Ferreira Fernandes

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Do que falamos quando nos estamos a indignar?

Nunca vi a Tânia Ribas de Oliveira a comentar a Chechénia, problema geopolítico bastante complicado sobre o qual, não me lembro mas é possível que sim, eu talvez já tenha dado uns bitaites. Talvez eu tenha mesmo escrito uma crónica inteira sobre a Chechénia. E provavelmente não disse nada. Que querem, não sou o Rubem Braga, cronista brasileiro sobre quem o poeta Manuel Bandeira, seu patrício, dizia: "O Rubem é sempre bom, e quando sem assunto, então, é ótimo."

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Ilse Losa, uma filha da cidade do Porto

Ilse Lieblich chegou à sua nova cidade em 1934, desembarcando na Alfândega do Porto, tão-só alfândega e porto, ainda não o soberbo centro de congressos na margem nortenha do Douro. O irmão Fritz foi buscá-la e é pena que nenhum cineasta tivesse levado máquina e tripé para o miradouro da serra do Pilar, na margem fronteira, e focasse a objetiva no casal de irmãos entrando pela Ribeira, Porto acima. É pena, porque do mesmo miradouro, cuidando que a objetiva se esquivasse dos raros prédios modernos, seria hoje possível manterem-se as mesmas imagens do casario de granito da Ribeira, da Sé de paredes brancas e janelas debruadas também a pedra, do espreitar da Torre dos Clérigos, da luz molhada do Porto... Tanto tempo passado e uma mesma cidade.

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Como aprender com o obituário de um ente querido

Conhecem-se as saudades dos velhos soldados que fizeram as guerras. Como se raramente saíssem delas conscientes e amargos sobre os homens. Ou, se calhar, eles só têm saudades de terem sido jovens... No avançar da idade, também vou ficando com esse sentimento de perda atual, quando comparo com a memória. Ah, as personalidades de antanho! E quando uma me ressurge, geralmente para mal dela, em anúncio de óbito, lá me reaparecem as saudades. Na política internacional, é fácil. Esta semana morreu Jacques Chirac e saiu engrandecido. Pudera, se acordo com tweets de Donald Trump, com a cara de quem não percebeu de Jair Bolsononaro e com a brutalidade de Boris Johnson, como não ter saudades de Jacques Chirac?!

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A falsa polémica sobre o Nosso Modo de Vida

A futura presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, propôs novos nomes aos diversos pelouros do seu governo. Acabou em polémica. Em geral costumo gostar da imaginação ao serviço dos nomes. Se os nomes dos condomínios de luxo são quase sempre pretensiosos (Varandas das Buganvílias...), já os das operações da PJ costumam ser bem esgalhados: chamar Cartas Fora do Baralho a um vulgar desvio de correspondência deram ao caso um não sei quê de poético. O angolano José Vieira Mateus da Graça, quando virou escritor, rebatizou-se Luandino Vieira, o que fez de uma sua condição fundamental, ser luandino (luandense), também sua identidade pública e reconhecida. Para muitos, o nome é acaso, mas outros exigem-lhe mais, um real significado.

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A medida de todas as coisas

Na crónica de sábado, no DN, cometi um erro comum de cronista, dar de barato que quem me lia sabia do que eu falava. As consequências são geralmente irritantes para leitor. E o autor, merecidamente, pode levar com carimbo de ridículo. Porém, um erro desses pode ser (é a minha desculpa) por o cronista andar fascinado com algo que o possuiu a ponto de pensar universal o seu encantamento. Acontece que eu lera mais uma entrevista do médico patologista Sobrinho Simões, no jornal i. Como sempre de aprender e chorar por mais.

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Ouçam Madonna (e não estou a falar do que canta)

Que lugar certo um mirador desolado e aberto ao mundo, interiores escuros e com graffiti, encandeado pela luz que jorra dos vidros partidos e panorâmicos, que lugar para um ídolo pop universal falar aos homens e mulheres, daqui e d'além-mar! Madonna subiu ao restaurante de Monsanto, abandonado vai para 20 anos, e falou-nos como se da capital do mundo. Dali, ela fez um fascinado, e sem vergonha, documentário sobre Lisboa, a propósito do seu novo álbum, Madame X.

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Jornal americano proíbe o manguito do Zé Povinho

Vamos pôr a coisa nestes termos: havia a ideia de que se delineava um esboço para perda de liberdades. Não só em Portugal, mas por todas essas sociedades democráticas que, apesar de tudo, são melhores do que as outras. Um esboço do fim do direito à presunção de inocência, não ainda nos tribunais mas na prática comum da insídia em muito sítio: se parece ser culpado, e der jeito a alguns, é-se culpado. Um esboço do fim da palavra de um cidadão valer o mesmo do que a palavra de outro: se, na convicção firme da opinião pública, uma das partes estiver ao arrepio de uma causa na moda, o que ela diz vale menos... Estávamos perigosamente assim, no esboço.

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A ERC é pilinhas

Há uns dias, a ERC mandou-me uma ordem. Ela é a Entidade Reguladora para Comunicação Social e regula os jornais. Na verdade, ordena e mal. Dizia o ofício da ERC que queria "a data de publicação e o número de página" dos artigos de opinião, e a data de publicação e o número de página das entrevistas dos candidatos, com a identificação dos respetivos partidos, durante a campanha "para o Parlamento Europeu no dia 26 de junho". E mais ordenava que os pedidos "deverão dar entrada na ERC num prazo máximo de dez dias".