Fernando Medina

Daniel Deusdado

Inimputáveis: inflação, Pedrógão, aeroporto

1 É sinistro que, cinco anos depois de Pedrógão Grande, o Ministério Público queira condenar os operacionais dos incêndios em vez de ter em conta os milhares de quilómetros quadrados ocupados por espécies altamente combustíveis, fruto de uma ambição sem controlo das indústrias da madeira e do papel, que beneficiam dessa exploração económica exaustiva. Pior: os beneficiários deste negócio têm uma responsabilidade direta quanto ao desordenamento implícito de que beneficiam e continuam alheados dos custos de ataque ao fogo, fragilizando-o. Claro, há que acrescentar a responsabilidade, decreto a decreto, dos sucessivos governos que assobiaram para o lado, louvando o Valor Acrescentado Bruto destas indústrias, sem nunca fazerem a conta ao desequilíbrio territorial e à colossal diferença de forças entre o pequeno proprietário rural que ganha uns trocos versus os compradores finais da madeira (ardida ou não). São eles que enchem os cofres à custa de um frágil sistema social e ambiental. Follow the money costumava ser uma velha regra criminal.