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Cinefilia em tom televisivo

O regresso da série Will & Grace (TVCine & Séries) ilustra um momento feliz de uma cultura genuinamente popular, alheia a lugares-comuns populistas. Recorde-se que Will (Eric McCormack) é um advogado de sucesso, homossexual, obcecado pela ascensão profissional, que partilha a sua existência com Grace (Debra Messing), uma decoradora de interiores que continua a procurar o homem ideal, mantendo com Will uma relação que quase parece conjugal...

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Cenários e palavras da Califórnia

Mais um prodígio televisivo vindo da HBO: chama-se Big Little Lies (está a passar no TV Séries) e adapta o romance homónimo de Liane Moriarty, publicado entre nós como Pequenas Grandes Mentiras (ed. Asa). Para além da excelência do elenco - liderado por Reese Witherspoon, Nicole Kidman e Shailene Woodley - e do requinte da realização de Jean-Marc Vallée (O Clube de Dallas, Livre), este é um projeto com as marcas do veterano argumentista e produtor David E. Kelley (L.A. Law, Ally McBeal, etc.).

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O calvário do professor Marcelo

No mundo das imagens televisivas, temos assistido a um curioso fenómeno, tecido de memórias precisas e insinuações difusas. Assim, alguns candidatos à Presidência da República têm apontado a posição "vantajosa" de que partiria Marcelo Rebelo de Sousa, decorrente da sua longa permanência nos ecrãs de televisão como comentador político.Não se trata, entenda-se, de voltar a analisar os mecanismos de tal atividade. Limito-me, por isso, a referir que não sou admirador do seu estilo (privilegiando a fulanização da política e a redução das grandes clivagens ideológicas a diferenças mais ou menos pitorescas, banalmente "psicológicas", entre pessoas), mesmo se não posso deixar de lhe reconhecer uma obsessiva coerência. O que gostaria de sublinhar é o facto de os candidatos, incluindo Marcelo, não se atreverem a exprimir o mais discreto ponto de vista sobre os fenómenos populistas da televisão em Portugal (tema social, por excelência, indissociável de qualquer perceção cultural do país). Ao mesmo tempo, face ao professor Marcelo, há quem esteja pronto a reconhecer que, afinal, os eventos televisivos não são politicamente indiferentes. Curioso, sem dúvida. Claro que a demissão intelectual dos candidatos face ao poder cultural da televisão é apenas uma variante da atitude corrente dos partidos políticos (as exceções individuais não alteram o pano de fundo): encara-se a televisão como mero "transmissor" das posições dos políticos, sendo sintomático que, ao longo dos anos, as grandes polémicas audiovisuais sejam, quase sempre, sobre grelhas de debates eleitorais e tempos de antena. Em boa verdade, em quatro décadas de democracia, os políticos (caucionados, é certo, por alguns modelos discursivos de jornalismo) conseguiram a proeza triste de excluir a reflexão sobre a televisão do espaço do pensamento cultural. O que tem devastadoras consequências práticas e simbólicas: a televisão pode ter contribuído para o triunfo de matrizes narrativas profundamente estereotipadas (novelas), pode mesmo celebrar a despudorada desumanização das relações humanas (reality TV); certo é que nada disso move ou comove quem se apresenta como detentor de uma visão abrangente da sociedade portuguesa. Entretanto, condena-se Marcelo Rebelo de Sousa ao calvário de quem é "culpado" de ter uma prolongada presença no pequeno ecrã...Há mais de duas décadas, num espantoso filme chamado Quiz Show (1994), Robert Redford partia de um caso verídico (envolvendo a manipulação de resultados num concurso televisivo dos anos 50) para dar a ver o modo como a televisão existe como um espaço de encenação, tão legítimo como qualquer outro, que importa questionar na sua ilusória transparência. É mais fácil demonizar a persona televisiva de Marcelo, repetindo os dispositivos de fulanização do próprio visado e evitando a certeza mais urgente: é preciso pensar a vida cultural portuguesa sem excluir a cultura televisiva dominante.