Ferreira Fernandes

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O general inteligente derrotado pelo político venal

Há dez anos, o general iraniano Qassem Soleimani (1957-2020) discursou para os seus homens: "O campo de batalha é o paraíso perdido da humanidade." E, ciente do lirismo da frase, assim poeta continuou: "O paraíso onde a virtude e os atos dos homens estão no plano mais alto." No plano artístico, declamatório seja só este, as batalhas gostam de pairar alto: "Do alto destas pirâmides, quarenta séculos vos contemplam", já dissera outro general, Napoleão Bonaparte, em Gizé.

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Ode a uma obra-prima

No primeiro livro impresso da culinária portuguesa, em 1680, Arte de Cozinha, de Domingos Rodrigues, cozinheiro do príncipe regente D. Pedro II, não se escreve uma só linha sobre pastéis ou bolinhos de bacalhau. É natural, embora o bacalhau já cá aportasse antes dos Descobrimentos, a sua companheira batata só chegaria às mesas portuguesas quando D. Maria I incentivou o cultivo do tubérculo na ilha Terceira, Açores, mais de um século depois das receitas de Domingos Rodrigues.

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Ilse Losa, uma filha da cidade do Porto

Ilse Lieblich chegou à sua nova cidade em 1934, desembarcando na Alfândega do Porto, tão-só alfândega e porto, ainda não o soberbo centro de congressos na margem nortenha do Douro. O irmão Fritz foi buscá-la e é pena que nenhum cineasta tivesse levado máquina e tripé para o miradouro da serra do Pilar, na margem fronteira, e focasse a objetiva no casal de irmãos entrando pela Ribeira, Porto acima. É pena, porque do mesmo miradouro, cuidando que a objetiva se esquivasse dos raros prédios modernos, seria hoje possível manterem-se as mesmas imagens do casario de granito da Ribeira, da Sé de paredes brancas e janelas debruadas também a pedra, do espreitar da Torre dos Clérigos, da luz molhada do Porto... Tanto tempo passado e uma mesma cidade.

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Rogério Rodrigues. Jornalista

Escrevia bem - com aquela forma tersa do Afonso Praça. Talvez fosse necessário ter nascido transmontano e andado em seminário para aí chegar. Escrevia sobre bandidos desesperados ou sobre uma doida que dançava nua na cidade. Talvez porque a normalidade também cansa. Ou talvez porque a doida se fazia chamar Torga porque havia um poeta assim. Escrevia raramente sobre amigos. Talvez porque estes mereciam mais que se bebesse com eles e lhes dedicasse lealdade sempre e fidelidade nunca. Escrevia o que talvez não viesse a escrever quando falava com o José Cardoso Pires, o Fernando Assis Pacheco ou o Dinis Machado porque tinha amor, amor mesmo, pela escrita. Falava sempre com voz rugosa porque as letras, aprendeu-o no papel, são para arranhar. Foi o Rogério Rodrigues do Diário de Lisboa, o Rogério Rodrigues de O Jornal, o Rogério Rodrigues do Público, o Rogério Rodrigues sempre envolto numa coisa junta, porque o jornalismo é uma súmula, e nesta a parcela só conta se pensa no todo, aquela sinopse que a lê.

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A falsa polémica sobre o Nosso Modo de Vida

A futura presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, propôs novos nomes aos diversos pelouros do seu governo. Acabou em polémica. Em geral costumo gostar da imaginação ao serviço dos nomes. Se os nomes dos condomínios de luxo são quase sempre pretensiosos (Varandas das Buganvílias...), já os das operações da PJ costumam ser bem esgalhados: chamar Cartas Fora do Baralho a um vulgar desvio de correspondência deram ao caso um não sei quê de poético. O angolano José Vieira Mateus da Graça, quando virou escritor, rebatizou-se Luandino Vieira, o que fez de uma sua condição fundamental, ser luandino (luandense), também sua identidade pública e reconhecida. Para muitos, o nome é acaso, mas outros exigem-lhe mais, um real significado.

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Sobre a falsidade do hemiciclo e do semiparlamentar

Governar de acordo com o povo governado - a tão famosa democracia - tem algumas especificidades que podem diferir de país para país. Nos Estados Unidos, por exemplo, quem governa é o presidente, e este até pode ter tido menos votos do que o outro candidato. Donald Trump foi eleito com menos votos do que a sua concorrente Hillary Clinton mas a América não passou os últimos quatro anos a negar-lhe a legitimidade que a legalidade eleitoral lhe trouxe. Outras legitimidades ele não tem, tão estúpido, má pessoa e ignorante é. Mas isso é outro assunto, que não o derivado da escolha do colégio eleitoral, representantes dos 50 estados americanos, que é quem elege o presidente, não os milhões que vão às urnas.

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À espera (só de visita) de Jair Bolsonaro

O Bloco de Esquerda não quer a visita de Jair Bolsonaro a Portugal. Não percebo porquê. Ele não é nosso Presidente, nem primeiro-ministro, nem presidente de junta de freguesia - aqui não manda nada. Aqui, ele não pode incitar antigos volframistas nazis à desflorestação dos bosques transmontanos, nem promover a ida para o Panteão do torcionário pide Casimiro Monteiro. Então, não o deixar entrar seria desperdiçarmos a oportunidade de analisar um "ao ponto a que a gente chegou!", mas distante, sem o risco de lhe sofrer as consequências. Mais, tipos assim são bons de nos cruzarmos com eles quando, para nós, ainda estão na fase "ao ponto a que a gente pode vir a chegar!". Bolsonaro, se impotente connosco, pode ser um bom caso de estudo.