse que "assim não dá", ao que o primeiro-ministro contrapôs "ai aguenta, aguenta" e o Presidente bateu com o punho na mesa e disse "é assim, ou vai ou racha!"... O exemplo que dou é inventado, mas ilustra bem uma típica notícia do Canard. Geralmente meia dúzia de linhas, seguida de uma dezena de outras pequenas notícias similares, com citações aspeadas, isto é, atribuídas sem dúvida a alguém. Há décadas que o jornal faz isso, com raríssimos desmentidos.