Ferreira Fernandes

Legislativas 2019

António Costa de mãos desatadas

Em dia eleitoral, o noticiário sobre a abstenção é pouco relevante. O dia é para contar os que se apresentaram, não com os que se ausentaram (Marcelo avisou, e bem). É verdade que, sendo muita ou escassa, a abstenção tem justificadas razões para ser citada por sociólogos, politólogos e moralistas sociais em geral: a saúde de uma democracia mede-se também por ela. Mas os números da abstenção têm sempre muito eco ao longo de um dia eleitoral porque, entretanto, não há outros números. Logo que esses outros aparecem, esquece-se a abstenção. É um mau hábito falar-se tanto de abstenção em dia destes. Tal como é péssimo fazer-se tão pouco sobre o assunto ao longo dos outros dias.

Ferreira Fernandes

Sobre a falsidade do hemiciclo e do semiparlamentar

Governar de acordo com o povo governado - a tão famosa democracia - tem algumas especificidades que podem diferir de país para país. Nos Estados Unidos, por exemplo, quem governa é o presidente, e este até pode ter tido menos votos do que o outro candidato. Donald Trump foi eleito com menos votos do que a sua concorrente Hillary Clinton mas a América não passou os últimos quatro anos a negar-lhe a legitimidade que a legalidade eleitoral lhe trouxe. Outras legitimidades ele não tem, tão estúpido, má pessoa e ignorante é. Mas isso é outro assunto, que não o derivado da escolha do colégio eleitoral, representantes dos 50 estados americanos, que é quem elege o presidente, não os milhões que vão às urnas.

Ferreira Fernandes

Viva o Jorge Fonseca! Viva a nova Lisboa! Viva nós!

Ontem, em Tóquio, uma senhora de cabelos brancos ergueu-se, livrou-se de uma écharpe que lhe embaraçava as palmas e desatou a ovacionar um campeão do mundo. Havia algo de seu naquela vitória, a senhora Sashiko era filha de Kiyoshi Kobayashi, o mestre. Este fora ensinado para piloto kamikaze durante a II Guerra Mundial, mas a mais radical das formas de combater não estava no seu destino. A mais delicada das artes marciais, sim: conduzir, com técnicas delicadas, o adversário à perda. Que forma nobre de lutar! Kobayashi emigrou para Lisboa em 1958 e inventou o judo português.

Ferreira Fernandes

Atenção, este kit contra incêndios não é para ser usado perto do fogo!

Em 1929, há exatos 90 anos, o surrealista belga René Magritte pintou um cachimbo e acrescentou uma frase à imagem: "Ceci n'est pas une pipe" ("Isto não é um cachimbo"). O pintor era belga, e também surrealista, palavra que, diga-se o que se disser, significa ser mais do que realista. Um português é outra coisa. Temos muitas coisas melhores do que os belgas - basta comparar as amêijoas à Bulhão Pato com o mexilhão deles. Mas sobre o respeito à realidade (já para não falar da surrealidade) ficamos a perder. Temos horror aos factos, pelamo-nos pelas leves ideias e campanhas folclóricas.

Ferreira Fernandes

Racismo, Fátima Bonifácio e o 'Público'

Vai por aí grande polémica sobre um texto da historiadora Maria de Fátima Bonifácio publicado no jornal Público, no sábado. O texto começou por ser sobre quotas para minorias étnicas, mas o essencial dele é ser racista. Parte da discussão fez-se à volta das quotas ou sobre se um texto racista pode ser publicado no Público (hesito, como o diretor do jornal, Manuel Carvalho, quando deu resposta à polémica, no domingo, mas já lá vamos)... Antes de mais, quero precisar o que é substancial: e isso é o texto de Fátima Bonifácio. Ele é racista.

Ferreira Fernandes

A lição à Europa do voto português 

Vou inventar uma palavra. Cunhá-la. Registar a patente. A palavra: geringonça. Admito, roubei a ideia a outro. E, por outro, não me refiro a Vasco Pulido Valente, que terá falado de geringonça acerca de um qualquer tema, e não me refiro também a Paulo Portas, que sobre o governo que se fazia em 2015 lançou a palavra no Parlamento. Isso foram só conversetas, palheta. Refiro-me ao pai, não o putativo, mas o autor da coisa geringonça: António Costa.

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Ferreira Fernandes

O que se geringonça também se desgeringonça

Domingo passado, estavam os portugueses na modorra política do costume - e jogava-se em Elland Road. Num país, o nosso, com o horário nobre dedicado só ao futebol, em todos os canais, o leitor deveria saber que falo do campo do Leeds. E logo do Leeds, quem não o conhece?, um clube que já foi campeão inglês e europeu e hoje anda por divisão secundária, num daqueles dramas shakespearianos tão bons de contar e, sobretudo, de jogar.