Fernando Alves

Fernando Alves

Beija-flores no Instagram

Vadiando no minguado ecrã em que o mundo é plano mas cheio de abismos, encontrei o sorriso de Paulo Bonino, 93 anos, antigo vendedor de jacarandás e locutor de muitas rádios, fotógrafo do vasto Espírito Santo, por terra e ar. A história de meio século da cidade portuária de Vitória foi captada por ele, lá do alto. Poucos lhe pedem meças na tão invocada "visão de helicóptero", mesmo se a mulher o proibiu de voar em tal engenhoca. "Já num teco-teco", conta Bonino, "ela nunca reclamou". Mergulho o torpor peripatético a pique pelos abismos, arredondo-me no desmesurado mundo que o sorriso de Bonino abarca. O que me prende ao nome e ao sorriso, em incerta prosa de gazeta, é uma legenda: "Paulo Bonino, fotógrafo de beija-flores."

Fernando Alves

Saudade e zaragatoas

É uma mulher antiga. Queixa-se da manhã glacial em morno amarume, "Ai, senhor António, até sinto o frio a entrar nos ossos." Fosse António um operário a quem o fiscal de obras perguntasse "O que fazes, aqui?", não responderia "Estou a construir uma catedral". Diria, quem sabe, "Trabalho para ganhar o meu pão". A resignação diligente habilitou-o com razoável destreza a tirar um café quase perfeito e a discorrer sobre a forma ideal da chávena ou a desejável temperatura da máquina. Vai-se-lhe o olhar adiante do verbo, aconchegando a mulher que se despede em ângulo agudo, devido às cruzes, "O pior é a saudade dos abraços e das coisas boas que perdemos; se ao menos nos deixassem tirar o açaime...".